Em sua primeira agenda oficial em Mato Grosso do Sul e ainda sem um histórico próprio de resultados consolidados para o futebol do Estado, o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Samir Xaud, foi recebido com homenagens e discursos entusiasmados de vereadores de Campo Grande.
A cerimônia foi realizada nesta quarta-feira (2), no Bioparque Pantanal, antes da inauguração do Centro de Desenvolvimento do Futebol, ocorrida na manhã desta quinta-feira (3). Durante o evento, Xaud recebeu da Câmara Municipal o Título de Visitante Ilustre de Campo Grande.
A homenagem foi entregue pelo presidente da Casa de Leis, vereador Epaminondas Vicente Neto, o Papy (PSDB), e pelo vereador Herculano Borges (Republicanos).
Além de reconhecerem a passagem do dirigente pela Capital, os parlamentares atribuíram à presença de Xaud um significado de renovação para o futebol sul-mato-grossense.
Papy afirmou que a visita representa um “contexto de esperança” para a retomada dos grandes jogos, o fortalecimento do esporte de alto rendimento e o desenvolvimento das categorias de base em Campo Grande.
Ao falar sobre a atual gestão da CBF, o vereador também atribuiu a Xaud um papel de renovação dentro da entidade e demonstrou expectativa sobre os rumos do futebol brasileiro.
“Esse momento é histórico e, talvez daqui a alguns anos, a gente olhe para trás e vá lembrar desse dia de uma transformação vivida pelo esporte sul-mato-grossense, principalmente no futebol. A pessoa do presidente Samir já é uma transformação da CBF, quando a gente fala de produtividade, de mudança; é uma figura jovem, com muita energia, trazendo um discurso do novo e de esperança. Para quem assiste e consome futebol, a gente percebe a credibilidade que o futebol brasileiro vai ter nos próximos anos”, destacou Papy.
O discurso, porém, antecipou resultados que ainda não podem ser medidos em Mato Grosso do Sul. A passagem por Campo Grande marcou a primeira agenda oficial de Samir Xaud no Estado desde que assumiu o comando da CBF e também a primeira visita de um presidente da entidade ao território sul-mato-grossense em 17 anos.
Durante o evento, Xaud afirmou que a presença da CBF no Estado faz parte de uma estratégia de aproximação com as federações e destacou a entrega do Centro de Desenvolvimento do Futebol, em Campo Grande, como uma das iniciativas para ampliar o apoio à formação de novos atletas.
“Nossa presença em Mato Grosso do Sul dá continuidade a nossas atividades de olhar com carinho para as federações. Em Campo Grande entregamos o Centro de Desenvolvimento. Vamos disponibilizar essas ferramentas para cada Estado para trabalhar e fomentar o futebol de base. Tudo isso estará à disposição de Mato Grosso do Sul”, disse Samir Xaud.
A dimensão das homenagens, no entanto, contrasta com a própria história de Mato Grosso do Sul no futebol. Em sua primeira agenda oficial no Estado à frente da CBF, e antes que os efeitos de sua gestão possam ser efetivamente medidos no futebol sul-mato-grossense, Samir Xaud foi recebido sob um discurso que o colocou como símbolo de renovação e esperança para a modalidade.
O tratamento ganhou ainda mais peso com a concessão do Título de Visitante Ilustre pela Câmara Municipal de Campo Grande, honraria que reforçou o protagonismo atribuído ao dirigente em uma passagem marcada mais pelas expectativas em torno de sua gestão do que por resultados já consolidados no Estado.
Durante a solenidade reproduzida pela Câmara, não foram anunciados novos investimentos com valores e prazos, programas de apoio financeiro aos clubes locais ou medidas imediatas para fortalecer as competições estaduais. As manifestações se concentraram principalmente em expectativas para o futuro.
Centro não foi concebido na atual gesttão
A principal entrega da agenda foi o Centro de Desenvolvimento do Futebol, construído na Avenida Tamandaré, em Campo Grande. A estrutura representa um reforço importante para as categorias de base e para o futebol feminino, mas não nasceu na gestão de Samir Xaud.
O projeto começou a ser idealizado em 2015, dentro do programa financiado pelo Fundo de Legado da Copa do Mundo de 2014. As obras em Mato Grosso do Sul foram iniciadas em março de 2024, mais de um ano antes de Xaud chegar à presidência da CBF.
O complexo já estava pronto antes da Copa do Mundo de 2026, mas a inauguração dependia da agenda do dirigente. Dessa forma, embora tenha comandado a cerimônia de entrega, Xaud não foi o responsável pela concepção nem pelo início da construção do equipamento.
Avaliado em aproximadamente R$ 14 milhões, o centro possui campo de grama sintética com dimensões oficiais, arquibancadas, vestiários, iluminação, estacionamento e espaços administrativos.
A proposta é receber projetos de formação de atletas, competições amadoras, atividades do futebol feminino e cursos para treinadores e árbitros.
A entrega física do espaço, entretanto, é apenas a primeira etapa. O impacto sobre o futebol estadual dependerá da criação de projetos permanentes, da definição de critérios para utilização, da manutenção da estrutura e da capacidade da Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul (FFMS) de garantir que clubes e atletas tenham acesso ao complexo.
Até agora, não foram apresentados publicamente o calendário completo de atividades, o orçamento anual de manutenção nem as metas de atendimento do centro.
Morenão continua sem receber jogos
Outro ponto da agenda foi a visita ao Estádio Pedro Pedrossian, o Morenão, principal palco esportivo de Mato Grosso do Sul. Samir Xaud acompanhou por cerca de 30 minutos os trabalhos relacionados à implantação do novo gramado.
A vistoria também ganhou caráter simbólico, uma vez que o estádio não recebe partidas profissionais desde 2022 e permanece sem os laudos necessários para eventos com público desde 2023.
A contribuição concreta da CBF citada durante a agenda é de quase R$ 1 milhão para o novo gramado. O restante da recuperação depende principalmente do governo de Mato Grosso do Sul, que assumiu a gestão do estádio e prevê investir R$ 16,7 milhões em intervenções estruturais.
Os serviços planejados incluem adequações nas arquibancadas, cabines de imprensa, instalações elétricas e hidráulicas, acessibilidade, refletores e placar. Até a visita do presidente da CBF, porém, a licitação dessas obras ainda aguardava publicação.
A previsão é de que o Morenão seja reaberto parcialmente em 2027, inicialmente com capacidade para aproximadamente 12 mil torcedores. Portanto, a visita de Xaud não representou a volta imediata dos jogos nem a solução definitiva para os problemas acumulados pelo estádio.
O presidente da FFMS, Estevão Petrallás, agradeceu o apoio da CBF e afirmou que a federação assumirá a chamada “parte de baixo” do Morenão, envolvendo o gramado. Não foram detalhados, contudo, outros aportes da confederação na recuperação estrutural do complexo.
Futebol local segue distante do cenério nacional
As homenagens também ocorreram em um momento de dificuldades esportivas para os clubes da Capital. O Operário-MS, principal representante campo-grandense no cenário nacional em 2026, foi eliminado ainda na primeira fase da Série D do Campeonato Brasileiro.
O clube terminou sua participação com apenas duas vitórias em dez partidas e nunca conseguiu avançar à fase eliminatória da quarta divisão nas quatro vezes em que disputou o torneio.
Além da baixa competitividade nacional, Campo Grande enfrenta há quatro anos a ausência de seu principal estádio. Nesse período, os clubes ficaram restritos principalmente ao Estádio Jacques da Luz, nas Moreninhas, com capacidade muito inferior à do Morenão.
Esse cenário dá dimensão ao desafio existente entre os discursos de retomada e aquilo que ainda precisa ser entregue.
A inauguração de um centro de treinamento e o investimento no gramado representam avanços, mas não são suficientes, isoladamente, para promover a transformação anunciada pelos vereadores.
A passagem de Samir Xaud pode marcar o início de uma aproximação entre a CBF e Mato Grosso do Sul.
A efetividade dessa relação, contudo, será medida pelo funcionamento permanente do novo centro, pela conclusão do Morenão, pelo fortalecimento dos clubes e pela recuperação da presença do Estado nas competições nacionais, e não pelo número de homenagens entregues durante uma visita institucional.


