Neste dia 1º de abril, é comum brincar com amigos e familiares pregando peças, celebrando o Dia da Mentira. Contudo, por trás dessa data lúdica, há questões psicológicas profundas relacionadas à mentira. Em uma entrevista exclusiva ao Correio B, as psicólogas Carlota Philippsen e Claudia Pinho compartilharam suas perspectivas sobre o tema.
Carlota Philippsen destaca duas situações comuns que levam à mentira: a busca por vantagem ou para evitar consequências desagradáveis. Ela ressalta que, embora seja ensinado desde a infância a evitar mentiras, há momentos em que uma dose de discrição pode ser necessária para manter as relações sociais harmoniosas.
"Às vezes, uma verdade é inconveniente e não se encaixa na situação, permitindo que as relações entre os indivíduos fluam de forma mais tranquila. Não é necessário ser honesto o tempo todo quando isso pode magoar alguém ou quando não nos é solicitado. Portanto, refletir sobre isso é sempre mais benéfico, pois a honestidade que machuca não é aceitável, mas ao mesmo tempo, mentir para evitar algo também não é correto. É importante assumir nossa responsabilidade nas situações", aponta Carlota.
No entanto, alerta que quando a mentira se torna habitual e prejudica as relações interpessoais, é hora de buscar ajuda profissional.
"O problema surge quando as mentiras começam a prejudicar significativamente as relações sociais da pessoa. Chega um momento em que as pessoas ao redor percebem que as histórias não se encaixam. É impossível manter uma mentira por muito tempo sem ser descoberto. Eventualmente, a verdade vem à tona. Quando a mentira se torna uma barreira nas relações interpessoais, impedindo a honestidade e a autenticidade, é hora de reavaliar e talvez buscar ajuda", alerta a psicóloga.
Questionada sobre como identificar um mentiroso, Carlota enfatiza que não existe uma fórmula infalível, mas há indícios, como justificativas excessivas ou narrativas longas. No entanto, reconhece a complexidade de detectar mentiras, especialmente em pessoas desconhecidas.
"O comportamento em relação à mentira continua sendo motivo de debate até hoje. É impossível afirmar com certeza absoluta se uma pessoa está mentindo ou falando a verdade, pois isso depende do que ela realmente acredita. Há casos em que as pessoas acreditam na mentira que estão contando. No entanto, é mais fácil perceber sinais de mentira quando alguém fica se justificando excessivamente ou conta uma história muito longa, especialmente se já conhecemos essa pessoa. Por outro lado, é mais desafiador detectar mentiras quando se trata de alguém desconhecido. Acreditar que um dia seremos capazes de identificar mentiras com 100% de precisão é uma ilusão", pondera Carlota.
Já Claudia Pinho ressalta a importância de compreender o papel da mentira na infância. Ela explica que é natural as crianças mentirem para explorar sua autonomia e influenciar seu ambiente.
“Embora entre adultos o mentir seja um sinal de alerta para questões de caráter e comportamento, na infância, a mentira pode ser parte do desenvolvimento infantil e, por isso, é superimportante diferenciar o que é algo adaptativo da idade e o que é patológico”, reforça a psicóloga.
A psicóloga enfatiza a importância de diferenciar mentiras inofensivas das que denotam problemas mais profundos, recomendando uma abordagem acolhedora e reflexiva.
“Mentir, para a criança, quase sempre tem uma natureza inocente e parte do quanto ela pode explorar e aprender sobre o seu meio. Crianças mentem naturalmente para testar sua autonomia e também conhecer sobre o quanto podem influenciar pessoas e seu meio como um todo, bem como para formar e fortalecer relações, como uma forma de exercício da criatividade e imaginação. Mas quando a criança mente a partir de conflitos que envolvem autoestima, atenção podem indicar alguma disfuncionalidade. Por isso, é fundamental que os adultos saibam diferenciar entre as mentiras inofensivas e saudáveis do desenvolvimento e aquelas nocivas. Só que atenção mais séria não significa punitiva. Significa acolhida com cuidado, reflexão e aprofundamento, para compreender o que leva a criança até esse ato”, esclarece Claudia.
Destaca ainda que punir a criança por mentir pode agravar o problema e sugere o apoio de um psicólogo para lidar com questões relacionadas à mentira patológica desde cedo.
“Dialogar e acolher a criança leva a uma relação de confiança e honestidade em que as razões podem ser ditas de forma clara e objetiva. É possível favorecer e oferecer disciplina com apoio emocional, e também por isso é importante a presença de um psicólogo na vida infantil. O quanto antes a mentira patológica for abordada na criança, mais eficaz e rápido é o trabalho para resolver as questões que envolvem relacionamento, autoestima e comunicação”, finaliza a psicologa.
Sobre a origem do 1º de Abril
Apesar de sua aparência moderna, o Dia da Mentira possui raízes tão antigas quanto a Idade Média. Sua origem remonta ao século XVI na França, com significados históricos profundos.
Naquela época, o calendário seguia o modelo juliano, e na França, o ano "iniciava" em 1º de abril. Quando o rei Carlos 9º implementou o calendário gregoriano em 1564, mudando o início do ano para 1º de janeiro, parte da população resistiu à mudança.
Aqueles que se recusavam a adotar o novo calendário eram ridicularizados, recebendo o apelido de "bobos de abril". Eles eram alvo de brincadeiras e piadas, como convites para festas de Ano Novo fictícias e presentes enganosos. Assim, o 1º de abril tornou-se conhecido como o Dia da Mentira e espalhou-se pelo mundo.
No Brasil, a tradição também se enraizou, com relatos de "fake news" em jornais e folhetins. O primeiro registro de uma mentira em 1º de abril no país ocorreu em um jornal mineiro, em 1828, com a notícia falsa da morte do então rei Dom Pedro I.
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