Cidades

Município em transformação

Arauco leva Inocência a dobrar receita, mas investimento cai

Arrecadação cresceu 84% no primeiro semestre, enquanto investimentos liquidados recuaram 63%; prefeitura afirma que obras seguem cronogramas próprios

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Nos últimos 18 meses, Inocência, cidade de cerca de 8,4 mil habitantes no interior de Mato Grosso do Sul, passou a arrecadar como um município de médio porte.

Puxada pela construção da fábrica de celulose Projeto Sucuriú, da Arauco, a receita total de Inocência quase dobrou no comparativo do primeiro semestre: de R$ 85,3 milhões para R$ 157,1 milhões, alta de 84%. Só a arrecadação de impostos, item mais diretamente ligado à obra, saltou 178%, de R$ 36,3 milhões para R$ 101,1 milhões.

O que a apuração do Correio do Estado investigou foi o destino desse dinheiro. E o retrato – confirmado pelos números que a prefeitura apresentou em resposta a esta reportagem – é o de um município que passou a arrecadar muito mais rápido do que consegue aplicar.

Execução e arrecadação

Enquanto a receita crescia 84%, a despesa efetivamente liquidada, aquela em que o serviço já foi prestado e atestado, cresceu 19%, de R$ 65,5 milhões para R$ 78,1 milhões.

A prefeitura confirmou os números e apresentou também o estágio intermediário: R$ 119 milhões empenhados no semestre, valor que confere com o declarado ao Tesouro Nacional.

“É importante distinguir receita arrecadada de despesa liquidada. A receita é registrada quando o recurso ingressa nos cofres públicos. Já a despesa somente é liquidada depois que o bem é efetivamente entregue, o serviço prestado ou a etapa contratual correspondente é executada e devidamente atestada”, respondeu a Administração, acrescentando que “seria inclusive inadequado transformar automaticamente um crescimento extraordinário de receitas temporárias em aumento proporcional de despesas”.

A Prefeitura sustenta que a queda de 63% nos investimentos liquidados é uma “fotografia” de um período, porque obras têm cronogramas próprios que não coincidem com o calendário de arrecadação. 

A reportagem também mediu o empenho, o momento em que a administração assume formalmente o compromisso, antes de qualquer obra ficar pronta.

E o empenho de investimentos também caiu: de R$ 15,66 milhões para R$ 12,61 milhões, recuo de 19%. Se houvesse uma carteira de obras sendo contratada, esse número subiria, ainda que a liquidação demorasse. A resposta da prefeitura não trata desse dado.

Questionada sobre a existência de um plano de investimentos, a Administração afirmou que ele existe, que foi apresentado no Comitê Gestor de Investimentos Municipais em audiência pública e que “em breve será divulgado nas redes sociais para toda a população e imprensa”.

O documento não foi disponibilizado a esta reportagem até o fechamento da edição.

Dinheiro em caixa

O relatório de Gestão Fiscal que o município declarou ao Tesouro Nacional mostra que o caixa líquido da prefeitura de Inocência, já descontadas as obrigações assumidas, saiu de R$ 6,49 milhões ao fim de 2024 para R$ 44,63 milhões ao fim de 2025.

Na linha dos recursos não vinculados, aqueles que a gestão pode aplicar em qualquer finalidade, o salto é ainda mais expressivo: de um saldo negativo de R$ 1,45 milhão para R$ 33,93 milhões positivos.

A prefeitura contesta parte desses números. Segundo a resposta, a disponibilidade líquida de recursos não vinculados teria sido de R$ 13,53 milhões ao fim de 2024 e de R$ 32,99 milhões ao fim de 2025, uma alta de 144%.

A gestão acrescenta que parte do saldo de 2025 decorre do superavit financeiro de 2024 incorporado ao orçamento seguinte, e que o demonstrativo “não permite afirmar, isoladamente, que todo o saldo esteja livre para utilização”.

A checagem confirma o valor de 2025 apresentado pela gestão como próximo do declarado – R$ 32,99 milhões contra R$ 33,93 milhões no Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro (Siconfi).

Já o número de 2024 não foi localizado no anexo 5 transmitido ao Tesouro Nacional, em versão única e com situação “homologado”: naquela linha, o documento registra saldo negativo de R$ 1.446.976,76. O valor mais próximo de R$ 13,5 milhões no demonstrativo refere-se a recursos vinculados, em coluna distinta.

Pelos números do Tesouro Nacional ou pelos da prefeitura, houve acúmulo expressivo de recursos não vinculados no exato período em que o investimento recuou.

Despesa de pessoal

Ao ser questionada sobre o risco de usar uma receita temporária para bancar despesa permanente, a prefeitura respondeu com um dado favorável: o índice de despesa de pessoal caiu de 45,83% da receita corrente líquida em junho de 2025 para 30,94% em junho deste ano.

O número confere com o RGF declarado ao Tesouro (45,59% e 30,65%).

“Esse comportamento demonstra que a Administração não está utilizando o aumento extraordinário da arrecadação para promover uma expansão proporcional da estrutura permanente de pessoal”, afirma a gestão.

O mesmo relatório, porém, mostra que a folha não encolheu: a despesa total com pessoal subiu de R$ 65,31 milhões para R$ 82,42 milhões, alta de 26%.

O índice caiu porque o denominador, a receita corrente líquida, quase dobrou, de R$ 143,24 milhões para R$ 268,87 milhões. É efeito aritmético do boom, não redução de despesa.

Com a receita do ano anterior, cenário compatível com o encerramento das obras da fábrica, a folha atual representaria 57,5% da receita corrente líquida, acima do limite prudencial de 54% da Lei de Responsabilidade Fiscal e perto do teto legal de 60%.

A prefeitura afirma reconhecer o risco e diz trabalhar “com cenários conservadores e com o princípio de que não se deve transformar uma receita conjuntural em uma obrigação permanente”.

Por tipo de despesa, o item que mais avançou em participação foi “outros serviços de terceiros – pessoa jurídica”, que saltou de 15% para 28% do total empenhado.

Ao investigar quais empresas respondem por esse crescimento, a apuração encontrou um padrão dividido: de um lado, contratações por pregão eletrônico para obras de infraestrutura (pavimentação e tratamento de resíduos), que somam R$ 4,17 milhões e seguem o rito competitivo padrão; de outro, um salto no uso de inexigibilidade de licitação, modalidade que, por lei, só cabe quando não há como fazer concorrência, que subiu de R$ 993 mil para R$ 4,53 milhões (de 5,9% para 19,1% do elemento) em contratos de consultoria e plataformas de gestão com três empresas: Inovare Desenvolvimento Gerencial, Camerite Sistemas e AEG Assessoramento.

Inovare Desenvolvimento Gerencial é alvo de inquérito civil pelo Ministério Público Estadual por seu contrato em Taquarussu e a AEG Assessoramento teve vários contratos investigados e anulados por determinação também do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).

“Inocência não pretende simplesmente gastar o aumento de arrecadação; pretende transformar esse aumento de capacidade financeira em desenvolvimento permanente para a população”, cita a nota da Prefeitura Municipal de Inocência, em resposta enviada no dia 19 de agosto, assinada pelo prefeito Antonio Ângelo Garcia dos Santos e pelos secretários municipais de Finanças, Gilmarez Leal, e de Planejamento, Wildes Ferreira.

contraveneno

Operação do MPMS prende seis por desvios milionários na Santa Casa

Apuração inicial da promotoria aponta desvio de quase R$ 5 milhões somente com dois contratos firmados pela direção do hospital

11/09/2026 08h34

Investigadores do Ministério Público estão desde 06 horas na Santa Casa e outros endereços, inclusive em Dourados e Goiânia

Investigadores do Ministério Público estão desde 06 horas na Santa Casa e outros endereços, inclusive em Dourados e Goiânia Marcelo Victor

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Em meio à onda de demissões de médicos e anestesistas, a Santa Casa de Campo Grande está sendo alvo da uma operação do Ministério Público de Mato Grosso do Sul para investigar supostos desvios de recursos públicos no maior hospital de Mato Grosso do Sul.

Em nota, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) informou que por meio do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), deflagrou, nesta sexta-feira (11), a Operação Antidotum, tendo como objetivo o cumprimento de seis mandados de prisão preventiva e 36 trinta e seis mandados de busca e apreensão nos municípios de Campo Grande, Dourados e Goiânia (GO). Os nomes dos presos não foram divulgados por enquanto.

A investigação, conduzida pelo Gecoc, identificou a existência de fraudes e desvios de dinheiro em contrato firmado pela Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande para a prestação de serviços de digitalização de prontuários, em que ocorreram pagamentos de valores elevados sem a devida contraprestação de serviços.

O contrato previa pagamento de R$ 1,8 milhão de reais por ano e tinha vigência de três anos, totalizando R$ 5,4 milhões. Somente no primeiro ano de vigência, o desvio de recursos totalizou R$ 1,4 milhão

No curso da investigação também foram identificadas irregularidades em contratos celebrados pela Operadora Santa Casa Saúde – empresa controlada pela Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande – com diversas empresas do mesmo grupo econômico. Essas empresas, cujo proprietário tinha ligações com a diretoria da Santa Casa, estavam registradas no mesmo endereço, mas o imóvel, na verdade, encontrava-se desocupado.

A apuração apontou que, somente no ano de 2025, a Operadora pagou aproximadamente R$ 9,6 milhões para essas empresas, e gerou um prejuízo, no mínimo, segundo apurado até o momento, de R$ 3,5 milhões à entidade.

Durante as apurações, constatou-se que os contratos, pagamentos e prestações de contas eram sistematicamente sonegados dos órgãos de controle, incluindo Conselho Fiscal da Santa Casa e a Controladoria-Geral do Estado.

O valor total do prejuízo causado à Santa Casa de Campo Grande permanece sob apuração no curso das investigações.

A operação contou com apoio operacional do Batalhão de Choque da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul e com a participação da Comissão de Defesa e Assistência das Prerrogativas dos Advogados (CDA) da OAB/MS.

"Antidotum", termo que dá nome à operação, traduz-se do latim como antídoto, e significa contraveneno ou contramedida, substância que neutraliza ou impede a ação nociva de uma toxina no organismo. Também é usado no sentido figurado como recurso ou solução contra um problema.

De acordo com informações da assessoria do hospital, em torno de dez integrantes do Ministério Público e da polícia estão na Santa Casa desde 06:00 horas. Os principais alvos, segundo a assessoria, são as salas da presidência e do setor financeiro e de faturamentos. 

MORTALIDADE

O advogado Osvaldo Meza acompanhou a atuação da promotoria no hospital e disse ter sido o autor de um pedido de investigação que levou à instauração da operação desta sexta-feira.

Ele entrou na Justiça com uma ação popular a alega que a mortalidade no hospital aumentou em 5% desde que atual presidente, Alir Terra Lima, assumiu o comando do hospital, em janeiro de 2023. “Essa operação é para colocar na cadeia que tem culpa pelos desvios de recursos públicos e pelo aumento nas mortes”, afirmou o advogado.

Mensalmente a Santa Casa recebe em torno de R$ 33 milhões do SUS, mas o valor considerado insuficiente para manter a estrutura. O hospital tem cerca de 640 leitos disponíveis para o sistema público, emprega aproximadamente 3,5 mil trabalhadores  e tem contratados mais de mil médicos”.

De acordo com a administração entre os principais gastos mensais estão R$ 21,7 milhões com salários, R$ 8,1 milhões com pagamentos médicos, R$ 3,5 milhões com medicamentos e R$ 1,7 milhão com órteses, próteses e materiais especiais.

Por conta destes gastos, o hospital alega déficit mensal de R$ 13 milhões e por isso constantemente recebe aportes extras. No final de agosto a prefeitura e o Estado repassaram R$ 4 milhões, mas mesmo assim médicos que faziam cirurgias cardíacas infantis abandonaram a instituição, forçando famílias a procurarem cirurgias em outros estados. 
 

Saúde

Ministério Público tenta impedir paralisação de cirurgias na Santa Casa

Nos últimos dias, cirurgiões cardíacos pediátricos e anestesistas indicaram o desejo de se desligarem do quadro do hospital

11/09/2026 08h05

Falta de insumos e de salários levaram médicos a pedir demissão

Falta de insumos e de salários levaram médicos a pedir demissão Foto: Paulo Ribas

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O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) entrou no caso da possível paralisação da Santa Casa depois de duas categorias de médicos especialistas indicarem o desligamento do quadro de profissionais do hospital, o que poderia acarretar a suspensão de diversos procedimentos, exames e cirurgias no complexo.

Como reportou o Correio do Estado nesta semana, os cirurgiões cardíacos pediátricos, que trabalham no modelo de pessoa jurídica (PJ), teriam comunicado o desligamento do quadro de profissionais da Santa Casa.

Diante disso, as crianças continuam internadas no Centro de Terapia Intensiva (CTI), sem perspectiva de quando vão receber o tratamento. 

Além disso, os mais de 100 anestesistas que compõem a equipe médica do hospital também revelaram o desejo de deixar o complexo, o que paralisaria grande parte dos exames e das cirurgias da instituição. Além disso, as cirurgias eletivas e os atendimentos ambulatoriais estão suspensos na Santa Casa há cerca de 40 dias.

Todo este cenário teria dois motivos principais: a falta de insumos para realização dos procedimentos de forma adequada e os salários atrasados que ultrapassam quatro meses.

Em conversa com a reportagem, o presidente do Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul (Sinmed-MS), Marcelo Santana, afirmou que as tratativas seguem entre a instituição, o MPMS e os entes municipal e estadual.

“Está ocorrendo entre a Santa Casa, o Ministério Público e os entes municipal e estadual para tentar manter a cirurgia cardíaca pediátrica. Com relação aos médicos, nenhum indicativo de paralisação”, disse à reportagem.

Segundo o Ministério Público, “as Promotorias de Justiça de Saúde de Campo Grande acompanham atentamente as questões envolvendo a Santa Casa, especialmente os pedidos de desligamento das equipes de cirurgia cardíaca pediátrica e de anestesiologia”.

“Em relação a esses desligamentos, o MPMS tem realizado reuniões com os gestores estadual e municipal de saúde com o objetivo de evitar a desassistência aos pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS)”, afirmou em nota.

“Quanto à falta de insumos e medicamentos no hospital, o MPMS articulou, junto às Secretarias Estadual e Municipal de Saúde, um repasse pontual para atender essa demanda emergencial, especialmente para custear a aquisição de medicamentos e insumos”, completou o MPMS.

Enquanto isso, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) também foi procurada e mantém o posicionamento enviado na última reportagem, em que disse que “recebeu, até o momento, apenas de maneira informal a informação acerca do eventual encerramento do serviço de cirurgia cardíaca pediátrica” do hospital.

Na mesma nota, a Pasta destacou que, caso seja constatada qualquer alteração ou interrupção unilateral do serviço em desacordo com as obrigações assumidas no convênio, adotará as providências administrativas cabíveis, como “penalidades previstas no instrumento contratual”, que não foram detalhadas ao Correio do Estado.

VERSÃO DO HOSPITAL

A Santa Casa emitiu ontem um comunicado afirmando que notificou a Sesau acerca da suspensão temporária das cirurgias cardíacas pediátricas congênitas eletivas no dia 3, “em razão da indisponibilidade da equipe médica especializada necessária à realização segura dos procedimentos”.

De acordo com a instituição, dos dois cirurgiões cardíacos pediátricos que atuam no serviço, um encontra-se afastado por motivo de saúde grave e a outra profissional solicitou rescisão contratual.

“Trata-se de uma especialidade de alta complexidade e com reduzida disponibilidade de profissionais, o que impede a recomposição imediata da equipe. A assistência pediátrica permanece ativa. Os pacientes continuam sendo acolhidos, acompanhados e submetidos aos exames necessários, inclusive os quatro que atualmente aguardam procedimento cirúrgico”, explica na nota.

Na semana passada, representantes das secretarias municipal e estadual de saúde alinharam ações emergenciais e um aporte pontual de R$ 4 milhões para auxiliar na compra de insumos.

Porém, o hospital informou que esse montante ainda não foi depositado no caixa da instituição.

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