Bola de meia
Naquela tarde de janeiro, eu, professor municipal, gozando meus últimos dias de férias, fui curtir meu ócio remunerado à sombra de uma sibipiruna, que abriga a torcida no campinho da Vila Popular, onde moro desde a infância.
Peguei o Correio B, do Correio do Estado, na intenção de matar as palavras cruzadas, e fui. Ao chegar ao destino, mal entrei no alambrado e quase fui atropelado por um magote de guris barulhentos. Mal sentei e dois desses meninos se aproximaram de mim, ofegantes: “Tio, o senhor já leu o jornal?”.
Surpreso com a pergunta, entreguei o caderno para o sardentinho da frente, o que mais tinha cara de Joãozinho.
E antes que voltassem ao grupo, do qual imaginei que tivessem se separado atraídos pelo jornal, arrisquei algumas palavras sobre a importância da leitura, encerrando a breve preleção, querendo saber de que parte eles mais gostavam do jornal.
Um deles ia improvisar uma resposta, quando foi interrompido pelo colega:
– Nada disso, tio, queremos o jornal para fazer uma bola.
Sérgio Cruz, 81 anos, jornalista, autor de “Campo Grande – 150 Anos de História” (2022) e de mais 12 livros
Sete décadas de profissionalismo
Havia uma atmosfera vibrante na redação do jornal Correio do Estado naquela manhã ensolarada de fevereiro.
Os corredores ecoavam com risadas e conversas animadas, e os jornalistas se preparavam para celebrar um marco significativo: os 70 anos do periódico que se tornou uma instituição respeitada no estado de Mato Grosso do Sul.
O editor-chefe, erguendo um brinde ao aniversariante, afirmou, emocionado: “Aos 70 anos de história, de compromisso com a verdade e de anos de trabalho árduo. Que venham muitos mais anos de sucesso, impacto e relevância!”.
Foi então que me dei conta que o jornal Correio do Estado é meu amigo “siamês”, pois completamos mais um ciclo juntos; somos ambos ardorosos frutos de fevereiro, e é com imenso prazer que escrevo esta mensagem.
O Correio do Estado tem sido uma voz indispensável, trazendo à luz histórias, desafios e triunfos que moldaram nossa sociedade.
À equipe do Correio do Estado, meu apreço pelo trabalho, pela paixão e pelo profissionalismo. São todos guardiões da liberdade de imprensa e defensores da democracia.
Que esta data seja apenas o começo de uma nova e emocionante fase na história do Correio do Estado.
Ana Maria Bernardelli, 73 anos, ensaísta, antologista e poeta, autora de, entre outros, “Na Trilha das Formigas” (Life, 2020)
O reencontro
Dois garotos, aldeões portugueses, Manoel e Ovídio, ocultos em navio de carga, após a 1ª Guerra Mundial, imigraram para o Brasil em busca de prosperidade. No Brasil, Ovídio empregou-se em São Paulo, constituiu família e, nove anos depois, morreu de tuberculose.
Manoel foi parar em terras pantaneiras, no então Mato Grosso, onde fixou-se, arrumou emprego, fez família, prosperou e teve a vida longa, mas perdeu contato com a família em Portugal.
Com saudades, seu tio Pedro, no afã de encontrar os sobrinhos, soube da morte de Ovídio e, mais ou menos, sobre o paradeiro de Manoel.
Assim, veio de Lisboa a Campo Grande, onde, por sugestão de conterrâneos, publicou anúncio em busca de Manoel em um jornal denominado Correio do Estado.
Esse jornal alcançava, pelo trem, as paragens pantaneiras. Deu certo. O reencontro aconteceu e a alegria cobriu o evento. A comemoração foi inesquecível.
Américo Calheiros, 71 anos, encenador teatral, produtor e gestor cultural
Encaramento em praça pública
Um velho me encarava. Eu percebi e voltei a ler meu jornal. Parecia que ele queria dizer algo. Mas eu não busquei o olhar embaçado que ele tinha.
Porém, não teve jeito. “Jovem, eu gosto muito de jornal, mas minhas vistas não funcionam, agora eu luto para enxergar até os títulos!”.
Olhei para ele e sorri com falta de jeito, estava lendo e não queria conversar, no entanto, não teve jeito. “Eu posso ler para você?”. O velho sorriu igual criança banguela. Então, eu comecei:
“Correio do Estado, os índices de criminalidade na Capital subiram… [...] a seca na região pantaneira vem danificando o ecoturismo [...] a produção de celulose bate recorde [...] o assassinato de líderes indígenas em MS faz com que o Estado seja ponto de debate na ONU”.
Depois de um tempo fixado no jornal, percebi que o senhor tinha ido embora. Perguntei para a mulher que mexia no celular na minha frente: “Onde está o velho que tava sentado ao meu lado?”. Ela respondeu com uma cara estranha: “Que velho? Você não está sozinho?”.
Nycolas Verly, 18 anos, poeta, estudante de Relações Internacionais e autor de “Águas Turvas” (Caravana, 2023)
O jornal e o vento
Confesso ser alguém pouco informada. As notícias sempre me chegam por meio de pessoas conversando em alto tom nos ônibus das 7h e das 19h30min.
Moro sozinha e não tenho televisão. A única que tive, Molenga, meu gato, quebrou. Além do mais, não tenho tempo para meio informativo nenhum, trabalho muito e estou sempre cansada, ouço apenas o chamamé no rádio alto da vizinha.
Meu ex-marido trabalha em uma banca de jornais quase falida, infelizmente passo por ela todos os dias para chegar ao trabalho. Não o cumprimento, cultivo uma mágoa sinistra, e se tenho tempo, caminho uma quadra a mais para evitá-lo.
Algumas semanas atrás, ao descer do ônibus, uma ventania me pegou de supetão, contra o vento andava desequilibrada, mal conseguindo abrir os olhos por causa da poeira.
Então, como um tapa, uma folha de jornal grudou em meu rosto, arranquei, segundos depois ela se agarrou de novo a mim. Agoniada, segurei-a com firmeza e corri para o estabelecimento onde trabalhava.
Quando sentei em minha mesa, percebi que a folha ainda estava na minha mão. Se tratava de uma página do Correio do Estado, que continha várias crônicas de autores da minha cidade. O título de uma delas me chamou atenção: “Olha só o que o vento traz”.
A história era de uma moça que, assim como eu, em uma ventania, um jornal agarrou em sua face, trazendo a notícia de uma moça desinformada que, em uma grande ventania, leu que iria chover.
Laura Santoro, 23 anos, modelo, atriz e autora teatral
Cê tenta?
Se eu te disser: “Comprometa-se por toda uma vida”
Cê tenta?
Permeando eras do papel
ao plasma, das ruas às casas
Dando asas a mentes criativas
e alternativas a ideias rasas.
Cê tentaria?
Ou só riria?
Tem que ter mesmo coragem, disposição e opinião.
Talvez um pouco de sorte e,
como no esporte, forte preparação.
70 são
as voltas ao redor do sol em solo pantaneiro e fronteiriço.
Talvez seja por isso tamanho poder de reinvenção.
É valorização da cultura
e da crítica
Da informação verídica
E da política ao cidadão.
Que sou admiradora, deu
para perceber
Mas se quiser um pouco mais me conhecer
Vou te dizer onde procurar.
É só ir lá no Correio B
E na busca escrever e
pesquisar por:
SoulRa.
Viva os 70 anos do jornal
Correio do Estado!
SoulRa, 29 anos, rapper e compositora, lançou três singles e o álbum “Do Interior” (2023)
Correio: jornalismo cultural x gambiarra espacial
Embora o movimento artístico, ao longo de sua jovem história, tenha sido sempre atuante, a tradição administrativa sul-mato-grossense raramente acompanhou essa dinâmica, e Campo Grande, em particular, se caracterizou assim como a capital dos espaços culturais improvisados.
Com poucas exceções, como o Teatro Glauce Rocha, quase nenhuma obra em pé na Cidade Morena até aqui foi pensada originalmente para acolher equipamentos voltados à arte.
O Centro Cultural que leva o nome de José Octávio Guizzo, por exemplo, sediava o fórum da comarca e, por empenho do próprio homenageado, se tornou em 1984 um espaço primordial da Fundação de Cultura de MS, fruto, aliás, da redemocratização em curso no País.
O mesmo se dá com a atual sede da própria fundação e de museus do Estado, conhecida hoje como Memorial da Cultura e Cidadania, que nos anos 1970, em plena ditadura militar, se constituía nos Espaços de Repartição Pública (ERP), que concentravam a burocracia estatal do velho Mato Grosso.
Por tabela, o Teatro Aracy Balabanian, um nobre apêndice do Centro Cultural, se ressente ainda dos limites estruturais desta “livre adaptação”.
Há também o caso do prédio da TVE, concebido inicialmente como um ginásio esportivo e que ainda continua como uma ferramenta potencialmente promissora (continua na página B4).
Joel Pizzini, 63 anos, cineasta, escreveu e dirigiu, entre outros filmes, “Zimba” (2021) e “500 Almas” (2004)


As sócias do BLA – Thais Natale – Márcia Ylana e Larissa Santo André – Foto: Sérgio Bemfica
Ballet Livre Adulto celebra 10 anos com espetáculo La Esmeralda em São Paulo - Foto: Sergio Bemfica
MedellínMedellín - Divulgação
Jalapão - Divulgação


