O temor provocado pela suspeita de contaminação por metanol em bebidas destiladas tem mudado os hábitos de parte dos consumidores na noite campo-grandense, que, por ora, migraram do destilado para a cerveja e o chope.
Após a morte de um jovem de 21 anos, investigada como possível intoxicação pela substância tóxica, bares e restaurantes intensificaram a vigilância sobre fornecedores, mas confiam que a crise não vai afastar o público.
Na avaliação dos estabelecimentos, a preocupação existe, mas não chegou a virar pânico.
“Graças a Deus ninguém questionou a veracidade e a procedência dos nossos produtos, ninguém tem entrado no assunto do metanol”, afirma Ana Jéssica Marioti, 31 anos, gerente do Boteco Juanita, localizado na Rua Sete de Setembro, região central.
Ana Jésica Marioti / Foto: Paulo Ribas
Ela explica que o bar faz pedidos diretamente com distribuidoras e orientou funcionários a checar lacres e selos de certificação. “A gente trabalha bastante com cerveja e chope, mas recebemos também whisky e tequila. Tudo com selo certinho”, complementou.
Jenifer Tabosa, gerente do Maracutaia Bar / Foto: Paulo Ribas O mesmo tom aparece no Maracutaia Bar, onde a gerente Jenifer Tabosa, 35 anos, admite o impacto da notícia, mas minimiza riscos para a casa com capacidade para 300 pessoas. “No momento, acreditamos que a suspeita de uso do metanol até atinja o movimento, mas o nosso forte é o chope. Além disso, trabalhamos com fornecedores certificados, então estamos tranquilos”, diz .
Ela reforça que os colaboradores foram orientados sobre cuidados, embora reconheça que parte do público jovem gosta de misturar vodca com refrigerante. “A galera sai daqui e vai tomar outra, mas pelo menos aqui a gente garante a procedência”, complementou.
Com 13 anos de casa, Ivan Rodrigues Pedreira, gerente do Bar Mercearia, na Rua 15 de Novembro, diz que as piadas dos clientes mostram que o assunto já circula na mesa de boteco. “O pessoal às vezes brinca: ‘olha, essa não está batizada com metanol, né?’. A gente sorri, mas sabe que o pessoal acompanha o noticiário também.” Segundo ele, o espaço está de portas abertas para atender 200 clientes simultâneos, já que o espaço confia nos mesmos fornecedores há duas décadas, principal blindagem contra riscos, afirma.
Ivan Rodrigues, gerente do Bar Mercearia / Foto: Paulo Ribas Entre os clientes, o receio é claro. Christian Lopes, técnico em administração de 25 anos, garante que, pelo menos por enquanto, não arrisca nos destilados. “Com essa informação de suspeita de metanol nas bebidas, nem pensar que eu vou arriscar. Fica perigoso, e a gente fica em dúvida sobre consumir destilado”, afirmou junto de três amigas, uma delas, optou por drink sem álcool, enquanto as demais tomavam cerveja.
Foto: Paulo RibasA preocupação ganhou força depois que o Ministério Público instaurou procedimento administrativo para investigar adulterações em Mato Grosso do Sul. A Abrasel-MS também iniciou articulações com a polícia para orientar bares e restaurantes sobre a compra legal de bebidas.
Em São Paulo, epicentro da crise, casos de intoxicação já foram confirmados, com mortes atribuídas à ingestão de bebidas adulteradas. Em Campo Grande, o jovem que morreu relatou ter consumido whisky, cachaça e pinga comprada em comércio local. Ele deu entrada na UPA Universitário com náusea, vômitos escuros e mal-estar gástrico, mas não resistiu após sofrer parada cardiorrespiratória.
O episódio acendeu alerta sanitário em Mato Grosso do Sul, mas, por ora, a boemia da capital parece se ajustar. Com desconfiança sobre os destilados, o caminho mais seguro para muitos consumidores tem sido recorrer ao copo de chope ou à cerveja gelada — rituais que, no fim das contas, continuam preservando o encontro no bar.


