O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) requisitou, nesta quinta-feira (29), a abertura de um inquérito policial para apurar possíveis crimes relacionados à perseguição política, ameaças de demissão e divulgação de listas de boicote a estabelecimentos comerciais em Dourados.
Entre as pessoas que deverão ser ouvidas, conforme a solicitação, está a ex-deputada estadual e ex-vereadora Bela Barros (PDT), que ganhou repercussão após afirmar nas redes sociais que havia demitido um funcionário e pretendia dispensar outros oito em meio às discussões sobre o resultado das eleições presidenciais.
A medida foi determinada por meio de requisição assinada pelo promotor de Justiça João Linhares, supervisor das Promotorias de Justiça Criminais de Dourados, e encaminhada ao delegado regional da Polícia Civil, Adilson Stiguivitis Lima.
O documento, identificado como Ofício nº 9/2026, solicita a apuração de possíveis crimes de perseguição (stalking), incitação ao crime e associação criminosa, além de outras infrações que possam ser identificadas durante as investigações.
O pedido ocorre dois dias depois de o Correio do Estado revelar as declarações de Bela Barros e um dia após a publicação de sua retratação pública. Na ocasião, a ex-parlamentar pediu desculpas e negou que trabalhadores tivessem sido demitidos por motivação política.
Segundo o Ministério Público, chegaram ao conhecimento da instituição informações de que pessoas estariam elaborando e compartilhando listas de empresas situadas em Dourados para incentivar represálias econômicas contra estabelecimentos cujos proprietários teriam determinadas preferências político-eleitorais.
O órgão também recebeu relatos de manifestações que incentivavam a demissão de trabalhadores em razão de suas convicções políticas ou do exercício do direito de voto.
Para a Promotoria, as situações exigem investigação para esclarecer os fatos, identificar os envolvidos e verificar a possível ocorrência de infrações penais.
Ex-deputada e funcionários deverão ser ouvidos
Um dos principais pontos da requisição é a determinação para que a Polícia Civil identifique e ouça Bela Barros, a respeito das declarações feitas em uma publicação do Instagram.
Na terça-feira (27), o Correio do Estado mostrou que a ex-parlamentar havia comentado um vídeo do pastor Leandro Reis, da Igreja Deus Tem Mais, localizada no Rio de Janeiro (RJ), no qual eram discutidas supostas demissões de trabalhadores que votaram no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Na ocasião, Bela afirmou:
"Hoje nós tbem demitimos 1, mas vamos demitir uns oito em nome de Jesus."
Em outras manifestações na mesma publicação, ela afirmou que a família possuía sete restaurantes e defendeu a compra de produtos de empresários que não fossem ligados ao Partido dos Trabalhadores.
Diante da repercussão, o Ministério Público quer esclarecer se houve alguma demissão relacionada à escolha política de funcionários e se trabalhadores foram submetidos a ameaças, intimidações ou exigências de apoio a determinado candidato.
O ofício solicita expressamente a identificação e o depoimento de uma funcionária supostamente demitida pela ex-deputada, além de outros empregados e ex-empregados dos estabelecimentos comerciais ligados à família.
A investigação deverá verificar se houve desligamento por preferência político-eleitoral, recusa de apoio a candidato ou manifestação de opinião política.
Bela Barros se retratou e negou demissões
Após a repercussão das declarações, Bela Barros publicou um vídeo nas redes sociais pedindo desculpas pelas manifestações. A retratação ocorreu na terça-feira (27) e foi noticiada pelo Correio do Estado no dia seguinte.
Na gravação, a ex-deputada afirmou que estava envergonhada, reconheceu que suas palavras foram inadequadas e garantiu que ninguém havia sido dispensado por motivos políticos.
"Ninguém foi demitido e ninguém vai ser demitido."
Bela também afirmou que os restaurantes pertencem aos filhos e que não possui poder de contratação ou demissão nos estabelecimentos. Segundo ela, a declaração foi feita de maneira impensada, sem conhecimento dos familiares.
Apesar da retratação, o Ministério Público incluiu o vídeo entre os documentos que deverão instruir a investigação, juntamente com a captura de tela do comentário original.
A Promotoria pretende confrontar as declarações públicas com os depoimentos dos trabalhadores e demais elementos que vierem a ser reunidos, para esclarecer se houve alguma prática irregular.
Bella Parmegiana nega ligação com ex-deputada
A repercussão das declarações da ex-deputada Bela Barros também provocou confusão nas redes sociais, levando o restaurante Bella Parmegiana, de Campo Grande, a divulgar uma nota pública para esclarecer que não possui qualquer ligação com a ex-parlamentar ou com os estabelecimentos comerciais envolvidos na polêmica.
Em comunicado, a empresa destacou que suas únicas unidades estão localizadas no Shopping Campo Grande e no Shopping Norte Sul Plaza, ambos na Capital, e que não mantém estabelecimentos em Dourados, município onde ocorreu o episódio envolvendo a ex-deputada.
"Em quase 30 anos de história, sempre fizemos questão de tratar bem quem trabalha com a gente e quem vem comer com a gente, isso não muda, e aqui todo mundo é bem-vindo, independente de opinião ou posição política", afirmou o restaurante.
Polícia deverá identificar responsáveis pelas listas de boicote
Além das declarações da ex-deputada, a requisição do Ministério Público concentra esforços na identificação de pessoas que teriam organizado, produzido e divulgado listas de estabelecimentos comerciais para incentivar boicotes motivados por divergências políticas.
Entre as diligências solicitadas está o depoimento do vereador Franklin Schmalz (PT), de Dourados. O parlamentar deverá prestar esclarecimentos sobre a existência das listas, os possíveis responsáveis por sua circulação e eventuais represálias sofridas por empresários e trabalhadores.
O promotor também solicitou que Everaldo Leite Dias, diretor da Associação Comercial e Empresarial de Dourados (Aced), seja ouvido para informar se a entidade recebeu relatos sobre empresas incluídas nas relações de boicote e possíveis prejuízos econômicos.
A Polícia Civil deverá identificar os proprietários dos estabelecimentos mencionados nas listas e verificar se sofreram ameaças, constrangimentos, perseguições ou outras formas de retaliação.
O documento encaminhado à autoridade policial inclui, entre seus anexos, uma relação de empresas e profissionais liberais que seriam alvo de represálias, além de registros das manifestações nas redes sociais.
A Promotoria também pretende esclarecer se houve atuação coordenada entre os responsáveis pelas publicações e se existia algum vínculo permanente destinado à prática de crimes.
Declarações de empresária ligada ao Boticário também repercutiram
O episódio ocorre em meio a uma sequência de manifestações políticas envolvendo empresários de Mato Grosso do Sul após o segundo turno das eleições.
Conforme noticiado anteriormente pelo Correio do Estado, outra situação que ganhou repercussão envolveu Helenita Brum, integrante da diretoria executiva do Grupo Valebrum, responsável pela operação de franquias de O Boticário no Estado.
Em um vídeo divulgado nas redes sociais, a empresária fez críticas a eleitores de Lula e afirmou que gostaria de ver um apoiador do presidente lhe pedir dinheiro ou emprego.
Na gravação, declarou: "Quero que passe fome".
Após a repercussão, o Grupo Boticário repudiou manifestações contrárias ao respeito, à diversidade e à pluralidade, esclarecendo que as declarações eram pessoais e não representavam os valores da companhia.
O ofício do Ministério Público de Dourados, entretanto, não menciona Helenita Brum nem o Grupo Boticário entre os possíveis envolvidos ou pessoas cuja oitiva foi solicitada.
O episódio integra o contexto das manifestações políticas que repercutiram no Estado, mas não há indicação, nesse documento, de que a empresária seja alvo da investigação requisitada.
Três crimes poderão ser investigados
Na requisição, o promotor João Linhares aponta três possíveis crimes: perseguição (stalking), incitação ao crime e associação criminosa.
O primeiro envolve perseguição reiterada que ameace ou prejudique a liberdade da vítima. O segundo ocorre quando há incentivo público à prática de crimes, enquanto o terceiro exige a união estável de pelo menos três pessoas com a finalidade de cometer infrações penais.
O Ministério Público ressalta que a liberdade de expressão e as divergências políticas são protegidas pela Constituição, mas não autorizam ameaças, perseguições ou outras práticas criminosas.
A investigação busca esclarecer os fatos e identificar eventuais responsáveis. Até o momento, não há comprovação de que os crimes tenham ocorrido.
MS já soma 62 denúncias de assédio eleitoral
Mato Grosso do Sul já contabiliza 62 denúncias de assédio eleitoral em 2026, superando os 58 registros de 2022, conforme balanço divulgado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT-MS).
Desse total, 19 denúncias foram registradas nos três dias seguintes ao segundo turno. Campo Grande lidera com 32 ocorrências, seguida por Dourados, com 13.
O caso de Bela Barros também chegou ao MPT-MS, que notificou a ex-deputada para prestar esclarecimentos sobre possíveis demissões por motivação política.
Já o Ministério Público Estadual requisitou a abertura de inquérito criminal e solicitou resposta da Polícia Civil dentro do prazo legal. O documento não confirma se a investigação já foi instaurada.
O Correio do Estado mantém espaço aberto para manifestações dos envolvidos.


