Do que trata o filme?
O filme aborda uma prática que é proibida no Brasil: a rinha de galo. É proibido em todo o território nacional realizar ou promover brigas de galo ou quaisquer outras lutas entre animais da mesma espécie ou espécie diferentes.
Por meio de pesquisas realizadas à época, descobrimos que a prática é mais comum do que se imagina no Brasil. Mato Grosso do Sul, por exemplo, tem um alto índice de apreensões de galos de rinha.
Sensibilizado pelo tema, tive o apoio da cineasta Luciana Bitencourt para escrever o roteiro. Logo vieram os desafios das descobertas que envolvem essa violência praticada com os galos e todo o “negócio” que gira em torno das rinhas, como o tráfico de drogas e os jogos de apostas. Além de mostrar a prática criminosa, o filme fala da pureza de uma criança que não medirá esforços para salvar o animal.
Qual a principal motivação para produzi-lo?
Queríamos denunciar a existência das rinhas de galo. Em apenas um ano, foram apreendidos mais de 500 animais em Campo Grande. Depois, falar sobre tudo o que envolve na periferia esse tipo de prática.
Queria contar uma história dessas pessoas que vivem à margem da sociedade mesmo, falar dos seus percalços de vida. Escolhi esse tema porque eu vim da periferia e cresci vendo jogos de azar. Nunca tive contato com rinhas, nunca apostei, mas eu sabia desde de criança que existiam essas brigas.
Quando decidi produzir o filme, queria mostrar que isso acontece até hoje da mesma forma de quando eu era criança. Ou seja, sensibilizar para que seja denunciado.
Só assim conseguiremos chegar a algum lugar, pois a prática incentiva não só a violência entre os animais, mas também faz com que as crianças que crescem em torno de rinhas também entendam que aquela prática é permissiva.
O que espera do público?
Que se sensibilize. Que consiga entender, por meio do olhar de uma criança, que o mundo não deveria ter tal prática. O mundo de apostas prejudica as famílias, e ali mostramos a mãe trabalhadora e o pai apostando na rinha. Durante todas as exibições pelos festivais, observamos que o público se sensibilizou muito com a trama.
Quando decidiu realizar o curta?
Decidi fazer um filme com o olhar para periferia em 2019. Posteriormente, começamos as filmagens, mas só consegui finalizar a pós-produção no ano passado.
Como foi o processo de criação?
No roteiro, o desafio foi sintetizar um tema complexo em 15 minutos, que é o tempo padrão aceito nos festivais. Depois disso, foi trabalhar os signos para oferecer um bom papel aos atores.
O ator Espedito Di Montebranco, que interpreta o personagem Zé Galo, trouxe sua experiência aqui em MS com mais de 30 projetos em sua carreira. Já o ator mirim [Daniel Leite], que é meu sobrinho, foi escolhido por mim e pela Luciana Bittencourt, a qual também fez a preparação de elenco com ele, pois nunca havia atuado, mas que conseguiu levar prêmios de Melhor Ator em alguns festivais. O filme contou com outros atores locais, como Andrea Freire e Tero Queiroz.
Na direção de arte e produção, eu e a Caroline Merlo trabalhamos em conjunto na construção dos cenários, sempre tendo o apoio de toda a equipe por ser um projeto colaborativo.
A Caroline foi responsável por fazer acontecer toda essa produção. Com sua sensibilidade, conseguiu dar ao projeto cenários realistas que fizeram toda diferença nas filmagens. Ainda mais o cuidado com os animais envolvidos, que foram resgatados de rinhas.
Qual o orçamento e como viabilizou os recursos?
O projeto é independente, feito com recursos próprios e com o apoio da equipe, que não cobrou cachê e aceitou o desafio. O projeto, em média, custa R$ 80 mil. Contei apenas com R$ 11 mil vindos à Lei Aldir Blanc, que foram utilizados na fase de pós-produção.
O que diria de tanta repercussão?
Das minhas produções, essa foi mais longe. O filme alcançou a marca de 54 festivais e 32 prêmios, em 11 países. Lancei no Brasil em 2021, no Festival de Dourados, onde ganhamos dois prêmios, e depois foi lançado nos Estados Unidos, onde também ganhamos o prêmio de Melhor Filme.
No último festival [Festival Internacional de Cinema Off Cine, em abril, na cidade de Varginha, MG], por exemplo, foram 1.400 inscritos, sendo 12 finalistas. Nosso filme concorreu com produções de São Paulo e outros estados brasileiros. “O Formoso” trouxe para Mato Grosso do Sul os três principais prêmios: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator.
Muito surpreso com os prêmios?
Para ser sincero, com toda a dificuldade que tivemos até conseguir lançar o filme, quando começamos a receber prêmios de todos os lugares, foi uma sensação de recompensa.
Fomos honrados a cada seleção e premiação. A equipe ficou muito feliz, e isso nos fez acreditar mais ainda que, mesmo sem [tantos] incentivos públicos, vale a pena acreditar no cinema independente.
Os diretores e os curadores dos festivais internacionais começaram a indicar o filme entre si, solicitando que eu o mandasse para participar, ou seja, tive a honra de curadores de festivais renomados estarem indicando meu filme para outros países também.
Quando chegamos no continente europeu, logo atingimos as principais capitais, como Paris, Madri, Londres, Roma, entre outras, e fomos surpreendidos com cada prêmio vindo desses grandes centros.
O que achou do resultado do filme?
Penso que devemos acreditar naquilo que idealizamos. Antes de tudo, a maior motivação está em nós. Criar e pensar que pode não dar em nada é natural.
Penso também que seja normal a gente duvidar em algum momento. Porém, produzir aquilo que te move ou que te sensibilize, como foi “O Formoso”, nos deixa mais confiantes, talvez mais seguros. Então, a surpresa que foi o alcance do filme traz esse ensinamento.
Quais os próximos projetos?
Estamos em fase de produção de dois curtas-metragens e dois longas, captando recursos de editais para iniciá-los. Ainda não podemos detalhar, mas vem coisa boa por aí.
Você estudou audiovisual?
Sou formado em Rádio e TV e pós-graduado em Publicidade pela Universidade Católica Dom Bosco [UCDB]. E tenho mestrado pela Fundação Universitária Iberoamericana [Funiber].


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