Crescimento das feiras mostra como uma ideia simples levou consumo, cultura e lazer para mais perto das pessoas
Durante muito tempo, ir à feira em Campo Grande significou acordar cedo, escolher frutas, verduras e pastéis e voltar para casa com as sacolas cheias. Esse costume continua vivo e basta olhar para a tradicional feira da Avenida Mato Grosso, que se transformou na popular Feirona da Esplanada Ferroviária.
Mas, aos 127 anos, Campo Grande também descobriu uma nova forma de fazer feira. A fórmula parece simples: ocupar uma praça, reunir pequenos empreendedores, acrescentar comida, música, arte e convidar as pessoas a ficar. O resultado mudou a relação dos campo-grandenses com os espaços públicos e ajudou a criar hábitos de consumo e convivência.
Feiras como a tradicional Praça Bolívia, Ziriguidum, Feira do Panamá, Mixturô, Borogodó e Feira Bosque da Paz passaram a espalhar, em diferentes pontos da cidade, aquilo que antes parecia concentrado em poucos endereços: comércio, gastronomia, cultura e lazer. Em 2025, um debate na Câmara Municipal de Campo Grande apontou que mais de 30 feiras culturais e criativas haviam sido organizadas na Capital desde 2020.
Entre elas, a Feira Bosque da Paz se tornou um retrato desse movimento. Criada em 2022, hoje reúne 512 expositores, recebe cerca de 18 mil pessoas por edição e movimenta aproximadamente R$ 1 milhão a cada realização, números que ajudam a dimensionar como uma ideia simples ganhou força e se transformou em um grande ponto de encontro da cidade.
Para Carina Zamboni, uma das organizadoras, o crescimento vai além dos números. A feira, segundo ela, transformou a praça em um ponto de encontro. “A Feira Bosque da Paz deixou de ser apenas uma feira e se tornou um movimento. Ela conecta pequenos empreendedores, artesãos, gastronomia, cultura, famílias e a própria cidade. O mais bonito é levar tudo isso para perto das pessoas e fazer com que os espaços públicos deixem de ser apenas lugares de passagem e se tornem lugares de encontro”, afirma.
A CIDADE E A PRAÇA
A facilidade de encontrar, a poucos minutos de casa, produtos autorais, comida, música e lazer criou também uma porta de entrada para quem queria empreender. Para pequenos negócios, a barraca pode representar o primeiro ponto de venda, sem os custos de uma estrutura comercial permanente.
É assim que Fred, expositor da Fakie, Cafés & Coquetéis, enxerga o papel das feiras. “É uma solução que abre caminhos para os empreendedores. A diversidade permite que artesanato, gastronomia, agricultura familiar e outros trabalhos ganhem visibilidade. Para pequenos negócios, também é uma forma de começar com um investimento menor”, diz.
No caso da Fakie, Cafés & Coquetéis, a oportunidade virou também uma relação direta com o público. “Percebemos principalmente a fidelidade dos clientes. Muitos conhecem nosso trabalho na feira, voltam, indicam para amigos e isso nos permitiu investir, melhorar a produção e inovar”, relata.
Para quem está do outro lado da barraca, a mudança aparece na rotina. Mariana Leite, frequentadora assídua da Feira Bosque da Paz, acompanha esse movimento como quem viu a praça ganhar uma nova função.
“Quando comecei a frequentar a Feira do Bosque, ela era bem pequenininha, tinha dois ou três corredores no máximo. A cada vez que eu ia, via a feira crescer, tanto em espaço quanto em comerciantes e opções”, conta.
Fã do comércio local, Mariana diz que a feira também mudou sua forma de consumir. “Comecei a descobrir que Campo Grande tinha produtos e artesãos que eu achava que só encontraria fora daqui. Eu sou apaixonada por cerâmica e antes comprava pela internet porque não conhecia ninguém da cidade que produzisse. Foi frequentando a feira que comecei a encontrar vários artesãos daqui. Hoje, penso em priorizar cada vez mais os produtores locais”, afirma.
É justamente nesse encontro entre quem produz e quem consome que uma ideia aparentemente simples ganhou dimensão maior. Ao levar o comércio para onde as pessoas já vivem, as feiras ajudaram a aproximar o campo-grandense de sua cidade.
Em uma Capital acostumada a grandes distâncias, encontrar cultura, lazer e empreendedorismo a poucos passos de casa pode parecer apenas um programa de domingo. Mas, para uma cidade que continua reinventando seus hábitos aos 127 anos, foi também uma pequena ideia capaz de mudar o cenário: uma praça, uma barraca e muitas histórias debaixo da mesma sombra.