PAULO CRUZ
Boas ideias sempre acabam sendo copiadas e, às vezes, até melhoradas. No mundo dos automóveis isso é muito comum. O que é sucesso em uma marca acaba aparecendo em outra. A Volkswagen, por exemplo, viu que a receita de sucesso da picape Fiat Strada, que adotou adereços para ficar com jeitão de off-road na linha Adventure, deu certo e tratou de adotar o mesmo estilo na Saveiro, com a versão Cross. A Peugeot também “entrou na lama” com a picape Hoogar Scapade. O que todas têm em comum é o apelo visual. Embora com nomes sugestivos, nenhuma delas tem aptidões para o fora-de-estrada. Apenas a Strada Adventure Locker, que tem um sistema que bloqueia o diferencial dianteiro, proporciona uma desenvoltura maior em terrenos difíceis.
A Saveiro Cross, alvo desta matéria, segue a receita mercadológica da concorrência: suspensão reforçada, pneus de uso misto e apliques visuais jipeiros. Além disso, trata-se da versão mais completa e sempre na configuração cabine estendida – também invenção da rival, que deu um passo à frente com o lançamento da Strada cabine dupla. Apesar de pouco original, a estratégia deu resultado. Lançada em março, Cross já responde por mais de 10% das vendas totais da Saveiro. E ajudou o modelo a retomar a vice-liderança do segmento, antes nas rodas da Chevrolet Montana. Agora, à sua frente, só aparece a Strada. A picape Agile, que será lançada no fim do mês, vai engrossar a briga.
O modelo da VW parte dos R$ 43.794 e conta com uma boa lista de itens de série. Estão lá direção hidráulica, trio elétrico, regulagem de altura do banco do motorista, alarme na chave tipo canivete, parasóis com espelho iluminado, iluminação do compartimento de carga, ajustes de altura e de profundidade do volante, computador de bordo, sensor de obstáculos traseiro, entre outros. Fica mais barato que a Fiat Strada Adventure Locker, que parte de R$ 48.460, sem oferecer retrovisores elétricos, sensor de estacionamento ou ajustes do banco, mas que conta com ar, estribos e janela traseira corrediça de série, além de bloqueio eletrônico do diferencial dianteiro. E pouca coisa mais em conta que os R$ 43.328 da Hoggar Escapade, que só tem cabine simples e oferece ar e estribos a mais, mas só oferece como único opcional o airbag.
Com ar, airbag duplo, freios com ABS, função coming/leaving home, volante multifuncional e rádio/CD/MP3 com entradas USB e SD card e conexão Bluetooth passa dos R$ 48 mil.
Visual
Por fora, a versão aventureira da picape da Volks conta com os apliques típicos do chamado “off-road light”. Molduras pretas nos paralamas, na saia dianteira e nas laterais, bagageiro que forma uma espécie de santantônio na ponta do teto, pneus de uso misto 205/60 em rodas de liga-leve aro 15, spoiler traseiro, faróis e lanterna de neblina e capota marítima.
Visualmente, a Saveiro conta com um estilo que, se não é ousado, pelo menos é mais moderno que a principal rival da Fiat, apesar de a Hoggar ser bem mais arrojada. Na frente, a picape da Volkswagen conta com o mesmo desenho do Gol, com faróis angulosos e com desenhos irregulares, grade trapezoidal e capô abaulado com duas saliências, reforçados pelos apliques jipeiros da versão Cross. Nas laterais, a linha de cintura levemente em cunha “combina” com um pequeno vinco na parte inferior da lataria. Na traseira, um visual bem simples, com lanternas predominantemente horizontais de contornos arredondados.
No motor, a Saveiro também não empolga. Usa o manjado motor EA-111 VHT 1.6, que gera 101 cv de potência com gasolina e 104 cv com etanol a 5.250 rpm e torque máximo de 15,4 e 15,6 kgfm aos 2.500 giros. A Hoggar Escapade tem um 1.6 16V de 111/113 cv, enquanto a Strada Adventure conta com o 1.8 de 112/114 cv.
Ponto a Ponto
Desempenho
O veterano motor 1.6 confere uma performance correta à picape da Volkswagen quando vazia. Afinal, são 1.074 kg e os 104 cv – com etanol – emprestam certa agilidade ao modelo. O propulsor responde bem às investidas no pedal do acelerador e as relações curtas das duas primeiras marchas contribuem para um zero a 100 km/h em competentes 10,7 segundos.
Estabilidade
Os pneus de uso misto e os amortecedores melhor calibrados na traseira garantem um comportamento dinâmico bem mais interessante à versão Cross, mesmo na comparação com as outras configurações da linha.
Consumo
O modelo avaliado fez a média de 7,1 km/l com etanol e uso 2/3 na cidade.
Conforto
A configuração Cross parece mais bem acertada e melhor calibrada, o que significa uma melhor filtragem das irregularidades das nossas esburacadas pistas. Mesmo assim, em trechos mais acidentados e de terra, os sacolejos dentro do habitáculo são inevitáveis. O espaço para pernas é o normal para um compacto, com limitações para os joelhos, enquanto o vão para cabeças é beneficiado pela boa altura do modelo. Atrás dos bancos cabem malas pequenas. O isolamento acústico falha já aos 100 km/h.
Acabamento
A Saveiro Cross conta com um acabamento bastante simples. Os revestimentos de painéis, portas e bancos são até agradáveis aos olhos e ao tato, mas há abuso de peças plásticas, uma espécie de regra dentro do segmento de compactos.
Design
A Saveiro é uma das mais moderninhas no segmento e usa a frente do Gol. A traseira, contudo, é bastante comportada e no visual geral o modelo não oferece qualquer arrojo ou ousadia, como é de praxe na maioria dos modelos da Volkswagen. Mas a versão Cross reforça a robustez com os apliques visuais que remetem ao fora-de-estrada.
Custo/benefício
A Cross usa a estratégia da roupagem aventureira para fazer frente aos outros pseudo-off-road do segmento, como Hoggar Escapade e Strada Adventure. Parte dos R$ 43.794 reúne uma boa lista de itens de série e fica bem competitiva perante seus rivais. Além disso, é um modelo que chama a atenção nas ruas e confere uma boa imagem a quem está a bordo.
Motor 1.6 responde bem
Uma das boas formas de avaliar um automóvel é pelo comentário das pessoas, pelo menos visualmente. Nesse aspecto, a Saveiro Cross faz bonito. A fantasia jipeira atrai muitos olhares e passa uma sensação de robustez, que também pode ser conferida no desempenho. Com suspensão reforçada, amortecedores recalibrados e pneus de uso misto, a Cross se mostra bem mais interessante que o restante da linha. Primeiramente pela estabilidade. A Saveiro Cross é mais acertada nas curvas, não faz menção de sair de frente e torce a carroceria dentro da normalidade. Além disso, o modelo não sofre com ventos laterais.
O conforto também é beneficiado. Enquanto as versões da picape compacta, como a Trooper, sofrem nas buraqueiras das nossas ruas, sem absorver bem as irregularidades, a Cross é melhor ajustada e lida bem com os terrenos acidentados. Mas é bom lembrar que, em pisos mais severos, os ocupantes sofrem. E melhor ainda não esquecer que, apesar da proposta visual fora-de-estrada, esta configuração da Saveiro só tem ganho de força e resistência para trechos menos amistosos, mas não tem itens realmente off-road, como tração 4X4 ou diferencial blocante, o que a capacitariam para uma trilha leve.
Na estrada a picape da Volks mostra desenvoltura. Os 104 cv garantem arrancadas satisfatórias, com um zero a 100 km/h em 10,7 segundos. Um desempenho competente ajudado pelo peso da picape de pouco mais de uma tonelada – e pelo câmbio muito bem escalonado, com relações curtas entre a primeira e segunda e entre a segunda e terceira marchas. Na hora de encarar trechos de subida e ultrapassagens, a Saveiro garante boas retomadas. O motor enche já nas 2.500 rotações e otimiza a performance do modelo.
A vida a bordo oferece o que se espera de um modelo do segmento dos compactos. Espaço limitado para pernas e acabamento com algumas falhas aparentes. O teto elevado da Saveiro aumenta a sensação de amplitude a bordo e a posição elevada de dirigir facilita a vida do motorista. A ergonomia é razoável – o ajuste de altura do banco do motorista é tosco – e o modelo conta com um câmbio com engates precisos e relações curtas. No consumo, a Saveiro se junta aos modelos flex “beberrões” contemporâneos e anotou a média de 7,1 km/l de álcool com uso 2/3 na cidade e 1/3 na estrada.

