Cidades

Violência

Quase 70% das vítimas dependem financeiramente do agressor

Relatório foi feito com base na Comarca de Corumbá, que abrange também Ladário, e é tratado como uma referência para o restante de Mato Grosso do Sul

Continue lendo...

A violência contra a mulher em Mato Grosso do Sul ainda é uma crise crônica. Para ser combatida de forma mais eficaz, com prevenção e não reincidência, envolve ações em diferentes camadas de políticas públicas. Uma delas é a questão econômica, que ainda faz com que as vítimas sejam muito dependentes dos agressores. 

Esse fator, por exemplo, ocasiona a retirada de denúncias antes mesmo que haja tramitação judicial e acaba sendo uma forma de beneficiar o agressor e fomentar a impunidade. 

A constatação desse problema ocorreu a partir de uma pesquisa inédita, que identificou que 67% das vítimas que chegaram a acionar a polícia por conta de violência doméstica não tinham renda ou só conseguiam obter até R$ 1 mil por mês, valor abaixo do salário mínimo (R$ 1.621,00). 

Esse diagnóstico ainda revelou que 43,1% das vítimas sequer tinham atividade remunerada e outros 26% não tinham renda própria. Dentro desse contexto, 90% dessas mulheres ainda tinham filhos, ou seja, depois da denúncia, a subsistência delas e das crianças ainda seguia altamente atrelada ao recurso que o investigado pelo crime fornecia.

Todos esses dados foram divulgados oficialmente ontem, no Tribunal do Júri do Fórum de Corumbá, durante o lançamento dos estudos que resultaram nos livros “Panorama da Violência contra as Mulheres em Corumbá/MS (2020-2025)” e “Quando Sair de Casa Não É uma Opção: Dependência Econômica e Permanência na Violência Doméstica em Corumbá-MS”. 

Esses trabalhos têm como autores Dieimi de Souza Rufino, Lenita Maria Bernardo Estra Mendes, Nattielly Soria de Moraes e Vivian da Veiga Silva e foram elaborados dentro do Mestrado de Estudos Fronteiriços da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), a partir do Observatório de Inovação Social da Fronteira (Obisfron).

O levantamento ocorreu na Comarca de Corumbá, que abrange também Ladário, e é tratado como uma referência para o restante do Estado. 

A região fronteiriça com a Bolívia é a que tem um dos melhores aparelhamentos disponíveis em Mato Grosso do Sul para atender mulheres vítimas de violência e, por conta das particularidades locais, acaba servindo de modelo e análise para a aplicação de políticas públicas no restante de MS.

“Quando eu via que as mulheres relatavam que reatavam as relações [com o agressor] por conta dos filhos, pela questão da insegurança alimentar, eu supunha que poderia ser maioria, mas não tinha a certeza. Ver essa confirmação, e com índices muito altos, gerou um impacto grande para mim. Eu imaginava, mas não queria encontrar essa realidade, que agora os números respondem”, relatou a pesquisadora e servidora do TJMS Dieimi de Souza Rufino.

A alta dependência financeira ainda está atrelada a outros índices que reduzem muito outras perspectivas para as vítimas. A pesquisa identificou que mais de 70% das vítimas sequer terminaram o ensino básico. Nessas condições, a empregabilidade acaba se tornando um desafio ainda maior.

Durante o evento de lançamento da pesquisa, que contou com a presença de juízas, promotora, equipes que atuam na rede de atendimento a vítimas de violência doméstica, policiais militares e civis e representantes da Prefeitura de Corumbá, bem como da OAB-MS – Subseção Corumbá e da UFMS, ainda foi apresentado um panorama sobre oportunidades de emprego que poderiam apoiar as mulheres que precisam se livrar da dependência financeira dos agressores.

Entre as 273 vagas que foram identificadas a partir de três fontes de anúncio de trabalho na região fronteiriça, em 2025, apenas uma destacava oportunidade voltada de forma mais exclusiva para mulheres. 

“Tabulando os dados, foi possível verificar que a grande maioria dessas vítimas ainda se encontra no chamado período mais produtivo da vida adulta, entre 18 e 49 anos, quando se espera que as pessoas estejam concluindo estudos, formando a família, garantindo sua casa, os bens, na verdade é tudo que essas mulheres não têm. A preocupação maior delas é o que vai ter na mesa no dia seguinte se ela perder aquele homem que a agride, mas que é a única pessoa que consegue ter a renda formal para prover tudo”, analisou a pesquisadora.

ESTRUTURA

Os estudos ainda confirmaram que, mesmo com diferentes aparelhamentos para atender as vítimas, como é o caso de Corumbá, os números da violência só crescem. As demandas por medidas protetivas de urgência saíram de 520, em 2020, para 904, em 2025. Essa situação se manteve com crescimento contínuo.

Segundo dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) divulgados ontem pelo Monitor da Violência Contra a Mulher, o Estado não registra um feminicídio há 15 dias, ainda assim, só neste ano, 27 mulheres foram mortas até este mês em Mato Grosso do Sul.

Identidade Sul-mato-grossense

MS faz 49 anos com 116 mil indígenas e diversidade cultural

Censo mostra presença indígena nos 79 municípios; historiador destaca influência de migrantes, países vizinhos e diferentes tradições

10/10/2026 17h32

 Pantanal de MS

Pantanal de MS Foto: Divulgação/DLR

Continue Lendo...

Mato Grosso do Sul completa 49 anos neste domingo (11), com uma identidade cultural construída por diferentes povos, tradições e influências de regiões brasileiras e países vizinhos. O Estado abriga 116.469 pessoas indígenas, a terceira maior população indígena do Brasil, segundo o Censo Demográfico de 2022, e registra presença indígena em todos os seus 79 municípios. 

A formação cultural sul-mato-grossense vai além das imagens mais conhecidas do Estado, como o Pantanal, a música regional e o tereré. A proximidade com Paraguai e Bolívia, a migração de famílias de diferentes partes do País e a presença de povos originários contribuíram para a formação de hábitos, sotaques, manifestações artísticas e tradições gastronômicas que variam entre as regiões.

Em entrevista publicada pelo Correio do Estado, o historiador Roberto Figueiredo destacou justamente essa pluralidade ao abordar a identidade cultural do Estado.“Reforço uma frase da saudosa professora Glorinha, que disse que nós somos um povo que mistura tudo, gaúchos, mineiros, japoneses, paraguaios, bolivianos, nordestinos e árabes. É essa mistura que faz a nossa identidade cultural”, afirmou.

A formação do Estado reúne referências indígenas, fronteiriças, pantaneiras, rurais e urbanas, além de manifestações culturais trazidas por famílias que migraram para a região ao longo de diferentes períodos históricos.

Indígenas

O Censo de 2022 identificou 116.469 indígenas em Mato Grosso do Sul, contingente equivalente a cerca de 6,9% da população indígena brasileira. O Estado fica atrás apenas do Amazonas e da Bahia nesse indicador.

A presença indígena também está distribuída por todo o território estadual. Os 79 municípios registraram moradores que se declararam indígenas no levantamento do IBGE, embora a proporção varie bastante entre as cidades.

Japorã, no extremo sul do Estado, apresenta uma das situações mais expressivas: 57,81% da população municipal se declarou indígena no Censo. Paranhos e Tacuru também estão entre os municípios com maiores proporções de moradores indígenas.

Em números absolutos, Campo Grande reúne a maior população indígena do Estado, seguida por Dourados e Amambai. Isso evidencia que a presença desses povos não está restrita às aldeias ou às áreas rurais, mas também integra a realidade das cidades.

A distribuição territorial revela outra característica importante: em 2022, aproximadamente 64% da população indígena sul-mato-grossense vivia em áreas rurais, enquanto cerca de 36% residia em áreas urbanas. A diferença mostra a importância dos territórios tradicionais e, ao mesmo tempo, a presença crescente dos povos indígenas nos centros urbanos.

Os povos indígenas fazem parte da realidade social, cultural e urbana do Estado.

A discussão sobre o que define a identidade sul-mato-grossense não é recente. Desde a criação do Estado, artistas, escritores, pesquisadores e instituições culturais debatem quais elementos representam uma unidade federativa formada a partir de diferentes origens.

Essa trajetória mostra que a identidade cultural não se formou apenas a partir da divisão territorial. Ela foi sendo construída por artistas, comunidades, movimentos culturais e gerações que deram novos significados às referências locais.

Da divisão à formação de um Estado

A criação de Mato Grosso do Sul foi oficializada pela Lei Complementar nº 31, assinada pelo então presidente Ernesto Geisel em 11 de outubro de 1977. A implantação efetiva ocorreu em 1º de janeiro de 1979, quando o novo Estado passou a funcionar administrativamente.

A divisão estabeleceu uma nova unidade federativa, mas não criou do zero as populações e as tradições que já existiam no território. A região possuía vínculos históricos com povos indígenas, comunidades fronteiriças, atividades rurais e centros urbanos que continuaram a influenciar a formação social e cultural sul-mato-grossense.

Quase cinco décadas depois, Mato Grosso do Sul tem 357,1 mil quilômetros quadrados e população de 2,76 milhões de habitantes, conforme o Censo de 2022. A extensão territorial e a distribuição dos moradores ajudam a compreender a diversidade entre regiões como o Pantanal, o sul de forte presença agropecuária, a faixa de fronteira e os centros urbanos.

Aos 49 anos, a história do Estado continua sendo construída pela convivência entre essas diferentes realidades. Mais do que um conjunto de símbolos, a identidade sul-mato-grossense reúne povos, memórias e tradições que se transformam ao longo das gerações.

Acesso a Serviços

Guarani facilita acesso de indígenas à perícia em MS

Marlene Ortiz atua na Polícia Científica desde 2024 e ajuda indígenas a compreender procedimentos

10/10/2026 15h13

Reprodução/Gov MS

Continue Lendo...

Um em cada quatro moradores de Amambai é indígena, realidade que torna a comunicação em guarani importante para o acesso a serviços públicos no município. Na Polícia Científica, a pedagoga e técnica de enfermagem Marlene Ortiz atua como ponte entre a comunidade e os profissionais durante atendimentos médico-legais, orientações sobre exames de DNA e emissão de documentos de identidade.

Segundo o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Amambai tem 9.988 moradores indígenas, o equivalente a 25,4% da população. Desde 2024, Marlene trabalha na Unidade Regional de Perícia e Identificação (URPI), por meio de parceria com a prefeitura, auxiliando pessoas que enfrentam dificuldades para compreender as orientações em português.

“Quando chegam aqui e encontram uma pessoa indígena, elas confiam mais. Conversam, tiram dúvidas e falam comigo”, relatou Marlene.

A atuação ocorre em situações que exigem compreensão de procedimentos técnicos e, muitas vezes, envolvem medo, insegurança ou sofrimento. Além de ajudar os usuários a entender as informações recebidas, ela auxilia os servidores a compreender o que é relatado em guarani.

missão de documentos

O apoio também é prestado no Núcleo Regional de Identificação, onde indígenas procuram atendimento para solicitar a Carteira de Identidade Nacional (CIN). Nesses casos, Marlene esclarece dúvidas e ajuda a explicar as etapas necessárias para a emissão do documento.

A necessidade de comunicação acessível tem relação com a realidade linguística do município. Amambai reconhece o Guarani Kaiowá como língua cooficial desde 2024, por meio da Lei Municipal nº 2.905.

A barreira do idioma pode dificultar a compreensão de orientações em serviços que exigem informações precisas, como os procedimentos periciais. Nesses atendimentos, Marlene auxilia na comunicação e no acolhimento, enquanto exames e produção de provas técnico-científicas continuam sob responsabilidade dos profissionais habilitados.

A unidade regional também recebe demandas de moradores de Coronel Sapucaia, Paranhos, Sete Quedas e Tacuru, municípios do Cone Sul de Mato Grosso do Sul.

Desenhos

A experiência anterior de Marlene com crianças, mulheres, gestantes e idosos da comunidade indígena também influencia a forma como conduz o acolhimento.

Ela recorda o caso de uma criança que resistia a interagir durante um atendimento. Em vez de insistir nas perguntas, sentou-se ao lado dela e começou a desenhar uma gatinha. A criança respondeu com outro desenho e, depois, conseguiu seguir para o exame.

“Quando a criança chega muito irritada, ela brinca e vai se acalmando. Depois dá para chamar para fazer o exame”, contou.

Em situações de violência e morte, o trabalho também envolve ajudar familiares a compreender os procedimentos e as informações repassadas pela equipe. A atuação é especialmente importante quando parentes chegam à unidade em busca de orientações após a morte de alguém da família.

“Se o meu povo indígena chega, já me procura. Talvez eu não esteja aqui, mas me chamam para conversar”, afirmou.

Para Marlene, o vínculo com a comunidade é parte importante desse trabalho. “Me colocaram aqui para ajudar a minha comunidade, mas também ajudo qualquer pessoa que precise. Eu gosto de ajudar. Se precisar, estou aqui”, finalizou.

 

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).