Correio B

crônica

A canja de galinha

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Ela jazia bem na minha frente, sobre o mármore frio da pia. Havia mais de trinta anos que eu não lidava com aquela situação. Mas, por uma boa causa, ofereci-me para fazer uma canja de galinha caipira. 

Comprei a ave de um senhor que cria galinhas no sítio onde mora e as alimenta com produtos orgânicos. Ao vê-la ali, tão indefesa, completamente nua e ainda com alguns vestígios escurecidos de penagem, quase vacilei.

Tive que recorrer à memória. Lembrei-me da minha ex-sogra me ensinando a cortar uma galinha. Eu tinha dezenove anos quando realizei a tarefa pela primeira vez.

— Siga sempre com a faca pelas juntas — ensinava ela.

Naquela época era até divertido. Eu sentia certo orgulho das minhas habilidades recém-adquiridas. Conseguia separar coxas, sobrecoxas, asas e peito sem grandes dificuldades. Era quase um ritual de passagem para a vida adulta. Mas isso foi antes. Bem antes da decisão de não comer mais carne.

Por isso, quando encostei a faca naquela coxa rígida, precisei respirar fundo. Havia alguém doente precisando de proteína e, principalmente, com um enorme desejo de saborear um caldo espesso, daqueles que parecem carregar junto um pouco de conforto, cuidado e esperança.

As galinhas criadas soltas no quintal produzem um caldo diferente. Mais encorpado, mais perfumado, mais próximo das lembranças. Não por acaso, dizia-se antigamente que canja de galinha curava tudo, até espinhela caída.

Lembrei-me do ditado enquanto avançava nos cortes. Retirei quase toda a pele, limpei os vestígios de sangue, mas deixei os miúdos — recomendação expressa do amigo que receberia a encomenda.

Também resisti à vontade de lavar a ave com água e sabão, como se fazia antigamente. Hoje os especialistas garantem que isso não é recomendável. Tanta coisa mudou nesses tempos vegetarianos.

Gastei quase uma hora entre cortar, limpar e organizar os pedaços. Depois vieram os temperos, todos juntos na panela, acompanhados da cúrcuma que empresta ao refogado uma cor dourada e acolhedora. Aos poucos, o cheiro foi tomando conta do apartamento.

Enquanto o caldo cozinhava lentamente, a cozinha se enchia de memórias. Cozinhar tem dessas coisas: mistura ingredientes e recordações na mesma panela.

Quatro horas depois entrou o arroz, complemento indispensável para uma canja respeitável. Por último, o cheiro-verde. 

Confesso que senti um certo orgulho do trabalho concluído.

Coloquei uma parte em um recipiente de vidro com tampa, envolvi-o em um pano de prato e chamei um carro de aplicativo.

Está aqui sua canja raiz!

Ele me olhou sorrindo e disse que comeria mais tarde. Estava sem fome.

Voltei para casa pensando que, no congelador, ainda havia metade de uma galinha caipira pronta para ser servida. Mas para quem?

Mineiro adora fartura. E as vezes, quase sempre, exagera.
 

COMA BEM E SEJA SOLIDÁRIO

Cotolengo promove 19° Festa do Porco no Rolete em julho; veja a data

Valor do ingresso é R$ 60 antecipado e R$ 70 na hora; crianças de até 6 anos não pagam

06/07/2026 15h30

Sede do Cotolengo, localizada na rua Jamil Basmage, número 996, Mata do Jacinto, em Campo Grande

Sede do Cotolengo, localizada na rua Jamil Basmage, número 996, Mata do Jacinto, em Campo Grande GERSON OLIVEIRA

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Cotolengo Sul-mato-grossense estará de portas abertas, neste fim de semana, para receber os campo-grandenses com um almoço delicioso e cheio de propósito.

19° Porco no Rolete ocorrerá neste domingo (12), a partir das 11h30min, na sede da instituição, localizada na rua Jamil Basmage, número 996, Mata do Jacinto, em Campo Grande.

O valor do ingresso é R$ 60 antecipado e R$ 70 na hora (portaria). Crianças de até 6 anos não pagam.

Na ocasião, é possível comer bem e ainda ser solidário. Interessados em comparecer a festa devem entrar em contato com os números (67) 99693-1080 ou (67) 3358-4848.

No evento, haverá pratos e talheres que poderão ser levados para casa como recordação. Não haverá distribuição de marmitex.

A renda arrecadada será revertida para a manutenção dos serviços prestados pela instituição, que cuida de crianças, adolescentes e adultos com paralisia cerebral grave.

O último evento realizado pelo Cotolengo foi o Costelão Fogo de Chão, no dia 12 de abril de 2026, em comemoração aos 30 anos da instituição.

COTOLENGO

A Instituição Cotolengo Sul-Matogrossense foi fundada em 20 de julho de 1996 pela Pequena Obra Divina Providência, congregação religiosa fundada por São Luís Orione.

A sede, de 31.361,70 m², está localizada na rua Jamil Basmage, 996, bairro Mata do Jacinto, em Campo Grande (MS).

A equipe é composta por médico pediatra, enfermeira, atendentes, psicóloga, assistente social, fonoaudiólogas, fisioterapeutas, nutricionista clínica, pedagogas e terapeuta ocupacional.

A missão é acolher pessoas com necessidades especiais de qualquer idade, gênero, raça e religião. Geralmente, atende crianças, adolescentes e adultos com paralisia cerebral grave e opera uma Residência Inclusiva e um Centro Especializado em Reabilitação (CER) voltado à pessoas com deficiência.

O objetivo é a promoção humana, reabilitação e inclusão social.

Realiza atendimentos nas áreas de: Terapia Ocupacional, Pedagogia, Psicologia, Fisioterapia Motora, Fisioterapia Respiratória, Fonoaudiologia, Serviço Social, Nutrição, Médico e Enfermagem.

Para custear os atendimentos, a instituição promove eventos beneficentes (bazares e o Porco no Rolete) e recebe apoio de empresas privadas, governo de Mato Grosso do Sul, Prefeitura Municipal de Campo Grande e Receita Federal (por meio de repasses do Imposto de Renda direcionado à instituições sociais).

memória

Documentário conta a história da primeira prefeita da Capital

Produção da TV Câmara reúne depoimentos e imagens históricas cedidas pelo Correio do Estado para resgatar a trajetória de Nelly Bacha, professora, vereadora e prefeita interina de Campo Grande

06/07/2026 08h30

Nelly Bacha é descrita por familiares e colegas como uma mulher combativa e à frente de seu tempo

Nelly Bacha é descrita por familiares e colegas como uma mulher combativa e à frente de seu tempo Arquivo/Correio do Estado

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Arrancar um pedaço de asfalto recém-construído, levá-lo para dentro da Câmara Municipal de Campo Grande e colocá-lo sobre a mesa durante uma sessão.

A cena, lembrada por familiares mais de quatro décadas depois, talvez seja a que melhor sintetize a personalidade de Nelly Bacha.

Professora, sindicalista, vereadora, presidente da Câmara Municipal da Capital e a primeira mulher a assumir a Prefeitura de Campo Grande, ela fez da fiscalização e do enfrentamento sua marca na política.

A TV Câmara lançou na semana passada uma edição especial do programa “Memórias da Câmara”, dedicada à trajetória de Nelly Bacha, reunindo depoimentos de familiares, ex-assessores e políticos que dividiram com ela os principais momentos da vida pública.

O documentário, disponível no site da Câmara Municipal de Campo Grande, também recupera imagens históricas cedidas pelo Correio do Estado, cujo acervo ajudou a reconstruir visualmente momentos marcantes da carreira da ex-vereadora.

Produzido dentro do projeto Memórias do Legislativo Municipal – Resgate Histórico da Câmara de Campo Grande-MS, o documentário preserva não apenas a memória de uma parlamentar, mas também de uma época em que poucas mulheres ocupavam espaços de poder e em que fazer oposição à ditadura militar exigia coragem.

DA ESCOLA PARA A POLÍTICA

Nascida em Corumbá, emno dia 2 de agosto de 1941, Nelly Bacha chegou ainda criança a Campo Grande, cidade onde construiria sua história.

Muito antes de disputar eleições, sua atuação já chamava a atenção na educação. Professora da Escola Estadual Maria Constança Barros Machado, formou-se em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) e, posteriormente, em Direito pela antiga FUMAT. Também presidiu a Associação Campo-Grandense de Professores (ACP), período em que intensificou a defesa da valorização dos docentes. A educação, aliás, nunca deixou de ser a sua principal bandeira.

Segundo a cunhada, Marina Bacha, ela acreditava que transformar a sociedade passava, necessariamente, pela escola.

“Ela incentivava as mães a levarem os filhos para estudar, lutava por melhores condições para os professores e acreditava que a educação podia mudar o mundo”, afirma no documentário.

Essa preocupação levou Nelly a criar clubes de mães para aproximar as famílias das escolas, além de defender a capacitação profissional para docentes e melhores condições de trabalho para a categoria.

UMA VEREADORA ATUANTE

Quando foi eleita vereadora, em 1972, Nelly Bacha tornou-se a terceira mulher a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de Campo Grande. Mas rapidamente mostrou que não seria apenas mais um nome entre os parlamentares.

A advogada Elenice Carille, que trabalhou ao seu lado, lembra que a então vereadora fazia questão de conhecer de perto os problemas da cidade.

“Ela gostava de visitar os bairros, conversar com as pessoas e acompanhar trabalhos sociais. Se encontrasse um banheiro de escola sem funcionar ou qualquer outro problema, já cobrava providências. Fazia discurso na Câmara e depois ia atrás do prefeito e dos secretários”, relembra.

Era um estilo de atuação que dispensava bastidores. “Ela não gostava de política feita nos corredores. Preferia enfrentar os problemas diretamente”, pontua.

O PEDAÇO DE ASFALTO

Entre os inúmeros episódios lembrados no documentário, um se tornou símbolo da forma como Nelly fazia política.

Ao perceber que um asfalto recém-executado apresentava péssima qualidade, ela retirou um pedaço da pavimentação e levou o material para a Câmara Municipal.

Durante a sessão, colocou a pedra sobre a mesa e questionou os colegas. “É esse o asfalto que vocês querem para Campo Grande?”, indagou a então vereadora.

A história é contada por Marina Bacha, que recorda a indignação da ex-vereadora diante do desperdício de recursos públicos. “A cobrança dela era muito firme. Ela não aceitava esse tipo de situação”, conta a cunhada.

CORAGEM EM MEIO À REPRESSÃO

A atuação de Nelly Bacha ultrapassou os limites do Legislativo municipal. Ela participou da estruturação do MDB em Mato Grosso do Sul, legenda que representava a principal força de oposição ao regime militar.

Em uma época marcada pela repressão e pelo medo, sua presença nas reuniões políticas ajudava a incentivar outras mulheres a participarem da vida pública.

O ex-senador Valter Pereira lembra que poucos enfrentavam a ditadura com tanta firmeza. “A Nelly sempre foi uma mulher destemida. Ela não poupava os poderosos. Tinha formação ideológica consistente e não temia a voz grossa dos homens nem as ameaças da ditadura”, recorda.

Segundo ele, sua atuação também foi decisiva para ampliar a participação feminina no partido. “Muitas mulheres passaram a participar da militância por influência dela. Outras convenceram seus próprios maridos a se envolverem na política”, afirma.

Um dos discursos preservados pelo documentário mostra sua defesa da democratização da escolha dos prefeitos.

“Hoje Campo Grande já tem seus legítimos representantes do povo da Capital, empossados no órgão máximo de representação. Mas ainda não temos a plenitude democrática que desejamos”, discursou Nelly.

A PRIMEIRA PREFEITA

Em março de 1983, Nelly Bacha escreveu mais um capítulo da história política de Campo Grande.

Na condição de presidente da Câmara Municipal, assumiu interinamente a prefeitura, tornando-se a primeira mulher a governar a Capital.

Na época, prefeitos das capitais ainda eram indicados, e não eleitos diretamente pela população.

Embora tenha permanecido pouco mais de dois meses no cargo, familiares lembram que ela aproveitou o curto período para resolver problemas urgentes da administração.

Marina Bacha recorda que havia quatro folhas salariais atrasadas quando Nelly assumiu. “Ela colocou tudo em dia. Entendia que o servidor precisava receber para sustentar sua família”, relembra.

Também priorizou reformas e melhorias em escolas, área que continuava sendo sua principal preocupação.

O ex-governador André Puccinelli, que conviveu com Nelly naquele período, resume sua personalidade. “A Nelly era determinada. Era durona. Não levava desaforo para casa”, afirma.

RECONHECIMENTO

Para quem conviveu com Nelly Bacha, a palavra “pioneira” resume bem sua trajetória.

O ex-senador Waldemir Moka recorda que, quando chegou à Câmara Municipal, apenas duas mulheres ocupavam cadeiras entre os 21 vereadores.

“A Nelly rompeu muitas barreiras. Foi uma vereadora valente, combativa e permaneceu fiel ao MDB durante toda a sua trajetória”, pontua o colega.

Depois de deixar o Legislativo, em 1988, ela continuou participando das campanhas do partido e passou a atuar como advogada, atendendo gratuitamente sindicatos e trabalhadores, principalmente em causas trabalhistas.

LEGADO PRESERVADO

Nelly Bacha é descrita por familiares e colegas como uma mulher combativa e à frente de seu tempoApós a gestão de Nelly Bacha, Lúdio Coelho assumiu a prefeitura da Capital, em maio de 1988 - Foto: Arquivo/Correio do Estado

Durante a produção do documentário, a equipe da TV Câmara visitou Nelly Bacha em sua residência. Diagnosticada com Parkinson, ela já estava acamada havia alguns anos, mas permanecia lúcida.

Por decisão própria, preferiu não aparecer diante das câmeras. Ainda assim, acompanhou com satisfação a iniciativa de registrar sua trajetória.

Pouco tempo depois, em 8 de abril deste ano, morreu aos 84 anos. Atendendo a um desejo manifestado às cuidadoras, sua despedida aconteceu justamente na Câmara Municipal de Campo Grande, espaço onde escreveu boa parte de sua história.

Para reconstruir essa trajetória, o documentário recorreu não apenas aos depoimentos de quem conviveu com Nelly, mas também a um importante patrimônio histórico da imprensa sul-mato-grossense.

As fotografias e imagens de arquivo utilizadas na produção foram cedidas pelo Correio do Estado, permitindo que momentos marcantes da carreira da ex-vereadora voltassem a ganhar vida e aproximando o público de diferentes fases da política campo-grandense.

A edição dedicada a Nelly Bacha é a terceira produzida pelo programa “Memórias da Câmara”. Antes dela, a iniciativa resgatou a história de Oliva Enciso – primeira vereadora de Campo Grande e primeira deputada estadual de Mato Grosso antes da divisão do Estado – e do ex-vereador e ex-presidente da Câmara Antônio Braga.

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