A Polícia Federal (PF) colocou Campo Grande na rota de operações envolvendo os investimentos feitos no Banco Master mais de dois anos depois de o Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande (IMPCG) ter aplicado R$ 1,2 milhão nas Letras Financeiras do banco privado, que foi liquidado pelo Banco Central (BC) em novembro do ano passado.
Ontem, agentes da PF cumpriram seis mandados de busca e apreensão na Capital, incluindo a sede do IMPCG e o gabinete da vice-prefeita, Camila Nascimento, na Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS). O Correio do Estado apurou que, além do gabinete, os policiais federais estiveram na residência de Camila e levaram seu celular e documentos.
Camila foi diretora-presidente do IMPCG de agosto de 2017 a março de 2024, quando saiu para integrar a chapa de Adriane Lopes (PP) nas eleições municipais.
Vale lembrar que, há três meses, a PF deflagrou as Operações Zehirut e Charitzut, que tiveram por alvo Fátima do Sul e Angélica por aplicações, somadas, da ordem de R$ 10 milhões nas Letras Financeiras do Banco Master. Agora, pelo mesmo motivo, Campo Grande também está no radar da corporação.
“O relatório apontou possíveis irregularidades no processo decisório que resultou no investimento de R$ 1,2 milhão pelo IMPCG em Letras Financeiras emitidas por banco privado. Há indícios de que servidores envolvidos no processo decisório, mediante ações ou omissões, teriam deixado de observar os procedimentos técnicos e administrativos aplicáveis, expondo o patrimônio do RPPS [Regime Próprio de Previdência Social] municipal a riscos”, disse a PF em nota.
Em comunicado, a prefeitura afirmou que foi uma das primeiras cidades do Brasil a garantir o ressarcimento de valores aplicados na instituição financeira investigada, o que teria evitado prejuízo aos cofres públicos.
A administração municipal declarou também que, na época da liquidação, o IMPCG ajuizou ação de compensação de créditos, com pedido de tutela provisória de urgência, na 3ª Vara de Fazenda Pública e de Registros Públicos, em que obteve decisão favorável, com determinação de depósito judicial do valor aplicado devidamente atualizado.
Na decisão, também teria sido determinado que a instituição financeira se abstivesse de realizar cobranças, promover negativações ou adotar quaisquer medidas constritivas relativas a contratos de empréstimo consignado.
Em conversa com a reportagem, Marcos Tabosa, atual diretor-presidente do IMPCG, disse que o instituto já conseguiu recuperar o dinheiro investido, via processo judicial, mas que ainda não foi depositado no caixa em razão de uma fila de credores que estão na mesma situação da previdência campo-grandense, o que ele acredita ser resolvido até o fim de 2027.
“A gente vai tentar mostrar para eles [empresa responsável pela liquidação do Master] que o nosso dinheiro já está resguardado, está em uma conta judicial, ou seja, não tem por que não autorizar o Judiciário a transferir o dinheiro para a conta do instituto. É esse trabalho de convencimento que nós vamos fazer”, afirmou.
Considerando os juros e a correção monetária, Tabosa prevê que o dinheiro que será depositado seja superior a R$ 1,5 milhão, portanto, 25% a mais do que o investido no título de renda fixa emitido pelo Banco Master há quase dois anos e meio.
Histórico
À frente do instituto, Camila chegou a anunciar a aplicação de R$ 3,7 milhões no Master, mas somente
R$ 1,2 milhão foi efetivamente aplicado. Na ocasião, sindicalistas foram contrários ao investimento da prefeitura, utilizando o argumento de que as aplicações financeiras eram arriscadas, uma vez que o Master era novo e não havia garantias de que a instituição seria capaz de devolver à prefeitura o valor investido.
Durante seu lançamento como vice de Adriane, Camila foi questionada pela equipe do Correio do Estado sobre o risco das aplicações, quando afirmou que todo seu trabalho em vida pública foi legal.
“Meu lema é legalidade, responsabilidade e transparência, e não será diferente nessa posição que me encontro agora. Quem falou isso desconhece todo processo que foi realizado ali dentro. Antes de falar, precisa conhecer. O IMPCG sempre esteve de portas abertas. As atas estão todas à disposição, a contabilidade está toda à disposição. Não tenho receio nenhum e estou à disposição para responder suas dúvidas”, declarou Camila na ocasião.
Após as aplicações, a Prefeitura de Campo Grande habilitou o banco de Daniel Vorcaro a conceder empréstimos consignados aos servidores por meio de cartão de crédito. A taxa mensal de juros era da ordem de 4,5%, enquanto em bancos tradicionais a taxa máxima dos consignados é de 1,7%.
Depois do investimento, servidores públicos do Município passaram a ser bombardeados com ofertas de empréstimos consignados e cartões de crédito do chamado Credcesta, oferecido pelo Master. Em outras palavras, o Banco Master, primeiro, teria feito caixa com o dinheiro dos servidores e, logo em seguida, ofertou o dinheiro.
A situação piorou em novembro do ano passado, quando o BC decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, após a descoberta de um rombo financeiro bilionário estimado em mais de R$ 50 bilhões, fraudes em balanços e emissão de títulos sem lastro. Daniel Vorcaro, dono do banco, está preso preventivamente desde março.
O colapso do Master provocou perdas aos fundos de pensão dos servidores municipais em pelo menos cinco prefeituras em Mato Grosso do Sul, incluindo Campo Grande, Fátima do Sul e Angélica. São Gabriel do Oeste e Jateí são outros dois municípios do Estado que também fizeram aplicações no Banco Master, somando R$ 5,5 milhões.
* Saiba
Ao todo, a Polícia Federal cumpriu seis mandados de busca e apreensão na manhã de ontem em Campo Grande.
A PF investiga a captação de recursos de fundos de previdência de todo o Brasil pelo Banco Master. A Capital é uma das cidades que investiu milhões de reais na instituição liquidada pelo Banco Central em 2025.


