Correio B

Diálogo

Confira a coluna Diálogo na íntegra, desta quarta-feira, 1º de fevereiro de 2023

Por Ester Figueiredo ([email protected])

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Padre Fábio de Melo - escritor brasileiro

É momento de cicatrização... A reconciliação daquilo  que você quer com aquilo que você não pode.  cicatrizar-se é a necessidade de toda hora”.
 

FELPUDA

Bastou o tucano-mor sentar-se na cabeceira da mesa para que os mais bicudos dentro do ninho se acalmassem. No fim da reunião, todos ficaram com as penas intactas, fazendo cara de paisagem, diferentemente dos últimos dias, quando a maioria “cuspia marimbondo”. O que se conversou ficou em segredo absoluto para não ferir suscetibilidades,  e os voos serão na mesma direção para eleição da Mesa Diretora do Legislativo de MS, que ocorre hoje (1º). Vai vendo...
 

Bis

O resultado dessa reunião, que deu no que deu, foi um “aperitivo” do que poderá ocorrer em 2024, quando a cadeira da Prefeitura de Campo Grande estiver sendo disputada. Aves de penas vistosas e as nem tanto assim estão ensaiando voos,  por enquanto, sob os olhares  de quem tem o poder de colocar o ninho em ordem. Esse bater  de asas não deverá durar muito, pois será dada a ordem, para uns e outros, de não colocar o nariz, ou melhor, o bico, onde não  são chamados.
 

Liberada

A partir de hoje, está liberada  a modalidade “pesque e solte” nas calhas dos rios Paraguai  e Paraná. Mas o peixe só poderá ser fisgado com anzóis lisos (sem farpas) e devolvido imediatamente à água para garantir sua sobrevivência.  Para quem é amante da pescaria, importante lembrar que o período de defeso das espécies continua vigente em todo o MS até o dia 28 deste mês. Assim, nenhum peixe poderá ser retirado, a não ser nas exceções previstas em lei.

 

Divulgação/TJMS

Hoje, o desembargador Sérgio Martins Sobrinho toma posse  como presidente do tribunal de Justiça de MS. a sessão solene  será às 17h, no Plenário Pleno do Palácio de Justiça desembargador Leão Neto do Carmo, no Parque dos Poderes. também  serão empossados os magistrados dorival renato Pavan,  na vice-presidência, e fernando Mauro Moreira Marinho,  na Corregedoria-Geral de Justiça, permanecendo até 2024. 

 

Arquivo Pessoal

 Dr. José eduardo Chemin Cury e Camila Chinaglia Maiolino.

Iude Richele e Fe Candy

Luiz eurico Klotz.

Cobiçada


A partir desta quarta-feira, na Assembleia Legislativa de MS, logo após a posse da Mesa Diretora, a poderosa Comissão de Constituição e Justiça, grupo de trabalho responsável por barrar ou dar andamento a todos os projetos que chegam lá, passará a ser motivo de discussão entre todos os parlamentares. Será o momento em que haverá nova disputa sobre quem vai comandá-la entre os representantes de cinco partidos ou blocos a serem formados e que dela farão parte.


Sem trovoadas


Amanhã, será instalada a 1ª Sessão Legislativa de 2023, e a solenidade terá a presença 
do governador Eduardo Riedel. Ele fará a leitura da mensagem do Executivo aos demais Poderes, dando conhecimento dos projetos previstos para serem executados neste ano. Será um dia marcado pelo protocolo e sem risco de discursos mais ácidos dos pouquíssimos parlamentares que prometem fazer oposição.


Rebeldes


Na realidade, dos 24 deputados estaduais, apenas dois se dizem independentes e, por isso, deverão trilhar o caminho da oposição. Dos três parlamentares do PL, partido que integra a base aliada do governador, um deles já se colocou, de certo modo, como dissidente. O único representante do PRTB se coloca no mesmo rumo do colega. Políticos de mais jornadas dizem apenas uma coisa: “Já vimos esse filme antes’’. Sendo assim...

Aniversariantes

 

Josyne Andréa Simioli Fontoura Correa,

Dr. Alexandre Cury,

Ieda de Faria Molina,

Nasmen Mahfouz,

Luiz Adive Palmeira,

Kelly Cristina Nascimento Saad,

Ignácia Vera de Andréa,

Taltiney Amabile Vendramini Duran,

Waldir Pedroso de Oliveira,

Célia Ramires da Silva,

Anacleto Gheno,

Juçara Gois Pais,

Dr. Maldonat Azambuja Santos,

Mauro Lutterbach Lobato,

Sandra Rodrigues Oruê da Silva,

Gilson dos Reis,

Antonio Toshime Arashiro,

Gervasia Del Socorro Saldanha,

Kilza Corrêa Botelho,

Mirian Satsuko Abe,

Nestor Catelan,

Pedro Nunes de Siqueira Júnior,

Mariá Recalde Grilo,
Rubens Keniti Nakaya,

Rui Manoel Alves Tavares,

Juliano Coelho Arakaki,

Neuza Graziano Russo,

Alan Gustavo Barbosa Monteiro,

Dânia Cristina Correia Sotoma Arguelo,

José Manuel Dias Alves,

Jaqueline Carvalho

Pinheiro dos Santos,

Eliza Ibrahim Zaher do Nascimento,

Tânia Aparecida Pinto,

Maria Eliane Filizola Costa,

Dr. Jonas Escórcio Neto,

Lianey Barbosa,

Audalio de Freitas Souza,

Eduardo Eugênio Siravegna,

Beatriz Helena de Souza Bexiga

de Carvalho,

João Benedito Yama Higa,

David Melgarejo,

Bruno Rodrigues Almeida,

Dr. Celso Fetter Hilgert,
Marlene Mansour Mendes,

Ednéia Pegoraro Florêncio Cilli,

Dr. José Nogueira de Souza Júnior, Daniella Souza Freire,

Durval Lima Ferreira,

Marcelo Fernandes Braz,

Marilúcia Martins,

Antônio João Flôres,

Eunice Azevedo,
José Maria Lopes,

Laura Rodrigues Mello,

Carmem Kamiya Nakao,

José Inácio Correia,

Maria Salete Zenhofen,

João Carlos de Assumpção Filho,

Valéria Piano da Silva,

Fernando Soiti Kinjo,

Emory Alves Peres,

Wilson Rodrigues dos Santos,

Fernanda Morel dos Santos,

Simão Pedro Monteiro Haddad,

Emygdio Alves de Queiroz Neto,

Magda Janete Wilde Callegaro,

Edson Takeshi Nakai,
Luiz Claudio Daniel Lima,

Cirlene Bidóia da Silva,

Diná Adelina de Carvalho Viana,

Solange Cristaldo Duarte,

Gerliton Santos Linobela Vista,

Izabel Cristina Lopes Dias Ferreira,

Regiane Cléia Borges Nanni,

Mohamed Reni Alves Akre,

Anna Paula Falcão Bottaro,

Thiago Amorim Silva,

Vanderlei de Magalhães Barros,

Edson Rodrigues Fria,

Alarico David Medeiros Júnior,

Christovam Martins Ruiz,

Daniel Gomes Guimarães,

Fábio Corcioli Miguel,

Robson Nicola Dichoff,

Matheus Valerius Brunharo,

Olga Vieira Verdasca,

Leandro Mota Catunda,

Ana Claudia Magalhães de Oliveira,

Bonifacio Tsunetame Higa Júnior, Maria Teixeira de Oliveira Soto,

Queila Feliciano Alves da Silva Custódio,

Maria Ozória Ribeiro,

Everton Caramuru Alves,

Sebastião Pais Vilela,

Vitor Henrique Rosa,

Carolina Lima Pereira,

Pedro Ivo Gomes Assis,
Maria Helena Soares Rodrigues,
Romário da Silva e Souza,
Samantha Faria Ferreira,
Fátima Alves de Lima,
Luiz Claudio Xavier Mendes,
Rodrigo Gomes Duarte,
Dilma Magalhães da Silva,
Maria Cecília Nunes,
Beatriz Conrado Silva,
José Carlos Viana da Silva.

 

Colaborou Tatyane Gameiro

 

crônica

Amores Maduros

12/05/2026 08h45

Arquivo

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Minha amiga tem 82 anos e dois namorados. Claro que ela mora numa metrópole, mais precisamente em São Paulo; do contrário, fosse nestas plagas, os dois fatos seriam quase inadmissíveis.

Pergunto a ela o porquê de ter dois namorados. Ela responde que é para não virar rotina — para "revezar". Acho graça, mas tem lá sua lógica. Nesta idade, é comum criar hábitos, e tudo o que ela não quer é criar vínculo. O que Bia quer mesmo é ir ao cinema, jantar fora de vez em quando, visitar exposições de arte, caminhar no parque. Não que precise de companhia para isto. Não, minha amiga é, de longe, uma das pessoas mais independentes que conheço.

Ela me conta que conheceu um deles na antessala do cinema e o outro num restaurante. "Como assim?", pergunto curiosa e, de alguma forma, um pouco perplexa. Afinal, cenas desta natureza não são nada comuns por aqui. "A gente começou a conversar sobre o filme e vimos que temos muita coisa em comum", contou. Depois disso, engataram um namoro.

O segundo conheceu numa pizzaria, ela com uma taça de vinho na mão e ele também. Olha para cá, rabicho de olho para lá, o moço pede para fazer um brinde. Ela o chama para sentar-se à mesma mesa: "Melhor que conversar à distância", explica. Depois de muito papo, despedem-se, mas esquecem de trocar telefones.

Os dias passam e o moço não lhe sai da cabeça. Ela volta ao restaurante e pergunta por ele. "Ah, claro! Todos aqui o conhecem. Mora perto, no bairro". Com apenas o nome da rua, ela sai em uma cruzada em busca daquele que vem lhe tirando o sossego. No terceiro prédio, o porteiro confirma: sim, ele mora aqui. Ela deixa um bilhete carinhoso e espera.

Ele liga na sequência e combinam um jantar. Divorciado, cineasta e bom de papo. O resto virou história — história que me aguça a curiosidade e, por que não dizer?, uma certa inveja. Inveja das possibilidades que ela agarrou contra todas as probabilidades, num país que louva a juventude. Mas é certo que Bia é uma das pessoas mais lindas que conheço. Não apenas fisicamente, mas de alma e espírito. Conversa sobre tudo, não tem preconceitos, não faz julgamentos e se abre completamente para a vida. Um belo exemplo de ser humano.

Falar sobre Bia me faz lembrar de Danusa Leão. Cortejada por um desconhecido em seu restaurante favorito, ela resistiu ao flerte insistente. Mas coincidência ou destino, estavam hospedados no mesmo hotel. No quarto recebeu a ligação com o convite para um último drinque. Danusa parou, refletiu e se perguntou o que tinha a perder. Afinal, naquela noite, ela completava 70 anos e estava sozinha em Paris. Viva a sabedoria, o savoir vivre e as grandes metrópolis.

DANÇA

Em 40 anos, a Ginga Cia. de Dança se consolidou como uma das maiores companhias do Centro-Oeste

Em quatro décadas, a Ginga Cia de Dança transcionou dos circuitos competitivos para espetáculos e se consolidou como uma das maiores companhias do Centro-Oeste

12/05/2026 08h40

Ao longo de quatro décadas, mais de 100 bailarinos passaram pela companhia

Ao longo de quatro décadas, mais de 100 bailarinos passaram pela companhia Divulgação

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Em um país onde manter um grupo artístico ativo já é, por si só, um ato de resistência, completar quatro décadas de trajetória representa mais do que permanência. Significa passar por mudanças culturais, dificuldades financeiras, transformações estéticas e gerações inteiras sem perder o movimento.

Neste ano, a Ginga Cia de Dança chega aos 40 anos consolidada como uma das companhias mais longevas e importantes da dança contemporânea do Centro-Oeste brasileiro.

Fundada em 1986, em Campo Grande, pelo coreógrafo e diretor Chico Neller, a companhia nasceu sem grandes estruturas institucionais ou planejamentos formais. O ponto de partida foi o desejo coletivo de dançar.

A partir desse impulso, a Ginga construiu uma história marcada por experimentação artística, formação de bailarinos, circulação nacional e espetáculos que transformam temas sociais em dramaturgia corporal.

Ao longo de quatro décadas, mais de uma centena de bailarinos passaram pela companhia. Muitos iniciaram suas trajetórias ainda crianças, dentro do Projeto Dançar, criado em 1997, e seguiram carreira profissional. Outros encontraram na dança um espaço de acolhimento, reconstrução pessoal e pertencimento.

Hoje, a Ginga celebra seu legado olhando também para o futuro. Além da circulação estadual do espetáculo “Rompendo Silêncios”, a companhia iniciou a criação de “Corpo Território”, novo trabalho que investiga identidade, pertencimento e cultura sul-mato-grossense.

O COMEÇO

Quando a Ginga surgiu, em meados da década de 1980, a dança contemporânea ainda tinha pouca visibilidade em Mato Grosso do Sul. Os circuitos culturais eram limitados, os investimentos escassos e havia pouca circulação de grupos profissionais fora dos grandes centros do País.

Segundo Chico Neller, a companhia nasceu da união de bailarinos movidos pela vontade de estar em cena.

“A Ginga Cia de Dança surgiu da união de bailarinos que tinham, acima de tudo, o desejo de dançar. No início, não havia um propósito institucional definido ou uma estrutura consolidada. Existia a vontade de criar, estar em cena e compartilhar a dança com diferentes públicos”, relembra.

As primeiras coreografias, como “Passagens”, “Prisma”, “Phisma 2” e “Feras”, já indicavam características que se tornariam marcas da companhia: intensidade física, sensualidade, potência feminina e investigação das relações humanas por meio do corpo.

“Mesmo naquele início, existia um interesse pelo corpo como espaço de expressão e narrativa. Isso continua sendo uma marca da Ginga até hoje”, afirma o diretor.

Inicialmente ligada à linguagem do jazz e ao circuito competitivo de festivais, a companhia rapidamente ganhou reconhecimento regional e nacional. Nos anos seguintes surgiram obras como “Sistemas”, “Cúbica”, “Ginga Brasil”, “Pare e Pense”, “Por Você”, “Te Amar”, “Herança Negra” e “Influência”.

O grupo conquistou premiações importantes, incluindo o Jacaré de Prata, com destaque para Melhor Coreografia e Melhor Bailarina.

RECONHECIMENTO NACIONAL

A década de 1990 marcou a consolidação nacional da companhia. A participação no Festival de Dança de Joinville – considerado um dos maiores festivais de dança do mundo – mudou os rumos da Ginga.

Foi naquele palco que a companhia percebeu que o trabalho desenvolvido em Mato Grosso do Sul tinha potência para dialogar com a cena nacional.

“O Festival de Joinville teve um impacto fundamental na trajetória da Ginga. Foi ali que começamos a entender que o trabalho que fazíamos em Mato Grosso do Sul podia dialogar com o cenário nacional da dança”, afirma Chico.

Durante os anos 1990, a companhia apresentou coreografias como “Purificação”, “Olhe-me”, “Entre Nós”, “Espíritos que Dançam na Carne”, “Face a Face”, “Távora” e “Instinto”, conquistando prêmios importantes nas categorias jazz e dança moderna.

A participação na Noite de Gala do festival – espaço reservado às coreografias mais premiadas e de maior destaque – se tornou um dos momentos simbólicos da trajetória da companhia.

“Para nós, que estávamos longe dos grandes centros culturais do País, era muito significativo perceber que um grupo vindo de Campo Grande podia ocupar aquele espaço e ser reconhecido artisticamente”, destaca o coreógrafo.

Mas o impacto de Joinville foi além das premiações. O festival também funcionou como espaço de troca artística. “Tivemos contato com outros grupos, outras linguagens e outras formas de pensar a dança. Acho que isso foi determinante para o amadurecimento da companhia”, explica Chico.

ARTE QUE ACOLHE

Entre as artistas que tiveram suas trajetórias profundamente marcadas pela Ginga está Márcia Rolon, ex-bailarina da companhia e fundadora do Moinho Cultural.

Ela conta que chegou ao grupo em um momento de ruptura pessoal. “Eu estava totalmente sem chão. Saía de um relacionamento marcado por dor e violência. Tive que deixar minha cidade, meu Pantanal, e voltar para a casa dos meus pais em Campo Grande. A dança foi minha luz”, relembra.

Márcia procurou a companhia em busca de acolhimento artístico e emocional. “O Chico Neller me acolheu, me incluiu no grupo e me ensinou a ser mais fluida. Me trouxe de volta o respiro e o amor”, relembra.

Segundo ela, a Ginga foi determinante não apenas para sua formação artística, mas para a reconstrução de sua vida. “A Ginga me apresentou o palco profissional, me permitiu ser intérprete-criadora, me convidou para coreografar e me colocou no palco do maior festival de dança do mundo”, afirma.

Mais tarde, as experiências vividas dentro da companhia ajudaram Márcia a criar a Mostra Corumbá – Santuário Ecológico da Dança e a fundar o Moinho Cultural. “Tudo está interligado”, resume.

RESISTÊNCIA

Manter uma companhia de dança ativa por 40 anos fora do eixo Rio-São Paulo nunca foi simples. A falta de continuidade de políticas culturais, dificuldades de financiamento e os altos custos de circulação sempre fizeram parte da realidade da Ginga.

“Fazer dança no Brasil já exige resistência, e fora do eixo Rio-São Paulo isso se torna ainda mais difícil”, afirma Chico Neller.

Segundo ele, a permanência da companhia só foi possível graças à criação de redes de formação e pertencimento. “A companhia não se sustentou apenas pelos espetáculos, mas também pela construção de uma rede de pessoas que acreditam na dança como espaço de transformação”, diz.

Essa visão também aparece no depoimento do bailarino Paulo Oliveira, integrante da nova geração da companhia.

Paulo começou na dança ainda criança, por meio do Projeto Dançar, em 2004. “Boa parte da pessoa e artista que me tornei foi construída dentro desse espaço”, afirma.

Hoje, integrar uma companhia com quatro décadas de história representa, para ele, uma responsabilidade coletiva. “Estar na companhia entendendo toda a sua história, resistência e impacto cultural no MS é também assumir uma responsabilidade de continuidade”, defende.

Segundo o bailarino, o legado da Ginga não está preso ao passado. “A companhia nunca foi estática. Quem chega traz novas referências, novas urgências. O legado da Ginga está justamente nessa capacidade de permanecer em transformação”, explica o bailarino.

MUDANÇA

Um dos momentos mais decisivos da trajetória da companhia aconteceu em 1999, quando a Ginga decidiu abandonar o circuito competitivo de festivais e aprofundar sua pesquisa em dança contemporânea e criação autoral.

O espetáculo “Despalavras” marcou essa transição. “A energia dos bastidores, a comparação e a avaliação não combinavam com arte”, afirma Márcia Rolon.

Ela lembra que, em um ano, a companhia competia nos festivais; no seguinte, já aparecia como grupo convidado em grandes eventos. “Essa foi a grande virada da Ginga e o reconhecimento do Chico Neller como diretor e coreógrafo”, conta.

A partir daí, a companhia passou a investir em espetáculos completos, com maior elaboração dramatúrgica e aprofundamento conceitual.

Nos anos seguintes surgiram obras como “Conceição de Todos os Bugres”, “Corpo Latino”, “Um Tema para Quatro”, “Vem Dançar Comigo” e “Aqui ou em Qualquer Lugar”.

O processo também foi fortalecido por intercâmbios com importantes nomes da dança contemporânea brasileira, entre eles Mário Nascimento, Tíndaro Silvano, Luis Arrieta e Vanessa Macedo.

EXPRESSÃO

Nas últimas décadas, a Ginga aprofundou ainda mais sua relação com temas sociais e humanos.

Em 2022, a companhia estreou “Silêncio Branco”, espetáculo que aborda feminicídio e violência contra a mulher. A obra transformou em movimento o silêncio imposto às vítimas da violência de gênero.

Em 2023, o espetáculo foi contemplado pela Bolsa Funarte de Dança Klauss Vianna, fortalecendo sua circulação nacional.

Já em 2024, a companhia realizou a recriação coreográfica “Rompendo Silêncios”, assinada por Vanessa Macedo, ampliando a investigação artística sobre violência contra a mulher.

Para Paulo Oliveira, trabalhar temas urgentes altera profundamente o processo criativo. “Os trabalhos da Ginga partem muito das experiências humanas, das tensões contemporâneas, das questões de identidade, pertencimento e coletividade”, afirma.

Segundo ele, a dança possui capacidade de provocar reflexão social justamente por atuar no campo sensível. “A dança cria experiências e pode despertar perguntas no público, mesmo sem entregar respostas prontas”, pontua.

DANÇA CONTÍNUA

Chegar aos 40 anos não representa encerramento, mas continuidade.

Além da circulação estadual de “Rompendo Silêncios”, a companhia prepara “Corpo Território”, novo espetáculo que investiga as relações entre corpo, memória, identidade e pertencimento.

Ao olhar para trás, Chico Neller afirma que a maior conquista da companhia talvez seja justamente sua permanência. “Me orgulho de olhar para trás e ver quantos bailarinos passaram pela companhia, quantas vidas foram atravessadas pela dança e quantas pessoas descobriram um caminho artístico dentro da Ginga”, diz.

Depois de quatro décadas, a companhia segue inquieta. “Acho que o que mais me emociona é perceber que a companhia continua viva, em movimento, com vontade de pesquisar, criar e continuar acreditando na dança como espaço de encontro, reflexão e transformação”, conclui o diretor.

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