O Carnaval é o único momento do ano em que a performance é declarada. Vestimos plumas, metalizados, personagens míticos ou divas pop e ninguém questiona: trata-se de fantasia. É jogo assumido. É teatro coletivo. É licença simbólica para experimentar outras versões de nós mesmos.
Mas e quando o Carnaval acaba?
A pergunta que ecoa, especialmente em tempos de redes sociais, é desconfortável: a fantasia ficou restrita ao bloco ou migrou para o feed?
O sociólogo canadense Erving Goffman, defendia que a vida social é uma encenação constante. Administramos impressões, ajustamos discursos, modulamos comportamentos dependendo do público. O que mudou não foi a teoria, foi a escala. Hoje, o palco é permanente. E global.
No Carnaval, a performance é explícita. No Instagram, ela se apresenta como espontânea. Mas raramente é. Há curadoria de imagem, escolha de ângulos, edição de narrativa. Construímos personagens digitais com a mesma dedicação que escolhemos uma fantasia elaborada.
E aqui surge um ponto crucial para quem pensa moda, imagem e cultura: a diferença entre expressão e disfarce.
A fantasia carnavalesca é expansão. Ela exagera traços, potencializa desejos, brinca com símbolos. A imagem nas redes, quando saudável, deveria fazer o mesmo: amplificar aquilo que já somos. O problema começa quando a construção deixa de revelar e passa a ocultar.
Marca pessoal não é sinônimo de personagem. É coerência. É alinhamento entre estética, discurso e valores. Uma imagem forte nasce da clareza de identidade, não da tentativa de atender às expectativas do algoritmo.
No Carnaval, sabemos que o brilho é temporário. Retiramos a maquiagem, desmontamos o figurino, voltamos ao cotidiano. Nas redes, porém, muitos transformam o brilho em obrigação permanente. Sustentar uma persona idealizada exige energia constante. E cansa.
Existe também um aspecto cultural relevante: vivemos na era da hipervisibilidade. Ser visto tornou-se quase sinônimo de existir. A pressão por performance constante transforma a vida em vitrine. O que era celebração vira comparação. O que era expressão vira estratégia.
Ser verdadeiro, nesse contexto, não significa exposição irrestrita nem abandono de estética. Significa coerência. Significa não criar uma narrativa que desminta sua própria vivência. Significa compreender que imagem é construção, mas identidade é raiz.
Talvez o Carnaval nos ensine justamente isso: a fantasia funciona porque tem começo, meio e fim. Ela é potente porque sabemos que é ritual. O risco está em não saber mais onde termina o personagem e começa a pessoa.
Entre costuras e cultura, a pergunta que permanece é simples e profunda: estamos usando a imagem para nos expressar ou para nos proteger?
Num mundo saturado de performances, a autenticidade deixou de ser ingenuidade. Tornou-se escolha estética. E, acima de tudo, escolha ética.
Gabriela Rosa - Consultora de imagem e estilo

Neiba Ota - Foto: Luciano Muta Fotografia
Dra. Maria Raulino - Foto: Arquivo pessoal

