O município de Dourados tenta evitar o cenário de colapso na Saúde diante do surto de chikungunya que acompanha a cidade desde o início do mês e resulta em leitos hospitalares lotados. Como resposta, decretos de emergência e de calamidade pública foram emitidos pela prefeitura nos últimos dias após a definição de epidemia.
Na terça-feira, o prefeito Marçal Gonçalves Leite Filho (PSDB) decretou calamidade pública em Dourados em razão da severa epidemia de chikungunya, com colapso da rede assistencial, depois da taxa de positividade para a doença no município chegar próximo dos 65%, considerada muito alta pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Ao Correio do Estado, a prefeitura de Dourados afirmou que a principal finalidade do decreto é “fugir” das burocracias de licitações caso seja necessário realizar compras de urgência para o setor, como medicamentos, vacinas ou leitos da rede privada.
Vale destacar que o decreto de emergência já foi reconhecido pela União, enquanto o de calamidade pública foi aprovado por unanimidade pela Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (Alems) durante sessão na manhã de ontem. Portanto, deve entrar em vigor a partir de hoje.
O Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública (COE), criado pela prefeitura para coordenar o enfrentamento da epidemia de chikungunya na reserva indígena e no perímetro urbano do município, atualizou os dados da doença pela última vez na quarta-feira.
Até então, eram 6.411 notificações, com 2.204 casos confirmados, 4.959 prováveis, 1.462 descartados e 2.755 em investigação.
Considerando os doentes confirmados e que Dourados tem população aproximada de 264 mil habitantes, de acordo com o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma a cada 119 pessoas na cidade está infectada com chikungunya, o que leva a uma situação de caos nas Unidades de Saúde do município.
Durante o feriado prolongado de Tiradentes, que começou no dia 18 e terminou no dia 21, a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) atendeu 2.069 pacientes, sendo que 182 precisaram ser internados durante o mesmo período no Hospital da Vida, um dos principais complexos de saúde da cidade.
Mesmo assim, a assessoria da prefeitura afirmou que todas as pessoas que procuraram uma Unidade de Saúde foram atendidas. “Ainda temos leitos para internação no Hospital Regional, que é regulado pelo governo do Estado”, disse a assessoria.
Ainda de acordo com o Executivo municipal, 41 pacientes continuam internados em razão de complicações da doença, sendo dois no Hospital Indígena Porta da Esperança, dois no Hospital da Vida, três no Hospital Evangélico Mackenzie, cinco no Hospital Caixa de Assistência dos Servidores de Mato Grosso do Sul (Cassems), sete no Hospital Regional e 22 no Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados (HU-UFGD).
Para tentar desafogar a pressão sobre a UPA, a Secretaria Municipal de Saúde também manteve a Unidade Básica de Saúde (UBS) Seleta e a UBS Santo André atendendo em horário especial durante o feriadão, o que resultou em mais de 300 atendimentos durante as 72 horas de folga prolongada.
Além das ações diretas nas Unidades de Saúde, o município também realiza outros trabalhos para tentar combater o surto da doença o mais rápido possível, como a contratação de 50 agentes de endemias, reforço das equipes médicas, instalação de mil armadilhas com larvicidas para matar o mosquito (Aedes aegypti), mutirões de limpeza nos bairros e nas aldeias e borrifação com larvicidas.
Também são realizadas ações específicas em algumas regiões da cidade. Por exemplo, desde segunda-feira, 20 toneladas de resíduos já foram retiradas da reserva indígena, que abriga mais de 15 mil pessoas das etnias guarani-kaiowá, guarani-ñandeva e terena.
Mesmo diante deste cenário, a prefeitura afirma que não há colapso na cidade. “Existe situação de calamidade em virtude da soma de dois fatores: epidemia de chikungunya e aumento de casos de síndromes respiratórias agudas graves, o que é normal nesse período do ano, levando a procura acentuada pelos serviços de saúde”, analisa.
A lotação dos leitos, no entanto, ainda está concentrada em Dourados. Em Campo Grande, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) não descarta que a parceria entre as cidades aconteça em breve, mas garante que será um processo regulado e que deve priorizar os casos de alta complexidade, justamente para não impactar a organização assistencial campo-grandense.
“A Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) informa que realiza monitoramento contínuo da situação epidemiológica e reforça que a Rede Municipal de Saúde de Campo Grande segue organizada para atendimento da população residente que procura os serviços”, diz em nota.
VACINA
A prefeitura de Dourados confirmou que a campanha de vacinação contra chikungunya deve começar na segunda-feira, já que o primeiro caminhão com as doses do imunizante chegou na cidade no dia 17.
De acordo com as regras estabelecidas pelo Ministério da Saúde, a vacina da doença somente pode ser aplicada em pessoas com mais de 18 anos e menos de 60 anos. Diante disso, a meta do município é vacinar 27% da população-alvo, o que corresponde a aproximadamente 43 mil pessoas.
A vacina é desenvolvida pela empresa farmacêutica Valneva em parceria com o Instituto Butantan e foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em abril de 2025.
Em um primeiro momento, o imunizante será repassado às regiões que apresentam alto risco de transmissão da doença nos próximos anos, como é o caso de Dourados.
DIFERENÇAS
Mesmo que transmitidos pelo mesmo agente, o mosquito Aedes aegypti, a dengue e a chikungunya são doenças diferentes, mas que apresentam sintomas muito semelhantes e por isso são confundidas pela maioria da população.
Segundo o médico infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Júlio Croda, a chikungunya tende a apresentar sintomas mais graves do que a dengue, levando a uma taxa de hospitalização e óbito maior que a “concorrente”.
“Os sintomas iniciais são bem similares, é muito difícil fazer a diferenciação clínica pelos sintomas iniciais. Geralmente, a chikungunya é mais grave, está mais associada à hospitalização e a óbito do que a dengue. Também, a chikungunya pode levar a uma condição crônica de dores articulares. Então, do ponto de vista clínico, essas são as diferenças”, explica.
Especificamente sobre a situação de Dourados, Croda disse que a epidemia já apresenta queda quando comparado com a situação no início do mês, especialmente na reserva indígena.
Inclusive, o especialista destaca que o fator da doença infectar a pessoa somente uma vez durante a vida ajuda a transmissão a cair depois de algumas semanas.
Contudo, o infectologista afirma que a situação no perímetro urbano da cidade preocupa, visto que muitos bairros continuam apresentando aumento no número de casos.
Diante disso, Croda acredita que a tendência é que uma queda significativa na infecção seja observada a partir de maio ou junho.
“Muito provavelmente essa epidemia vai continuar no ano que vem, porque ainda terão muitas pessoas que nunca adquiriram a doença e o vírus já está circulando também”, afirma.


