Em 1987, com o samba-enredo “No Reino das Palavras”, de Bira do Ponto, Rody e Verinha, a Mangueira sagrou-se campeã do carnaval carioca. O homenageado foi um funcionário público, nascido em 31 de outubro de 1902, na cidade de Itabira, Minas Gerais, que, entre ser um “fazendeiro do ar” ou “gauche na vida”, tornou-se o mais célebre poeta brasileiro desde meados do século passado.
Célebre ainda quando vivo, o poeta morreria meses depois, no Rio de Janeiro, onde passou a maior parte da vida, deixando um vácuo na literatura brasileira e uma majestade que, mesmo hoje, teima em permanecer como predicativo de sua obra, em verso e prosa. Inovador, delicado, profundo, existencialista, político, terno, intimista, contemporâneo, visionário e até engraçado.
E bastante popular também. Sim, hoje é o dia dele: Carlos Drummond de Andrade, um dos expoentes da literatura modernista no Brasil.
Além de samba-enredo e incontáveis outros tributos, o poeta virou nome, por exemplo, de ruas e escolas por todo o Brasil, inclusive em Campo Grande.
E, em 1989, a sua face – a visível pelo leitor, por trás das sete que alegava ter em um poema de 1930 – estampou a cédula de 50 cruzados novos. Do outro lado da nota, a reprodução na íntegra da “Canção Amiga”, que Milton Nascimento tinha gravado uma década antes, revela uma confissão:
“Eu distribuo segredos/Como quem ama ou sorri/No jeito mais natural/Dois carinhos se procuram”, diz o poema em uma das estrofes.
Mas Drummond nunca deixou de ser, deveras, generoso ao se entregar. Coisa que fez diversas vezes em seus escritos.
Não somente poemas o elevaram à condição de unanimidade – que nem acusações de ter banhado a sua pena nas têmperas da casa grande conseguiram arranhar. “Cadeira de Balanço”, “Caminhos de João Brandão”, “Contos Plausíveis” e “Contos de Aprendiz” são algumas das obras que mostram o poeta batendo um bolão em outras modalidades literárias, a exemplo da crônica.
VISCERALMENTE MODERNO
“O Drummond é um poeta visceralmente moderno, não só por opor-se a uma lírica passadista, mas por seu lúcido olhar quanto ao desacerto e ao absurdo do cotidiano; quanto à presença do desencanto e ao alheamento de perspectivas.
Sua trajetória poética, de poemas elaborados a partir de um vocabulário adverso ao legado tradicional, se configura por três singulares e importantes aspectos – a consciência social, os elementos do cotidiano e a instigante metapoesia”, diz a professora, ensaísta e crítica literária Ana Maria Bernardelli.
“Nessa configuração poética colhemos extraordinários poemas em verso livre, recheados de humor, de ironia acerca de um mundo que perdeu, tristemente, seus referenciais. A poética drummondiana mais do que nunca corresponde aos tempos caóticos que a sociedade tem vivenciado; confundida e alienada entre o parecer e o ser”, avalia a professora.
Ana Maria pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL) e destaca “A Rosa do Povo” e “Claro Enigma” como os títulos de sua preferência entre os livros de Drummond, deixando escapar que Sentimento do Mundo”, do livro de mesmo nome, “é um poema belíssimo”.
Para a ensaísta, à medida que a maturidade poética o alcança, o autor mineiro cristaliza a percepção cabal de seu papel como agente transformador da realidade social, “em um labor de conscientização do outro, por intermédio do uso atento e cauteloso da palavra”.
Sobre a metalinguagem, a acadêmica afirma que se trata de uma característica presente em toda a obra de Carlos Drummond de Andrade. “Compor no espírito da ‘linguagem da linguagem’ é uma necessidade do poeta.
É nesse momento que ele faz sua autorreflexão, vê a responsabilidade de escritor, pensa os sentimentos que o assaltam no processo de criação e confirma sua intensa e amorosa relação com as palavras”, comenta Ana Maria.
FORÇA E HERMENÊUTICA
“Dizer da força drummondiana na nossa literatura nacional é como, por exemplo, dizer da relevância da metáfora para a arte poética. Drummond timbrou a sua palavra na vanguarda da linguagem, dosando versos modernos com efeitos existenciais e deveras reflexivos. Na prosa, ele também mostrou o seu estilo moderno e envolvente”, afirma o também poeta e imortal da ASL Rubenio Marcelo.
“Há na sua obra uma significativa hermenêutica do cotidiano e, com o seu abalizado ‘sentimento do mundo’, ele influenciou, e continua a influenciar, gerações. Por isso a sua obra é uma das mais lidas e estudadas, inclusive em vestibulares de universidades. Na minha formação poética, tenho Drummond como uma das minhas bases, juntamente com João Cabral e Bandeira”, diz Rubenio, que tem uma de suas obras (“Vias do Infinito Ser”) entre as leituras indicadas para o vestibular da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
“Ah, Pierry, bom que se diga também da vertente engajada, social e política, na obra de Drummond. No tocante a poemas emblemáticos dele, posso citar ‘Poema de Sete Faces’, ‘José’, ‘No Meio do Caminho’ [que inspirou o título desta reportagem], ‘Os Ombros Suportam o Mundo’, ‘A Máquina do Mundo’, ‘Quadrilha’, ‘Amar’, ‘Canção Final’, e, claro, ‘Sentimento do Mundo’”, lista Rubenio.
“Na poética de Drummond, destacam-se temas afeitos ao envolvimento do escritor com a palavra, aos modos como essa palavra toca o leitor, ao tempo e à aproximação das coisas, das aflições do mundo. Os dois primeiros temas conversam com os fazeres estéticos da lírica modernista, em um diálogo com a voga do modernismo brasileiro de 1922”, afirma a pesquisadora e professora de literatura Rosana Zanelatto, retomando o escrutínio da colega Ana Maria.
POETA DO TEMPO
“No entanto, o apelo ao tempo e à presença das aflições cotidianas, sejam elas as pernas no bonde, sejam as misérias da náusea, colocam Drummond em uma cena maior do que aquela protagonizada pelas mulheres e pelos homens da década de 1920, inserindo-o no quintal do mundo”, afirma a pesquisadora.
“Poeta do tempo e das agruras humanas, Drummond, por um lado, esboça o cansaço e a melancolia de ver sua querida Itabira como um dolorido retrato na parede e que não pôde acompanhá-lo a não ser sob essa forma por suas andanças; por outro, faz brotar em seus versos a flor do asfalto, uma flor feia, mas ainda assim uma flor, símbolo da esperança em um tempo carregado pelas dores das guerras da primeira metade do século 20”, diz Rosana.
SENTIR COMO ELE
Rosana, Ana Maria e Rubenio são acompanhados na reverência ao poeta pela estudante Sophia Jorge Kageyama, que tem 16 anos de idade e, aos 14, teve o primeiro contato com a lírica drummondiana.
“Foi quando estudei sobre a semana de arte moderna na escola. Lembro que na época fiquei fascinada pelo conteúdo e busquei ler seus poemas, e foram os que mais gostei, por conseguir sentir e entrar em contato com as emoções que ele ali expôs”, relembra Sophia.
“Gosto muito do poema ‘Não se Mate’, tem um impacto muito grande sobre mim, por eu me sentir acolhida com o que o Drummond fala nele”, diz a aluna do 2º ano do Colégio Nota 10, que pensa em estudar Medicina para atuar como psiquiatra.
A jovem, nascida em Dourados, confessa que adora escrever redações, poemas e contos. “O que eu mais gosto é conseguir sentir o que ele sentia”.


Reprodução do Livro “Furacão Elis”
Carlos Bonatto e Simone Flores Bonatto - Foto: Studio Vollkopf
Ane Gurgell - Foto: Arquivo Pessoal

