A Santa Casa de Campo Grande gastou R$ 23,6 milhões do Sistema Único de Saúde (SUS) em 2025 somente com as cirurgias em decorrência de acidentes no trânsito, além de um gasto por paciente na casa dos R$ 15 mil, com tempo médio de internação podendo chegar a dois meses, a depender da gravidade da lesão.
A cirurgia do trauma é uma subespecialidade da cirurgia geral focada no atendimento imediato e cirúrgico de pacientes com lesões graves decorrentes de acidentes, quedas ou violência. Em Campo Grande, apenas um hospital realiza esse tipo de cirurgia de forma especializada, a Santa Casa.
De acordo com dados enviados à reportagem, somente no ano passado a instituição hospitalar gastou R$ 23.686.120,11 do repassado pelo SUS com cirurgias de trauma em decorrência de acidentes no trânsito, uma média de R$ 15.291,23 por paciente.
Com base nesses números, analisa-se que foram cerca de 1,5 mil pacientes atendidos em 2025, média de quatro a cada 24 horas.
O médico emergencista Rodrigo Quadros, que também é coordenador da residência em Medicina de Emergência da Santa Casa, explicou que há um longo processo feito internamente até o paciente chegar à sala de cirurgia.
“O paciente recebe o primeiro atendimento na sala de emergência, na sala de estabilização. Existem protocolos internacionais que a equipe de saúde segue no primeiro atendimento inicial, identificando situações em que pode colocar em risco a vida do paciente de forma imediata, como, por exemplo, fazer o controle de sangramento, suporte com ventilador, intubação, procedimentos cirúrgicos invasivos que conseguem ser feitos aqui na sala de emergência”, explica.
“Assim que estabilizado e identificada a necessidade de subir para o centro cirúrgico, a gente aciona a equipe de cirurgia geral, de sobreaviso e presencial, que avalia e sobe o paciente para fazer a abordagem. Nesse meio tempo, às vezes, a gente precisa, por exemplo, passar sangue, que a gente aciona materiais e outras situações para estabilizar o paciente imediatamente”, completa o médico.
Ainda de acordo com o emergencista, as lesões mais frequentes que chegam às mãos dos médicos são fraturas de ossos longos, como braço e fêmur.
Há também a ocorrência de lesões mais graves, como trauma torácico, que pode causar ferimentos no pulmão e dificuldade na respiração, necessitando de atendimento de emergência.
O tipo de lesão também impacta diretamente no tempo que o paciente vai ficar internado até receber alta.
Santa Casa de Campo Grande é o hospital referência para traumas, o que se reflete em sua lotação - Foto: Marcelo Victor/Correio do EstadoConforme Rodrigo Quadros, uma pessoa com lesões mais sérias pode ficar até dois meses no complexo hospitalar, enquanto em casos mais simples é geralmente liberada após alguns dias.
“Como a gente atende pacientes de baixa e alta complexidade e pacientes de alta complexidade, vai depender. Casos de menor gravidade geralmente ficam aqui até três dias, faz uma imobilização e, se não precisar de cirurgia, ele tem alta. Já outros pacientes com lesões mais graves, por exemplo, lesão do sistema nervoso central, traumatismo cranioencefálico, podem ficar internados até dois meses ou até mais que isso dependendo do tipo de lesão”, afirma.
Infelizmente, há a estatística de pessoas envolvidas em acidentes que acabam não sobrevivendo após serem socorridas ou até mesmo durante a internação.
Segundo dados divulgados pela Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran), 9 das 23 mortes registradas por sinistros nas vias campo-grandenses este ano foram na Santa Casa ou enquanto estavam recebendo atendimento médico. No ano passado, a proporção foi quase a mesma, com 24 das 58 mortes.
Vale ressaltar que são considerados óbitos aqueles que morreram até 30 dias depois do acidente.
PERIGO
Nesta semana, o Correio do Estado reportou que as Avenidas Afonso Pena e Mato Grosso são as mais perigosas de Campo Grande e acumularam o maior número de acidentes, pelo menos, nos últimos dois anos.
De acordo com dados enviados pelo Batalhão de Polícia Militar de Trânsito (BPMTran), há cinco vias que se destacam em Campo Grande quando o assunto é acidente: as Avenidas Presidente Ernesto Geisel, Guaicurus, Duque de Caxias e, especialmente, Mato Grosso e Afonso Pena.
Somente neste ano (até ontem), as Avenidas Afonso Pena e Mato Grosso registraram, juntas, 247 acidentes, enquanto as outras três avenidas citadas, somadas, acumularam 238 sinistros.
Também segundo dados enviados pelo BPMTran, veiculados pelo Correio do Estado, a Capital contabilizou 4.976 acidentes neste ano (até o dia 20). Desses, 1.652 tiveram feridos e 25 foram fatais.
Comparando com dados de período semelhante do ano passado (de 1º de janeiro a 30 de abril), os mesmos trechos ocupavam as cinco primeiras colocações em número de acidentes, com a Avenida Afonso Pena na liderança, com 170 sinistros, seguida pela Avenida Mato Grosso, com 109.

