Cidades

Ministra das Mulheres

"Quero que as mulheres participem do desenvolvimento da Rota Bioceânica"

A titular do Ministério das Mulheres fala sobre os avanços da Pasta e as iniciativas que pretende trazer para MS, como a atenção às mulheres de Porto Murtinho com a operacionalização da Rota Bioceânica

Continue lendo...

 

PERFIL

Aparecida Gonçalves 
É especialista em gênero e em enfrentamento à violência contra mulheres e ativista de defesa dos direitos das mulheres. Construiu sua trajetória política em Campo Grande, foi coordenadora do movimento popular de mulheres entre 2003 e 2016 e secretária nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres, atuando na construção da Lei Maria da Penha e da Lei do Feminicídio.

Aparecida Gonçalves, ministra das Mulheres, veio a Mato Grosso do Sul para uma série de eventos e palestras que debateram ações da Pasta durante esse primeiro ano de atuação, como o andamento das obras de duas novas Casas da Mulher Brasileira, em Dourados e Corumbá.


Ela destacou a necessidade em pautar a diferença salarial entre homens e mulheres. De acordo com o 1º Relatório de Transparência Salarial realizado pela Pasta, Mato Grosso do Sul tem um dos piores índices de igualdade do País, com 32,6% das mulheres ganhando menos que os homens.


Em entrevista exclusiva ao Correio do Estado, Cida também falou sobre o combate ao feminicídio e à misoginia nos estádios de futebol e como pretende transformar Porto Murtinho e o Estado em um modelo nacional, por meio da inserção das mulheres no desenvolvimento da Rota Bioceânica. Confira a seguir.

Durante seu primeiro ano como ministra, quais foram as principais dificuldades que enfrentou à frente da Pasta? 


Eu acho que primeiro é reestruturar o ministério. A gente é uma Pasta que foi criada pela primeira vez. A gente tinha, na época, tanto [na gestão] do presidente Lula quanto na da presidente Dilma, uma secretaria especial de política para as mulheres, com status de ministério, mas não era ministério de fato.


Inclusive no governo após o impeachment [da presidente Dilma], eles terminaram efetivamente com tudo, diminuindo o poder, criando um único Ministério dos Direitos Humanos, Família, Cidadania e Igualdade Racial, portanto, destruindo todo o ministério e seus programas.


O maior desafio no primeiro ano foi estruturar a Pasta, recolocar as políticas públicas nos seus devidos lugares e aumentar o recurso do ministério, pois quando nós chegamos tinha R$ 38 milhões, sendo R$ 23 milhões só para investimento nas políticas dos estados. Então, foi um ano de reorganização interna, porém, ao mesmo tempo, de fazer a reconstrução das políticas públicas, fazer as estratégias, as políticas nacionais, os programas, as prioridades de intervenção do atual governo.

Mesmo com dificuldade, houve vários trabalhos importantes. Quais foram as principais ações da Pasta em seu primeiro ano?


A gente teve muitas ações importantes na minha avaliação, mas uma das primeiras foi o 8 de março de 2023, quando a gente conseguiu reunir mais de 28 ministérios com ações em diversas áreas, fazendo um evento grande no Palácio do Planalto com o presidente Lula. Isso era, mesmo com três meses [de existência da Pasta], mesmo com todos os problemas, a demonstração de que o ministério veio com força, para fazer articulação política, para fazer o debate político, para estabelecer as ações para dentro do governo. A outra foi reorganizar os programas.

À época, o Mulher Viver Sem Violência tinha sido terminado, mas no 8 de março [de 2023] nós o trouxemos de volta, anunciamos 40 Casas da Mulher Brasileira, que são centros de referência. Então, há diversas ações que incorporam o programa que é para enfrentar a violência contra as mulheres e o feminicídio.E no dia 8 de março, a gente já estava com uma proposta de projeto de lei – que agora é a Lei da Igualdade Salarial [Lei Federal nº 14.611/2023] – para ser encaminhada para o Congresso Nacional. Para mim, esse é um dos grandes feitos do ano passado, isto é, conseguir aprovar em um prazo recorde no Congresso a Lei da Igualdade Salarial e já estar com ela sendo implementada.

A respeito do Relatório de Transparência Salarial, como está MS no ranking de igualdade entre gêneros?


A lei exige que tenha um relatório de transparência, que as empresas têm que responder esse relatório a cada seis meses, e elas responderam agora em março. Então, são dados reais. Foram quase 50 mil empresas que apresentaram seus relatórios sobre a diferença salarial. E Mato Grosso do Sul está lá em 25° lugar na questão da igualdade salarial entre homens e mulheres.Nós temos um desafio aqui no Estado de fazer o debate com as empresas acima de 100 funcionários, para que possamos de fato implementar a igualdade salarial. Porque o que é importante dizer e que nós temos conversado com os empresários é que a igualdade salarial faz bem, principalmente para os empresários e para a empresa. Aumenta o PIB [Produto Interno Bruto], é verdade, mas aumenta e garante a dignidade à mulher enquanto sujeito de direito.

Há um trabalho de fiscalização, de denúncias que vocês recebem, sobre o não cumprimento dessas normas ou, primeiramente, está sendo um trabalho de diálogo, para trazer as empresas junto?


São as duas coisas juntas. E estamos fazendo essa conversa [ocorrer], porque nem nós – nem o Ministério das Mulheres, nem o Ministério do Trabalho, nem o governo do presidente Lula – queremos fazer uma caça às bruxas contra as empresas. Nós queremos que elas sejam parceiras no processo de implantação da igualdade no Brasil. Essa é a primeira coisa, por isso a gente está conversando, está discutindo e está negociando. Mas a lei é bem objetiva, é bem específica.

Ela diz que deve ter um relatório de transparência e que, se for caracterizado a diferença salarial, a empresa tem 90 dias para justificar e apresentar um plano de trabalho para alterar essa desigualdade – e tem fiscalização e multa para caso ela não cumpra [os termos]. Esses são os passos já estabelecidos pela Lei da Igualdade Salarial. Agora, a gente teve o [primeiro] relatório, nós estamos verificando e as empresas estão no prazo de se justificarem. Se houver denúncia, vamos ter fiscalização. Nós temos o número 158 do Ministério do Trabalho, e o 180 também está recebendo denúncias.

No ano passado, MS recebeu boas notícias, principalmente do ministério, como a construção de mais duas Casas da Mulher Brasileira no interior do Estado. Quais são as ações que a Pasta pretende trazer para Mato Grosso do Sul neste ano? E como está o andamento daquelas que já foram iniciadas em 2023?


No ano passado, a gente anunciou duas Casas da Mulher Brasileira para Mato Grosso do Sul, uma em Corumbá e a outra em Dourados, e nós já repassamos o recurso da unidade de Corumbá para o governo do Estado, que é quem vai executar a obra. O trâmite segue ainda no processo de transferência do terreno, que é da SPU [Secretaria de Patrimônio da União], para o Estado, a fim de proporcionar a licitação. Ou seja, está em andamento, mas ainda nos primeiros passos. 


Já a de Dourados estava no certame do Ministério da Justiça, com licitação aberta no 27 de fevereiro, mas que não ocorreu. Com a saída do ministro Flávio Dino e a entrada do ministro Lewandowski, nós pactuamos que o recurso vai vir para o Ministério das Mulheres, que é quem vai executá-lo. A gente está pactuando para entregar dentro do prazo, vai ter um ou dois meses de atraso, mas ocorrerá no início de 2025.


Neste ano, nós temos algumas prioridades. Por exemplo, a questão que a gente tem discutido com a subsecretária Manuela Bailosa [titular da Subsecretaria de Políticas Públicas para as Mulheres de Mato Grosso do Sul], que é a questão de ter uma escola de formação para as mulheres em Porto Montinho, que eu pactuei com o governador do Estado, já considerando a Rota Bioceânica, para que nós possamos antes da rota começar a funcionar já termos a qualificação e a formação das mulheres, para que elas possam exercer funções dentro daquilo que é operativo à Rota Bioceânica e não serem exploradas.


Esse é um dos projetos prioritários que nós queremos investir, porque eu quero que seja um modelo nacional, de ir discutindo com [o setor de] infraestrutura, com o de desenvolvimento, com o de obras, a inclusão das mulheres nesse sentido, nessa questão econômica. Não podemos trabalhar a mulher como uma periferia do processo do desenvolvimento – queremos as mulheres dentro do processo de desenvolvimento. E eu acredito que Mato Grosso do Sul e Porto Murtinho possam ser esse exemplo, e nós vamos investir o que for necessário para que isso possa acontecer.


Assim como temos a discussão sobre a questão das mulheres indígenas, a gente conversou com o vice-presidente [da República, Geraldo Alckmin] sobre a questão do artesanato das mulheres indígenas, para a gente trabalhar a questão da exportação [desses produtos] do Brasil inteiro. Mas sabemos que em Mato Grosso do Sul nós temos uma grande fabricação de artesanato indígena feito pelas mulheres e que precisamos fazer com que isso vire renda.

Recentemente, o presidente Lula assinou a lei que prevê pensão para órfãos do feminicídio. O Ministério das Mulheres conta com um levantamento de quantas famílias serão atendidas? Há um determinado montante que será destinado?


Não, porque a gente não vai trabalhar com um montante a ser destinado. A lei, ela ainda vai 
ser regulamentada, e nós vamos fazer uma regulamentação para que o INSS [Instituto Nacional do Seguro Social] assuma, porque é uma pensão, não um benefício, e isso é importante dizer. Portanto, vai ser de acordo com a ordem judicial, com os encaminhamentos. E isso não significa um montante de recursos absurdos e exagerados. O que estamos trabalhando, tratando-se de uma pensão aos órfãos, é pensado [para indivíduos assistidos pela lei] até os 18 anos. Então, demorou por causa disso, para a gente não colocar como um benefício que,  de repente, cai ou não cai. Fica no INSS uma segurança para a família e para os órfãos.

Aqui na Capital nós também temos uma lei que prevê assistência para famílias e crianças que tiveram mães vitimizadas pelo feminicídio, porém, ainda sem regulamentação. Qual a importância de iniciativas do tipo e, principalmente, de publicar portarias que deixem claro como isso deve ser feito?


Isso é o que nós chamamos no governo federal de regulamentar a lei. Você faz a lei e depois tem que regulamentá-la.  E é na regulamentação que você estabelece os papéis e as funções. Porque a questão da violência contra as mulheres é uma questão que é responsabilidade das diversas pastas. Então, você tem a questão da educação, de pensar na escola, a questão da saúde, da assistência social, do Conselho Tutelar, etc. Como é que você envolve os diversos setores da política pública para pensar esses órfãos e essas crianças? Porque, uma vez estabelecidos os papéis, aí cada um tem que cumprir a sua função.


Acho que isso é muito importante, porque as experiências nos estados, que acontecem na localidade, no território, são fundamentais para a gente ter uma visão a nível nacional. As políticas públicas acontecem, e nós fazemos as diretrizes, mas quem as executa é o estado e o município. Segurança pública e Justiça é responsabilidade do Estado e a assistência social, a educação e a saúde, do município.

Recentemente, o ministério começou a ter ações em jogos de futebol, com faixas, por exemplo, para combater a misoginia nesse meio. Vocês pretendem criar outras ações nesse sentido? Como parcerias com empresas para promover a igualdade de gênero e raça?


A gente tem uma parceria com a iniciativa Brasil Sem Misoginia. Porque a perspectiva é você combater o ódio contra as mulheres no País. Nós temos hoje o aumento do feminicídio, e não vamos negar isso. 
Temos o aumento da violência sexual, da violência física, das denúncias da Lei Maria da Penha, e a violência política de gênero é muito forte. Isso tudo é uma questão do ódio que se expressa por meio da violência. Portanto, nós pensamos no Brasil Sem Misoginia para enfrentar a violência e o feminicídio.


Ainda não chegamos a pactuar discussão sobre igualdade, até porque a gente ainda não deu conta de fazer o processo inicial. Nós firmamos a parceria e iniciamos [ações] em alguns campeonatos, mas não entramos ainda nos grandes campeonatos brasileiros – e queremos muito entrar na Libertadores. Queremos fazer ações de massa dentro de todos os campeonatos que se tem pelo Brasil.


Por um outro lado, a nossa principal pauta e parceria tem sido com as torcedoras organizadas dos times. Elas que estão fazendo o debate, as pautas e esse enfrentamento. Eu acredito que pode ser que, em 2025, a gente consiga chegar na questão da igualdade.

Assine o Correio do Estado

CAMPO GRANDE

Semed defende escola e denúncias envolvendo merenda viram 'guerra de versões'

Para a Pasta da Educação da Capital, registros de "casos isolados" de crianças com "indisposição gástrica em dias distintos" não teriam associação com a alimentação escolar

13/09/2026 17h30

Para os pais há uma sobrecarga no time de merendeiras e Semed diz que escola integral só possui duas profissionais na cozinha, escaladas conforme turno e demanda

Para os pais há uma sobrecarga no time de merendeiras e Semed diz que escola integral só possui duas profissionais na cozinha, escaladas conforme turno e demanda Marcelo Victor/Correio do Estado

Continue Lendo...

Após novas reclamações de crianças sobre o aspecto da merenda, a Secretaria Municipal de Educação (Semed) de Campo Grande saiu em defesa da escola municipal integral de Campo Grande contra as denúncias feitas por pais e responsáveis, o que faz com que os casos de supostas intoxicações causadas por alimentação escolar indevida tornem-se uma "guerra de versões" na Capital. 

Há cerca de uma semana voltaram a pipocar denúncias contra a Escola Municipal Hilda de Souza Ferreira, com pais indicando que seus filhos voltaram a passar mal, reclamaram da merenda, citando até mesmo existência de um suposto 'quadrado da disciplina' que aconteceria em sala de aula, após a Semed afirmar em um primeiro momento que a alimentação escolar na Rede Municipal (Reme) segue protocolos rigorosos de recebimento, armazenamento, preparo e distribuição, com acompanhamento técnico permanente.

Questionada sobre os novos casos citados na primeira semana de setembro, a Pasta reforçou através da Superintendência de Alimentação Escolar (Suale) que averiguou todas as denúncias relacionadas à alimentação oferecida na unidade e saiu em defesa da Escola Municipal Hilda de Souza Ferreira.

Após novos relatos de pais alegando que seus filhos vomitaram em casa após comerem, por exemplo, frutas impróprias para o consumo na merenda escolar, a Pasta da Educação de Campo Grande afirma que os registros apurados seriam referente a "casos isolados" de crianças que apresentaram "indisposição gástrica em dias distintos". 

"Sem evidências de relação entre as ocorrências ou de associação com a alimentação escolar. Dessa forma, os episódios não caracterizam um problema recorrente ou específico da cozinha da unidade ou mesmo da alimentação ofertada", complementa a Semed em nota. 

Guerra de versões

Com medo de sofrer mais represálias, as mães e pais que preferem não se identificar descrevem alguns ocorridos com seus filhos segundo o que escutam das próprias crianças. Eles reclamam que a escola tem sido "mascarada" para receber as visitas da Semed, já que as intercorrências voltam a acontecer com o passar dos dias. 

Para os pais e responsáveis há uma sobrecarga inclusive no time de merendeiras, já que a unidade estaria com colaboradores em falta. 

Conforme a Semed, essa unidade que oferece ensino integral em Campo Grande atualmente conta somente com duas merendeiras responsáveis pelo preparo e pela distribuição, que obviamente seriam organizadas em escalas conforme os turnos e demandas da escola, não havendo portanto mais do que uma profissional por período.  

Ainda assim, a Semed reforça que a cozinha escolar e os procedimentos de recebimento, armazenamento, preparo e distribuição dos alimentos "são acompanhados semanalmente pelas nutricionistas da Suale, que prestam orientação técnica à equipe e verificam as condições higiênico-sanitárias e operacionais do serviço".

Isso porque os responsáveis pelos alunos da E.M Hilda de Souza alegam ainda ter dificuldade ao buscarem respostas e explicações junto à direção e coordenação do colégio, sem ter o conhecimento de como estão as questões de higiene no local, e temem por não terem retorno do corpo gestor sobre, por exemplo, como poderia estar a situação até mesmo da caixa d'água da escola, o que poderia estar causando as indisposições nos estudantes.

"A Semed e a Suale permanecem atentas às manifestações da comunidade escolar e mantêm o acompanhamento contínuo das unidades, adotando as providências necessárias sempre que alguma situação nos é comunicada", conclui a Semed em nota. 

 

Assine o Correio do Estado

        

INVESTIGAÇÃO | MPMS

Esquema da Santa Casa tinha servidores públicos para saques milionários

Funcionários públicos de pastas como Planurb e Agems movimentavam volumes incompatíveis com sua renda formal, diretamente envolvidos em tramóia que desviou cerca de R$5 milhões

13/09/2026 17h00

Santa Casa afirmou que atendimentos à população seguem normalmente.

Santa Casa afirmou que atendimentos à população seguem normalmente. Paulo Ribas/Correio do Estado

Continue Lendo...

Apontados por suposto envolvimento no "esquema da Santa Casa", em que seis pessoas da alta cúpula estão presas por suspeita do desvio de cerca de R$5 milhões, servidores públicos de pastas estaduais e municipais são listados na tramóia por fazerem saques incompatíveis com suas rendas formais que acumulam quantias milionárias.

Ainda nas primeiras horas de sexta-feira (11) foi deflagrada a Operação Antidotum, pelas equipes dos grupos Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), para cumprimento de seis mandados de prisão preventiva e 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia (GO).

Vale lembrar que, após o resultado da audiência de custódia realizada na manhã de ontem (12), a Justiça manteve presa a cúpula da Santa Casa pelo suposto desvio de R$ 4,9 milhões, o que envolve nomes como: 

  1. da presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima;
  2. do diretor administrativo, Alessandro Dias Junqueira;
  3. do diretor-adjunto de Finanças, Paulo Guilherme Gutierrez Mariosa;
  4. do ex-diretor de Finanças, Rinaldo Hakme Romano;

Para além das "chefias" que comandavam a caneta do maior hospital do Mato Grosso do Sul, seguem presos ainda a funcionária responsável pelo setor de prontuários, Monique Gregório de Oliveira, e o empresário Maurício Benites.

Porém, conforme consta nos autos do processo que trata da investigação criminal sobre a Santa Casa e supostos desvios de dinheiro feitos através de contratações fraudulentas, as suspeitas indicam que esse esquema criminoso contava com "teias" que se estendiam por diversas pastas, de âmbito estadual e municipal, bem como o emprego de servidores públicos para saques incompatíveis com suas devidas remunerações. 

Entenda o esquema

Dando "nome aos bois", Alir Terra é inicialmente apontada por manter funcionários em posições estratégicas de diretores e funcionários, que auxiliavam e sustentavam a contratação fraudulenta de empresas. 

Além de um processo "estruturado sem estudo técnico, termo de referência, análise de viabilidade ou demonstração de vantajosidade", também teria ficado comprovado que a execução desses acordos aconteceu em um volume muito inferior ao contratado, sendo feitos pagamentos "sem correspondência com os serviços efetivamente prestados".

Segundo consta nos autos do processo, a relação entre Alir e Paulo Duarto da Cruz, não seria meramente institucional, e ambos manteriam sociedade profissional com atuação conjunta em escritório de advocacia, compartilhando estrutura instalada em imóvel pertencente à presidente da Santa Casa. 

A primeira contratação teria ocorrido em agosto de 2023, com as empresas em nome do sócio inseridas progressivamente para atuar em etapas da operação do plano de saúde, o que incluía, por exemplo: 

  •  assessoria jurídica, 
  •  telemedicina,
  •  atendimento, 
  •  cobrança, 
  •  emissão de boletos, 
  •  comercialização de planos, 
  •  administração de beneficiários, 
  •  entrevistas qualificadas, e mais. 

Para executar e manter essas contratações, Alir Lima contava com auxílio da nomeada para administrar a Operadora Santa Casa Saúde, Beatriz Lemes da Silva, investigada esse que teria formalizado contratos com as empresas em nome de Paulo Duarte, viabilizando pagamentos e retendo do Conselho Fiscal os contratos originários, notas fiscais, relatórios de execução, memórias de cálculo e demais documentos necessários à fiscalização. 

Nesse esquema, somente em 2025, as empresas em nome de Paulo, sócio de Alir, somaram R$9.617.738,49 em repasses recebidos, exercício em que a operadora acumulou R$3.555.901,12 de resultado negativo.

Entre os alvos da investigação aparecem ainda a RedValue Tecnologia, que mesmo diante de recomendação expressa do Conselho Fiscal para suspensão do contrato e com a presidente da Santa Casa formalmente cientificada das irregularidades, Alir teria mantido a relação com a empresa comandada por Maurício Aparecido Benites. 

"No contrato celebrado com a REDVALUE TECNOLOGIA, o Conselho Fiscal da Santa Casa constatou que os pagamentos realizados não correspondiam à produção efetivamente comprovada. Diante da discrepância, seu Presidente encaminhou, nos dias 20 de março e 10 de abril de 2025, ofícios à Supervisora do Serviço de Arquivo Médico e Estatística, MONIQUE GREGÓRIO DE OLIVEIRA, responsável pelo setor em que os serviços de digitalização eram executados e controlados", cita trecho dos autos do processo. 

Sendo questionada sobre informações objetivas dos procedimentos de medição, conferência e fiscalização do contrato. Monique não teria respondido às requisições, omitindo justamente os dados necessários para confrontar a quantidade de páginas digitalizadas com os valores pagos à Redvalue, omissão essa que, segundo o Ministério Público Estadual (MPMS) impediu que o órgão fiscalizador tivesse acesso aos registros produzidos no setor diretamente responsável pela execução material do serviço.

"Não se tratou de informação periférica. Foram sonegados os elementos que permitiriam aferir a quantidade efetivamente digitalizada, os períodos de execução, os lotes processados e a correspondência entre o serviço prestado e as notas fiscais pagas", complementa trecho do documento.

Como bem ilustra a investigação, outras empresas seriam supostamente consultadas no processo de cotação, porém, cadastros empresariais esses que seriam do próprio Maurício, evidenciando assim o vínculo que levanta fortes indícios de simulação de concorrência para legitimar a contratação previamente direcionada. 

Além da beneficiada RedValue, teriam sido consultadas também a Ex Be Finance & Tecnology e a Infortech Informática Ltda., todas possuindo ligação com Maurício, que apresenta-se como fundador e CEO de uma e dirigente na outra. 

Funcionários públicos

Montado o esquema interno para direcionar as concorrências, e estabelecidas as "alianças" que seriam as beneficiadas através desse suposto desvio de recursos, e para além dos "arranjos" entre a cúpula do esquema criminoso e seus respectivos "capangas" que serviam para ocultar os rastros e dificultar as fiscalizações, até mesmo funcionários públicos serviam para movimentar quantias. 

Com as contas das empresas servindo de "passagem", apenas para apenas receber as quantias posteriormente retiradas em espécie ou transferidas para empresas e pessoas físicas, esse núcleo comandado por Maurício evidenciava uma dinâmica típica de pulverização e desvio de verbas. 

Segundo o MPMS, a exemplo de pagamentos feitos em 15 de maio e 25 de junho, o dinheiro público não permanecia na conta da empresa para financiar o objeto contratual, sendo imediatamente convertido em espécie e dispersado entre pessoas previamente vinculadas ao grupo, seguindo padrões de valores previamente estabelecidos. 

Além de empregados das empresas de Maurício, que tinham remunerações mensais de R$2,4 mil mas chegavam a realizar 16 saques, entre julho de 2024 e maio de 2025, que somavam R$675.999,98, os funcionários públicos também eram empregados para saques que totalizaram quantias milionárias. 

Tatiana Rodrigues de Souza seria uma dessas funcionárias públicas, servidora lotada na Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Mato Grosso do Sul (Agems). 

Remunerada mensalmente com R$11.504,66, ela teria realizado oito saques em espécie entre julho de 2024 e maio de 2025, somando uma quantia de mais de meio milhão (R$575.380,00). Como consta nos autos, sem relação com sua renda formal, o volume a colocaria "diretamente no circuito de conversão dos recursos em numerário".

Logo após a operação, na sexta-feira, a Santa Casa informou que estava colaborando com as autoridades e aguardava acesso aos autos para conhecer oficialmente o conteúdo das acusações .Na ocasião, a instituição também afirmou que os atendimentos à população seguiram normalmente.

Um dia depois, a nova nota reforçou a continuidade dos serviços e acrescentou a manifestação de solidariedade do Conselho de Administração aos integrantes da diretoria.

 

Assine o Correio do Estado

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).