Atriz com uma trajetória já consolidada e pesquisadora feminista, Fernanda Nobre apresenta um dos projetos mais importantes de sua trajetória: a comunidade Manifesto Feminino, um espaço de escuta, estudo e transformação voltado para mulheres que desejam repensar suas histórias e ressignificar padrões impostos pelo patriarcado.
Com 34 anos de carreira na TV, cinema e teatro – e reconhecida também por sua pesquisa acadêmica sobre os mecanismos que aprisionam o comportamento feminino – Fernanda se tornou uma voz potente na discussão sobre feminismo contemporâneo. Agora, une arte, teoria e prática para criar um laboratório coletivo em que cada mulher poderá mergulhar em teoria, reflexão e ação concreta.
“O Manifesto Feminino nasce do desejo de traduzir conceitos do feminismo para a vida prática. Quero que as mulheres se reconheçam fora do roteiro que nos foi imposto e escrevam novas narrativas para si mesmas”, afirma Fernanda.
O que é o Manifesto Feminino?
É uma comunidade para mulheres onde Fernanda oferece um curso feminista online, com aulas curtas que traduzem os conceitos feministas de uma forma leve e prática para serem aplicados no dia a dia. Temas como pressão estética, amor romântico, monogamia, sexualidade feminina e relacionamento abusivos são abordados no curso e encontros online ao vivo com a Fernanda em quinze em quinze dias durante o período de quatro meses.
Entre os pilares, estão:
* Curso de Letramento Feminista: 17 aulas curtas em vídeo que traduzem conceitos de Simone de Beauvoir, Silvia Federici, bell hooks e outras pensadoras para o dia a dia.
* Encontros online ao vivo: análises conduzidas por Fernanda sobre como estruturas de opressão moldam nosso imaginário, com reflexões a partir de livros, filmes e séries.
* Diário do Despertar: exercícios que transformam a teoria em ação pessoal de autoconhecimento, convidando cada integrante a reescrever sua própria história.
O objetivo
Durante os quatro meses, as participantes terão a oportunidade de:
* Reconhecer os mecanismos invisíveis de controle que alimentam insegurança e insuficiência.
* Reescrever sua narrativa pessoal, rompendo com papéis impostos.
* Construir em coletivo uma nova forma de existir, mais livre, consciente e potente.
Para quem é
O Manifesto Feminino é para as mulheres que sentem um certo desconforto, que sofrem com pressões sociais e querem se libertar das expectativas e olhares externos. Mulheres que desejam sair do automático para despertar junto a outras.
Com uma escuta acolhedora e uma pesquisa robusta, Fernanda Nobre oferece a proposta de aproximar teoria feminista e vida cotidiana em um formato prático, profundo e transformador.
Fernanda é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana, e em entrevista ao Caderno elafala sobre carreira, projetos, TV, feminismo e muito mais.
A atriz Fernanda Nobre é a Capa do Correio B+ desta semana - Foto: Vinicius Mochizuki - Diagramação: Denis Felipe - Por: Flávia VianaCE - Depois de 34 anos de carreira, o que a atuação te ensinou sobre o comportamento feminino que te fez querer criar o Manifesto?
FN - A minha identidade está completamente atravessada pela minha profissão. Eu trabalho desde os oito anos de idade, de forma ininterrupta. Não existe um ano da minha vida em que eu não tenha estado em cena, em set ou no palco. Eu não sei quem sou sem essa profissão. A minha existência é marcada pela atuação.
Mas o que me moveu a criar o Manifesto Feminino não foi a profissão em si, foi o que o estudo do feminismo me revelou sobre mim. Entendi que, até aquele momento, por mais experiente ou reconhecida que eu fosse, eu seguia tentando caber, fazer certo, corresponder a expectativas que não eram minhas.
Foram dez anos estudando, uma pesquisa que virou mestrado na PUC-RJ, para finalmente nomear o desconforto que me acompanhava desde sempre. E quando eu nomeei, percebi que havia milhares de mulheres vivendo algo parecido, só que sem as palavras.
O Manifesto nasce para isso: para traduzir o feminismo de forma acessível, simples, sensível. Para que mulheres entendam que aquilo que elas chamam de “problema pessoal” muitas vezes é uma estrutura histórica. E que juntas a gente pode transformar isso.
CE - Você fala muito sobre os “mecanismos invisíveis de controle”. Quais são os que mais aparecem nas mulheres que buscam o curso?
FN - O mais frequente é o amor. A forma como fomos educadas para amar é a coleira mais eficiente já criada pelo patriarcado. Mulheres chegam acreditando que fracassaram no amor, quando na verdade foram doutrinadas a colocar o par romântico acima de si mesmas.
Outro mecanismo muito comum é a culpa. Culpa por trabalhar demais, por descansar demais, por desejar demais. A culpa é o alerta vermelho do patriarcado: se uma mulher tenta romper o padrão, ela apita para barrar o movimento.
E tem também a pressão estética, que é a opressão mais fácil de identificar. Não importa a idade, classe ou vivência: nós aprendemos a nos sentir insuficientes. E não por “essência feminina”, mas porque isso nos mantém obedientes e ocupadas.
CE - No curso, você analisa filmes e séries. Qual obra te ajudou a entender o feminismo na prática?
FN - Quando a mulher entra na Comunidade Manifesto Feminino, ela tem acesso a um curso feminista com 16 aulas curtinhas, de cerca de sete minutos cada, para assistir no seu tempo, no seu ritmo.
E, além disso, tem os encontros quinzenais comigo, em que aprofundamos temas que conversam diretamente com as aulas. A cada encontro eu indico leituras, filmes e séries que ajudam a expandir o pensamento e a entender como o feminismo atravessa o nosso cotidiano.
Para cada encontro com temas como amor, monogamia, maternidade, sexualidade, assedio, pressão estética, trabalho...eu tenho um conjunto de livros que foram fundamentais na construção da minha pesquisa. Mas existem três pilares que realmente me formaram: Calibã e a Bruxa, de Silvia Federici que é uma pesquisa profunda da Silvia Federici sobre a história da humanidade pela perspectiva das mulheres.
O Mito da Beleza, de Naomi Wolf que apesar dela ter se tornado uma pessoa questionável por causa de seus posicionamentos políticos, esse livro revela como a busca pela beleza é uma estratégia do sistema para nos controlar. E A Criação do Patriarcado, de Gerda Lerner que explica muito bem historicamente como o sistema hierárquico que vivemos foi criado e
Esses três livros foram, para mim, como abrir as janelas pela primeira vez depois de anos no escuro. E é isso que eu tento levar para dentro da comunidade: luz, contexto, nomeação e a possibilidade de pensar juntas.
CE - Como você enxerga o reconhecimento internacional do cinema brasileiro nos últimos anos?
FN - Para mim, esse movimento é, antes de tudo, uma prova de que a arte sobrevive às tentativas de sufocamento. O Brasil tem narrativas urgentes, complexas, belíssimas e quando o mundo olha para nós, ele não está apenas aplaudindo a nossa técnica, mas tendo a sorte de conhecer nossa cultura.
CE - Você deseja voltar a atuar em novelas? Algum tipo de personagem te atrai?
FN - Eu adoro novela. Eu cresci dentro da televisão, me sinto em casa nela. Quero voltar, sim, mas cada vez mais interessada em narrativas que provoquem alguma pergunta, que não alimentem esse roteiro invisível que aprisiona as mulheres.
Tenho desejo de interpretar personagens femininas que escapem do “manual”: mulheres contraditórias, desconfortáveis, que desobedecem. Porque é aí que a vida acontece.
CE - Você fala abertamente sobre manter um relacionamento não monogâmico com José Roberto Jardim. Como aborda esse tema no Manifesto?
FN - Eu abordo monogamia como aquilo que ela é: uma estrutura política criada para controlar a sexualidade feminina. Não falo nunca do meu relacionamento como modelo e sim como uma busca de criação de uma relação mais honesta e equilibrada. O que faço é trazer contexto histórico, social e emocional para que cada mulher entenda como foi educada a amar e a se colocar na relação.
A não monogamia, para mim, antes de ser sobre sexo ou múltiplos vínculos, é sobre autonomia. É sobre compreender que o amor não precisa ser um contrato de vigilância. Que a liberdade não destrói o vínculo, apenas o reposiciona. No Manifesto, a discussão é sempre coletiva: a gente pensa juntas sobre escolhas possíveis, limites e dores que não são individuais, mas culturais.
A atriz Fernanda Nobre é a Capa do Correio B+ desta semana - Foto: Vinicius Mochizuki - Diagramação: Denis Felipe - Por: Flávia VianaCE - Entre rotina intensa de atriz, pesquisadora e idealizadora do Manifesto, quais hobbies te ajudam a relaxar?
FN - Eu leio. Muito. Pesquiso. Parece trabalho, mas para mim é prazer, eu realmente relaxo estudando. E adoro conversar com mulheres; isso é um hobby, uma vocação e um vício.
CE - Meditação, exercícios, terapia: o que você usa para equilibrar sua intensidade?
FN - Terapia, sempre. É meu chão. Sou filha de psicanalista, faço analise desde criança. E claro, o silencio, preciso dele para voltar para mim. Sou capaz de passar dias sem ouvir musica ou ligar a tv. Sempre fiz exercicio, mas com os 40 anos estou fazendo com mais consciência de que não pode parar. E dormir... nossa, como amo dormir!!!
CE - Em relação à beleza, quais são os cuidados que você não abre mão no dia a dia?
FN - Eu cuido, claro. Corpo, pele, cabelo. Eu faço tudo o que todas nós fazemos e não por “essência feminina”, como nos venderam. Faço porque fui moldada, como todas nós, a acreditar que existe uma versão melhor de mim a ser perseguida.
A pressão estética é a opressão mais democrática que existe: atinge todas nós. Eu gasto meu tempo, meu dinheiro e minha energia com beleza muito mais do que qualquer homem ao meu redor, mas hoje faço isso consciente do lugar político que isso ocupa. A consciência não elimina a opressão, mas tira o véu.
CE - Você está em turnê com Três Mulheres Altas. Há projetos futuros no teatro ou audiovisual?
FN - A peça segue comigo até junho do ano que vem, em uma turnê lindíssima. Depois disso, há projetos em conversa, tanto no teatro quanto na TV mas, como boa atriz, só posso contar quando estiver assinado.
O que posso dizer é: eu não me separo do palco. É meu lugar de existência. Ao mesmo tempo, seguir construindo o Manifesto Feminino virou também um projeto artístico. É uma continuidade do meu trabalho, só que agora com a intenção declarada de transformar a mim e às mulheres que caminham comigo.
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