Antes de se tornar um dos principais pontos de encontro da Capital, espaço abrigou os primeiros sepultamentos da cidade, ainda no século XIX.
Quem passa diariamente pela Praça Ary Coelho, no coração de Campo Grande, dificilmente imagina que o espaço, hoje marcado pela circulação de pedestres, encontros e atividades culturais, já foi um lugar destinado aos mortos.
Antes de se transformar em um dos pontos mais conhecidos da Capital, a área abrigou o primeiro cemitério do município, ainda no século XIX. Com o crescimento da cidade, os sepultamentos foram transferidos e os restos mortais removidos, dando início a uma transformação que mudaria definitivamente a paisagem do Centro.
A história, resgatada pela Prefeitura de Campo Grande nesta segunda-feira (2), Dia de Finados, revela como os cemitérios acompanharam o desenvolvimento urbano e preservam parte da memória das famílias que ajudaram a construir a Capital.
O primeiro campo-santo surgiu na década de 1870, quando Campo Grande ainda era conhecida como Arraial de Santo Antônio. Naquela época, a população era pequena e os sepultamentos ocorriam próximos às áreas habitadas e aos espaços religiosos.
A região, situada nas proximidades dos córregos Prosa e Segredo, concentrava parte da vida do povoado e também se tornou o lugar de descanso de seus primeiros moradores.
De cemitério a uma das praças mais conhecidas da Capital
À medida que Campo Grande crescia, manter um cemitério em plena área habitada passou a representar um problema para a organização urbana.
A proximidade das residências e as condições do terreno motivaram a transferência dos sepultamentos para uma região mais afastada, onde atualmente estão localizadas a Casa da Indústria e uma unidade do Serviço Social da Indústria (SESI), no bairro Amambaí.
Entretanto, o avanço da cidade exigiu outra mudança. Entre 1913 e 1914, a área destinada aos sepultamentos foi novamente transferida, desta vez para a antiga Fazenda Bandeira, onde atualmente funciona o Cemitério Santo Antônio, na Avenida da Consolação.
O terreno foi doado por Amando de Oliveira, personagem da história política local, que também foi sepultado no cemitério em 1914. Enquanto isso, o espaço do antigo cemitério central começava a ganhar uma nova função.
O planejamento urbano de 1909 abriu caminho para a criação de áreas públicas de convivência. Com a retirada dos restos mortais e a reorganização do terreno, o local deixou para trás sua função funerária e passou a integrar o cotidiano da população.
Ao longo das décadas, a praça recebeu diferentes denominações até ser oficialmente chamada de Praça Ary Coelho, em 1954, em homenagem ao ex-prefeito de Campo Grande.
Assim, o lugar que durante os primeiros anos do povoado foi destinado às despedidas acabou se tornando um dos principais espaços de encontros e convivência da Capital.
Crescimento da cidade exigiu novos cemitérios
Servidor realiza manutenção em cemitério público de Campo Grande, que preserva parte da história da Capital. Foto: Divulgação/Prefeitura de Campo Grande.A expansão populacional de Campo Grande também provocou mudanças na estrutura dos serviços funerários ao longo do século XX.
Com o aumento do número de moradores e a necessidade de ampliar os espaços destinados aos sepultamentos, a administração municipal passou a organizar novos cemitérios.
Em 1961, foi criado o Cemitério Santo Amaro, na região oeste da cidade, para atender à crescente demanda da população.
Na mesma fase de expansão surgiu o Cemitério São Sebastião, popularmente conhecido como Cruzeiro. A área esteve inicialmente relacionada a um projeto associado ao nome de São Francisco, mas a denominação Cruzeiro acabou se consolidando entre os moradores.
Atualmente, Santo Antônio, Santo Amaro e São Sebastião são os três cemitérios públicos administrados pela Prefeitura de Campo Grande.
Fundador de Campo Grande está sepultado no Santo Antônio
Entre os cemitérios municipais, o Santo Antônio possui uma ligação especial com a formação histórica da Capital. No local estão sepultadas personalidades que marcaram diferentes períodos da cidade, incluindo José Antônio Pereira, reconhecido como fundador de Campo Grande, e a atriz Glauce Rocha.
Além das sepulturas, o espaço reúne monumentos, fotografias, esculturas e inscrições que ajudam a contar a história de gerações de moradores.
A gerente de Cemitérios Públicos Municipais da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), Denisy Lima de Oliveira, destaca que o reconhecimento do Santo Antônio como patrimônio histórico, cultural e religioso pode contribuir para a preservação do local.
"O reconhecimento do Cemitério Santo Antônio como patrimônio histórico, cultural e religioso também é uma estratégia importante para a gestão pública, porque abre possibilidades de buscar recursos e parcerias para a preservação desse patrimônio, envolvendo não apenas a infraestrutura, mas também áreas como cultura e turismo", explicou.
A proposta reforça a importância de preservar não apenas os espaços físicos, mas também os registros históricos que permanecem nos cemitérios.
Memórias preservadas no Dia de Finados
Morador realiza cuidados em túmulo de cemitério público de Campo Grande. Foto: Divulgação/Prefeitura de Campo Grande.Nesta segunda-feira (2), Dia de Finados, os três cemitérios públicos de Campo Grande voltam a receber famílias que visitam os túmulos de parentes e amigos, levam flores, fazem orações e prestam homenagens.
A administração e a manutenção desses locais são de responsabilidade da Sisep, que realiza serviços de conservação, organização dos espaços e atendimento às famílias.
O trabalho também envolve cuidados com a infraestrutura e o cumprimento das exigências ambientais aplicáveis às áreas de sepultamento.
Mais de um século depois dos primeiros enterros realizados na região central, a trajetória dos cemitérios revela uma Campo Grande que cresceu, mudou de endereço seus espaços funerários e transformou parte de seu passado em áreas de convivência.
A Praça Ary Coelho é um dos exemplos mais marcantes dessa transformação: onde hoje moradores circulam e se encontram, gerações anteriores viveram momentos de despedida, em uma história que permanece ligada às origens da Capital.