Depois de uma trajetória consolidada nos palcos, a atriz, diretora, dramaturga e preparadora de elenco Erica Montanheiro faz sua estreia em uma grande produção audiovisual vivendo a mãe de Elize no filme “Elize, Sombras de uma Mulher”, da Netflix.
Dirigido por Vellas, o longa alcançou repercussão internacional e permanece entre os filmes mais assistidos da plataforma, ocupando o primeiro lugar no ranking global de produções de língua não inglesa.
Na trama, Erica interpreta uma personagem fundamental para a construção da narrativa. Embora apareça em momentos pontuais, sua presença ajuda a revelar o passado de Elize, marcado por abusos sofridos dentro de casa e pela ausência de acolhimento materno.
A relação entre mãe e filha expõe um ambiente familiar atravessado pela violência, pela competição e por ciclos de abuso que ajudam a compreender a complexidade emocional da protagonista, sem, em nenhum momento, justificar os crimes que marcaram sua história.
“Essa personagem me atravessou profundamente. Ela não é construída para ser julgada ou absolvida, mas para revelar como relações familiares adoecidas podem atravessar gerações. Fazer parte de uma obra que provoca tantas reflexões e que alcançou um público tão grande é um marco muito importante na minha trajetória”, afirma Erica Montanheiro.
Reconhecida por sua sólida carreira no teatro, Erica é formada pela École Philippe Gaulier, na França, além de ser bacharel em Letras pela USP e em Cinema e Audiovisual.
Ao longo da carreira, trabalhou com alguns dos principais nomes das artes cênicas brasileiras, entre eles Jô Soares, com quem integrou o elenco de cinco produções entre 2011 e 2022, e Miguel Falabella, parceiro frequente em projetos como atriz, diretora assistente e preparadora de elenco.
Com Jô Soares - Divulgação GShow - DivulgaçãoAlém do sucesso de “Elize, Sombras de uma Mulher”, Erica vive uma fase intensa de novos projetos. Em outubro, estreia como atriz o espetáculo “Cansei de Ser Belo”, com direção de Kleber Montanheiro, no Teatro YouTube.
Também integra a equipe criativa do musical “Gil – Andar com Fé”, dirigido por Miguel Falabella, como preparadora de elenco, e prepara o antropólogo Michel Alcoforado para sua estreia nos palcos com a aula-espetáculo “Coisa de Rico: Outras Histórias”, inspirada no best-seller homônimo.
Erica construiu uma carreira marcada pela versatilidade, transitando entre atuação, direção, dramaturgia e preparação de elenco. Agora, com sua participação em “Elize, Sombras de uma Mulher”, amplia sua atuação para o audiovisual em um projeto de alcance internacional, consolidando um novo capítulo em sua trajetória artística.
A atriz é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana, e em entrevista com o Caderno ela fala sobre carreira, escolhas e o filme sucesso na Netflix sobre Elize Matsunaga.
A atriz Erica Montanheiro é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Caio Oviedo - Diagramação - Denis FelipePor - Flávia Viana
CE - Sua carreira transita por atuação, direção, dramaturgia e preparação de elenco. Em que momento você percebeu que não precisava escolher apenas uma dessas funções e que essa multiplicidade poderia ser justamente a sua identidade artística?
EM - Atuação é algo que nunca se deixa de estudar. Com o passar do tempo percebi essa conexão: enquanto ensinava, aprendia também, era uma maneira de estar sempre refletindo sobre meu ofício. Dou aulas de teatro desde que comecei a fazer teatro, depois fui me interessando mais pela formação de atores.
Em 2017, fui convidada por duas atrizes a dirigir um espetáculo e nunca mais parei. A dramaturgia veio através do meu solo Inventário, uma peça sobre a escultora francesa Camille Claudel (faço uma apresentação na mostra Palcos em SP no final desse mês). Pesquisei muito sobre ela e apresentei o material para um amigo dramaturgo e ele me disse: quem tem que escrever essa peça é você.
Em 2024, eu, Kleber Montanheiro e Marília Toledo produzimos o musical da Broadway Cabaret, no 033 Rooftop, em SP. Kleber dirigiu a montagem e me propôs preparar o elenco.
Essas outras funções foram surgindo como desdobramentos, mas acabei percebendo que as (os) artistas que eu sempre admirei são aqueles que exercem funções múltiplas: Miguel Falabella, Yara de Novaes, Grace Passô, Isabel Teixeira, Kleber Montanheiro, Jô Soares.
CE - Você estudou na École Philippe Gaulier, na França, uma formação bastante particular dentro das artes cênicas. O que daquela experiência permanece vivo na profissional que você se tornou hoje?
EM - A escola era dirigida por um palhaço chamado Philippe Gaulier. Tudo que estudávamos tinha o olhar de fora de um palhaço nos conduzindo. Isso significa aprender a rir de si mesmo, não se levar tão a sério.
Mesmo que estejamos fazendo um drama. Depois trabalhei com Jô Soares em 4 espetáculos, e ter sido dirigida por ele também foi um aprendizado enorme, especialmente sobre timing de comédia. Miguel Falabella com quem trabalho há alguns anos é um artista com múltiplos talentos.
E os três me ensinaram a olhar a cena e as personagens pela lente da comédia. Toda situação trágica pode conter algo de ridículo. A vulnerabilidade do ser humano pode ser muito patética. E, às vezes, esse patético desperta o riso. Às vezes, desperta piedade e comoção.
CE - Ao longo de uma carreira tão diversa, existem personagens ou trabalhos que você considera verdadeiros divisores de águas? O que eles transformaram na sua maneira de enxergar a profissão?
EM - Estudei muito a escultora francesa Camille Claudel, e ter criado esse solo foi um divisor de águas na minha carreira: além do amadurecimento como atriz que um solo exige, passei a enxergar o trabalho das mulheres de uma forma diferente em um mundo tão machista.
A história dela é muito triste: uma artista brilhante que fazia os pés das esculturas assinadas por Rodin, com quem teve um romance. Ela terminou a vida em um asilo psiquiátrico, renegada pela família. O trabalho no filme Elize também é um divisor porque é minha primeira experiência num projeto audiovisual de grande porte.
Flavio Tolezani e Erica Montanheiro - DivulgaçãoCE - Como preparadora de elenco, você trabalha diretamente com atores na construção de personagens. O que essa experiência nos bastidores acrescenta quando você volta a ocupar o lugar de atriz?
EM - As múltiplas funções que exerço na arte compõem quem eu sou como artista. Uma coisa alimenta a outra. E penso todas as funções a partir da arte do ator. Escrevo pensando na voz que vai dizer aquele texto, dirijo tendo como eixo central o corpo dos atores.
Quando preparo os atores penso na construção das personagens e quando vejo o resultado me sinto lá em cena com eles, naqueles corpos, em cada gesto construído, em cada tempo de piada, em cada emoção conquistada por eles. Quando volto a ocupar o palco carrego um pouquinho do humor de cada um deles comigo. A gente se contamina.
CE - Você está envolvida em projetos bastante diferentes entre si, da atuação à preparação de elenco. Como faz para mudar de universo e manter a disponibilidade criativa necessária para cada trabalho?
EM - Atuar sempre me dá frio na barriga. Aquela adrenalina gostosa de uma montanha-russa. E isso já é um alimento à criatividade: pensar sobre o trabalho do ator. Apesar da diversidade das funções e dos projetos, meu olhar sempre parte do ator.
Além disso, cada trabalho traz assuntos diferentes e isso é enriquecedor: acabei de preparar o antropólogo Michel Alcoforado para sua primeira aula-espetáculo; ler seu livro (Coisa de Rico) e ouvi-lo falar sobre antropologia foi um motor criativo. A criatividade é um músculo que precisa ser estimulado e a cultura é estímulo.
CE - Em outubro, você estreia como atriz em “Cansei de Ser Belo”, com direção de Kleber Montanheiro. O que te atraiu nesse projeto e o que esse trabalho desperta em você que talvez seja diferente dos personagens que interpretou anteriormente?
EM - O que me atraiu logo de cara foi a oportunidade de trabalhar de novo com o Kleber Montanheiro (diretor, meu irmão). Mas além disso, o texto é uma comédia ácida de Emílio Boechat, faz rir e traz reflexões sobre os limites da vaidade, do ego, das aparências. Faço todas as personagens femininas da peça, o que é um parque de diversões.
CE - Você também está na equipe criativa do musical “Gil – Andar com Fé”, como preparadora de elenco. O que representa para você participar de uma obra dedicada a um artista tão importante para a cultura brasileira e quais são os desafios de preparar um elenco para contar uma história como essa?
EM - Estar na equipe criativa de uma obra sobre Gilberto Gil é imenso. Gil é uma universidade. Ele não é “só música” — é história do Brasil, é resistência, é reinvenção constante.
O trabalho da preparação no teatro musical tem basicamente três eixos: o primeiro é pré-ensaios - estudos sobre a personagem/ contexto histórico e treinamento vocal / corporal para a composição da personagem; esse primeiro momento é pra levantar material.
O segundo é diretamente na sala de ensaio, compreendendo o que a direção quer e ajustando o trabalho dos atores, “traduzindo” o que a direção precisa para conduzir o ator no percurso e alcançar o resultado final.
Por fim, tem o trabalho de interpretação de texto: compreensão do percurso, embocadura, criação de imagens no trabalho com a palavra. Esse espetáculo foi ainda mais desafiador porque tem muitas figuras reais retratadas ali: o jogo foi encontrar o equilíbrio entre a mimesis de personalidades da nossa cultura (Gil, Caetano, Gal, Bethânia, Rita Lee, Elis) e a verdade de cada performer.
É o Gil do Gui Ventura, a Rita Lee da Mariel, o Caetano do Henrique. Cada ator/atriz traz sua particularidade e história no diálogo com o artista que ele está interpretando.
A atriz Erica Montanheiro é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Divulgação - Diagramação - Denis FelipePor - Flávia Viana
CE - Depois de tantos anos dedicados ao teatro e agora ampliando sua presença no audiovisual, como você enxerga o atual momento da carreira? É uma fase de consolidação, de reinvenção ou de abertura para possibilidades que antes não estavam no seu radar?
EM - Eu diria que é um pouco das três coisas. Tem consolidação, porque anos de teatro me deram um repertório técnico e emocional que uso hoje com mais segurança. Tem reinvenção, porque são linguagens diferentes: no teatro a energia é construída para se sustentar num arco contínuo diante do público ao vivo; no audiovisual, o organismo vivo é a câmera - é preciso saber jogar com ela.
E sim, é preciso estar aberta para esse novo mundo, para conhecer os profissionais que fazem o audiovisual brasilileiro. Acho que depois de um tempo de carreira a gente para de ter medo de sair do lugar onde já é reconhecido, e isso é libertador.
CE - “Elize, Sombras de uma Mulher” parte de uma história real que já é muito conhecida pelo público brasileiro, mas apresenta novas camadas e perspectivas sobre essa trajetória. Na sua visão, o que o filme consegue revelar sobre essa história que talvez ainda não tivesse sido tão explorado?
EM - Acho que antes de qualquer coisa é preciso lembrar que Elize foi julgada e condenada pelo crime que cometeu. Não cabe a nós, atores e atrizes do filme, qualquer opinião sobre isso. Não há justificativa e é preciso respeitar a dor da família da vítima.
Mas dito isso, podemos olhar pro cinema como um lugar que provoca atravessamentos e reflexões. O público já conhece essa história pelas manchetes, pelo julgamento midiático que ela sofreu na época. O filme tenta fazer o caminho inverso: sair da manchete e entrar na pessoa.
A gente teve acesso a camadas que o noticiário não teve tempo ou interesse de explorar: o histórico familiar violento de Elize molda quem ela se tornou. Olhar para a história familiar de Elize levanta questionamentos sobre nossa sociedade. As relações abusivas na linhagem de mulheres desta família me chamou atenção e me sensibilizou. A mãe tem um histórico de relações abusivas e violentas.
Foi uma mulher presa em um ciclo — o que ela não via/não queria ver, decisões que ela toma/deixa de tomar são elementos que constituem o que Elize vive na adolescência e na vida adulta, como por exemplo, os abusos sofridos por parte do padrasto.
Acho que o filme revela principalmente isso: que por trás de qualquer caso que vira notícia existe uma trajetória de vida, com dores, escolhas e circunstâncias que não cabem em uma manchete.
CE - Como você acredita que o filme contribui para que o público enxergue Elize para além do crime pelo qual foi condenada?
EM - Eu acho que o grande papel do filme é humanizar sem justificar. A gente não está ali para absolver ninguém, mas para mostrar que uma pessoa não se resume ao pior momento da sua vida. Espero que quem assista saia enxergando a Elize como uma mulher inteira — uma mãe com história, com feridas, com contradições — e não só como a personagem de um caso policial.
CE - A mãe de Elize aparece em momentos pontuais, mas sua presença é determinante para compreender algumas das feridas que acompanham a protagonista. Na sua visão, o que essa personagem representa dentro da narrativa e por que era importante que o público conhecesse também esse lado da história de Elize?
EM - O desafio foi encontrar humanidade sem justificar a omissão da mãe diante do padrasto abusivo e a relação dele com Elize. Expor essas contradições em uma relação mãe e filha (que deveria ser o lugar de acolhimento e afeto) foi o foco da construção da personagem.
Com pouco tempo de tela, cada gesto, cada silêncio e cada olhar precisa carregar a história da personagem e a relação com a protagonista de maneira objetiva. Tem que ser uma flecha! Não dá tempo de fazer mistério pra entregar depois.
É preciso aproveitar cada segundo expondo a intenção e o sentido de cada ação, tudo tem que ter um porquê. É preciso trabalhar o que não é dito — o que ela evita olhar, o que ela finge não perceber — para que o público sinta o histórico de dor das personagens imediatamente. Preciso aqui ressaltar a beleza do encontro com Lorena Comparato.
Que atriz magnífica, que artista sensível e comprometida, que pessoa bonita pra se ter na vida. Nosso jogo e química dentro e fora do set foram de extrema beleza e troca - muito diferente da relação tóxica da Elize e sua mãe na narrativa. Retratar a mãe e a relação de Elize com ela é, de certa forma, mostrar de onde vêm essas sombras que dão nome ao filme.


