Por décadas, a Rua 14 de Julho foi sinônimo de comércio, vitrines e movimento durante o dia. Aos 127 anos de Campo Grande, uma mudança aparentemente simples, ao ocupar casas e espaços já existentes com bares, música e gastronomia, ajudou a estender a vida da principal via comercial da cidade para além do horário das 8h às 18h.
O resultado foi uma nova dinâmica no Centro, que transformou a rua em ponto de encontro e criou oportunidades para empreendedores, trabalhadores e para quem passou a encontrar ali mais uma opção de lazer.
Vieram os bares, a gastronomia, a música e os encontros e depois, o público. Aos poucos, a principal rua comercial de Campo Grande passou a ganhar uma segunda jornada.
A Rua 14 de Julho, que ajudou a construir a identidade comercial da Capital, agora experimenta uma ideia simples: usar o que a cidade já tinha para criar algo.
Em 2024, essa movimentação ganhou reconhecimento oficial com a criação do Corredor Gastronômico, Turístico e Cultural da Rua 14 de Julho, no trecho entre a Rua Marechal Rondon e a Avenida Mato Grosso. A legislação prevê incentivo ao ordenamento do espaço, segurança e realização de apresentações e encontros culturais.
Antes disso, porém, os bares já começavam a mudar o cenário. O empresário Jean Paulo Vernochi Costa, sócio-proprietário do Pizza Pub, acompanhou a transformação de perto.
O estabelecimento nasceu em 2022, na Rua Barão do Rio Branco, e chegou à 14 de Julho no Carnaval de 2024, quando a rua ainda estava em processo de descoberta de sua vocação noturna.
O Copo Bar, lembra Jean, foi um dos primeiros estabelecimentos a apostar na região. A proximidade e a conversa entre empreendedores ajudaram a formar uma rede que atraiu outros negócios.
“A gente viu que o movimento aumentou, triplicou. Nosso público, que já era fiel, foi com a gente, mas a [Rua]14 [de Julho] também trouxe uma visibilidade muito maior”, afirma.
Com o aumento da circulação, a rua passou a reunir opções para diferentes públicos e transformou as calçadas em extensão dos estabelecimentos. No Pizza Pub, rodas de samba, karaokê, bandas e outras atividades passaram a dividir espaço com a gastronomia.
“Ficamos muito felizes de ter contribuído com essa mudança. Uma das perspectivas era de justamente mudar a vida noturna, e acho que conseguimos ajudar a transformar esse cenário”, diz Jean.
A dimensão econômica dessa movimentação acompanha um ambiente empreendedor mais amplo. No ano da criação do movimento noturno, Campo Grande concentrou 5.884 empresas das 11.164 novas empresas abertas em Mato Grosso do Sul, segundo dados da Junta Comercial do Estado de Mato Grosso do Sul (Jucems) divulgados pela Semadesc.
No Estado, os serviços responderam por 71,3% das aberturas no período, enquanto o comércio representou 24,9%.
Os dados oficiais disponíveis, porém, não permitem separar quantas dessas empresas foram abertas especificamente no trecho da Rua 14 de Julho ou quantas estão diretamente ligadas à vida noturna.
Ainda assim, ajudam a dimensionar o ambiente de negócios em uma cidade que concentra boa parte do empreendedorismo de MS.
PONTO
Para o empresário Hipólito Lima, a transformação ainda enfrenta desafios, especialmente relacionados à segurança, mas revelou um potencial que estava diante da cidade.
“Campo Grande é carente de espaços públicos inclusivos, de fácil acesso e culturais. A [Rua] 14 [de Julho] passou a ser uma boa opção de lazer e é frequentada por pessoas da cidade, do interior e até de outros estados e países, que valorizam a rua e uma cidade viva”, avalia.
A expectativa, segundo ele, é de que a ocupação avance para consolidar a região como corredor gastronômico, com apoio institucional, segurança e condições para novos investimentos.
Renatta Vasconcellos, de 27 anos, estudante, resume a mudança a partir de quem procura um lugar para sair. Para ela, a Rua 14 de Julho deu à noite campo-grandense uma alternativa que beneficia diferentes lados.
“Deu vida à noite de Campo Grande. É uma relação de ganha-ganha: a população ganhou mais uma opção para se divertir no Centro e os comerciantes ganharam oportunidade para trabalhar”.
A empresária Sabrina Honorio dos Santos, de 28 anos, acompanhou a transformação da região como frequentadora e hoje também atua como empresária. Para ela, o potencial da Rua 14 de Julho sempre esteve nas possibilidades de ocupar de outra forma os espaços já existentes no Centro.
“A gente via aquelas salas comerciais vazias e sabia do potencial que o Centro tinha. Campo Grande precisava de uma identidade própria de rua, de um lugar onde as pessoas pudessem se encontrar, apreciar a cultura e aproveitar a cidade. Acredito que, com incentivo, segurança e estrutura, a rua tem tudo para crescer ainda mais e se consolidar como uma referência para a vida noturna da Capital”.
Foto: Evento começou com chuva, na Praça do Rádio Clube


