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LITERATURA

Editora Todavia lança nova edição de clássico de Graciliano Ramos, com posfácio de Antonio Candido

Edição ainda tem ensaio de Elvia Bezerra que apresenta trajetória literária, social e de "afetos" de Manuel Bandeira, destacando amizade do poeta com Nise da Silveira e Ribeiro Couto

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A Editora Todavia lança neste mês a nova edição de um clássico do romance regional brasileiro – “S. Bernardo” (272 páginas, R$ 69,90 ou e-book por R$ 49,90), de Graciliano Ramos – e um alentado estudo sobre o papel fundamental de Santa de Teresa, Bairro do Rio de Janeiro (RJ), na vida e na obra de um dos maiores poetas do País – “A Trinca do Curvelo: Os Afetos de Manuel Bandeira” (336 páginas, R$ 89,90 ou e-book por R$ 59,90), de Elvia Bezerra.

Foto: Divulgação

Publicado em 1934, “S. Bernardo” é o segundo romance de Graciliano Ramos (1892-1953) e um dos pontos mais altos de sua obra. Narrado em primeira pessoa por Paulo Honório, o livro se apresenta como um relato de vida escrito já na maturidade, quando o protagonista repassa sua trajetória e tenta compreender seus erros.

De origem pobre, Paulo Honório ascendeu socialmente por meio da esperteza, do cálculo e, sobretudo, da exploração do trabalho alheio.

Tornou-se dono da fazenda São Bernardo, símbolo de seu triunfo econômico e de seu desejo de poder. No entanto, o que poderia ser uma história de sucesso e superação revela-se um testemunho amargo.

Paulo Honório construiu tudo à base da violência – física, social e afetiva. E a fazenda cresceu ao mesmo tempo que a sua vida pessoal se tornou vazia.

“Vencendo a vida, porém, ficou de certo modo vencido por ela: imprimindo-lhe a sua marca, ela o inabilitou para as aventuras da afetividade e do lazer”, resume Antonio Candido (1918-2017) em posfácio incluído nesta edição.

No centro da narrativa está o casamento com Madalena, jovem professora idealista, cujo olhar sensível e ético contrasta com a mentalidade prática e dura de Paulo Honório.

Incapaz de compreender ou aceitar esse mundo alheio às suas preocupações materiais, ele oprime e sufoca a mulher, conduzindo-a a um desfecho trágico.

Para além da ascensão e derrocada de um homem, no entanto, o romance é uma reflexão sobre poder, afeto e fracasso, revelando os mecanismos de dominação em uma sociedade, até hoje, marcada visceralmente pela desigualdade.

Com texto estabelecido a partir do cotejo de oito versões e notas editoriais que esclarecem variantes entre elas, a nova edição de “S. Bernardo” se soma a outros dois clássicos do autor alagoano que a Todavia lançou pela Coleção Graciliano Ramos em 2024, “Angústia” (1936) e “Vidas Secas” (1938).

Também em 2024, a editora publicou, pelo selo Baião, o infantil “Os Filhos da Coruja”, que foi lançado originalmente, em 1923, sob a autoria de J. Calisto, um dos pseudônimos de Graciliano. A nova edição da obra tem pesquisa e organização de Thiago Mio Salla e pinturas de Gustavo Magalhães.

BANDEIRA NO CURVELO

“A Trinca do Curvelo” pode ser considerado um desses prodígios da articulação entre crítica literária, crônica afetiva e jornalismo cultural que com muita sorte aparecem a cada uma ou duas gerações. É, sobretudo, a obra em que Elvia Bezerra faz a súmula – com estilo gracioso e musical, pesquisa obsessiva e sensibilidade para o detalhe – de toda uma trajetória dedicada à vida intelectual.

Othon Bastos e Isabel Ribeiro no longa Othon Bastos e Isabel Ribeiro no longa “São Bernardo” (1972), de Leon Hirszman; Manuel Bandeira no curta “O Poeta do Castelo” (1959), de Joaquim Pedro de Andrade

Premiado em 1995 pelo Pen Club como melhor ensaio e reeditado agora com dois novos ensaios que versam sobre a presença de duas mulheres na vida e na obra de Manuel Bandeira (1886-1968), o livro toma como ponto de partida uma crônica do poeta de “Carnaval” (1919) sobre uma turma de garotos peraltas do Bairro Santa Teresa, no Rio de Janeiro, para expandir seus limites e retraçar uma narrativa de deliciosas coincidências entre um trio que marcou a cultura brasileira.

Pois foi ali, naquele bairro encravado entre ruas íngremes, vielas e panoramas deslumbrantes da Baía de Guanabara que três grandes personalidades se reuniriam na primeira metade do século 20.

Manuel Bandeira ocupava a casa de número 51 na Rua do Curvelo; a psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999), que revolucionou o tratamento mental por meio da arte, morava em frente ao poeta na mesma rua; e o jornalista, escritor e diplomata Ribeiro Couto (1898-1963) - autor do célebre romance “Cabocla” (1931), que ganhou três versões como telenovela (em 1959, 1979 e 2004) – tinha seu quarto ali mesmo também, na pensão de Dona Sara.

BIOGRAFIA COLETIVA

O Rio então era a Capital Federal, a cidade que se modernizava a passos largos, mas que também, ainda, preservava paragens bucólicas e quase interioranas, onde Bandeira, Nise e Ribeiro Couto roçariam cotovelos enquanto ajudavam a transformar o cenário intelectual.

Por fortuito que pareça, e é, essa sincronia de personalidades e talentos tão distintos ajuda Elvia a construir – por meio de poemas, cartas, crônicas, rememorações – uma espécie de biografia coletiva tendo Bandeira como centro irradiador.

Mas também, a certa altura, a autora pede passagem e relembra a sua convivência, décadas mais tarde, com Nise, já uma personalidade quase legendária em nossas ciências. Pois esta é, como já reza o seu subtítulo, uma história de afetos.

HUMOR E TERNURA

O ambiente e o cenário da antiga Rua do Curvelo, atualmente Rua Dias de Barros, são evocados em poemas antológicos de Manuel Bandeira.

Quem não se lembra de “Irene preta/Irene boa/Irene sempre de bom humor”, do poema “Irene no Céu” (1930), ou dos famosíssimos versos de “Vou-me Embora pra Pasárgada” (1930), para citar apenas dois dos que guardam relação direta com essa rua onde o poeta morou de 1920 a 1933.

Na prosa bandeiriana, personagens da minúscula rua foram imortalizados, e fatos do cotidiano, contados com humor e ternura, não só em crônicas, mas também na correspondência do poeta.

Foto: Divulgação

Entre tantas referências, duas se destacam e justificam a suspeita de uma importância maior da Rua do Curvelo na vida e na obra de Manuel Bandeira. A primeira é a confissão que ele faz na autobiografia literária “Itinerário de Pasárgada” (1954), em que dá como testemunha de seu aprendizado o amigo Rui Ribeiro Couto.

“A Rua do Curvelo ensinou-me muitas coisas. Couto foi avisada testemunha disso e sabe que o elemento de humilde cotidiano que começou desde então a se fazer sentir em minha poesia não resultava de nenhuma intenção modernista. Resultou, muito simplesmente, do ambiente do Morro do Curvelo”, revela Bandeira.

O Morro do Curvelo, como Bandeira também denominava a pequena rua, adentrou na tradição literária por meio desse depoimento e de um ensaio de Ribeiro Couto – “De Menino Doente a Rei de Pasárgada” (1936).

Um grande poeta ali morava. Ali tomaria contato com a vida popular, observando, morro abaixo, os quintais efervescentes da Rua Cassiano. Ali permaneceria os melhores anos e os mais fecundos de sua criação poética.

DO CEARÁ A SUÍÇA

Manuel Bandeira morou inicialmente no Bairro de Santa Teresa em meados de 1908, em junho, quando voltou do Ceará, onde fora procurar clima bom para sua saúde na cidade de Quixeramobim, vizinha à Quixadá de Rachel de Queiroz (1910-2003).

De volta do sertão cearense, Bandeira juntou-se à família, que morava na Rua do Aqueduto, em Santa Teresa, no terceiro andar de um prédio que pertencia a um negociante português conhecido como Sr. Gomes.

Em versos do livro “Mafuá do Malungo” (1948), o poeta dedicou a essa antiga morada um soneto com o título de “O Palacete dos Amores”, nome dado pelo proprietário, habitante do segundo andar.

A família do engenheiro Manuel Carneiro de Sousa Bandeira – a mulher, Francelina Ribeiro de Sousa Bandeira, chamada Dona Santinha, e os filhos Antônio, Manuel e Maria Cândida – lá morou até 1912, quando se mudou para o Leme.

Em 2 de julho de 1913, Bandeira partiu para o Sanatório de Clavadel, instituição conhecida pela excelência no tratamento de tuberculose, a três quilômetros da famosíssima Davos Platz, na Suíça, que hoje sedia o Fórum Econômico Mundial.

Seriam para sempre caras as lembranças daquele ano em que, a aproximadamente 1.500 metros de altura, o poeta tratava-se no clima frio e seco, recomendado para seus pulmões doentes.

Ali ele conviveu com o poeta francês Paul Éluard (1895-1952), então com 19 anos, quando ainda não pensava em se juntar a André Breton (1896-1966) e Louis Aragon (1897-1982) para fundar o movimento surrealista, o que aconteceria em 1919, dois anos depois de Éluard se casar com a ex-companheira de sanatório que iluminara seus dias nos Alpes suíços, a russa Elena Dmítrievna Diákonova (1894-1982), chamada de Gala, e que uma década depois o trocaria por Salvador Dalí (1904-1989).

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Diálogo

Depois de reuniões festivas, participação em eventos políticos e até... Leia na coluna de hoje

Leia a coluna desta sexta-feira (16)

16/10/2026 00h02

Diálogo

Diálogo Foto: Arquivo / Correio do Estado

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Victor Hugo - Escritor francês

"Saber exatamente qual a parte do futuro que pode ser introduzida no presente é o segredo de um bom governo”.

Felpuda

Depois de reuniões festivas, participação em eventos políticos e até aparições como “papagaios de pirata” em coletivas da prefeita, eis que a tchurma da Câmara de Campo Grande resolveu chutar o pau da barraca. De um dia para o outro, a tropa de choque passou a enxergar os inúmeros buracos e prestar atenção nos demais problemas da cidade. Milagre da visão? De duas, uma: ou os nobres edis resolveram levantar da cadeira e trabalhar, ou o duro recado das urnas acendeu a luz vermelha. Em tempo: dos 12 vereadores candidatos, apenas um conseguiu se eleger. Como se vê...

DiálogoEscreva a legenda aqui

Em celebração aos 120 anos que o famoso avião 14-bis, criado por Santos Dumont, realizou seu primeiro voo público em Paris, no dia 23 de outubro de 1906, a TV Cultura estreia no próximo domingo (18), a minissérie Santos Dumont, que resgata o legado e a genialidade do inventor brasileiro. A produção, com seis episódios, vai ao ar semanalmente, às 15h (MS), acompanha Santos Dumont desde a infância nos cafezais de Minas Gerais até a consagração nos aeroclubes de Paris, na virada do século XIX para o XX. Interpretado por João Pedro Zappa na fase adulta, o inventor personificou as grandes transformações da época ao transitar entre o Brasil e a França. Para as filmagens foram utilizados os palácios no Rio de Janeiro e as ruas de Petrópolis, recriando a Paris da Belle Époque e refazendo o histórico voo do 14-bis com uma réplica do avião. Santos Dumont tem direção de Estêvão Ciavatta e Fernando Acquarone, com roteiros de Pedro Motta Gueiros e Gabriel Mariani Flaksman. A narrativa aborda a personalidade reservada do aviador, os desafios na Europa, o preço da fama e a melancolia dos seus últimos anos. A minissérie venceu o prêmio internacional Telly Awards nas categorias Cinematografia e Entretenimento.

DiálogoMariana Uchoa - Foto: Arquivo Pessoal

 

DiálogoDebora Falabella - Foto: Lu Prezia

Torre de Babel

Enquanto a prefeita Adriane Lopes anuncia aos quatro ventos forças-tarefas em vários bairros, o secretário de Obras, André Brandão, tem afirmado em entrevistas: “Preciso de 60 dias para colocar o tapa-buraco em dia”. Ou seja: o serviço só ficaria pronto às vésperas do Natal, com Ano-Novo e posses logo em seguida. Até lá, as primeiras promessas do Executivo terão completado um ano. E com um agravante: além dos buracos, as chuvas agora trazem enxurradas, matagal e lamaçal.

Lado

Pelas redes sociais, circula vídeo de figura que concorreu às eleições pelo PT em Mato Grosso do Sul. No vídeo criticou o discurso de ódio no PT e a perseguição aos cristãos, anunciando que vai votar em Flávio Bolsonaro para presidente da República. Tal decisão pegou os companheiros e eleitores de surpresa. 

Na real

O Tribunal de Justiça de MS retomou ação de indenização por danos ambientais e morais movida por moradores da Comunidade Ribeirinha de Porto Esperança contra a empresa LHG Mining Corumbá S.A. A ação havia sido extinta em primeira instância, sem que se analisasse se os moradores tinham direito à indenização pelos supostos danos. Juiz apontou falhas, por conta da falta de comprovantes formais de residência e de extratos bancários ou fiscais que comprovassem a alegada vulnerabilidade financeira dos ribeirinhos. Como se sabe, conta de luz no nome e extrato bancário em dia não existe e nunca existiu nem mesmo no imaginário de quem vive à beira do rio. Agora, o mérito, enfim, terá sua vez.

ANIVERSARIANTES 

  • Caroline Mendes Dias,
  • João Cordeiro da Silva Filho,
  • Maria Fernanda Tedesco Rodrigues, 
  • Antônio Braz da Silva, 
  • Jerusa Gabriela Ferreira,
  • Alberto Rodrigues Soares,
  • Carlos Dias Andrade,
  • Marly de Souza Corrêa,
  • Clodoilson dos Santos Pires,
  • Juliana Paracampos, 
  • Renato Costa Alves,
  • Silvia Madelini Fernandes, 
  • José Roberto Barros Cavalcante,
  • Karen Zenaro, 
  • Ruth Shinzato Yoshitake,
  • Maria Cristina Rangel Torres, 
  • Aderbal Netto Maroni,
  • Maria Tereza Sales Filgueiras,
  • Kenya Camila Fernandes Beltrão,
  • Dr. Fernando Valladares Novaes,
  • Sônia de Menezes Nogueira,
  • Isabel Correa,
  • Geraldo Junkes,    
  • Dr. Flávio Jacó Chekerdemian, 
  • Ibrahim Emilio Saddi,
  • Felipe Garcia da Silva,
  • Arquimedes Leite de Andrade Sobrinho,
  • Iracy Montanha da Silva,
  • Elizabeth Cordeiro Pereira,
  • Claudia Villaruel,
  • Edson Brandao da Silva Junior,
  • Lucimara Jose da Silva,
  • Dr. José Oswaldo Virgilio,
  • Ailete Fiori Adelaido Gonçalves,
  • Marines Leandro da Silva, 
  • Marco Antônio Tinoco,
  • Adalberto Setubal de Lima,
  • Edith Canhete Costa,
  • Antônio Carlos Barbosa,
  • Marcelo Augusto de Souza Bexiga,
  • Cleuza Lemes Nogueira,
  • Cristina Quadros,
  • Sebastião Alves Pereira,
  • Dilma Rodrigues Machado,
  • Sônia Gonçalves Bueno,
  • Dr. Roberto Teruya, 
  • George Luiz Lunardon Nunes,
  • Dr. Paulo César dos Santos Figueiredo, 
  • Luiz Carlos Iglécias, 
  • René de Golveia,
  • Dalva Célia Corsini,
  • João Lopes da Silva,
  • Eduardo Antonio Michellis,
  • José Tojo Mota,
  • Kátia de Moraes e Souza,
  • Luíza de Souza Freitas,
  • Rosa Maria Franco,
  • Maria Emília Vasquez,
  • Lucimara Gonçalves,
  • Ana Elisa Montanha,
  • Adão Ferreira de Souza,
  • Renata Ribeiro,
  • Wilson Gonçalves Junior,
  • Maria Conceição Ferreira,    
  • Sandro Rocha,
  • Glaucio Cesar Vieira,
  • Edson Rodrigues da Silva,
  • Márcio Roberto Tadano Miguita,
  • Eliza Shizue Fukui, 
  • Laurentino Garcia Goes,
  • Marcos Antônio Momesso,
  • Márcia Ardaia Fagundes Ferreira, 
  • Frederico José Pereira Leite,
  • Lucianio Leandro da Silva,
  • Fábio Targino da Cruz,
  • Luciene Justino Machado,
  • Marta Cristina de Castro,
  • Luizinho Manoel dos Santos,
  • Edson Augusto Moringo,
  • Bruno Fernandes Oliveira,
  • Aroldo Albuquerque,
  • Custódio Vicente Garcia,
  • Milton Massayuki Yoshimoto,
  • Eliane Meireles Nespoli Ferzeli,
  • Ana Lúcia Quirino Antunes,
  • Ronaldo Terra,
  • Valbério Nobre de Carvalho, 
  • Cláudio Santos Viana,
  • Sílvio Aparecido Campos,
  • Ricardo Antonio Rocha,  
  • Nicanor Antonio Lunardelli Ramos,
  • Elieda Borges da Costa,
  • Luciano dos Santos Amaral,   
  • Elpídio Belmonte de Barros Junior,
  • Marli Messias de Souza,  
  • Sabrina Queiroz Monney Rotunno,
  • Hélio Tadeu Ruiz,
  • José Cesário dos Santos Filho,
  • Rui Volmar Pederiva,
  • Mara Silvia Piccinelle,
  • Vilmar de Ávila,
  • Cláudia Adriana Lensone,
  • Maria Aparecida Rodrigues de Souza,
  • Mariana Lakatos Silva,
  • Rudney Lino Duarte,
  • César Augusto Batiston,
  • Teodomiro Morais de Almeida,
  • Waldo Nantes de Oliveira Leão,
  • Fabiana Candido Maia.

Colaborou com Tatyane Gameiro

Dia do Professor

Ensinar na era da inteligência artificial é o desafio da educação nos tempos atuais

Novas tecnologias modelam tendências e atualizam a rotina do "fazer" do docente e, quando o assunto é expandir aplicação de ferramentas baseadas em inteligência artificial para o estudo, especialistas mostram que há tempos existe uma série de exemplos que

15/10/2026 08h30

Óculos inteligentes apresentam mais funcionalidades com o passar do tempo e estão entre as ferramentas previstas para aparecer em pelo menos 50% das escolas até 2030

Óculos inteligentes apresentam mais funcionalidades com o passar do tempo e estão entre as ferramentas previstas para aparecer em pelo menos 50% das escolas até 2030 Foto: Shutterstock

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Celebrado hoje, o Dia do Professor relembra a importância dos profissionais que voltam suas carreiras para auxiliar na formação dos caminhos da humanidade, geração após geração, profissão essa que atravessa o tempo e precisou adequar o lecionar à era da inteligência artificial (IA). Essa e outras tecnologias modelam a rotina e ditam novas tendências no “fazer” do docente, que trava uma batalha constante para manter também atualizados os próprios saberes.

Historicamente, no País, a data aparece ligada ainda aos tempos de Dom Pedro I, que assinou uma lei no dia 15 de outubro de 1827, estabelecendo há quase 200 anos que todas as cidades brasileiras teriam as chamadas Escolas de Primeiras Letras, com intuito de fornecer um ensino elementar à população. Entretanto, foi somente por meio da formação da Comissão Pró-oficialização do Dia do Professor, em 1947, cerca de 120 anos depois, que a celebração foi instituída.

Ainda assim, o Dia do Professor só passou a compor o calendário escolar, por meio do Decreto n° 52.682, durante o governo do presidente João Goulart, há exatos 63 anos. Como à época a sociedade tinha características distintas, as novas tecnologias que foram impulsionadas com o avanço da era digital, em meados da década de 1990, modificaram não somente o cotidiano da população como influenciaram um novo jeito de “fazer” da docência e de passar os saberes em sala de aula. 

NOVA ERA

Importante explicar que, por mais moderno que pareça, o termo inteligência artificial foi empregado pela primeira vez em 1956, cunhado pelo cientista da computação John McCarthy, com Marvin Minsky e Claude Shannon. Porém, essas características como conhecemos hoje, de aprendizado de máquina (do termo em inglês machine learning) e demais conceitos de caracterização e classificação surgiram já a partir do final dos anos 1990 e começo dos anos 2000.

Nesse sentido, o Ministério da Educação (MEC) frisa que a formação de professores para o uso pedagógico das tecnologias digitais aparece como um dos pilares do principal objetivo da Pasta: transformar essa conectividade, de fato, em uma aprendizagem significativa. 

Com isso, a chamada Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (Enec), definida no Decreto nº 11.713/2023, lançou um Referencial de Saberes Digitais Docentes, no dia 29 de agosto de 2024, para orientar o desenvolvimento de saberes digitais desses professores. 

“Para que a tecnologia faça parte das práticas escolares com intencionalidade e propósito, é fundamental que os docentes estejam preparados para integrá-la aos conteúdos curriculares, desenvolver competências digitais e adaptar metodologias conforme os desafios do seu território. O desenvolvimento dos saberes digitais envolve também a compreensão crítica e ética do mundo digital, incluindo aspectos como cidadania digital, segurança, colaboração em rede e participação ativa na cultura digital. Trata-se de um processo que fortalece o papel do professor como sujeito central nos processos de ensino e aprendizagem mediados pelas tecnologias”, frisa a Pasta.

Importante explicar que esse Referencial de Saberes Digitais Docentes é organizado em três dimensões: ensino e aprendizagem com uso de tecnologias digitais; cidadania digital; e desenvolvimento profissional.

Como bem esclarece a Pasta da Educação Federal, essas três dimensões foram escolhidas fundamentadas na necessidade de um desenvolvimento abrangente e equilibrado dos saberes digitais dos professores para a era digital. 

“Cada dimensão aborda aspectos críticos que, juntos, promovem uma prática pedagógica eficaz, consciente e atualizada às demandas da sociedade”, pontua o Ministério da Educação.

Para justamente apoiar a formação continuada de professores e demais profissionais da educação na implementação do currículo de educação digital na educação básica, o MEC disponibiliza cursos no Ambiente Virtual de Aprendizagem do Ministério da Educação (Avamec).

Por sua vez, essas capacitações são desenvolvidas por blocos temáticos, sendo: Bloco Temático 1 – Práticas Pedagógicas com Tecnologias; Bloco Temático 2 – Educação Digital e Midiática; Bloco Temático 3 – Inteligência Artificial na Educação; e Bloco Temático 4 – Apoio à Gestão e Infraestrutura Digital.

No bloco temático voltado para a inteligência artificial na educação, o MEC compila oito formações específicas que contabilizam 480 totais dos mais diversos cursos e saberes digitais que podem melhor capacitar os professores para um cotidiano mais moderno.

A de maior carga horária (180 horas) é justamente a formação para professores em inteligência artificial, um curso introdutório sobre IA voltado aos docentes da educação básica, que apresenta fundamentos como reconhecimento de padrões, representação e raciocínio, aprendizado de máquina, processamento de linguagem natural (PLN) e impactos sociais, além de incluir sugestões de atividades para diferentes etapas da educação.

Há ainda uma formação específica, de 80 horas, para uso ético, criativo e pedagógico da IA na prática, voltado para docentes do Ensino Médio. Esta aborda fundamentos conceituais, aspectos técnicos, implicações éticas e aplicações pedagógicas da inteligência artificial na educação. 

Os professores ainda têm acesso a curso de como usar a IA generativa para curadoria e criação de recursos digitais para a sala de aula, apresentando em uma linguagem transmídia noções para emprego dessa inteligência artificial para criação de recursos personalizados que promovam inovação, segurança digital e personalização do ensino. 

Nessa lista de cursos há ainda a opção de aprender sobre a IA na prática docente, seu uso criativo para transformação da aprendizagem e uma formação específica para aqueles que buscam aplicar metodologias ativas e tecnologias digitais no ensino.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (Unesco) destaca que é importante os professores não apenas terem habilidades digitais e a capacidade de integrar a inteligência artificial aos processos de ensino e de aprendizagem, mas também de expandir essa integração para proporcionar novas oportunidades de aprendizado aos estudantes, ajudando-os a se tornarem cidadãos colaborativos, criativos e produtivos.

RAIO-X REGIONAL

Dentro dessa estratégia do governo federal em parceria com os estados e municípios, o foco é a busca por uma internet de qualidade para uso pedagógico das tecnologias. Em abril do ano passado, a Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul (SED) liberou para os docentes a ferramenta de autodiagnóstico, para que os professores pudessem medir seus níveis de desenvolvimento. 

Em todo o Brasil, foram submetidas mais de 244 mil respostas para autodiagnóstico, com 1.619 desses referentes ao corpo docente sul-mato-grossense. Boa parte dessas avaliações (874) foi de professores da rede municipal. 

Esses números, entretanto, mostram uma realidade dura, já que a média geral indica um estado apenas de “familiarização” dos professores com as tecnologias digitais, o segundo estágio em uma escala que vai de um a cinco. Importante destacar que esse autodiagnóstico estava aberto não somente para as redes públicas, mas também para os demais profissionais. 

Ou seja, sobre essa média de apenas “familiarização”, em Mato Grosso do Sul boa parte dos professores apenas reconhece os potenciais e explora ainda formas de usar as tecnologias em suas práticas pedagógicas. 

Em outras palavras, estão ainda distantes das classes de adaptação, integração e liderança dos níveis três, quatro e cinco, em que essas tecnologias já são usadas em diversos contextos, ou até mesmo tornam-se prática consistente e inovadora daqueles que alcançam o domínio a ponto de atuarem como líderes e mentores para os demais colegas. 

IA NA EDUCAÇÃO

Quando o assunto é expandir a aplicação de ferramentas baseadas em inteligência artificial para o estudo, há uma série de exemplos que já estavam “na fila” para serem usados em escolas até 2030, como dizem especialistas. 

É o que mostra o estudo “Tendências em Inteligência Artificial na Educação”, encomendado pelo Serviço Social da Indústria (Sesi) e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), realizado pela professora universitária Rosa Maria Vicari.

Após revisão de pesquisadores das Universidades de São Paulo (USP), Federal Fluminense (UFF) e da Pontifícia Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), os estudiosos apontaram que quatro dessas tecnologias já deveriam chegar a pelo menos metade das escolas brasileiras até 2030.

Como há quase uma década a educação aparece relacionada às produções científicas em inteligência artificial, o chamado learning analytics já despontava como essa “mão na roda” do “fazer” do professor, para análise de uma grande quantidade de dados e na formulação de melhores ferramentas de aprendizagem para, por exemplo, evitar a evasão escolar.

Na prática, atualmente muitas ferramentas ligadas à inteligência artificial já compõem o cotidiano dos professores. Essa linha de funções traz para os docentes até mesmo uma nova rotina para correção automática de provas. Pela análise de uma foto do cartão-resposta ou até mesmo da prova impressa, a IA é capaz de reconhecer as questões respondidas e o gabarito do profissional. 

Segundo analistas, essa interação rápida possibilita ainda que, com os dados referentes a todos os alunos e suas respectivas notas centralizados em um só ponto, seja possível elaborar relatórios de desempenho específicos e destacar as dificuldades que a classe ou um estudante estão apresentando.

Além disso, há outras três tecnologias que “saltam aos olhos” por estarem mais diretamente conectadas com a impressão que se tem sobre um futuro tecnológico. É o caso dos óculos inteligentes, que adquirem mais funcionalidades com o passar do tempo e são listados na previsão de aparecerem em pelo menos 50% das escolas até 2030. 

Cabe destacar também os fones de ouvido para tradução, que tem o intuito de ampliar a troca de conhecimentos entre estudantes e professores de nações diferentes, o que se mostra vantajoso em um país com dimensões continentais como o Brasil ou uma terra tão acolhedora aos imigrantes como é Mato Grosso do Sul, onde há a presença forte de colônias japonesas, paraguaias, libanesas, e outras.

Além disso, nessa mesma linha, favorecida também pela diminuição dos custos, que tornam as tecnologias mais acessíveis pelo ponto de vista econômico, vale citar a gamificação do saber por meio de jogos que envolvem inteligência artificial ou realidades aumentadas e mistas.

Apesar da proibição dos celulares em escolas, ferramentas de realidade aumentada, que sobrepõem gráficos e criam animações 3D, ou exibem informações digitais no mundo físico, já são mais comumente vistas atualmente. Já para a chamada mista há uma fusão entre os dois mundos, que se utiliza de um mapeamento espacial para uma interação real com hologramas como se esses estivessem ao toque da mão.

Segundo o MEC, o referencial pode ser utilizado a partir das especificidades de cada contexto; como instrumento para identificar pontos fortes e necessidades de desenvolvimento e até orientar a participação em comunidades de aprendizagem on-line.

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