Celebrado no dia 20 de março, o Dia Mundial da Saúde Bucal chama a atenção para a ligação direta entre a saúde da boca e o funcionamento do organismo como um todo. Entre os pontos de maior preocupação está a relação entre doenças gengivais e a diabetes, condição que afeta milhões de brasileiros e exige cuidados contínuos.
Especialistas alertam que problemas bucais podem interferir diretamente no controle da glicose no sangue, agravando o quadro de quem convive com a doença. Ao mesmo tempo, o descontrole glicêmico também aumenta o risco de complicações na cavidade oral, criando um ciclo que exige atenção redobrada e acompanhamento multidisciplinar.
A conexão entre saúde bucal e diabetes é considerada bidirecional. Isso significa que uma condição pode influenciar diretamente a outra. Segundo a cirurgiã-dentista e especialista em periodontia Marina Lua Manfrin Martins, quando os níveis de glicose estão elevados, o organismo se torna mais vulnerável a infecções, inclusive na boca.
Esse cenário favorece o surgimento de inflamações gengivais, como a gengivite e a periodontite, que atingem não apenas a gengiva, mas também os tecidos de sustentação dos dentes.
Em contrapartida, essas infecções aumentam o processo inflamatório no corpo, dificultando ainda mais o controle da glicemia.
“Quando os níveis de glicose no sangue estão elevados, o organismo fica mais suscetível a infecções, inclusive na cavidade bucal. Ao mesmo tempo, infecções bucais podem aumentar a inflamação no organismo e dificultar o controle da glicemia”, explica a cirurgiã-dentista.
Na prática, isso significa que uma pessoa com diabetes descompensada tem maior probabilidade de desenvolver problemas bucais, e esses problemas, por sua vez, tornam o controle da doença ainda mais difícil.
Um dos principais pontos dessa relação está no impacto da inflamação no organismo. Doenças gengivais provocam uma resposta inflamatória contínua que pode aumentar a resistência à insulina, hormônio responsável por regular os níveis de açúcar no sangue.
“Essas doenças provocam um processo inflamatório no organismo que pode aumentar a resistência à insulina, hormônio responsável por controlar os níveis de açúcar no sangue”, afirma Marina.
Com isso, o corpo passa a ter mais dificuldade para utilizar a glicose de forma adequada, elevando ainda mais os níveis glicêmicos. Esse processo pode contribuir para o agravamento da diabetes e aumentar o risco de complicações sistêmicas, como doenças cardiovasculares e problemas renais.
Além disso, pacientes com diabetes frequentemente apresentam outros problemas bucais associados, como a xerostomia, infecções recorrentes e cicatrização mais lenta após procedimentos odontológicos, o que pode tornar tratamentos mais complexos e prolongados.
IMPACTOS
Os efeitos das doenças bucais em pessoas com diabetes não se limitam ao aspecto clínico. A dor, o desconforto ao mastigar e até a perda de dentes podem impactar diretamente a alimentação e a nutrição, dificultando ainda mais o controle da glicemia.
Pacientes com dor ao mastigar, por exemplo, tendem a evitar alimentos mais duros ou fibrosos, como frutas, verduras e proteínas magras, optando por alimentos mais macios e, muitas vezes, mais ricos em carboidratos simples. Esse padrão alimentar pode agravar o descontrole glicêmico.
Além disso, questões como mau hálito persistente e alterações estéticas podem afetar a autoestima e a vida social, o que reforça a importância de um cuidado integral que considere não apenas a saúde física, mas também o bem-estar emocional.
DOENÇAS GENGIVAIS
Estudos e a prática clínica indicam que pessoas com diabetes têm maior predisposição ao desenvolvimento de doenças periodontais. Isso ocorre não apenas por conta da imunidade mais baixa, mas também pelas alterações na circulação sanguínea e na resposta inflamatória do organismo.
A gengivite, estágio inicial, costuma se manifestar com vermelhidão, inchaço e sangramento durante a escovação. Já a periodontite, forma mais avançada, pode levar à destruição dos tecidos que sustentam os dentes, resultando até mesmo na perda dentária.
Em casos mais graves, os dentes podem apresentar mobilidade, um sinal de comprometimento significativo da estrutura óssea e gengival. Esse tipo de situação exige tratamento especializado e pode impactar diretamente a qualidade de vida do paciente.
“Em casos mais avançados, também pode ocorrer mobilidade dentária, quando os dentes passam a apresentar movimento por causa do comprometimento dos tecidos que os sustentam”, alerta a docente.
Alguns sintomas na cavidade bucal podem indicar que a diabetes não está bem controlada. Ficar atento a esses sinais é fundamental para buscar ajuda profissional o quanto antes.
Entre os principais indícios estão: Gengivas vermelhas, inchadas ou sensíveis; sangramento frequente durante a escovação ou uso do fio dental; mau hálito persistente; sensação constante de boca seca; presença de feridas que demoram a cicatrizar; infecções bucais recorrentes.
Esses sinais não devem ser tratados como problemas isolados. Muitas vezes, eles refletem um desequilíbrio maior no organismo e podem ser o primeiro indicativo de que o controle glicêmico precisa ser revisto.
PREVENÇÃO DIÁRIA
Apesar dos riscos, a boa notícia é que a maioria das complicações pode ser evitada com cuidados simples no dia a dia. A higiene bucal adequada é a principal aliada na prevenção de doenças gengivais, especialmente para pessoas com diabetes.
A recomendação inclui escovar os dentes após as refeições, utilizar fio dental diariamente e manter uma boa hidratação para evitar a boca seca. O uso de enxaguantes bucais pode ser indicado em alguns casos, sempre com orientação profissional.
Outro ponto essencial é o controle da diabetes. Manter os níveis de glicose dentro dos parâmetros recomendados ajuda a reduzir significativamente o risco de infecções e inflamações, inclusive na boca.
Além da higiene, hábitos de vida têm papel fundamental na manutenção da saúde bucal e no controle da diabetes. Uma alimentação equilibrada, rica em fibras, vitaminas e minerais, contribui tanto para a saúde das gengivas quanto para o controle glicêmico.
Evitar o consumo excessivo de açúcares e alimentos ultraprocessados é uma medida importante, já que esses produtos favorecem tanto o aumento da glicose no sangue quanto o desenvolvimento de cáries e inflamações gengivais.
O tabagismo também merece atenção. Fumar aumenta significativamente o risco de doenças periodontais e dificulta a cicatrização, e é um fator agravante especialmente perigoso para pessoas com diabetes.
Além dos cuidados em casa, o acompanhamento regular com o dentista é indispensável. Para pessoas com diabetes, a recomendação geral é realizar consultas a cada três a seis meses, dependendo do quadro clínico.
Essas visitas permitem identificar precocemente qualquer alteração na gengiva ou nos dentes, evitando a progressão de doenças e reduzindo a necessidade de tratamentos mais invasivos.
Durante o atendimento, o profissional também pode orientar sobre técnicas adequadas de higiene bucal, indicar produtos específicos e avaliar a necessidade de intervenções preventivas, como limpezas mais frequentes.
Outro ponto destacado por especialistas é a importância da integração entre diferentes áreas da saúde. O acompanhamento de pessoas com diabetes deve envolver não apenas médicos, mas também dentistas, nutricionistas e outros profissionais.
Essa abordagem integrada permite um cuidado mais completo, considerando todos os fatores que podem influenciar o controle da doença.
Em muitos casos, o dentista pode ser o primeiro a identificar sinais de descontrole glicêmico, encaminhando o paciente para avaliação médica.
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Rumilda Siqueira, Cláudia Helena Elesbão e Marília Eliana Martins
Bruna Cardinale Piel


