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Capa da semana B+: Entrevista exclusiva com a atriz Fernanda Nobre

"O Manifesto Feminino nasce do desejo de traduzir conceitos do feminismo para a vida prática. Quero que as mulheres se reconheçam fora do roteiro que nos foi imposto e escrevam novas narrativas para si mesmas"

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Atriz com uma trajetória já consolidada e pesquisadora feminista, Fernanda Nobre apresenta um dos projetos mais importantes de sua trajetória: a comunidade Manifesto Feminino, um espaço de escuta, estudo e transformação voltado para mulheres que desejam repensar suas histórias e ressignificar padrões impostos pelo patriarcado.

Com 34 anos de carreira na TV, cinema e teatro – e reconhecida também por sua pesquisa acadêmica sobre os mecanismos que aprisionam o comportamento feminino – Fernanda se tornou uma voz potente na discussão sobre feminismo contemporâneo. Agora, une arte, teoria e prática para criar um laboratório coletivo em que cada mulher poderá mergulhar em teoria, reflexão e ação concreta.

“O Manifesto Feminino nasce do desejo de traduzir conceitos do feminismo para a vida prática. Quero que as mulheres se reconheçam fora do roteiro que nos foi imposto e escrevam novas narrativas para si mesmas”, afirma Fernanda.

O que é o Manifesto Feminino? 

É uma comunidade para mulheres onde Fernanda oferece um curso feminista online, com aulas curtas que traduzem os conceitos feministas de uma forma leve e prática para serem aplicados no dia a dia. Temas como pressão estética, amor romântico, monogamia, sexualidade feminina e relacionamento abusivos são abordados no curso e encontros online ao vivo com a Fernanda em quinze em quinze dias durante o período de quatro meses. 

Entre os pilares, estão:

* Curso de Letramento Feminista: 17 aulas curtas em vídeo que traduzem conceitos de Simone de Beauvoir, Silvia Federici, bell hooks e outras pensadoras para o dia a dia.

* Encontros online ao vivo: análises conduzidas por Fernanda sobre como estruturas de opressão moldam nosso imaginário, com reflexões a partir de livros, filmes e séries.

* Diário do Despertar: exercícios que transformam a teoria em ação pessoal de autoconhecimento, convidando cada integrante a reescrever sua própria história.

O objetivo

Durante os quatro meses, as participantes terão a oportunidade de:

* Reconhecer os mecanismos invisíveis de controle que alimentam insegurança e insuficiência.

* Reescrever sua narrativa pessoal, rompendo com papéis impostos.

* Construir em coletivo uma nova forma de existir, mais livre, consciente e potente.

Para quem é

O Manifesto Feminino é para as mulheres que sentem um certo desconforto, que sofrem com pressões sociais e querem se libertar das expectativas e olhares externos. Mulheres que desejam sair do automático para despertar junto a outras.

Com uma escuta acolhedora e uma pesquisa robusta, Fernanda Nobre oferece a proposta de aproximar teoria feminista e vida cotidiana em um formato prático, profundo e transformador.

Fernanda é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana, e em entrevista ao Caderno elafala sobre carreira, projetos, TV, feminismo e muito mais.

A atriz Fernanda Nobre é a Capa do Correio B+ desta semana - Foto: Vinicius Mochizuki - Diagramação: Denis Felipe - Por: Flávia Viana

CE - Depois de 34 anos de carreira, o que a atuação te ensinou sobre o comportamento feminino que te fez querer criar o Manifesto?
FN - 
A minha identidade está completamente atravessada pela minha profissão. Eu trabalho desde os oito anos de idade, de forma ininterrupta. Não existe um ano da minha vida em que eu não tenha estado em cena, em set ou no palco. Eu não sei quem sou sem essa profissão. A minha existência é marcada pela atuação.

Mas o que me moveu a criar o Manifesto Feminino não foi a profissão em si, foi o que o estudo do feminismo me revelou sobre mim. Entendi que, até aquele momento, por mais experiente ou reconhecida que eu fosse, eu seguia tentando caber, fazer certo, corresponder a expectativas que não eram minhas.

Foram dez anos estudando, uma pesquisa que virou mestrado na PUC-RJ, para finalmente nomear o desconforto que me acompanhava desde sempre. E quando eu nomeei, percebi que havia milhares de mulheres vivendo algo parecido, só que sem as palavras.

O Manifesto nasce para isso: para traduzir o feminismo de forma acessível, simples, sensível. Para que mulheres entendam que aquilo que elas chamam de “problema pessoal” muitas vezes é uma estrutura histórica. E que juntas a gente pode transformar isso.

CE - Você fala muito sobre os “mecanismos invisíveis de controle”. Quais são os que mais aparecem nas mulheres que buscam o curso?
FN - 
O mais frequente é o amor. A forma como fomos educadas para amar é a coleira mais eficiente já criada pelo patriarcado. Mulheres chegam acreditando que fracassaram no amor, quando na verdade foram doutrinadas a colocar o par romântico acima de si mesmas.

Outro mecanismo muito comum é a culpa. Culpa por trabalhar demais, por descansar demais, por desejar demais. A culpa é o alerta vermelho do patriarcado: se uma mulher tenta romper o padrão, ela apita para barrar o movimento.

E tem também a pressão estética, que é a opressão mais fácil de identificar. Não importa a idade, classe ou vivência: nós aprendemos a nos sentir insuficientes. E não por “essência feminina”, mas porque isso nos mantém obedientes e ocupadas.

CE - No curso, você analisa filmes e séries. Qual obra te ajudou a entender o feminismo na prática?
FN -
 Quando a mulher entra na Comunidade Manifesto Feminino, ela tem acesso a um curso feminista com 16 aulas curtinhas, de cerca de sete minutos cada, para assistir no seu tempo, no seu ritmo.

E, além disso, tem os encontros quinzenais comigo, em que aprofundamos temas que conversam diretamente com as aulas. A cada encontro eu indico leituras, filmes e séries que ajudam a expandir o pensamento e a entender como o feminismo atravessa o nosso cotidiano.

Para cada encontro com temas como amor, monogamia, maternidade, sexualidade, assedio, pressão estética, trabalho...eu tenho um conjunto de livros que foram fundamentais na construção da minha pesquisa. Mas existem três pilares que realmente me formaram: Calibã e a Bruxa, de Silvia Federici que é uma pesquisa profunda da Silvia Federici sobre a história da humanidade pela perspectiva das mulheres.

O Mito da Beleza, de Naomi Wolf que apesar dela ter se tornado uma pessoa questionável por causa de seus posicionamentos políticos, esse livro revela como a busca pela beleza é uma estratégia do sistema para nos controlar. E A Criação do Patriarcado, de Gerda Lerner que explica muito bem historicamente como o sistema hierárquico que vivemos foi criado e

Esses três livros foram, para mim, como abrir as janelas pela primeira vez depois de anos no escuro. E é isso que eu tento levar para dentro da comunidade: luz, contexto, nomeação e a possibilidade de pensar juntas.

CE - Como você enxerga o reconhecimento internacional do cinema brasileiro nos últimos anos?
FN -
 Para mim, esse movimento é, antes de tudo, uma prova de que a arte sobrevive às tentativas de sufocamento. O Brasil tem narrativas urgentes, complexas, belíssimas e quando o mundo olha para nós, ele não está apenas aplaudindo a nossa técnica, mas tendo a sorte de conhecer nossa cultura.

CE - Você deseja voltar a atuar em novelas? Algum tipo de personagem te atrai?
FN
- Eu adoro novela. Eu cresci dentro da televisão, me sinto em casa nela. Quero voltar, sim, mas cada vez mais interessada em narrativas que provoquem alguma pergunta, que não alimentem esse roteiro invisível que aprisiona as mulheres.

Tenho desejo de interpretar personagens femininas que escapem do “manual”: mulheres contraditórias, desconfortáveis, que desobedecem. Porque é aí que a vida acontece.

CE - Você fala abertamente sobre manter um relacionamento não monogâmico com José Roberto Jardim. Como aborda esse tema no Manifesto?
FN -
 Eu abordo monogamia como aquilo que ela é: uma estrutura política criada para controlar a sexualidade feminina. Não falo nunca do meu relacionamento como modelo e sim como uma busca de criação de uma relação mais honesta e equilibrada. O que faço é trazer contexto histórico, social e emocional para que cada mulher entenda como foi educada a amar e a se colocar na relação.

A não monogamia, para mim, antes de ser sobre sexo ou múltiplos vínculos, é sobre autonomia. É sobre compreender que o amor não precisa ser um contrato de vigilância. Que a liberdade não destrói o vínculo, apenas o reposiciona. No Manifesto, a discussão é sempre coletiva: a gente pensa juntas sobre escolhas possíveis, limites e dores que não são individuais, mas culturais.

A atriz Fernanda Nobre é a Capa do Correio B+ desta semana - Foto: Vinicius Mochizuki - Diagramação: Denis Felipe - Por: Flávia Viana

CE - Entre rotina intensa de atriz, pesquisadora e idealizadora do Manifesto, quais hobbies te ajudam a relaxar?
FN -
 Eu leio. Muito. Pesquiso. Parece trabalho, mas para mim é prazer, eu realmente relaxo estudando. E adoro conversar com mulheres; isso é um hobby, uma vocação e um vício.

CE - Meditação, exercícios, terapia: o que você usa para equilibrar sua intensidade?
FN
- Terapia, sempre. É meu chão. Sou filha de psicanalista, faço analise desde criança. E claro, o silencio, preciso dele para voltar para mim. Sou capaz de passar dias sem ouvir musica ou ligar a tv. Sempre fiz exercicio, mas com os 40 anos estou fazendo com mais consciência de que não pode parar. E dormir... nossa, como amo dormir!!!

CE - Em relação à beleza, quais são os cuidados que você não abre mão no dia a dia?
FN -
 Eu cuido, claro. Corpo, pele, cabelo. Eu faço tudo o que todas nós fazemos e não por “essência feminina”, como nos venderam. Faço porque fui moldada, como todas nós, a acreditar que existe uma versão melhor de mim a ser perseguida.

A pressão estética é a opressão mais democrática que existe: atinge todas nós. Eu gasto meu tempo, meu dinheiro e minha energia com beleza muito mais do que qualquer homem ao meu redor, mas hoje faço isso consciente do lugar político que isso ocupa. A consciência não elimina a opressão, mas tira o véu.

CE - Você está em turnê com Três Mulheres Altas. Há projetos futuros no teatro ou audiovisual?
FN -
 A peça segue comigo até junho do ano que vem, em uma turnê lindíssima. Depois disso, há projetos em conversa, tanto no teatro quanto na TV mas, como boa atriz, só posso contar quando estiver assinado.

O que posso dizer é: eu não me separo do palco. É meu lugar de existência. Ao mesmo tempo, seguir construindo o Manifesto Feminino virou também um projeto artístico. É uma continuidade do meu trabalho, só que agora com a intenção declarada de transformar a mim e às mulheres que caminham comigo.

ENTREVISTA COM BIANCA

"A fauna pantaneira é a base musical das nove composições de 'Pantanal Jam'"

Cantora Bianca Bacha, da Urbem, fala como a paisagem natural de Miranda afetou o processo de criação e gravação do segundo álbum da banda, sobre a diferença entre o canto com letra e as vocalizações que são a sua marca e anuncia projetos nos EUA e Espanha

15/12/2025 11h00

A cantora Bianca Bacha se prepara para mais uma gravação na Fazenda Caiman, em Miranda, em junho deste ano

A cantora Bianca Bacha se prepara para mais uma gravação na Fazenda Caiman, em Miranda, em junho deste ano Divulgação / Alexis Prappas

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ENTREVISTA COM BIANCA

Recuperando para o leitor: como se deu a oportunidade do encontro e da parceria com o Ryan para o projeto do álbum “Pantanal Jam”?

Conhecemos Ryan Keberle no Campo Grande Jazz Festival [em março de 2024] e com ele tivemos uma troca musical instantânea. Tocamos juntos em um show no Sesc [Teatro Prosa] em setembro de 2024 e, a partir de lá, tivemos a certeza de que ainda faríamos muita música juntos.

No Pantanal, onde Ryan esteve pela primeira vez durante as gravações, ficou nítido que ele conseguiu transpassar para o repertório o encantamento que ele estava vivendo em meio a toda aquela natureza.

É o segundo disco, nove anos depois de “Living Room”. O que “Pantanal Jam” representa para a Urbem?

Este projeto é o nosso território sonoro: onde a música que criamos se entrelaça à natureza que nos guia em forma de jam. Na música, uma jam significa um encontro musical sem aviso prévio, as coisas vão acontecer ali na hora, portanto, o inesperado é bem-vindo e, com ele, você improvisa.

Qual seria o conceito geral do álbum?

O conceito do álbum nasce da escuta profunda da fauna pantaneira. Os cantos dos pássaros, o esturro da onça e os sons das águas e dos ventos não são efeitos nem pano de fundo: são a base musical das nove composições. A natureza atua como um músico a mais na banda de jazz, dialogando conosco em frases de pergunta e resposta.

Sandro Moreno registrou esses sons in loco, mergulhando no Pantanal para captá-los com precisão. Depois, analisou esse vasto material para identificar melodias, ritmos e motivos que se tornariam a essência das composições.

E, para fechar o ciclo, o álbum também foi gravado no coração do Pantanal. Com geradores a gasolina e um estúdio móvel, nós, a Urbem e o trombonista Ryan Keberle, levamos a música para o ambiente que a inspirou. E ali criamos, novamente in loco, em plena natureza selvagem.

Que tipo de referências buscaram para os arranjos, as sonoridades e as texturas?

Toda a referência e textura do álbum “Pantanal Jam” nascem dos próprios sons do Pantanal. A imersão no território e a escuta atenta transformaram cantos de pássaros, esturros, movimentos da água e vozes da mata em matéria-prima musical.

Cada faixa traduz essa convivência direta com a fauna e seus ritmos naturais, convertendo sons de bichos em música. Viva, orgânica e profundamente enraizada na paisagem pantaneira.

Isso está bastante perceptível. Os sons e toda a atmosfera do Pantanal atravessam o mood e talvez a própria concepção dos temas. Pode comentar um pouco mais sobre essa presença de elementos da natureza – e dessa natureza tão singular de MS – na criação de vocês?

A fauna, a luz, o silêncio amplo, os ventos, os cantos e até os vazios típicos da paisagem pantaneira influenciam diretamente a forma como criamos. É como se o ambiente nos orientasse musicalmente: às vezes guiando uma melodia, às vezes sugerindo um pulso, às vezes impondo uma pausa.

Esse encontro com a natureza não é decorativo, é estrutural. Ela atravessa tudo, o gesto musical, o espírito do disco e a maneira como a banda se relaciona com o som.

No “Pantanal Jam”, a paisagem não é cenário: é presença, é voz, é parceria criativa. É música.

A cantora Bianca Bacha se prepara para mais uma gravação na Fazenda Caiman, em Miranda, em junho deste anoFoto: Divulgação / Alexis Prappas

Onde exatamente estiveram e gravaram? E quando foi?

As gravações foram feitas na Fazenda Caiman, em junho deste ano, num cenário que não poderia ser mais inspirador. Foram escolhidas pela produtora três locações diferentes, e para cada uma delas, três músicas.

A cantora Bianca Bacha se prepara para mais uma gravação na Fazenda Caiman, em Miranda, em junho deste anoFoto: Divulgação / Alexis Prappas

Com uma equipe ultraprofissional que trouxe segurança e leveza para uma gravação ao vivo numa condição completamente inusitada.

E quanto ao repertório? Como chegaram às nove canções do disco?

Entre as composições, temos duas músicas do Paulo Calasans [“Swingue Verdejante” e “Suspiro da Terra”], um dos maiores produtores, arranjadores e instrumentistas do País, além de duas canções do Ryan Keberle junto com Sandro Moreno [“Paisagem Invertida” e “Entre Folhas”] e cinco composições nossas [“Espiral”, “Pluma”, “Voo Curvo”, “Barro” e “Canção do Ninho”].

Penso que o Pantanal é experimentado de um jeito bem particular por cada pessoa. Como é para você? Como aquele ambiente lhe toca e eventualmente interfere no seu jeito de cantar?

Tudo ali era extremamente inspirador. Dormir e acordar naquele lugar por alguns dias já me fazia até respirar de jeito diferente, com menos pressão e mais imersão.

Isso com certeza influenciou no jeito de cantar. Porém, o mais impressionante era saber que estava gravando um disco com toda aquela fauna ao redor, um jacaré no lago ao lado e uma onça a alguns quilômetros.

Embora domine há duas décadas o canto com letra e muitas vezes cante dessa forma em apresentações ao vivo, na Urbem, você investe sempre nos vocalizes e scats.

Todas as músicas do álbum “Pantanal Jam” usam a voz como instrumento, ou seja, não há letras nas músicas. Além de ser uma característica jazzística, esse estilo de canto se aproxima mais do cantar dos pássaros, a busca por seus fonemas e emissões.

Cada música exige uma altura e um escolher apropriado de sílabas que encaixem com a afinação e a expressão.

Adoro o canto com letras. Ali você tem palavras, interpreta, coloca ênfases. É até uma emissão de voz diferente. Só que comecei a me encantar com o mundo do jazz e toda essa coisa do canto que não usa palavras, o vocalize. E comecei a ouvir cantoras que cantam assim.

Tatiana Parra [cantora, compositora e professora paulistana] canta assim, nossa, de um jeito maravilhoso. A [portuguesa] Sara Serpa também. Tem também as divas mais antigas que faziam mais questão de improviso, o scat singing.

O canto sem palavra é muito desafiador porque ele é mais cru, mostra mais imperfeições de respiração, de emissão, de escolha de sílabas. E é muito improvisado. Porque a cada dia você pode usar uma sílaba diferente, pode caracterizar de uma outra forma.

Num dia vou fazer “u”, no outro dia posso fazer “a”, no outro posso fazer “e”. E você tem que descobrir ali, numa forma você com o seu corpo. E além de ter o desafio de você demonstrar o interpretar com emoção sem ter palavras.

Então é muito jazz [risos]. E acho muito bonito. Sempre vai ser um desafio. Sou com o meu corpo, com as palavras que eu escolho, que nem sempre são pensadas.

Claro que tem uma questão técnica de que o “i” você vai mais para um agudo, no “u” também; nos graves, você vai para outras escolhas, as consoantes também interferem. Gosto muito de passear pelas duas áreas. Tanto a área da interpretação com letra quanto a área dos vocalizes e texturas.

E Nova York? Pode contar um pouco sobre a recente temporada de vocês por lá?

O “Pantanal Jam” foi lançado em novembro deste ano com um show memorável em Nova York, durante a feira internacional de turismo Visit Brazil Gallery [na Detour Gallery], e a recepção foi extraordinária.

Pessoas do mundo inteiro, agentes de turismo, diretores da National Geographic, fotógrafos de natureza e profissionais de diversas áreas assistiram ao show com atenção absoluta.

Desde a primeira música, compreenderam nossa proposta e permaneceram maravilhados até o fim. Foi um momento histórico para Mato Grosso do Sul e para a arte sul-mato-grossense.

Esse resultado só foi possível graças ao apoio total da Fundtur e do seu diretor-presidente, Bruno Wendling, que acreditou no projeto desde o início e se comprometeu a nos apoiar tanto nas etapas de captação no Pantanal quanto no lançamento em Nova York. Além disso, segue impulsionando a campanha contínua de apresentar o “Pantanal Jam” ao mundo.

E faz sentido: ouvir o Pantanal desperta o desejo de visitá-lo, conhecê-lo e preservá-lo. O projeto reúne arte, natureza, conservação, turismo e toda a beleza única do nosso bioma, uma combinação que emociona e conecta o público global ao coração do Pantanal.

Além do álbum que já está lançado em todas as plataformas, temos uma série de vídeos das nove músicas e um minidocumentário.

Quando teremos shows da Urbem? Quais os próximos passos e projetos da banda?

A Urbem se sente profundamente entusiasmada em seguir os passos de Manoel de Barros, da família Espíndola, de Guilherme Rondon, Paulo Simões, Grupo Acaba, Geraldo Roca e tantos artistas que sempre beberam dessa fonte primária que é o Pantanal, transformando-a em arte para o mundo.

Recentemente, pesquisadores de Harvard e professores da UFMS colheram sons do Pantanal [pelo projeto Pantanal Sounds, que conta, entre outros, com nomes como o do violoncelista e professor William Teixeira], e esse movimento nos inspirou a ir a campo gravar os sons pantaneiros e a fazer composições dentro da nossa linguagem jazzística, incorporando esses registros naturais ao nosso modo de compor e evidenciando em música as belezas pantaneiras.

Temos planos de retornar aos Estados Unidos em breve e estamos em diálogo com a Embaixada do Brasil em Barcelona, onde palestraremos em março.

Além disso, a Urbem participará do Campo Grande Jazz Festival de Rua, no dia 21 de dezembro [neste domingo], em uma jam session com músicos locais e de São Paulo.

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MÚSICA

Entre onças e tuiuiús, o jazz

Em parceria com o trombonista Ryan Keberle, com nove composições inspiradas na exuberância do Pantanal, URBEM lança segundo álbum; 2º Campo Grande Jazz Festival celebra o gênero na Capital, com apresentações gratuitas

15/12/2025 10h00

A partir da esquerda, Bianca Bacha, Ana Ferreira, Ryan Keberle, Gabriel Basso e Sandro Moreno

A partir da esquerda, Bianca Bacha, Ana Ferreira, Ryan Keberle, Gabriel Basso e Sandro Moreno Divulgação / Alexis Prappas

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Sem dar muitos detalhes, o baterista Sandro Moreno, quando conversou comigo, em junho, sobre o álbum que a Urbem gravaria com Ryan Keberle, adiantou que o projeto seria “algo muito especial”.

Após o show – memorável, diga-se – que fizeram juntos no Teatro do Mundo, o quarteto campo-grandense – além de Sandro, Bianca Bacha (vocais), Ana Ferreira (piano), Gabriel Basso (contrabaixo) – e o trombonista norte-americano foram para a zona rural de Miranda e se instalaram na Fazenda Caiman.

Foi lá que a magia aconteceu. Na estrada desde 2013 e com apenas um álbum lançado até então, “Living Room” (2016), a banda disponibilizou “Pantanal Jam” no Spotify no dia 29 de outubro, três dias antes do show que realizaria em Nova York, em um evento na Detour Gallery que uniu arte, gastronomia e turismo para promover o Pantanal.

São nove faixas criadas e gravadas com extremo apuro e sensibilidade, que alcançam os músicos da Urbem e Ryan num ponto bem elevado de suas capacidades.

Os temas soam como se os cinco artistas tivessem se deixado abraçar pela contagiante pregnância da natureza de Miranda, e Bianca Bacha confirma isso em entrevista exclusiva.

Melodias, pulsações e andamentos foram se definindo conforme eles mergulhavam em tudo que viam, ouviam e sentiam por ali: ventos, o canto das aves, “o esturro da onça”, como Bianca relata. Ouvindo os sons naturais, captados previamente por Sandro, que assina a produção musical do projeto, cada um estabeleceu sua conversa criativa com o Pantanal.

O registro dos sons naturais – de aves, por exemplo — introduz, se mescla ou faz a ponte para uma execução instrumental (voz inclusa) coesa e deveras inspirada, que não força a barra para sorver e devolver, em forma de música, a fartura que o habitat de Miranda oferece.

“Suspiro da Terra”, doce e pulsante, e “Paisagem Invertida”, essa mais selvagem e misteriosa, são uma prova disso.

Ryan pontua, preenche ou arremata sempre com uma precisão e desprendimento envolventes. Ana, como se ouve em “Espiral”, migra da base para os solos numa transparência que comove. Gabriel – em “Canção do Ninho”, por exemplo, que começa e segue na cama dos gomos que vai colhendo ao longo do tema – parece deter a justa medida para o desempenho de seu baixo.

"Foi uma grande honra participar da criação do ‘Pantanal Jam’. Os sons da Pantanal, do modo como Sandro captou, tiveram um papel direto no processo de composição das duas músicas que fiz para o álbum.

A partir da esquerda, Bianca Bacha, Ana Ferreira, Ryan Keberle, Gabriel Basso e Sandro MorenoRyan Keberle, trombonista - Foto: Divulgação / Alexis Prappas

O tom e os ritmos dos sons naturais do Pantanal, inspirados por ideias musicais e paisagens sonoras próprias, criaram um clima que eu tentei capturar nas minhas composições. Quando nós gravamos, literalmente no meio de um dos lugares mais selvagens e remotos do mundo, a beleza e a energia natural nos inspirou a ouvir a natureza e um ao outro mais profundamente, o que resultou numa performance musical que demonstra uma profunda comunicação musical.

Adoro os músicos e a música da Urbem. E, desde que tocamos juntos em diversas ocasiões anteriores, eu compus as minhas músicas especificamente com o talento e a habilidade musical especial deles em mente” - Ryan Keberle, trombonista.

Sandro é um laboratório inquieto, dos pedais aos pratos de condução. E Bianca conduz os vocais numa têmpera e numa fruição que se articula como síntese do conjunto.

Comparações e referências são uma tentação no mundo do jazz. Mas a qualquer palpite sobre “Pantanal Jam”, é melhor calar e ouvir. É um álbum estimulante para esse silêncio de dentro, que nos faculta as melhores emoções da escuta e da experiência musical.

Brazilian jazz? Jazz? Ouça. Música apenas. E quanta música! Embrenhada e revelada nos refúgios de um lugar mágico, onde a natureza se recobra e o espírito se fortalece.

A Urbem lança “Pantanal Jam” hoje, às 18h, no Centro de Convenções Arquiteto Rubens Gil de Camillo. Apareça.

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