Espaço criado para reunir orientação e formalização traz soluções simples que transformam vidas de mulheres, algumas delas vítimas de violência
Aos 127 anos, Campo Grande continua crescendo também a partir de soluções que não precisam ser grandiosas para provocar grandes mudanças. Dentro da Secretaria Executiva da Mulher (Semu), reunir orientação, capacitação e formalização no mesmo espaço tem ajudado a encurtar um caminho que, para muitas mulheres, antes parecia longo demais: transformar uma habilidade em renda e uma vontade em negócio.
A experiência da Sala da Mulher Empreendedora, primeira iniciativa do modelo no Centro-Oeste e terceira do País, já passou do campo das ideias. Somente neste ano, mais de 500 mulheres foram atendidas, segundo o Sebrae-MS. Em uma cidade marcada pelo crescimento do empreendedorismo, a estrutura mostra como concentrar serviços e informações em um mesmo endereço pode ser suficiente para destravar projetos.
O espaço oferece gratuitamente serviços como formalização de MEI, regularização, alterações e baixa de Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), além de apoio para questões relacionadas ao gov.br e a atividades de capacitação.
A relevância da iniciativa aparece também no tamanho do público que pode alcançar. Dados da Receita Federal divulgados pelo Sebrae apontam que as mulheres representam 44,8% dos microempreendedores individuais de Campo Grande. Em maio de 2025, a Capital tinha 68.676 MEIs ativos, dos quais mais de 30 mil pertenciam a mulheres.
Para além dos números, a proposta busca resolver uma questão que pode separar uma ideia da sua realização: aproximar a informação de quem precisa dela.
A secretária-executiva da Mulher, Angélica Fontanari, explica que a Sala da Mulher Empreendedora faz parte de uma estrutura mais ampla de fortalecimento da autonomia econômica feminina. Antes de chegar à formalização, muitas mulheres passam por capacitações em temas como gestão financeira, técnicas de vendas, comunicação, inteligência emocional, inteligência artificial e comércio eletrônico.
Depois, a formalização pode estar a poucos passos de distância. Em um dos atendimentos relatados pela secretária-executiva, uma manicure e pedicure contou que havia voltado a trabalhar pouco tempo depois do nascimento da filha porque, sem trabalhar, não teria renda. Ao descobrir os direitos que poderia acessar caso estivesse formalizada como MEI, ela apresentou os documentos e saiu do atendimento com o negócio regularizado.
“Peguei na mão dela, andei cinco passos, porque a sala fica lá dentro da secretaria, e ela saiu de lá formalizada. Saiu de lá protegida”, relatou Angélica.
O caso ajuda a traduzir o propósito de uma estrutura que não se limita à abertura de empresas. Para a Semu, formalizar também significa ampliar a proteção profissional e criar condições para que uma mulher tenha mais segurança para construir autonomia financeira. Segundo Angélica, estudos da secretaria apontaram que 25% das mulheres que passaram pela Casa da Mulher Brasileira eram completamente dependentes financeiramente dos agressores, o que evidencia a relação entre geração de renda e a possibilidade de romper ciclos de violência.
Para Sandra Amarilha, diretora-técnica do Sebrae-MS, reunir diferentes etapas do empreendedorismo em um único lugar é justamente o que dá força à iniciativa. A Sala da Mulher Empreendedora foi criada a partir do entendimento de que empreender pode representar uma ferramenta de autonomia, especialmente para mulheres que enfrentam ou enfrentaram situações de violência.
“O empreendedorismo é uma importante ferramenta de autonomia para as mulheres”, afirmou Sandra.