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Cinema B+: Os 40 anos de Duna, de David Lynch

Você conhece as histórias atrás dos livros e dos filmes de Duna? São tão numerosas e interessantes como a saga

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Até Denis Villeneuve desafiar os mais céticos e resgatar Duna da memória de kitsch, foi o filme de 1984, assinado por David Lynch, que ficou como referência para o clássico de sci-fi no cinema.

E, curiosamente, 40 anos depois, em 2024, Duna é um dos maiores sucessos de crítica e bilheteria, quebrando a crença geral que dizia que a obra era a maquina trituradora de talentos de diretores, ou até mesmo, o livro impossível de ser transportado para o cinema. Agora é simplesmente, um sucesso.

Até alcançar o status de cult foi um longo e árduo caminho para a versão de 1984, a maior tentativa de Hollywood até então. Em números, foi fracasso. Custou mais de 42 milhões, arrecadou 30, e foi comparado desfavoravelmente aos sucessos da época como Star Wars, E. T. e Alien.

Digo como público alvo no ano de lançamento: eu detestei cada minuto do que vi, ao ponto de resistir a dar uma chance a Villeneuve, mas cedendo e me rendendo ao diretor.

Em 2021, e plena pandemia, Duna de Denis Villeneuve fez enorme sucesso, embora ainda sob os efeitos da pandemia e a briga de janelas de cinema e plataformas tirando os números esperados de bilheteria.

Com a chegada da segunda parte da trilogia nos cinemas e o aniversário de 40 anos do Duna de David Lynch, vou fazer a viagem do tempo e relembrar os bastidores. Algo que adoro fazer!
 

Tudo começou com um romance inovador, de 1965

Frank Herbert lançou sua obra prima, Duna, ainda em 1965 e até hoje é considerada uma das melhores obras de sci-fi de todos os tempos.

Ele tinha escrito O Dragão do Mar alguns anos antes e quando viajou para Oregon, onde visitou as dunas locais, encontrou a inspiração para uma saga inovadora.

A viagem era porque ele ia escrever um artigo sobre a movimentação das montanhas de areia, que poderiam “engolir cidades inteiras, lagos, rios, rodovias”, o que o fez apurar pesquisas sobre ecologia e desertos, abrindo o leque para um mundo novo.
O artigo levou anos para ser publicado. Isso porque Duna engoliu o tempo e a concentração do autor.

Inspirado em vários temas ainda inexplorados há 50 anos, como colocar minorias como protagonistas e discutir impacto ambiental, Duna foi algo inesperado e inovador.

A conversa com grupos indígenas, que alertavam que o efeito da exploração madeireira nas reservas locais ia “transformar o planeta num deserto” como o Saara e isso faria do mundo “uma “grande duna” foi tão impactante para Herbert que o cenário, portanto, estava decidido.

Juntando o interesse do escritor sobre a mística dos super-heróis e messias, assim como política e a trama começou a ser desenhada. Afinal, em seu levantamento conferiu que ambientes desérticos historicamente deram origem a várias religiões importantes com impulsos messiânicos.

E claro, sem esquecer que Frank Herbert plantava e usava “cogumelos mágicos” para expandir e estimular sua imaginação (quem já viu Duna entende a referência): a caixa seria aberta de forma inesperada.

Precisaram de 5 anos até a publicação do livro, em três partes, com ilustrações que ajudavam a entender o conceito criado pelo autor.

Publicado em agosto de 1965 como um romance, não explodiu em vendas, inclusive foi considerado nichado, mas, aos poucos inverteu o quadro e virou febre mundial. Nascia uma grande saga.

1984 e 2024 - Divulgação

Uma história sci-fi sem tecnologia

Um dos marcos mais significativos de Duna é que Frank Herbert suprimiu deliberadamente a tecnologia em seu universo. O foco é a humanidade e seu futuro é determinado por instituições lideradas e criadas por eles mesmos.

Desse conceito que nasceu a “Jihad Butleriana” onde todos os robôs e computadores foram destruídos. Nada de culpar Inteligência Artificial tirando nosso livre arbítrio, o conflito é gerado por intolerância religiosa. Vamos combinar que esse é um conceito revolucionário ainda em 2024.

A narrativa do romance também pode ser identificada em seus filhotes, sim, estou falando de George R. R. Martin em seus Game of Thrones e Fogo e Sangue, uma vez que Duna é contado como se estivéssemos lendo os diários da Princesa Irulan, portanto uma narrativa sem distanciamento (embora acredite que é), com comentários históricos, biografia, citações e filosofia inventadas por Herbert e que contextualizam o universo criado por ele.

Essa possibilidade é justamente o que alimenta os fãs de Martin e Herbert a revisitar frequentemente os livros (séries e filmes), pois há camadas em aberto para justificar ações e considerar outras possibilidades e foi calculada pelos escritores.

Se há uma mensagem ecológica em Game of Thrones com os White Walkers e o Night King simbolizando as consequências do aquecimento global (só que em gelo em vez de deserto), é apenas porque Duna popularizou mesclar os assuntos.

O plano de Frank Herbert era mesmo de ter um “manual de conscientização ambiental” realçando os perigos do desmatamento, da falta de água iminente no planeta e exploração do petróleo, fazendo da obra o que chamam de “o primeiro romance de ecologia planetária em grande escala”. E, como vemos, um conteúdo perigosamente atual 50 anos depois…

E o lado religioso da obra também foi pioneiro pois a referência ao Oriente Médio e islamismo é inegável ao longo da história, incluindo termos, palavras e conceitos reais na língua árabe na cultura dos Fremens. Quando não eram autênticas, as palavras soam árabes. Ainda hoje, algo que autores ocidentais mantém certa distância.


O longo caminho das páginas para as telas

Uma história épica, cheia de cenários exóticos e um conto heroísmo complexo é o que todos roteiristas e diretores adoram pensar nas grandes telas de cinema. Mas Duna ficou lendária como “impossível” de fazer essa conexão.

Em 1971, o produtor de cinema Arthur P. Jacobs, vivendo o auge do sucesso com sua trilogia do Planeta dos Macacos, saiu na frente e comprou os direitos de Duna, mas morreu apenas dois anos depois, em 1973, aos 51 anos, sem avançar no projeto.

É uma grande incógnita de “e se” porque o diretor selecionado para ele era ninguém menos de David Lean cujo Lawrence da Arábia era visualmente gigantesco e sobre a mesma personagem que influenciou Frank Herbert.

Com isso, um grupo de produtores de cinema franceses entraram no circuito, trazendo Alejandro Jodorowsky, cuja visão criativa é um conto à parte e não deu certo. Muitos lamentam.

Na versão de Jodorowsky, Salvador Dalí seria o Imperador, Orson Welles o Barão Harkonnen, Mick Jagger faria Feyd-Rautha, Udo Kier interpretaria Piter De Vries, e David Carradine daria vida a Leto Atreides.

No papel de Paul, ele escolheu seu filho, Brontis Jodorowsky. A lendária Gloria Swanson interpretaria a reverenda Mãe Gaius Helen Mohiam e a trilha sonora seria assinada pela banda Pink Floyd. Obviamente demandaria um orçamento astronômico e quando o roteiro alcançou o marco de 10 a 14 horas para contar o épico, foi encostado.

Ainda assim, a grandiosidade imaginada por Jodorowsky impactou significativamente os filmes de ficção científica da época e influenciou os que vieram depois dele para o projeto.

Com o caminho “liberado”, o produtor Dino De Laurentis, que trabalhava com Fellini e tinha vários sucessos, assim como um reboot de King Kong, comprou os direitos em 1976. O problema agora é que a essa altura o mundo foi tomado pela febre Star Wars, que sacudiu as bilheterias em 1977.

Isso encorajou a De Laurentis a perceber o final dos anos 1970s como um bom momento para épicos espaciais e nada mais grandioso do que Duna, não é?

E ousadia parece ser a senha básica da obra. O próprio Frank Herbert trabalhou no roteiro (em 1978), mas o que entregou sugeria que teria uma duração de três horas. Se hoje é comum, naquela época era um sonoro “não”. Por isso, para capitanear o projeto, De Lareuntis elegeu Ridley Scott, cujo sucesso de Alien, em 1979, parecia indicar ser perfeito para o desafio.

Na visão do diretor, Duna estaria na mesma direção de Star Wars, “mas para adultos” e que precisaria ter o livro separado pelo menos em dois filmes.

Foram três rascunhos do roteiro em um processo lento dado ao envolvimento do produtor em todas as etapas, mas um problema familiar o afastou do projeto definitivamente. Dali, Ridley embarcou em Blade Runner.

Com isso, já entrando na década de 1980s, que o produtor olhou para David Lynch como alternativa. Lynch estava em alta pelo mega sucesso de O Homem Elefante e estava cogitado para dirigir O Retorno de Jedi.

Ao receber o convite de ser o primeiro a filmar o clássico, Lynch pulou fora de Star Wars. Talvez algo que mudasse a saga dos Skywalkers lá atrás e que ele viria se arrepender.

Dune 2024 - Divulgação

Conflitos de bastidores

Depois de cinco rascunhos, a produção desembarcou no México em 1983 para começar as gravações, com um elenco basicamente de artistas americanos e britânicos menos conhecidos. 

Duna marcou as estreias de Sting (então vocalista da banda The Police) e do ator Kyle MacLachlan, sendo que esse logo no papel principal. A trilha sonora foi assinada pela banda Toto, que na época fazia sucesso com o hit, Africa.

Logo os problemas começaram. Assim como George Lucas com Star Wars, os efeitos especiais para universos intergalácticos eram arriscados e flertavam perigosamente com o cringe. Um dos problemas de Duna é justamente a “pobreza” visual. Mas o pior é que embora tenha escrito um roteiro pensando em dois filmes, Duna acabou sendo condensado em um só, ficando confusa e incompleta.

O que foi gravado foi o sexto roteiro, com 135 páginas. Gravar fora dos Estados Unidos ajudava no custo de produção, mas isso também ficou claro no resultado final. Eram 80 cenários construídos em 16 palcos sonoros, uma equipe de 1.700 pessoas envolvidas e mais de 20.000 figurantes.

A atriz Francesca Annis, que interpretou Lady Jessica, lembrou da presença constante de Dino De Laurentiis nos bastidores, opinando em todas as decisões de David Lynch. “Minha experiência trabalhando em Duna foi que se David Lynch tivesse conseguido fazer seu próprio filme, teria sido brilhante, mas infelizmente Dino supervisionou cada pequena coisa.

Dino já estava pensando na venda de vídeos. David queria deixar as cenas muito sombrias, todos os submundos muito sombrios e parecendo muito sinistros. Dino não permitiria isso. Tinha que ser bem iluminado para que pudesse ser transferido bem para o vídeo, onde acho que naquela época as coisas pioraram.

David e Freddie Francis estavam constantemente paralisados e não acho que David fez o filme que queria”, ela comentou na época do lançamento da nova versão de 2021.

O primeiro corte bruto do filme, sem efeitos de pós-produção, tinha mais de quatro horas. A essa altura já estavam no sétimo roteiro que estimava quase três horas de duração.

O Estúdio determinou que o lançamento teria apenas duas horas. Os cortes são sentidos. Filmaram novas cenas para simplificar a trama, adicionaram narrações em off e a famosa introdução de Virginia Madsen.

“Vou te contar, quando fui ver o filme pela primeira vez na estreia — e só o vi uma vez —, assim que a Princesa Irulan (Madsen) começou a falar em voz off no início, explicando a história, pensei “Uh oh, este filme está com problemas. Qualquer filme de Hollywood que tenha que se explicar detalhadamente no início está em apuros…”, comentou Francesca.

DUNE - 1984 - Divulgação


De odiado a cult: uma trajetória dolorosa

Chegando aos cinemas no final de 1984, a expectativa positiva de Duna era gigantesca. Os problemas foram imediatos com a crítica arrasando o resultado final e o público sem dar o retorno esperado nas bilheterias.

As comparações eram implacáveis. Duna foi dos mais caros já feitos, com um orçamento maior que a trilogia Star Wars e quatro vezes mais caro do que a sensação de bilheteria de dois anos antes, E.T., mas arrecadou menos que eles todos.

Os desentendimentos entre David Lynch e os produtores ficaram lendários, com ele renegando. as versões (sim foram quatro) lançadas e pedindo para que seu nome fosse removido ou alterado para pseudônimos em algumas delas.

Tudo isso causou um efeito passional nos fãs do diretor, passando a colocar Duna no patamar de Cult. Ainda assim é um fato que a versão de 1984 foi um desastre. Para muitos, o pior filme do ano. Ui.


De amado à maldito: a TV “salva” a saga

Com tantos problemas, Duna virou sinônimo de impossibilidade. Frank Herbert faleceu em 1986, sem ver como sua obra seria colocada no patamar que estava na literatura.

Depois dessa traumática tentativa de blockbuster, David Lynch se afirmou como um dos mais ousados e criativos diretores do cinema independente, com Blue Velvet e depois o fenômeno na TV, Twin Peaks, todas com Kyle MacLachlan liderando o elenco.

O relançamento de 1988, com a versão ainda mais longa, de três horas, foi a que sedimentou a briga de Lynch com os produtores. Até hoje se recusa a falar do filme. Mas tudo isso também manteve a lógica que Duna merecia ter uma segunda chance.

Em 1996 os direitos do filme passaram para Richard P. Rubinstein, que produziu Dawn of the Dead e Pet Sematary e quatro anos depois chegou à TV com uma produção elogiada e premiada. Ficou a questão: e no cinema? Não seria a hora de tentar?

Um diretor visionário e apaixonado pela obra

David Lynch só leu Duna para fazer o filme, algo diferente com Denis Villeneuve. Mas seu caminho até a saga começou em 2007, quando um grupo de estudantes espanhóis lançou um trailer de quatro minutos de uma versão feita por um fã da obra. Foram sete anos para produzir, mas impossível de conferir porque foi retirado do YouTube e nunca chegou aos cinemas.

A reação, agora já com redes sociais como termômetro, fez com que a Paramount decidisse que era a hora de uma nova adaptação do romance.

Em 2008, Peter Berg e Pierre Morel (de Taken) foram escalados, mas depois de quatro anos de idas e vindas, desistem. Justamente quando um documentário sobre a primeira tentativa de Jodorowsky de fazer Duna foi sucesso no Festival de Cannes de 2013.

Três anos depois a Legendary Films adquiriu os direitos de filme e TV de Duna trazendo um fã apaixonado, um especialista de toda obra para liderar o que é considerada a tentativa mais acertada de todas: Denis Villeneuve, que fez sucesso em 2016 com o filme Chegada. “Duna é o meu mundo” ele resumiu. E é mesmo.

Entre 2017 e 2021, quando sua primeira parte chegou aos cinemas, Villeneuve foi acompanhado de perto pelos rigorosos fãs. Que elevaram Duna ao patamar esperado por 50 anos: de obra prima.

DUNE - 2024 - Divulgação


Uma trilogia que tem tudo para ser lendária

É fácil comparar Denis Villeneuve com Frank Herbert com o que Peter Jackson conseguiu com J.R.R. Tolkien: um especialista tão profundo da obra que consegue, finalmente, traduzi-la em imagens.

Curiosamente, depois de seu grande sucesso nos Estados Unidos, Chegada (2016), pelo qual foi indicado ao Oscar como Melhor Diretor, foi justamente a sequência de um clássico de Ridley Scott – Blade Runner 2049 – que solidificou Villeneuve como um diretor de filmes grandiosamente visuais e filosóficos. Sabendo que Scott deixou Duna para fazer Blade Runner, é quase cármico que o diretor canadense seja o diretor que quebrou a “maldição”.

Seguindo os passos de George Lucas e Peter Jackson, Villeneuve transformou Duna em franquia, com dois filmes inicialmente, mas agora com toda cara de trilogia. Isso porque sentiu que o romance de Herbert era complexo demais para um único filme, como a produção de 1984 comprovou.

Mais ainda, sem criticar Lynch ou Jodorowsky, preferiu ignorar os filmes e roteiros deles e se voltar aos livros apenas.

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O que Duna de agora tem de vantagem também é o avanço da tecnologia que permite, mesmo usando poucos efeitos, a história possa ser realista e bonita visualmente, sendo que 50 e 40 anos depois, os temas tratados nos livros são facilmente identificáveis atualmente.

Uma decisão que mostra inteligência e ousadia foi eliminar os monólogos internos e epígrafes usados no livro, assim como simplificaram os diálogos, parte da trama política, além de concentrar a primeira parte em torno de Paul e Jessica.

A primeira parte de Duna chegou a fazer mais 435 milhões de dólares, a melhor da carreira de Villeneuve, mas caiu 62% na semana seguinte porque foi disponibilizado nas plataformas por causa da pandemia. Mesmo sendo visto quase dois milhões de americanos nos três primeiros dias, a estratégia interferiu nos números e Villeneuve endossa o grupo de diretores que defende não encurtar a janela de cinema para o streaming.

É quase certo que teremos mesmo um terceiro filme (baseado em Dune Messiah), e sabemos que há também uma série, Dune: Prophecy, sendo desenvolvida para televisão. A série focaria nos anos anteriores do que vemos nos filmes, centrada na Bene Gesserit e tem Travis Fimmel anunciado como parte do elenco.

O problema? A produção está temporariamente parada… com todo foco da Max em House of the Dragon, será que teremos nossa série de Duna? Torço que sim!

Cinema Correio B+

O legado de Baryshnikov vai muito além da dança

Centro criado pelo bailarino funciona como incubadora artística e estuda aproximação com o Brasil

08/08/2026 13h00

O legado de Baryshnikov vai muito além da dança

O legado de Baryshnikov vai muito além da dança Foto: Divulgação

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Quando se ouve o nome de Mikhail Baryshnikov, é praticamente impossível pensar primeiro em qualquer coisa que não seja dança. Para várias gerações, ele representa o bailarino completo, aquele artista no qual a técnica extraordinária nunca anulou a inteligência, a personalidade ou a capacidade de transformar cada movimento em interpretação. O Baryshnikov Arts, porém, demonstra que seu legado não ficou restrito ao que fez no palco.

Criado em Nova York, em 2005, o centro apoia artistas de diferentes linguagens, oferecendo residências, espaços de ensaio, oportunidades de apresentação e condições para que ideias ainda embrionárias possam se transformar em obras.

Há dança, naturalmente, mas também teatro, música, cinema e projetos multimídia. “Acho que a palavra certa é incubadora”, explica Carlo Di Dio, ex-bailarino italiano e integrante do conselho de administração da instituição.

Di Dio esteve pela primeira vez no Brasil durante o Festival de Dança de Joinville e sua presença teve uma missão que pode se tornar importante para os artistas brasileiros: conhecer o evento, observar seus talentos e estudar caminhos para uma colaboração com instituições norte-americanas.

Antes de falar sobre essa possível ponte, entretanto, ele fez questão de explicar por que o Baryshnikov Arts não deve ser confundido com uma escola ou companhia de balé.

“A missão do centro é proporcionar oportunidades para diferentes formas de arte e para artistas que precisam desenvolver uma ideia ou um trabalho.

Podem ser coreógrafos, atores, diretores, músicos ou outros criadores. Nós oferecemos espaço e condições para que eles consigam reunir esse trabalho e sair de lá com alguma coisa sólida”, afirma.

É uma continuação coerente da trajetória de Baryshnikov. Depois de uma carreira que atravessou o Kirov, o American Ballet Theatre, o New York City Ballet, o cinema, o teatro e a dança contemporânea, ele passou a empregar seu prestígio na criação de oportunidades para outros artistas.

Aos 78 anos, permanece fundador e diretor artístico do centro e, segundo Di Dio, acompanha os projetos, conversa com os residentes e compartilha sua experiência.

“Misha ama as artes de coração. É inspirador vê-lo envolvido, conversando com os artistas, contando sua história e continuando tão relevante para o mundo atual.

É fácil pensar nele apenas como bailarino e ícone da dança, mas é importante que o mundo conheça também essa organização que ele criou. Esse é o seu legado.”

A própria trajetória de Carlo Di Dio ajuda a explicar por que ele foi chamado para participar dessa construção. Formado pela Escola de Balé do Teatro San Carlo, em Nápoles, ele dançou em companhias italianas e norte-americanas, tornou-se primeiro bailarino na Califórnia e dividiu o palco com nomes importantes da dança internacional.

Quando decidiu deixar a carreira, não seguiu o caminho mais previsível de se tornar exclusivamente professor, ensaiador ou diretor artístico.

Di Dio estudou administração, concluiu um MBA e foi trabalhar com estratégia e consultoria na PwC. A mudança, que poderia parecer um abandono da arte, nasceu justamente do desejo de compreender por que algumas instituições sobrevivem e outras desaparecem.

“Não acho que exista algo mais bonito do que estar no palco e sentir o público, mas, com o tempo, percebi que também me inspirava criar as condições necessárias para que as artes cresçam e permaneçam.

A pergunta passou a ser: como construir uma organização artística capaz de oferecer oportunidades não somente durante uma temporada, mas por gerações?”, conta.

Foi por isso que ele entrou para a consultoria. “Muitas pessoas pensaram que eu havia deixado a dança porque queria trabalhar no mundo corporativo.

Na verdade, foi o contrário. Entrei para uma empresa global porque queria entender como grandes organizações operam, como as decisões estratégicas são tomadas, como elas se sustentam e quais modelos desenvolvem. Eu não deixei as artes. Apenas ampliei a maneira como poderia servi-las.”

O legado de Baryshnikov vai muito além da dançaO legado de Baryshnikov vai muito além da dança - Divulgação

Para Di Dio, a disciplina adquirida no balé continua determinando sua atuação. A dança lhe ensinou liderança, responsabilidade, adaptação e trabalho coletivo, qualidades tão importantes em uma sala de reuniões quanto diante de uma plateia. Também ensinou que talento, por maior que seja, não resolve tudo.

“Minha professora dizia: ‘Carlo, aonde você não conseguir chegar com as pernas, chegue com a cabeça’. Nunca esqueci essa frase. É preciso ser inteligente porque esse será o seu diferencial. Talento não basta.”

Em Joinville, ele encontrou muito talento, mas se impressionou especialmente com o investimento feito para que crianças e adolescentes consigam desenvolvê-lo. A organização, a qualidade das escolas e o envolvimento das famílias revelaram uma estrutura que, em sua opinião, já pode dialogar com instituições internacionais.

O próximo passo será transformar essa impressão em um plano concreto. Entre as alternativas discutidas estão intercâmbios, cursos intensivos nos Estados Unidos, residências para coreógrafos e a vinda de artistas e professores ao Brasil.

As dificuldades atuais para a obtenção de vistos norte-americanos podem interferir no formato, mas não eliminam a possibilidade de colaboração.

“Vamos analisar onde existe alinhamento e qual é a melhor maneira de oferecer essas oportunidades. Gosto do termo parceria porque ela precisa ser uma relação de 50 a 50, com riscos e benefícios para os dois lados”, explica.

Ainda é cedo para anunciar um projeto, mas a presença de Di Dio em Joinville já estabeleceu o primeiro contato. Se a ponte avançar, ela poderá aproximar jovens artistas brasileiros não apenas do nome Baryshnikov, mas daquilo que ele decidiu construir depois de se tornar uma lenda.

Afinal, preservar a cultura não significa somente guardar a memória dos grandes artistas. Significa criar as condições para que os próximos consigam existir.

“Precisamos fazer o mundo entender que a cultura é indispensável”, resume Di Dio. Essa talvez seja a ideia que melhor explique o Baryshnikov Arts e também por que a aproximação com Joinville pode ser tão importante.

Gastronomia

Chef Paulo Machado participa do maior circuito de experiências gastronômicas do Brasil

Cozinheiro sul-mato-grossense participa do maior circuito de experiências gastronômicas do Brasil e planeja livro com receitas da Rota Bioceânica; veja um dos pratos em destaque

08/08/2026 08h00

Há 18 anos o chef Paulo Machado trabalha com a culinária pantaneira e de fronteira

Há 18 anos o chef Paulo Machado trabalha com a culinária pantaneira e de fronteira Sergio Coimbra

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Mato Grosso do Sul receberá na próxima semana, nos dias 13, 14 e 15, no Centro de Convenções Rubens Gil de Camillo, o evento gastronômico Mesa Ao Vivo, o maior circuito de experiências gastronômicas do Brasil e que vai integrar chefs renomados de todo o País e profissionais da cozinha sul-mato-grossense para mostrar a riqueza dos ingredientes e das tradições da região.

Representando o Estado, o chef Paulo Machado, que trabalha com a gastronomia sul-mato-grossense há 18 anos, vai ministrar uma aula-show no dia 15, a partir das 11h, em parceria com a cozinheira de tradição e artesã Albertina Terena.

Durante a aula, será apresentado o lambreado, considerado pelo chef como um dos pratos símbolos da cozinha de fronteira.

“Ele traduz, de forma muito clara, a relação histórica entre Brasil e Paraguai, unindo a tradição da carne bovina sul-mato-grossense com influências paraguaias na técnica e no modo de preparo”, resume o chef.

“O lambreado nasceu desse encontro de culturas tão característico da nossa região. Ele representa as famílias, as festas populares, as cozinhas do interior e essa convivência cotidiana entre os dois países, em que os sabores atravessam fronteiras naturalmente”, completa.

Além de ensinar o preparo, Paulo Machado sempre faz questão de, em todas as suas apresentações, contextualizar a história de cada prato, mostrando como a gastronomia ajuda a preservar tradições e contar a história de um povo.

Sobre a culinária de Mato Grosso do Sul, o chef afirma que é resultado do encontro entre as culturas indígena, pantaneira e de fronteira e menciona o Corredor Bioceânico, previsto para entrar em funcionamento a partir do próximo ano, o que deve intensificar a “vocação fronteiriça” do Estado.

“O Corredor Bioceânico é muito mais do que uma rota logística, representa um grande corredor de integração cultural entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, aproximando povos, tradições e gastronomias.

Historicamente, as grandes rotas comerciais sempre foram também rotas de circulação de ingredientes, técnicas de cozinha e culturas alimentares”, explica.

JANTAR MAGNO

Também no dia 15, a partir das 20h, no Hotel Slaviero Prime Campo Grande, Paulo Machado participará do Jantar Magno Origens 67, com nomes de destaque da gastronomia local e nacional. Na ocasião, o chef apresentará o vori-vori de pato, uma releitura contemporânea de um dos pratos mais emblemáticos do Paraguai.

“O vori-vori sempre fez parte das minhas lembranças de infância, das viagens para Ponta Porã e das refeições compartilhadas com amigos em Assunção”, comenta o cozinheiro.

A versão que será apresentada mantém a essência do prato, mas traz ingredientes e técnicas que dialogam com a cozinha pantaneira e com a gastronomia contemporânea, sendo servido com gema curada e pato defumado.

MESA AO VIVO

O evento Mesa Ao Vivo Mato Grosso do Sul terá entrada gratuita e uma programação voltada para quem gosta de cozinhar, aprender e conhecer mais sobre a gastronomia de Mato Grosso do Sul, com o tema “Sabores do Mato Grosso do Sul: uma cozinha que nasce do Pantanal, das fronteiras e da biodiversidade”. 

As inscrições são realizadas pelo site: https://www.prazeresdamesa.com.br/mesa-mato-grosso-do-sul, onde também podem ser adquiridos os convites para o Jantar Magno.

NOVO LIVRO

Paulo Machado prepara ainda para este ano o lançamento de seu novo livro de receitas, “Rota Gastronômica Pantaneira – Edição Águas”, um projeto que reúne anos de pesquisa sobre a gastronomia de Mato Grosso do Sul e a relação da nossa cozinha com os rios, o Pantanal e as comunidades que vivem nesse território.

O livro vai reunir dezenas de receitas, relatos de viagem, curiosidades, personagens e ingredientes que fazem parte da construção da cozinha pantaneira.

“É um convite para conhecer Mato Grosso do Sul por meio da gastronomia, mostrando que cada prato carrega um pedaço da nossa história, da nossa biodiversidade e da nossa cultura”, resume o chef.

Machado explica que muito mais do que ensinar receitas, quer contar a história de pratos que representam a identidade da nossa fronteira e a riqueza cultural do povo de Mato Grosso do Sul.

“Estou muito animado com esse lançamento e tenho certeza de que será uma obra importante para valorizar ainda mais a gastronomia pantaneira e inspirar novas gerações a conhecerem e preservarem esse patrimônio”, finaliza.

O projeto foi desenvolvido com apoio do Fundo de Investimentos Culturais (FIC), da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul. Apesquisa teve apoio da Fundtur MS e do Sebrae.

Uma das receitas presentes no livro é o lambreado. Confira a receita acima.

LAMBREADO DE CARNE

Por chef Paulo Machado

O lambreado é uma das receitas mais tradicionais de Porto Murtinho, na fronteira entre Brasil e Paraguai. Simples, saboroso e cheio de memória afetiva, consiste em um bife envolto por uma massa leve e frito lentamente até ficar dourado por fora e extremamente suculento por dentro.

O chef Paulo Machado gosta de servir a iguaria com um vinagrete fresco de cebola e tomate. O lambreado é um prato muito tradicional das pescarias e das viagens pelo interior do Estado, carregado de histórias e memórias afetivas. “Não dá para ir para Porto Murtinho ou para fronteira e não provar um lambreado”, comenta o chef.

Há 18 anos o chef Paulo Machado trabalha com a culinária pantaneira e de fronteiraLambreado de Carne - Foto: Elis Regina

Ingredientes:

Para a carne

  • 6 bifes de contrafilé, fraldinha ou coxão mole;
  • Suco de 1 limão;
  • 3 dentes de alho amassados;
  • Sal a gosto;
  • Pimenta-do-reino a gosto;
  • Cominho a gosto.

Para a massa

  • 2 xícaras (chá) de farinha de trigo;
  • 3 ovos;
  • 1 pitada de sal;
  • Água morna (o suficiente para dar o ponto).

Para fritar

  • Óleo vegetal.

Modo de Preparo:

> Tempere os bifes com limão, alho, sal, pimenta-do-reino e cominho. Misture bem e deixe descansar por cerca de 20 minutos a 30 minutos para absorver os sabores;

> Em uma tigela, misture a farinha de trigo, os ovos e o sal. Acrescente a água morna aos poucos, mexendo sempre, até obter uma massa lisa e fluida, semelhante à de panqueca;

> Aqueça o óleo em fogo médio. O segredo do lambreado é não deixar o óleo excessivamente quente: a massa precisa cozinhar lentamente para ficar dourada e macia, sem queimar;

> Passe cada bife rapidamente pela massa, cobrindo toda a superfície, e leve imediatamente para fritar. Doure dos dois lados até que a massa esteja crocante e a carne cozida no ponto desejado;

> Escorra sobre papel-toalha e sirva imediatamente.

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