O Pantanal passou a integrar uma iniciativa internacional criada para desenvolver e testar estratégias de prevenção aos grandes incêndios florestais na América do Sul. O projeto reúne cerca de 100 organizações e conta com compromissos financeiros que somam US$ 35 milhões, destinados ao enfrentamento do fogo e à busca de soluções capazes de reduzir os impactos dos extremos climáticos sobre diferentes biomas do continente.
O Instituto Homem Pantaneiro (IHP), com sede em Corumbá, anunciou nesta sexta-feira (25) sua participação no South America Fire Fund, iniciativa filantrópica que pretende fortalecer a prevenção de incêndios no Brasil, Bolívia e Peru.
No Pantanal, o instituto será uma das organizações responsáveis pela execução das estratégias do projeto.
Entre as ações previstas estão a manutenção de uma brigada ambiental permanente, o monitoramento de áreas por meio de sistemas digitais e inteligência artificial e a integração de instituições dos dois lados da fronteira entre Brasil e Bolívia.
A iniciativa ganha importância diante da dimensão alcançada pelo fogo nos últimos anos. Segundo dados apresentados pelo projeto, entre 28 milhões e 34 milhões de hectares foram atingidos por incêndios em 2024 na Amazônia, na Floresta Seca Chiquitana e no Pantanal.
Na estimativa apresentada pelos responsáveis pelo fundo, a extensão corresponde aproximadamente à área do estado norte-americano do Arizona e a pelo menos 39,2 milhões de campos de futebol.
O South America Fire Fund é ligado à Renaissance Philanthropy e liderado pela Conservation X Labs. O fundo tem compromisso inicial de US$ 30 milhões da Gordon and Betty Moore Foundation e outros US$ 5 milhões da The David and Lucile Packard Foundation.
A iniciativa foi estruturada em conjunto com aproximadamente 100 organizações que atuam nos três países e pretende, além de financiar ações, identificar quais estratégias apresentam melhores resultados para que possam ser reproduzidas em outras regiões vulneráveis ao fogo.
Inteligência artificial contra o fogo
Uma das principais frentes previstas para o Pantanal é o fortalecimento do monitoramento ambiental. O sistema utilizado pelo IHP funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, e emprega recursos digitais e inteligência artificial para identificar focos de incêndio e emitir alertas em poucos minutos.
A tecnologia busca diminuir o intervalo entre o surgimento de um foco e a chegada das equipes de combate, especialmente em áreas remotas do bioma, onde as distâncias e as dificuldades de acesso podem permitir que pequenos focos se transformem rapidamente em incêndios de grandes proporções.
O projeto também dará continuidade à atuação da brigada ambiental permanente mantida pelo instituto desde 2021.
Diferentemente de estruturas mobilizadas somente durante grandes ocorrências, a equipe trabalha durante todo o ano, inclusive em períodos sem incêndios, com ações preventivas e preparação para a temporada de fogo.
Brigada ambiental permanente do IHP atua durante todo o ano em ações de prevenção e resposta a incêndios no Pantanal. Foto: Divulgação/IHP.Outra frente será a articulação entre instituições brasileiras e bolivianas para ampliar a proteção de áreas consideradas prioritárias para conservação. Entre elas estão a Rede de Proteção e Conservação da Serra do Amolar (Rede Amolar) e a Área Natural de Manejo Integrado San Matías, na Bolívia.
A integração transfronteiriça é considerada estratégica porque os incêndios que atingem o Pantanal podem atravessar limites territoriais e administrativos, exigindo monitoramento e respostas coordenadas.
“O fogo que atinge o Pantanal não respeita fronteiras, e a resposta também não pode respeitar. Fazer parte de um esforço internacional como o South America Fire Fund permite somar a experiência acumulada pelo IHP em campo, com brigadistas, tecnologia de monitoramento e o conhecimento das comunidades pantaneiras, a uma rede capaz de mostrar, com evidências, quais soluções funcionam”, afirma Ângelo Rabelo, presidente do Instituto Homem Pantaneiro
Segundo Rabelo, a prevenção ganha ainda mais relevância diante da possibilidade de eventos climáticos extremos.
“Diante de um cenário de Super El Niño e de extremos climáticos cada vez mais frequentes, prevenir é o caminho mais eficaz para proteger o bioma”, completa.
Comunidades entram na estratégia
O projeto também prevê a participação de comunidades tradicionais e indígenas. A proposta é fortalecer práticas de uso racional e controlado do fogo, principalmente em regiões remotas, combinando conhecimentos locais com sistemas de monitoramento e estratégias de prevenção.
A gestão territorial voltada ao desenvolvimento sustentável completa o conjunto de ações previstas para o Pantanal.
A proteção contra incêndios tem impacto direto sobre a biodiversidade do bioma. Conforme estudos citados pelo IHP e atribuídos à Embrapa Pantanal, a região abriga uma das maiores concentrações de mamíferos do planeta.
A estratégia do fundo, porém, vai além do combate imediato às chamas. Durante os próximos três anos, as organizações participantes deverão reunir dados e avaliar as intervenções adotadas para identificar quais medidas funcionam, em quais condições e por quais motivos.
A intenção é transformar essas experiências em evidências que possam orientar políticas e projetos de prevenção em escala maior na América do Sul, sobretudo em áreas que enfrentam secas prolongadas, temperaturas elevadas e aumento do risco de grandes incêndios.
Fundado em 2002, em Corumbá, o Instituto Homem Pantaneiro é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos dedicada à conservação e restauração do Pantanal.
A entidade atua na gestão de áreas protegidas, apoio a pesquisas científicas e articulação com comunidades e instituições ligadas ao bioma.



