Povos originários e agentes da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul voltaram a estar em lados distintos no interior do Estado, após uma ação de retomada da Fazenda Limoeiro terminar com indígenas conduzidos pelas forças de segurança pública sul-mato-grossense.
Na versão da polícia, conforme nota emanada através da Seção do Estado-Maior da Polícia Militar do Mato Grosso do Sul, os agentes precisaram "intervir" na ocorrência registrada no município de Amambai "após grupo de indígenas invadir e danificar propriedade rural".
O texto sobre a ocorrência encarada como "invasão" aponta por diversas vezes que esses indígenas causaram danos ao patrimônio na Fazenda Limoeiro, que fica localizada na região da Aldeia Limão Verde, que aponta para um início da ação de retomada ainda por volta de 23h20 de sábado.
"Um grupo de cerca de 20 invasores acessou a propriedade, forçando a família moradora a abandonar a residência às pressas, durante a madrugada, para garantir sua integridade física. Após a ocupação da sede, os envolvidos causaram diversos danos à estrutura e aos móveis da residência. Houve, ainda, tentativas de destruição de veículos e de maquinários pertencentes à propriedade, por meio de atos de vandalismo e tentativas de incêndio", afirma a Polícia Militar em nota.
Além disso, durante a saída dos indígenas, segundo a PM em complemento, do lado de fora teriam sido encontrados vários objetos "que estavam separados e embalados para transporte, como eletrônicos e joias".
"Três indivíduos foram visualizados e registrados quando por obstruindo o trânsito na rodovia que dá acesso à propriedade e à aldeia, utilizando de placas arrancadas e pedaços de madeira para atacar os motoristas. As guarnições da Polícia Militar foram mobilizadas para prestar apoio às vítimas e conter novos incidentes, realizando a detenção de três indivíduos envolvidos nessa ação delituosa", cita ainda a acusação.
Versão dos indígenas
Divulgadas através da chamada Assembleia Geral do povo Kaiowá e Guarani (Aty Guasu), a ação de retomada foi feita por cerca de 80 famílias que estariam "reafirmando seu direito ao território e sua luta por dignidade e justiça".
"A área, conhecida pela divisão com Limão Verde, voltou a ser ocupada por aqueles que resistem e não desistem de seu chão", cita o texto.
Compartilhado junto de cinco minutos e meio de vídeo, em que indígenas gritam para uma linha de viaturas policiais frases como "não queremos guerra, somente nosso direito" e "viemos buscar a herança dos nossos parentes", o texto comenta que essa famílias foram surpreendidas na manhã deste domingo (26).
"Foram surpreendidas por um ataque de despejo realizado por policiais. Um momento de tensão, violência e tentativa de silenciamento de uma luta legítima". Confira as imagens.
Além disso, sem apresentar qualquer ordem segundo informado pela Aty Guasu e Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), agentes teriam voltado ao território da aldeia Verde Limão após ação de ocupação da fazenda Limoeiro, com o raiar do sol no domingo (26), munidos de escudos e armas em punho, em uma ação de despejo.
"Policiais entraram na aldeia Limão Verde sem apresentar qualquer ordem, abordando uma família indígena dentro da sua própria casa. Essa ação é um grave desrespeito e um absurdo que evidencia, mais uma vez, a violência e a perseguição sofridas pelo povo Guarani Kaiowá em seus próprios territórios", cita.
Em complemento, a Assembleia considera "inaceitável" essa ação de intimidação às famílias dentro de suas casas. Confira:
"Em um espaço que deveria ser de proteção, dignidade e segurança. Precisamos denunciar, dar visibilidade e cobrar providências urgentes. Os parentes Guarani Kaiowá não podem continuar sendo alvo de ataques e violações de direitos dentro da própria aldeia", conclui.
Com a ocorrência encaminhada para a Delegacia de Polícia Civil "para identificação dos responsáveis e apuração das responsabilidades criminais pelos danos e pela invasão", a PM termina dizendo que o policiamento permanece na região, com o intuito de "evitar novos conflitos e garantir a preservação do local para os trabalhos periciais", contato esse que em situações passadas costumou inflamar os ânimos entre ambas as partes, tendo em vista o perfil mais combativo da polícia sul-mato-grossense.
"A PMMS reafirma seu compromisso com a proteção do cidadão e do patrimônio, atuando de forma técnica e rigorosa para que o direito à propriedade e a paz no campo sejam preservados", conclui a nota da polícia.

