A abertura da batalha de danças urbanas da 12ª edição do MS Dance Fest surpreendeu o público e foi um ato de resistência, afeto e consciência coletiva.
Entre os bailarinos do grupo Funk-se, um retorno sensibilizou o público com potência silenciosa: o de Kleiton Medina, integrante há mais de uma década e figura fundamental na organização do evento.Ele voltou ao palco após sofrer um grave acidente de trânsito – que quase encerrou sua trajetória como artista – e dançou em uma cadeira de rodas.
A apresentação ocorreu na noite de sábado. No camarim, após a apresentação, Kleiton relembrou o acidente de trânsito que o trouxe até aqui, ressignificando o desafio em dança. “Isso foi há quatro meses. Terminei um trabalho de dança e pedi uma moto de aplicativo.
No caminho para casa, um carro, conduzido por um motorista embriagado, avançou o sinal vermelho, no centro da cidade, e atingiu violentamente a motocicleta. Foi tudo muito rápido. Três segundos e eu já estava no chão”, conta o dançarino.
Mesmo com cirurgias e lesões, o jovem surpreendeu a equipe médica, ao permanecer apenas quatro dias internado e mostrar evolução acima do esperado.
“Sou muito ativo, sempre trabalhei com o corpo. Paralisar de repente foi difícil, mexeu com meu psicológico, mas parte da recuperação eu devo à dança, pelo meu condicionamento físico. Foi ela também que me puxou de volta e evitou uma depressão. E no MS Dance Fest senti que ainda posso me expressar, independentemente da condição física”, diz Kleiton.
Mas nem tudo foi fácil. Isso porque, até chegar ao palco do festival, Kleiton recordava o dilema de voltar ou não a dançar, considerando que a data para o evento aumentava a cada dia, enquanto a cadeira de rodas e a muleta eram corpos estranhos para um corpo até então livre.
“Eu resisti por meses. Achava que não estava bem para estar ali. A cadeira era estranha para o meu corpo, sabe? Eu sempre dancei em pé. Mas, com o passar do tempo e vendo os ensaios do grupo, entendi que dançar não é só sobre as pernas. Aí pensei: ‘Se a dança sempre foi minha forma de expressar, por que não agora?’”, reflete.
Nos ensaios finais, a emoção veio antes do movimento. “Antes mesmo de decidir me apresentar, chorava vendo os ensaios do Funk-se. Os colegas me incentivaram a dançar, mas o medo me paralisava. Eu me perguntava: ‘Por que não estou ali também?’ Foi quando falei que queria ensaiar, quis entregar minha verdade. Senti o acolhimento do público e fiz o meu máximo”, diz o dançarino.
Além de testar os seus limites, o acidente fortaleceu laços. Sem celular na hora da colisão, o primeiro nome que surgiu em sua memória foi o de um amigo da dança e, em seguida, do diretor Edson Clair, do grupo Funk-se, do qual ele faz parte.
“Acho que o acidente fortaleceu os vínculos. O celular sumiu com o impacto da batida, e o primeiro número que lembrei foi do Ennio. Preciso lembrar também do Clair. Eles foram maravilhosos, não que minha família e outros amigos fossem menos importantes, não é isso.
Porém, os dois ficaram comigo no hospital de madrugada. Isso me emocionou”, afirma Kleiton. O dançarino também agradece. “Sou grato à minha família e ao meu amigo Jonas, ele que cuidou de mim em casa, sem pedir nada em troca”, reconhece.
FAMÍLIA DE VIDA
Diretor do grupo Funk-se e idealizador do MS Dance Fest, Edson Clair acompanhou todo o processo de reabilitação de Kleiton e foi determinante para sua participação no evento, não apenas nos bastidores.
“Sabia que ele estava abalado e precisava se sentir parte.
Disse para ele: ‘Quero você trabalhando no festival com a gente o tempo todo’. Ele esteve nos bastidores, e vê-lo no palco se expressando foi emocionante. Ele está há 12 anos conosco. É família”, emociona-se Clair.
A coreografia apresentada na terceira noite do festival contou com colegas do Funk-se e convidados como Lavínia de Lucca, da Casa Sherman, Vitor Locking, Henrique Lima e Vini Gomes.
“Quando a participação dele surgiu, entendemos que não era só estética. Era mensagem. Acessibilidade não é adaptação técnica, é presença. E Kleiton provou isso”, diz o diretor do Funk-se.
Outro diferencial no palco foi o seu conhecimento em Libras. É que ele estuda língua de sinais há um ano e meio. “Libras é uma forma de se expressar. Uso muito os braços para dançar. Na cadeira, senti que meu corpo continuava potente. A dança e a língua de sinais me ajudaram a improvisar e continuar dizendo o que precisava”, afirma Kleiton.
A experiência também trouxe reflexões sobre acessibilidade urbana. “Com as limitações, senti no corpo aquilo que a gente sempre trabalha nas artes, a questão da exclusão e o quanto o espaço pode não ser democrático. As calçadas, o acesso é luta diária. Devemos olhar para isso com consciência, porque existem muitos corpos além do padrão”, defende o dançarino.
RECOMEÇO
Quanto ao acidente, Kleiton se recorda que o motorista que o causou, além de embriagado, fugiu sem prestar socorro.
“Muita gente diz ‘eu bebo, mas me controlo’. Não se trata só de você. No trânsito, estamos em sociedade. Um descuido muda vidas. Poderia ter tirado a minha e a do piloto, que está em recuperação usando gaiola e quase perdeu a perna”, alerta.
Hoje, Kleiton encara a dança como renascimento. Voltar ao palco foi uma afirmação de existência. “Ali, dançar era dizer que eu ainda estou aqui. Independentemente da condição, todo mundo pode dançar. Às vezes, a arte é o que resta quando tudo para”, observa o integrante do Funk-se.
A performance emocionou o público e deu ao festival uma mensagem potente de resistência, inclusão e verdade.
“O que importa é expressar minha verdade, mesmo com adversidades e esse universo novo que é a cadeira para mim. Embora, no meu caso, ela seja temporária, estava inteiro no palco e com pessoas que confio. A dança não conhece limites”, afirma.
A história de Kleiton Medina é um convite à empatia, ao cuidado com o outro no dia a dia e ao reconhecimento dos corpos que resistem. E uma prova de que, quando a arte se move, até a dor dança.


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