O arquiteto e urbanista chinês Kongjian Yu, considerado uma das maiores autoridades globais em planejamento urbano sustentável, morreu nesta terça-feira, 23, em um acidente de avião no Pantanal, interior do Estado. Também estavam a bordo e não resistiram os documentaristas brasileiros Luiz Fernando Feres da Cunha Ferraz e Rubens Crispim Jr., além do piloto Marcelo Pereira de Barros.
A visita de Yu ao Brasil tinha caráter simbólico. Criador do conceito de “cidade-esponja”, estratégia urbanística que busca reduzir enchentes e adaptar as metrópoles às mudanças climáticas por meio da ampliação de áreas verdes e permeáveis, o arquiteto estava no País para participar da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, organizada pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), e para gravar cenas de um documentário sobre sua proposta.
Na última sexta-feira, 19, Yu falou por duas horas na abertura da bienal, em uma palestra marcada por entusiasmo e forte repercussão entre arquitetos, urbanistas e ambientalistas. Poucos dias depois, partiu rumo ao Pantanal, onde planejava registrar imagens e conhecer de perto o funcionamento do maior bioma alagado contínuo do mundo, que considerava um “modelo natural de cidade-esponja”.
Comoção e repercussão mundial
A notícia da morte gerou ampla comoção. O Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) manifestou “profundo pesar”, lembrando que “Yu deixou um legado monumental e urgente para o enfrentamento das crises climáticas nas cidades”. O Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil também lamentou a perda, ressaltando que ele foi “uma das maiores referências do planejamento urbano sustentável, promovendo a convivência harmoniosa entre infraestrutura e ecossistemas naturais”.
Autoridades brasileiras se manifestaram publicamente. O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, afirmou que Yu era “um grande e estratégico parceiro do Brasil sustentável”, lembrando que ele esteve no País em 2024 para um evento da instituição. Já o vice-presidente Geraldo Alckmin declarou que “seu legado continuará inspirando todos que se dedicam à causa ecológica”.
A tragédia repercutiu também na imprensa internacional, sendo noticiada por veículos como o jornal britânico The Guardian e a agência de notícias Reuters, que destacaram tanto a carreira inovadora de Yu quanto a relevância de sua visita ao Brasil.
Relatos de colegas e admiradores
Amigos e parceiros que estiveram com Yu nos últimos dias destacaram o impacto pessoal e profissional da perda. A presidente do IAB, Raquel Schenkman, contou que esteve com ele em um almoço recentemente. “Eles estavam superanimados justamente para ver o Pantanal. Ele queria entender como o conceito das cidades-esponjas se aplicava ali. É uma tragédia.”
O urbanista e vereador paulistano Nabil Bonduki (PT), entrevistado por Yu para o documentário, reforçou que a visita ao bioma brasileiro era um sonho antigo do arquiteto. “Para ele, o Pantanal era um bioma-esponja, estruturado exatamente pela regeneração das águas”, relatou.
O professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e curador da bienal, Renato Anelli, que acompanhou Yu em gravações em São Paulo, destacou a dimensão da perda. “É inimaginável para o mundo inteiro, ainda mais com o aquecimento global”, disse. Ele recordou que, em cada visita — do Vale do Anhangabaú à Cidade Universitária, passando pela Casa de Vidro Lina Bo Bardi — Yu fazia observações sobre como seria possível melhorar a absorção de águas e aumentar a resiliência urbana.
O legado do “arquiteto das águas”
Nascido na China, Yu se tornou referência mundial ao transformar áreas degradadas em ambientes resilientes e integrados à natureza. Sua obra mais emblemática talvez seja em Xangai, onde recuperou margens de rios poluídos, substituindo áreas impermeáveis por parques e vegetação, permitindo que a água retomasse seu curso natural.
Seu conceito de cidade-esponja não é uma simples intervenção pontual, mas uma política pública de grande escala, voltada para enfrentar as consequências da urbanização acelerada e das mudanças climáticas. Em vez de apostar apenas em infraestrutura cinza — como canais e diques —, Yu defendia o uso da própria natureza como aliada, tornando cidades mais habitáveis, seguras e sustentáveis.
Nos últimos anos, seu trabalho influenciou governos, universidades e instituições internacionais. Em diferentes países, projetos inspirados em suas ideias têm sido aplicados para combater enchentes e criar uma nova relação entre vida urbana e ecossistemas.
Um sonho interrompido
No Brasil, Yu buscava entender como o Pantanal poderia dialogar com seu conceito de cidade-esponja. Parhinês Kongjian Yu, professor da Universidade de Pequima ele, o bioma era um laboratório natural da regeneração das águas, um exemplo de equilíbrio que poderia inspirar novas soluções urbanísticas no mundo inteiro. Sua morte interrompeu esse sonho, mas deixou uma herança intelectual e prática que continuará moldando debates sobre sustentabilidade e planejamento urbano nas próximas décadas.
Ao Correio do Estado, Amylcar Eduardo Paracatu Romero, delegado titular em Aquidauana destacou ao Correio do Estado que foram colhidos material genético nos corpos do três brasileiros. A polícia aguarda os familiares das vítimas para o desembaraço dos procedimentos legais. Por questões culturais, Kongjian Yu aguarda familiares para passar por exames necroscópicos.
*Com informações de Estadão Conteúdo


