Correio B

CAUSOS DA BOLA

Correio antecipou em 1982 denúncia da 'Máfia da Loteria' em MS

Jornal soltou um mês antes de revista fato que marcaria jornalismo brasileiro

RAFAEL RIBEIRO

25/01/2019 - 20h35
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Em outubro de 1982, a revista Placar chegava às bancas brasileiras para entrar na história. 

Reportagem de Sérgio Martins escancarou o que viria a ser conhecido como 'Máfia da Loteria': ou seja, um grupo de apostadores do principal jogo de azar da épóca fraudava resultados de partidas para poderem ganhar o prêmio máximo acretando os resultados dos 13 jogos que formavam as apostas dos concursos.

A denúncia rodou o mundo, virou um case de sucesso no jornalismo e até hoje é citada em faculdades como exemplo a ser seguido.

Mas, o que não se sabe pela maioria das pessoas, é que em Mato Grosso do Sul já se sabia da atuação da tal máfia, visto que o caso veio à tona um mês antes pelo Correio do Estado, em reportagem citada pela 'Placar' nas suas linhas que ganhariam a história.

"Biluca tentou subornar dois operarianos", estampava a manchete dos dias 18/19 de setembro daquele ano.

Chamada de 'Gang da Loteria' pelo jornal, é noticiado que o ex-zagueiro do próprio Operário tentou subornar dois jogadores, os atacantes Pastoril e Baianinho, para um clássico contra o Comercial, que aconteceria naquele final de semana, pelo Estadual daquele ano, vencido pelo Manda Brasa, que quebrou uma hegemonia de seis títulos do rival alvinegro (sendo três deles pelo campeonato do Mato Grosso unificado antes da divisão oficial).

A DENÚNCIA

Conforme estampou o Correio em sua edição bomba, a denúncia partiu de Pastoril, ídolo dos dois rivais campo-grandenses, revelado pelo Vasco e que até hoje mora na Capital.

Na manhã do dia anterior à reportagem, ele procurou o então diretor de futebol do Operário, Irineu Farina, para denunciar o esquema: uma oferta de 10 milhões de cruzeiros (cerca de R$ 3,7 mil em valores atuais) para ajudar a dar Comercial no clássico.

A grande surpresa para os jornalistas, segundo relata o jornal, foi o homem acusado pelo suborno: Biluca, um dos heróis da histórica campanha de 1977 do Mais Querido, terceiro colocado naquele Campeonato Brasileiro (história que ainda vamos tratar nessa coluna nobre leitor).

"Graças a Deus estou bem no Operário, ganho um bom salário, sou pobre, mas prefiro continuar assim, vivendo honestamente", disse Pastoril, após relatar o caso em detalhes (leia abaixo).

O ex-zagueiro foia lém e sugeriu que o colega conversasse com o ponta-direito daquele elenco, Baianinho, que sequer fora procurado pessoalmente. "É doloroso saber que existemdessas coisas no futebol brasileiro, sujo nível está caindo cada vez mais ao invés de voluir", disse o jogador.

Farina, visivelmente irritado, no relato da reportagem, disse "que há muito tempo já suspeitava do envolvimento de Biluca com a gang da Loteria Esportiva." "Faltava apenas uma prova. E agora está tudo claro. Tanto é que o Operário já denunciou o caso à Polícia Federal", disse.

Não demorou para a PF dar uma resposta. No dia 21 daquele mês, o caso foi oficialmente arquivado, por falta de provas, conforme estampava o Correio no topo de sua página de esportes.

O delegado federal Antônio Martinez Perez, responsável pelo processo, decidiu pelo arquivamento diante da falta de provas até mesmo para a tentativa de suborno a Pastoril pelo telefone.

Biluca, que chegara ao Operário vindo do América-RJ e ficara no Galo até 1979, se defendeu como pôde nas duas reportagens publicadas pelo Correio. Na histórica 'Placar', contudo, conversas suas com apostadores foram expostas.

Em tempo, o Comerário polêmico terminou com empate por 1 a 1, com o ex-zagueiro entre os presentes no Morenão para acompanhar o jogo.

O ESCÂNDALO

A Loteca, que existe ainda hoje, foi regulamentada no Brasil em 25 de março de 1970 e é realizada desde 19 de abril, quando foi feita uma rodada experimental no extinto estado da Guanabara, com prêmio fixo de 200 mil cruzeiros novos (cerca de R$ 73 em valores atualizados) e 100 mil bilhetes distribuídos. O jogo número um foi um clássico Flamengo e Fluminense. As vendas de apostas foram feitas em 48 barracas improvisadas.

Naquela época, era necessário acertar os resultados de treze jogos selecionados pela Caixa para ganhar o prêmio. Durante a fase experimental, era possível até marcar treze palpites triplos (quando todas as colunas são marcadas em uma linha), mas ninguém chegou a fazer os treze pontos — as chances matemáticas eram de 1:1 594 323 para obter o feito. Oito apostadores foram premiados com doze pontos e dividiram o prêmio líquido, com cada um recebendo cerca de 10 mil cruzeiros novos (R$ 4 hoje). Outras rodadas experimentais foram realizadas em 3 de maio, também na Guanabara, e em 17 de maio, em São Paulo, Belo Horizonte e Brasília.

Oficialmente, os bolões começaram em 7 de junho, que foi também a primeira vez em que foram acertados treze pontos. O futebol já era febre no País, antes mesmo de a Seleção Brasileira ter faturado sua terceira Copa do Mundo, o que gerou muitas filas nas casas de apostas. O jogo mínimo custava 2 cruzeiros novos, com um duplo; o jogo com um triplo custava três cruzeiros novos.

O apostador preenchia um cartão e entregava-o na lotérica, que usava uma máquina manual da IBM, chamada Port a Punch, para furar dois cartões, um dos quais ficaria como comprovante com o apostador.Ao final de todos os jogos de domingo, um computador da Caixa Econômica Federal processava as apostas, em "apenas" dezessete minutos, de acordo com a revista Placar. O computador seguia lendo cartão por cartão até encontrar um com nove pontos (o mínimo para o prêmio ser rateado) e, então passava a separar todos os cartões com nove pontos até achar algum com dez; a partir daí seguia o mesmo processo, em busca de cartões com onze, doze e, eventualmente, treze pontos.

Segundo dados da própria Caixa, Campo Grande teve exatos e curiosos 13 acertadores da Loteca entre 1970 e 1984. Os dados, porém, são imprecisos, visto que a loteria só chegou em meados de 1971 e os prêmios eram pagos (e contabilizados) por Cuiabá até 1977.

Em 1978, no auge de popularidade da Loteria Esportiva, surgiram os primeiros boatos sobre uma máfia armada entre apostadores que se revezavam e faturavam prêmios gordos em dinheiro.

A coisa chamou a atenção primeiro pelo 'Jornal da Tarde', extinto jornal de São Paulo (SP), que denunciou um jogador que teria sido comprado da Francana, clube interiorano que estava nas primeiras divisões dos campeonatos Paulista e Brasileiro naquele ano, mas assim como no caso do Operário, a coisa foi arquivada por falta de provas. Mas elas viriam.

Em 1979, Milton Coelho da Graça, então diretor de redação da revista Placar, comentou com Juca Kfouri, então editor de projetos especiais e que cuidava da seção sobre a Loteria Esportiva, que vinha notando algumas coincidências quando poucas pessoas ganhavam em um teste.A pedido de Milton, Juca foi a Brasília (DF) pedir para ver os bilhetes premiados, mas o pedido foi negado, com a alegação de sigilo bancário.

Nesse mesmo ano, Milton deixou a Editora Abril, que publicava 'Placar', e Juca foi promovido a seu posto. Ainda com as suspeitas em relação à Loteria Esportiva, todo o fim de mês provocava a redação: "Quem é o macho para descobrir a sacanagem da Loteria Esportiva?" Mas ninguém se pronunciava.[18] Em outra viagem a Brasília, pediu novamente para ver os cartões ganhadores. Desta vez, mostraram-lhe alguns: "Nego colocava jogo triplo em partida que se cravaria seco", conta Juca. "Corinthians × Juventus, triplo. Flamengo × Olaria, triplo. Vasco × Botafogo, Vasco. Atlético-PR × Coritiba, Coritiba. Inter × Livramento, triplo. Não é possível. Eles cravam triplo em jogo fácil e seco para jogo difícil. Tem alguma coisa estranha nisso", disse o jornalista, atualmente na 'ESPN Brasil' e 'Folha de S. Paulo' em seu livro, "Confesso que perdi".

O volante de apostas da Esportiva nos anos 1970: todomundo jogava em busca do sonho de virar milionário

Quando comentou suas suspeitas na redação, no dia seguinte, conseguiu um voluntário para a empreitada: Sérgio Martins. Juca deu a ele prazo de um ano, cumprido à risca: no número 648, de 22 de outubro de 1982, foi publicada extensa reportagem sobre o caso, com denúncias de corrupção e manipulação de resultados. 

Doze páginas de nitroglicerina pura sobre um escândalo gigantesco, abarcando mais de uma centena de pessoas do universo do futebol.

Um trabalho de formiguinha de Sérgio Martins, que venceu o Prêmio Esso de jornalismo e farejou pista de uma quadrilha em Santos e, a partir daí, passo a passo, montou o quebra-cabeça de uma história assaz alarmante.

"A Loteria Esportiva é séria até a bola rolar", admitiu o radialista Flávio Moreira, um dos envolvidos e que foi denunciante que topou expor toda a mutreta. Nenhum dos 125 denunciados, entre jogadores, dirigentes, árbitros, técnicos e personalidades, foi preso. 

O petardo jornalístico de 'Placar' foi sucesso absoluto leitores e a opinião pública. O mesmo não ocorreu entre a chamada grande mídia, que preferiu contestar a reportagem em vez de cavar ainda mais fundo.

A simpática zebrinha da 'Globo' estreou em 1978, ápice da popularidade da Loteca, e até hoje é lembrada pelos fãs de futebol

“Durante uma semana, apanhamos mais que Judas Iscariotes. Foram páginas e páginas de jornais repletas de desmentidos. Diariamente o Jornal Nacional mostrava os denunciados com suas versões. Placar, cuja edição vendera mais de 300 mil exemplares, era acusada de trair o futebol brasileiro, e a Caixa Econômica atestava a credibilidade da loteria que bancava”, conta Juca, em suas memórias.

O desfecho da história você já deve imaginar…

Pois é: não deu em nada!

As edições seguintes de 'Placar' trouxeram novas revelações e personagens. Porém, após mais de três anos de investigação, a Polícia Federal deu por encerrado o caso com somente 20 pessoas indiciadas. A tradicional lerdeza da Justiça fez com que os crimes prescrevessem e ninguém foi punido.

O gerente de Loterias da Caixa em 1989, Juarez José de Lima, garantiu à época que o escândalo não chegou a abalar a loteria. Mas os tempos áureos do jogo jamais voltaram, seja pela descrença de que seja 100% limpo para os mais antigos ou a rivalidade com outras loterias, como Loto e Sena, para os mais jovens.

A histórica Placar de 1982: Prêmio Esso e mancha eterna na credibilidade do futebol brasileiro

*Amigos e amigas leitores do Correio do Estado, o Campeonato Estadual de futebol de Mato Grosso do Sul começou. E, para embalar a bola que vai rolar pelos gramados, temos o prazer de apresentar a vocês nossa nova coluna: 'Causos da Bola'.

Semanalmente, sempre aos sábados, convidamos você a viajar no tempo da história esportiva sul-mato-grossense através dos 64 anos acumulados nas páginas do jornal mais tradicional e querido do Estado.

Embarque com a gente nesta máquina do tempo e reviva junto conosco o que de melhor nosso arquivo tem a oferecer sobre os fatos esportivos. 

Legenda da Foto

PREPARATIVOS

Campo Grande monta estrutura inédita para receber show histórico do Guns N' Roses

Com 70% do público vindo de fora do Estado, estrutura montada do zero e desafios logísticos, Capital se mobiliza para receber o maior show de sua história

23/03/2026 08h30

Com mais de três horas de apresentação, turnê mundial do Guns N' Roses abraça hits históricos da banda

Com mais de três horas de apresentação, turnê mundial do Guns N' Roses abraça hits históricos da banda Divulgação

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A poucos dias de entrar definitivamente no circuito das grandes turnês internacionais, Campo Grande vive uma corrida contra o tempo para receber o aguardado show do Guns N’ Roses.

Marcada para o dia 9 de abril, no Autódromo Internacional Orlando Moura, a apresentação deve reunir entre 35 mil e 40 mil pessoas e já ultrapassou a marca de 30 mil ingressos vendidos, consolidando-se como o maior evento musical da história de Mato Grosso do Sul.

Mas, por trás da expectativa dos fãs, existe uma complexa operação logística para garantir um espaço adequado para um evento tão grande. Sem estádio ou arena à altura, foi preciso construir toda uma estrutura do zero, bem no meio da pista do Autódromo Internacional Orlando Moura.

A montagem do evento teve início na terça-feira, com a instalação de estruturas iniciais, como camarim, bangalôs e delimitação do espaço. No entanto, o palco, que faz parte da própria turnê mundial da banda, só será montado nos dias finais, com previsão de conclusão na véspera do show.

Enquanto isso, uma equipe com cerca de 40 pessoas trabalha intensamente para preparar o terreno onde toda a infraestrutura básica será instalada do zero: rede elétrica, sistema hidráulico, piso especial, áreas de circulação, camarotes e espaços de apoio.

Segundo o produtor local Valter Júnior, da Santo Show, o maior desafio é a construção de um grande evento do zero, sem nenhuma base prévia. “Aqui não tem nada. A gente está literalmente montando tudo: energia, água, piso. É um investimento alto e uma operação muito complexa”, explica.

PÚBLICO RECORDE

A expectativa de público também impõe desafios adicionais. A organização trabalha com um limite de até 40 mil pessoas, número que não será ultrapassado, para garantir conforto e segurança.

Um dado que chama atenção é a origem dos fãs: cerca de 70% do público vem de fora de Campo Grande. Há caravanas organizadas de diversas regiões do Brasil, além de presença confirmada de fãs de países vizinhos, como Argentina, Paraguai e Bolívia.

Com mais de três horas de apresentação, turnê mundial do Guns NPara receber público com conforto, gramado do autódromo dará lugar a um piso especial - Foto: Gerson Oliveira/Arquivo Correio do Estado

Esse fluxo intenso deve transformar a cidade nos dias que antecedem o evento, com aumento significativo na circulação de pessoas e na demanda por serviços.

A alta procura já impacta diretamente a rede hoteleira. Segundo a organização, praticamente não há mais vagas disponíveis na cidade, o que tem gerado preocupação para quem ainda não garantiu hospedagem.

Ao mesmo tempo, esse cenário evidencia o impacto econômico positivo do evento. Com milhares de visitantes, setores como hotelaria, gastronomia, transporte e comércio devem registrar crescimento expressivo.

“Se a gente considerar 70% de um público de até 40 mil pessoas consumindo na cidade, o impacto é enorme. É restaurante cheio, salão, comércio, tudo aquecido”, destaca o produtor.

OPERAÇÃO

Uma das maiores preocupações da organização é a logística de chegada do público. Para evitar congestionamentos e tumultos, a estratégia será fracionar o fluxo de entrada ao longo de horas e até dias.

A expectativa é de que cerca de 3 mil pessoas cheguem à cidade um dia antes do evento. Pensando nisso, será montada uma área de recepção com capacidade para até 10 mil pessoas antes da abertura oficial dos portões.

A saída do público também está sendo planejada com atenção, embora a chegada seja considerada o momento mais crítico. Uma grande operação da Polícia Rodoviária Federal foi estruturada para auxiliar na organização do trânsito e garantir maior fluidez na BR-262.

A segurança do evento também contará com uma operação integrada envolvendo diferentes forças: Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Federal e equipes privadas. O trabalho será contínuo, com atuação antes, durante e após o show.

A proposta é garantir não apenas a segurança dentro do espaço, mas também nos arredores e nas principais vias de acesso, considerando o grande volume de pessoas esperado.

CONFORTO

Com temperaturas elevadas e grande concentração de público, a organização também tem direcionado esforços para garantir o conforto dos participantes.

Entre as medidas previstas está a criação de uma área de hidratação dentro do evento, além da limitação rigorosa da capacidade de público. A ideia é evitar superlotação e proporcionar uma experiência mais segura e agradável.

“O nosso foco é que as pessoas tenham uma experiência positiva, desde a chegada até a saída”, reforça Valter Júnior.

ABRIDOR DE PORTAS

A apresentação do Guns N’ Roses pode representar um divisor de águas para Campo Grande. A expectativa da organização é de que o sucesso do evento ajude a consolidar a cidade como destino viável para grandes turnês internacionais.

Segundo Valter Júnior, já existem conversas em andamento com outras bandas, inclusive com possibilidade de atrações ainda maiores. No entanto, ele reforça que a falta de infraestrutura continua sendo um obstáculo.

“Se a gente tivesse um estádio, já teríamos vários outros shows confirmados. A cidade perde muito por não ter um espaço adequado”, afirma.

Ele também defende que o poder público passe a olhar com mais atenção para essa demanda, especialmente considerando o impacto econômico gerado por eventos desse porte.

NOITE HISTÓRICA

Integrando a turnê mundial “Because What You Want and What You Get Are Two Completely Different Things”, o show promete mais de três horas de duração, reunindo clássicos que atravessam gerações.

Hits como “Sweet Child O’ Mine”, “Welcome to the Jungle”, “Paradise City” e “November Rain” devem embalar o público em uma noite que promete entrar para a história da cidade.

Antes da atração principal, o palco será ocupado pela banda Raimundos, que durante 40 minutos ficará responsável por aquecer o público com seu repertório energético.

>> Serviço

Show – Guns N’ Roses

Data: 9 de abril.
Local: Autódromo Internacional Orlando Moura.
Ingressos: on-line, pela Bilheteria Digital, e no ponto físico, no Shopping Bosque dos Ipês (terça a domingo, das 14h às 20h).

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SAÚDE

Entenda o que muda com o fim da patente do Ozempic

Especialistas explicam o impacto que a popularização da semaglutida deve causar no acesso, nos preços e na saúde pública, além dos desafios regulatórios, os riscos do uso indiscriminado e o longo caminho até a chegada dos biossimilares às farmácias

23/03/2026 08h00

Fim da exclusividade abre caminho para a produção de versões biossimilares, que prometem reduzir o preço e ampliar o acesso

Fim da exclusividade abre caminho para a produção de versões biossimilares, que prometem reduzir o preço e ampliar o acesso Reprodução

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Na sexta-feira, o cenário farmacêutico brasileiro e mundial marcou um ponto de inflexão com a expiração da patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, medicamentos que se tornaram fenômenos globais no tratamento do diabetes tipo 2 e, mais recentemente, da obesidade.

Detida pelo laboratório dinamarquês Novo Nordisk, a exclusividade sobre a molécula chegou ao fim, abrindo caminho para uma nova era de concorrência que promete alterar drasticamente o acesso, os preços e a dinâmica do mercado de saúde no País.

AUMENTO DA CONCORRÊNCIA

Do ponto de vista legal e comercial, a expiração da patente representa um marco significativo. De acordo com Denise Basílio, Doutora em Ciências Farmacêuticas e coordenadora do curso de Farmácia da Estácio, a mudança é estrutural.

“Quando a patente de um medicamento como a semaglutida expira, a empresa titular perde a exclusividade de comercialização, permitindo que outras indústrias produzam versões equivalentes. A partir desse ponto, ocorre o aumento da concorrência no mercado, levando à redução significativa dos preços e ampliando o acesso da população ao tratamento”, explica.

Patrícia Pacheco, Doutora em Saúde e Desenvolvimento e coordenadora do curso de Biomedicina da Estácio, complementa que a abertura do mercado é um direito adquirido por outras empresas, desde que cumpram rigorosamente as exigências regulatórias.

“Na prática, abre-se o mercado à concorrência, o que tende a ampliar o acesso e reduzir preços ao longo do tempo”, afirma.

No entanto, ambas as especialistas são enfáticas ao pontuar que o direito jurídico de produzir não se traduz em disponibilidade imediata nas prateleiras das farmácias. Isso porque, apesar de juridicamente as empresas já poderem iniciar seus processos, a prática exige tempo e investimento.

“Mesmo após a expiração da patente, outras empresas ainda precisam desenvolver o produto, comprovar sua segurança e eficácia e obter aprovação da Anvisa, além de lidar com possíveis patentes secundárias, o que pode atrasar a entrada no mercado”, detalha Denise Basílio.

O processo de aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é longo e rigoroso, especialmente para um biossimilar. Enquanto um genérico comum pode levar meses a alguns anos para ser aprovado, um biológico pode demandar vários anos.

“A Anvisa exige estudos de bioequivalência, controle de qualidade rigoroso, inspeções de boas práticas de fabricação e análise detalhada do dossiê técnico. Em média, leva de 1 a 3 anos, dependendo da complexidade do medicamento. Para moléculas complexas como a semaglutida, esse prazo tende a ser maior”, explica Patrícia.

CAPACIDADE PRODUTIVA

Além disso, a demanda global elevada e a capacidade produtiva limitada de poucos fabricantes podem gerar um descompasso.

“Pode haver demora devido à capacidade produtiva limitada, dificuldades técnicas e demanda global elevada, até porque os medicamentos dessa classe estão associados ao tratamento de obesidade e diabetes tipo 2, atualmente com enorme procura”, acrescenta Denise.

O Brasil possui expertise em biotecnologia, mas a produção de um fármaco tão complexo esbarra em limitações de infraestrutura.

“O Brasil tem capacidade de produzir, mas, na prática, tende a depender parcialmente de importação, pelo menos no início. A produção de moléculas complexas como a semaglutida exige infraestrutura muito avançada, alto investimento e domínio tecnológico específico”, analisa Denise Basílio.

Patrícia Pacheco corrobora essa visão. “O Brasil possui alguma capacidade em biotecnologia, mas ainda é dependente de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs) importados, principalmente da Ásia e Europa. É provável que, inicialmente, haja forte dependência externa, com produção local gradual,” acrescenta.

BIOSSIMILARES

Um dos pontos cruciais que diferenciam a semaglutida de outros medicamentos é a sua complexidade. Diferente de fármacos tradicionais, como um anti-inflamatório ou analgésico, a semaglutida é um peptídeo sintético produzido por biotecnologia, envolvendo sistemas celulares vivos e processos químicos altamente sofisticados.

Denise Basílio explica que, por isso, a tendência não é o surgimento imediato de genéricos clássicos, mas sim de biossimilares.

“A semaglutida é conhecida por ser um medicamento biológico complexo e não uma molécula química simples. É praticamente impossível fazer uma cópia idêntica em todos os detalhes estruturais e funcionais. Em vez de genéricos clássicos, surgem os biossimilares, que são versões altamente semelhantes, mas não idênticas, e precisam passar por estudos rigorosos para comprovar que têm a mesma eficácia, segurança e qualidade clínica”, pontua.

Esse controle de qualidade é, segundo Denise Basílio, assegurado pela Anvisa. “A Anvisa garante que medicamentos tenham a mesma eficácia e segurança por meio de um processo rigoroso de avaliação. Para biossimilares, são exigidos estudos rigorosos para demonstrar que o desempenho clínico é equivalente ao original”, explica.

Sobre a experiência dos pacientes, a médica Mariana Vilela explica que em alguns casos pode haver diferença nos sintomas entre o medicamento original e o biossimilar.

“O que muda de um medicamento original para um genérico é apenas o laboratório. O princípio ativo é o mesmo. A eficácia é muito parecida, mas sem sombra de dúvidas, quando falamos de medicação, o padrão ouro é o original, porque ali todos os veículos foram testados e o melhor está sendo utilizado. O paciente pode sentir, em sua individualidade biológica, que o genérico não funciona tão bem quanto o original. Isso não é uma regra, mas uma particularidade de cada organismo”, afirma.

BARATEAMENTO

A principal promessa da quebra de patente é a redução de preços. Atualmente, o Ozempic custa em média entre R$ 1.000 e R$ 1.200, um valor proibitivo para grande parte da população. Com a entrada de concorrentes, a expectativa é de uma queda significativa.

De acordo com Denise Basílio, a redução segue um padrão legal e mercadológico. “No Brasil, os medicamentos genéricos costumam ser significativamente mais baratos que os de referência, com redução mínima legal de cerca de 35% e, na prática, valores frequentemente entre 50% e 60% menores, podendo ser ainda mais baixos conforme a concorrência no mercado”, destaca.

No entanto, Patrícia Pacheco adverte que essa queda não será imediata. “Geralmente leva tempo. No início, poucos fabricantes entram no mercado, mantendo preços relativamente altos. À medida que mais empresas passam a produzir, a competição se intensifica e os preços caem progressivamente”, pontua.

Com o barateamento e a popularização, o aumento do uso indiscriminado e da circulação de produtos irregulares se torna um risco latente. A médica Mariana Vilela alerta para a possibilidade de um aumento no uso sem prescrição.

“O risco do aumento do uso indiscriminado com o barateamento existe, mas mesmo com valor alto a gente já sofria esse risco devido aos contrabandos e ao uso de medicamentos de procedência duvidosa. O que a gente tem que investir é em educação em saúde para a população, para que entendam que emagrecer por conta própria não é sinônimo de saúde”, adverte.

Denise Basílio complementa sobre o perigo do aumento da circulação das versões irregulares. “A queda da patente pode aumentar o risco de circulação de versões irregulares ou manipuladas, especialmente em medicamentos de alta demanda. Isso ocorre porque o interesse comercial cresce rapidamente, e antes que versões aprovadas estejam disponíveis, podem surgir produtos sem registro, importações irregulares ou formulações manipuladas sem comprovação adequada de eficácia e segurança”, explica.

Para se proteger, o consumidor deve estar atento. “Para garantir que um medicamento seja seguro, o consumidor deve verificar se ele possui registro na Anvisa, adquirir apenas em farmácias confiáveis, observar se a embalagem contém informações completas [como lote, validade e fabricante] e evitar produtos com preços muito abaixo do mercado”, orienta Denise.

DISPONIBILIZAÇÃO NO SUS

A queda de preço abre uma janela de oportunidade para a incorporação da semaglutida no Sistema Único de Saúde (SUS), atualmente restrita a casos muito específicos de diabetes tipo 2 em última linha de tratamento.

Mariana Vilela acredita que a redução de custos facilita a negociação, mas destaca a necessidade de vontade política.

“A queda do preço pode facilitar a incorporação, mas a questão é ter iniciativa governamental para isso. Precisamos de um acordo comercial bem feito, como foi feito nos Estados Unidos, um incentivo fiscal federal para que haja esse tipo de parceria”, afirma a médica.

O impacto de um acesso ampliado à população teria impactos profundos na saúde pública.

“Com acesso maior, eu tendo a controlar melhor doenças como diabetes e obesidade, que são a porta de entrada para todas as outras: hipertensão, dislipidemia, câncer, doenças autoimunes. Quando eu controlo diabetes e obesidade, eu controlo tudo”, afirma Mariana Vilela.

“Isso pode gerar um custo maior em medicamentos na atenção primária, mas reduz custo em UTI, em hospitais, em procedimentos como cateterismos. É focar na prevenção e não só na remediação”, pontua.

ESTÍMULO

A expiração da patente não significa o fim da inovação. Pelo contrário, pode estimulá-la. “Com o fim da exclusividade, outras empresas passam a competir com versões mais baratas, enquanto a empresa original tende a investir em melhorias para se manter competitiva, como novas formulações, combinações terapêuticas ou novas indicações clínicas”, explica Denise Basílio.

O caso da semaglutida, segundo as especialistas, serve de modelo para o futuro de outras drogas. “Sem dúvida, o caso da semaglutida pode se repetir com outros medicamentos ‘da moda’, especialmente aqueles com alta demanda clínica ou estética”, conclui Patrícia Pacheco.

“Sempre que um medicamento de alto impacto perde patente, vemos o mesmo ciclo: expansão de acesso, queda de preços e aumento da concorrência”, pontua.

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