Uma alternativa que até pouco tempo parecia distante da rotina dos campo-grandenses já ocupa as ruas da Capital. Os patinetes elétricos compartilhados chegaram a Campo Grande como uma opção para pequenos deslocamentos e, em poucos meses, passaram de novidade a ferramenta para quem busca ganhar tempo no trajeto pela cidade.
A chegada do novo modal acompanha uma transformação maior, uma cidade que cresceu, ampliou seus deslocamentos e passou a incorporar soluções mais simples para problemas cotidianos de mobilidade.
Desde julho, 400 patinetes elétricos da JET circulam em uma área inicial que reúne o Centro, o Jardim dos Estados, a Vila do Polonês e trechos do Parque Ecológico do Sóter. O serviço começou em fase experimental, acompanhado pela Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran), justamente para que a cidade avalie como o novo modelo de transporte se encaixa na rotina dos moradores.
A proposta, simples, consiste em encontrar um patinete pelo aplicativo, liberar o equipamento e percorrer pequenos trajetos sem precisar tirar um carro da garagem ou recorrer a outro meio de transporte. O desbloqueio parte de R$ 0,99, com tarifa a partir de R$ 0,39 por minuto. Os equipamentos têm GPS, identificação e velocidade máxima de 20 km/h.
A novidade chegou a uma cidade que também aumentou de tamanho. Campo Grande tinha 898,1 mil habitantes, conforme o Censo 2022, e a estimativa mais recente do IBGE apontou 962,9 mil moradores em 2025. A Capital também ocupa uma área de mais de 8 mil quilômetros quadrados.
Mais gente, mais deslocamentos e uma rotina urbana que abre espaço para soluções pensadas para distâncias que não exigem necessariamente um carro. É nesse intervalo entre sair de um ponto e chegar a outro que a micromobilidade encontrou o seu espaço.
PASSEIO AO TRABALHO
Para João Vitor de Almeida, de 25 anos, militar, o primeiro contato com o patinete teve mais cara de curiosidade. Ele utilizou o equipamento para passear pela Avenida Afonso Pena, próximo ao Parque das Nações Indígenas. “Me senti na Avenida Paulista. Já tinha andado em modelo igual em São Paulo e tinha até comentado como seria funcional ter esse tipo de meio de transporte aqui em Campo Grande”, contou o jovem.
Já para Fernanda Maria de Souza Costa, de 30 anos, vendedora de uma loja de decoração, o patinete deixou de ser novidade e passou a fazer parte da rotina. Ela utiliza o veículo com frequência no trajeto entre o trabalho e a academia.
“Já tinha visto mas nunca tinha andado em um. Resolvi experimentar em um dia que estava atrasada e superfuncionou. Praticidade e preço acessível”, relatou Fernanda.
São experiências diferentes para o mesmo equipamento: para um, uma forma de conhecer a novidade, para outro, uma ferramenta para ganhar minutos no dia.
E talvez seja justamente aí que esteja a principal mudança provocada pela chamada micromobilidade, não necessariamente substituir carros, motos ou ônibus, mas criar mais uma opção para as pequenas distâncias.
FROTA NO BRASIL
Campo Grande é a 50ª cidade brasileira a receber a operação da JET, segundo informações divulgadas pela empresa. A companhia chegou à Capital com atuação em 15 estados, já tendo ultrapassou 50 cidades no País.
A expansão mostra que a ideia deixou de ser novidade restrita a grandes centros. A empresa opera também em cidades como São Paulo, Salvador, Fortaleza, Aracaju e Brasília, além de municípios turísticos como Guarujá, onde a operação alcançou 500 mil viagens em um ano.
No Brasil, a JET informa ter mais de 7 milhões de usuários cadastrados e mais de 25 milhões de viagens.
Em Campo Grande, porém, o desafio é adaptar a solução à realidade local. A operação ainda é experimental, e a Agetran acompanha demanda, circulação e uso para avaliar os próximos passos da regulamentação.
A prefeitura reconhece que a cidade precisa entender como o novo meio de transporte vai conviver com pedestres, ciclistas e demais veículos. A experiência também ocorre em uma Capital que tem 135 km de ciclovias, estrutura que faz parte do caminho para ampliar as alternativas de deslocamento.
CIDADE QUE MUDA
O patinete é pequeno. A transformação que ele representa, nem tanto. Campo Grande cresce e ganha novos bairros a cada dia. A população aumentou e a cidade passou a incorporar tecnologias que há alguns anos pareciam distantes da realidade local. Uma dessas mudanças é o patinete: uma solução simples para um problema complexo, a mobilidade urbana: chegar mais rápido gastando menos e sem precisar recorrer sempre aos mesmos meios de transporte.
O movimento também acontece em um estado onde as motocicletas ocupam espaço cada vez maior na mobilidade. Dados do Detran-MS mostram que Campo Grande já tinha mais de 370 mil motocicletas registradas em 2025, enquanto somente até julho daquele ano foram contabilizados 2.324 sinistros envolvendo esse tipo de veículo.
Nesse cenário, cada nova alternativa de deslocamento ajuda a ampliar a discussão sobre como a Capital quer circular nas próximas décadas.
Aos 127 anos, Campo Grande continua fazendo o que toda cidade viva faz: testa, adapta e incorpora pequenas soluções para resolver problemas do dia a dia. E, agora, algumas dessas soluções cabem em duas rodas e podem ser encontradas na calçada, pelo celular.
Patinetes chegaram recentemente, mas estão por todos os lados (Foto: Paulo Ribas)


