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Literatura

Evento literário convida a debate sobre desejo e fantasia neste sábado

Será durante o lançamento do livro "O Diabo e Suas Máscaras A tríade infernal do desejo", da psicanalista Andréa Brunetto

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O que move o ser humano? Pensamentos, escolhas, atos, emoções, palavras e muitos “não ditos” – e até “desconhecidos” – que nos habitam podem tentar explicar por que fazemos o que fazemos. E os desejos e as fantasias? As figuras mitológicas e religiosas, pagãs, que lugar ocupam nas profundezas do inconsciente?

Esses e outros temas, aos quais se dedica à psicanálise, serão debatidos neste sábado (25) em Campo Grande (MS), durante o lançamento do livro “O Diabo e Suas Máscaras – A tríade infernal do desejo”.

A autora, a psicanalista e psicóloga Andréa Brunetto, inicia o terceiro livro da carreira com citações de Sigmund Freud, lembrando que manifestações patológicas eram atribuídas a ação de demônios já na Idade Média e que a psicanálise também pode se mostrar inquietante ao se ocupar de “desvendar tais forças secretas”.

Por que resistimos tanto a entrar em contato com o desconhecido ou o “politicamente incorreto” que nos habita? Segundo Andréa, essa é justamente a definição da neurose descrita por Freud: “O que foi esquecido, recalcado, retorna fazendo sintoma, fazendo sofrer. O ser humano não é senhor em sua própria casa, escreveu Freud, quer dizer, não sabe, conscientemente, do mais importante que o determinou, pois esqueceu sua história. Esquecemos o infantil, reprimimos”, afirma.

Para Andréa, a análise – terapia conforme a abordagem psicanalítica – se dedica a resgatar a história de vida, o passado, os sonhos, o infantil, como um trabalho de investigação. “Freud escreve no começo de seu livro ´A Interpretação dos Sonhos’ sobre um compositor que acordou e escreveu imediatamente uma sonata inteira, maravilhosa, e que toda ela lhe veio no sonho. Creditou ao Diabo, que ele lhe passou a mesma no sonho.

Isso que Tartini [violinista, pedagogo e compositor italiano] creditou ao Diabo, Freud chamou de ‘o trabalho do inconsciente’. Começo o livro falando sobre isso”, conta Andréa, que detalha esta jornada a seguir:

Nos sonhos, estamos mais propensos a aceitar - e até gostar - das manifestações do demoníaco?

Andréa – Hoje em dia creio que não mais. À época de Freud, ele teve que provar, defender e propagar a ideia de que o inconsciente era um saber e que precisava ser decifrado. Recebo pessoas no consultório que não estudaram psicanálise, não lêem nada sobre, mas sabem que nos sonhos há um saber a ser resgatado. Semanas atrás, alguém me disse isso: estou aqui porque quero fazer análise com você, mas não sei se vai ser possível, porque eu não lembro nada de meus sonhos. Além disso, há os que negam e o negacionismo é próprio do ser humano, em alguns mais, em outros menos. E há aqueles que querem saber mais de sua própria história.

De que forma o ideal romântico do “amor perfeito e eterno”, como o desejado por Orfeu e descrito no livro, se constitui em verdadeiro inferno?

O tema do personagem Orfeu ocupa um capítulo do livro, esse personagem grego inconformado com a perda da mulher amada, que desce ao inferno para buscá-la e faz um acordo com Hades e tenta trazê-la de volta. Não a consegue, a perde mais uma vez. Ele é o exemplo desse homem que não consegue esquecer uma mulher. Um exemplo infernal do amor eterno. [Jacques] Lacan salienta que o amor eterno é um inferno. Explico o porquê no livro.

Citando justamente Lacan, você menciona que vivemos uma espécie de miragem, que nos condena a falar de tudo que vivemos e a vivermos no paradoxo do desejo, afinal, insaciável. De que forma a psicanálise pode ajudar as pessoas a lidarem com tudo isso?

Está aí um dos motivos por que um amor eterno é complicado. Porque existe o desejo e ele desliza, é metonímico, afirmou Lacan. Não sabemos o que vamos desejar amanhã, se amanhã ou depois vamos querer para nossa vida o que queremos hoje. O ser humano é muito insatisfeito. E as realizações são sempre insatisfatórias, que se satisfazem por um lado; por outro, fazem sofrer. Essa divisão entre instâncias psíquicas é própria do ser humano. A psicanálise pode ajudar aqueles que sofrem com suas divisões, suas insatisfações e querem saber mais sobre si mesmas.

Como podemos compreender a tríade infernal que reúne desejo, angústia e ato?

Essa expressão para dizer o desejo como uma tríade infernal é de Lacan. Ele marca a trindade, não a cristã, mas aquele que ele teoriza: real, simbólico e imaginário.

Na sua experiência clínica, como tem se manifestado o “dito cujo” atualmente? Existe vida para além da dualidade Deus-Diabo?

O Diabo aparece como uma alegoria em nossa linguagem o tempo todo: ‘mas que diabos está acontecendo?’ E Deus também. Aparecem como polos para se falar do bem e do mal, porém na clínica as coisas poucas vezes são tão maniqueístas assim, que possamos dizer o que é bom e o que é mal. Cada sujeito que me procura chega com seus próprios demônios e quer falar deles, se apaziguar de suas angústias. Aqueles que realmente acreditam que são assombrados pelo Diabo são os psicóticos. Já escutei alguns e daí, sim, estamos no âmbito da patologia.

Freud, Lacan, entre outros, se questionaram sobre o querer e, se o “demo” existe também como objeto do deslocamento do que não é divino, como será (será?) possível aplacar o desejo infernal?

Não, não se aplaca o desejo. Não o comandamos com nosso ideal, porém um sujeito pode se perder em um labirinto em que não saiba o que realmente desejo e se quer realmente o que deseja.

O que seria a luz a qual Freud se referiu quando imaginou que os novos tempos da cientificidade e da razão retirariam do humano a crença no miraculoso?

Freud apostava na ciência e com ela o ser humano iria querer se curar de suas ignorâncias – e digo isso ser usar o termo de jeito pejorativo. Ele achava que, com isso, as crenças religiosas iriam perder força. Errou nisso, mas era um homem de seu tempo. Lacan teve menos esperança que Freud quanto a isso.

Entre as inúmeras notas de rodapé e textos citados na bibliografia de seis páginas - inclusive o Dicionário do Diabo, vemos que se dedicou a compreender como o Diabo foi retratado ao longo da história. Como se sentiu nesse processo e agora, com a obra concluída?

Disse à minha editora que todas minhas leituras literárias, os tantos romances e biografias que li sobre o Diabo estão nas notas de rodapé, talvez até redundantes. Os que se interessarem só pela psicanálise é só esquecerem as notas de rodapé, mas o que gostam de literatura, estão lá nas notas os tantos romances de pactos com o Diabo que li nesses anos. O tema do pacto com o Diabo é muito fértil na literatura. Passei anos lendo tantos romances e peças sobre o Dito Cujo.

Você concluiu o livro lembrando as então 620 mil vítimas fatais da Covid-19 e ressaltando a importância crucial dos “homens da Ciência”. Em tempos - agora - de endemias, com muitas pessoas lidando com perdas ou mesmo sequelas causadas pelo coronavírus, como se configura o papel do analista, bem como dos demais profissionais da saúde mental?

Agora já estamos com quase 700 mil mortes. Está aí, essa pandemia mostrou como Freud estava certo: o ser humano pode negar, recalcar, o mais elementar e acreditar na realidade que cria. Quantos negaram o vírus, as pesquisas, as vacinas? Construíram realidades particulares e morreram até por isso? Uma pandemia colocou muito presente a morte para todos. A morte está aí, é o inevitável que comete a todos. Só que não sabemos quando, mas quando uma epidemia mata milhares a cada dia, a angústia se reforça, e o medo da morte toma conta da vida. Isso foi o dia a dia do trabalho de cada psicólogo e psicanalista durante a pandemia. E os analisantes que iam perdendo familiares, vizinhos, amigos, colegas de trabalho? Todo profissional de saúde mental lidou com isso todo dia durante a pandemia.

O livro fala aos psicanalistas e ao público leigo. Afinal de contas, o inferno “são os outros”, como disse Sartre, ou o Diabo “mora nos detalhes”, inclusive de nós próprios, como sugere o ditado alemão?

A frase de Sarte de que o inferno de alguém é a convivência com os outros tem razão de ser. Freud já afirmou que o mais difícil para o ser humano é a convivência com as outras pessoas. Mas o que podemos fazer? Dar um de eremita, ir viver sozinho em uma ilha deserta? Não dá. Como diz o escritor Jonh Donne, ninguém é uma ilha, então com esse inferno, que pode ser o outro, que é diferente de mim, preciso aprender a conviver.
O Diabo mora nos detalhes, achei ótimo isso. Nem está no meu livro. Mas o amor também mora nos detalhes. E Deus também. Meu livro tem muitos detalhes, espero que meus leitores gostem. Os psicanalistas e os leigos encontrarão nele muitas estórias.

*Biografia da autora*

Andréa Brunetto é psicanalista, psicóloga, Analista Membro de Escola da Escola dos Fóruns do Campo Lacaniano, membro da EPFCL-Brasil, membro fundador do Ágora instituto Lacaniano e do FCL-MS. Mestre em educação pela UFMS. É apaixonada por seu trabalho com a clínica psicanalítica, por viagens e literatura.

*Serviço:* _O Diabo e suas Máscaras – A Tríade Infernal do Desejo_ será lançado no próximo dia 25 de março, às 14h, no auditório do Grand Park Hotel, à avenida Afonso Pena, 5282, em Campo Grande (MS). Mais informações: (67) 3326-9617 e 3326-2288. O livro também pode ser adquirido com a editora Aller, com desconto de 25% na pré-venda.

Diálogo

A pouco para acontecer mais uma eleição, a de 2024 ainda continua... Leia na coluna de hoje

Leia a coluna desta terça-feira (11)

11/08/2026 00h02

Diálogo

Diálogo Foto: Arquivo / Correio do Estado

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Davi Roballo - Escritor brasileiro

"Quem quiser encontrar o sentido da vida,deve preparar-se para nunca o encontrar, pois ele tem mil faces e muda constantemente”.

FELPUDA 

A pouco para acontecer mais uma eleição, a de 2024 ainda continua produzindo capítulos nos tribunais. O Ministério Público Eleitoral recorreu da decisão que rejeitou ações sobre suposta compra de votos em Naviraí, investigada pela Polícia Federal na Operação Integridade. A Justiça entendeu que as provas não foram suficientes, mas o MPE quer que o TRE-MS reavalie o caso. A democracia agradece o direito ao recurso. O eleitor, porém, espera que respostas cheguem logo. Afinal, calendários eleitoral e judicial nem sempre caminham na mesma velocidade. Assim sendo...

Congresso

Nesta quarta-feira (12), às 18h30min, acontecerá a cerimônia de abertura do V Congresso Estadual de Direito das Famílias e Sucessões do IBDFAM/MS. “Entre o Presente e o Futuro”.

Mais

Ana Maria Medeiros Navarro Santos é quem preside o Instituto Brasileiro de Direito das Famílias e Sucessões/Mato Grosso do Sul. A cerimônia será realizada no auditório do Bioparque Pantanal.

DiálogoFoto: Divulgação

No último dia 5, a desembargadora Ana Carolina Ali Garcia recebeu a outorga do título de associada honorária da Associação dos Procuradores do Estado de Mato Grosso do Sul (Aprems).  A entrega foi feita  pelo presidente da entidade, Adriano Arrias de Lima. Prestigiaram a solenidade o governador Eduardo Riedel; o vice-governador Barbosinha; o ex-governador Reinaldo Azambuja; o presidente do TJMS, Dorival Renato Pavan;  a presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB-MS, Beatriz SampaioSanches Rahim, entre outras autoridades. 

DiálogoZaninha Palhano - Foto: Arquivo Pessoal

 

Diálogo Ana Palotta  e Filipe Tavares - Foto: André Ligeiro

Transparência

A Câmara de Campo Grande resolveu lembrar à Prefeitura que transparência não deveria depender de senha, filtro ou boa vontade. Ao derrubar o veto do Executivo, os vereadores garantiram acesso mais simples aos salários dos agentes públicos. A alegação de invasão de competência acabou derrotada pelo placar de 17 votos. Afinal, recurso público não combina com labirinto digital. Agora, resta saber se a transparência será praticada por todos. O cidadão agradece.

Cabo de guerra

A Assembleia Legislativa de MS retomou os trabalhos com ampla maioria favorável ao governador Eduardo Riedel. Dos 24 deputados estaduais, 21 integram a base de apoio ao Executivo, enquanto três parlamentares fazem oposição. A expectativa é de debates mais intensos sobre os principais projetos do governo, mas maioria governista tende a garantir aprovação das matérias de interesse do governo. O novo período legislativo promete embates políticos, especialmente em ano eleitoral.

Afeto

O mutirão “Meu Pai Tem Nome”, promovido pela Defensoria Pública de MS, transformou histórias de afeto em direitos reconhecidos. Neste ano, foram realizados 167 atendimentos em diferentes regiões do Estado, incluindo reconhecimentos de paternidade biológica e socioafetiva. A iniciativa fortalece a identidade, amplia direitos e reforça que família também se constrói pelo cuidado. Um gesto jurídico que traduz sentimentos antigos em cidadania.

ANIVERSARIANTES 

  • Dr. Luiz Tadeu Barbosa Silva, 
  • Marco Aurélio Barros Faracco,
  • Dr. José Antônio Freire Palhano, 
  • Michael Mendes,
  • Takao Hishie Nobu,
  • Thay Pires Cardoso,
  • Marco César de Souza Alcântara,
  • Aldeniza Aguiar Lopes,
  • Leonardo Cardoso,
  • Manoel de Sousa Arruda,
  • Maria da Glória Vieira Lorenzzetti,
  • Artemison Monteiro de Barros,    
  • José Alves Ribeiro Neto,
  • Dra. Cristina Mougenot de Barros, 
  • Maria Auxiliadora Curado Siufi, 
  • Raíssa dos Reis,
  • Dra. Maria Lygia Ferreira de Freitas, 
  • Geraldo Fernandes Martins,
  • Manoel Guimarães,
  • Leida Maria Quadros,
  • Franciele Domingues Nantes,
  • Vinícios Kaue Chermont Azambuja,
  • Olmar Oselane Junior,
  • Renata Cox de Moura Leite, 
  • Dr. Itamar Ferrúcio Borges, 
  • Ademar Barros,
  • Paulo Fernandes Dalastra,
  • Miguel Ferreira,
  • José dos Santos Gomes Prata,
  • Edi Barbosa,
  • Neide Ocampos,
  • Rosália Corrêa Alvarenga,
  • Francisco Granero,
  • Márcia Huergo Bauermeister,
  • Ione Camparin,
  • Wilson Reis Falcao,        
  • Eder Penteado,
  • Kelen Stella Schneider,
  • Julian Carlos Pereira da Silva,
  • Dr. Murillo da Costa,
  • Valdir Marini,
  • Jane Alves Clemente da Fonseca,
  • Dalva Kury Marques,
  • Bruno Ito Gorski,
  • Airton Gomes,
  • Jacy Farias,
  • Antônio Carlos (Caio) Moreira Turquetto, 
  • Marly da Silva Almeida,
  • Jane Alves Duarte,
  • Eloi Panachuki,
  • Nelson José Garcia,
  • Pedro Luis Rocha,
  • Loureiro Pereira de Queiroz,
  • Domingos José Borges dos Santos,
  • Elza Espíndola de Camargo, 
  • Rodrigo dos Santos Vieira,
  • Vadenir Nunes dos Santos,
  • Dr. Ricardo Dutra Aydos,
  • Tibúrcio Ramirez, 
  • Cleusa Franco,
  • João Batista Lacrimanti,
  • Rodrigo Cesar Marconi, 
  • Lausane Cristina Vicente 
  • dos Santos,
  • José Wilson Kleinschimitt,
  • Milton Baís Barboza,
  • Fernando Gabriel Lopes,
  • Gilberto Macarios,
  • Ana Maria Zahran Tavares, 
  • Cirley Benites Farias,
  • Luis Fernando Giolo,
  • Oscar Raul Dias Haack,
  • Robson Aparecido Barreto Fernandes,
  • Andrea da Silva Pedra,    
  • Suzana Dirce Gomes da Rocha,
  • Gilberto Oliveira Guanaes, 
  • Andréia Teresinha Schafer,
  • José Flávio Camargo de Mendonça,
  • Ângela Aparecida Nesso Calado 
  • da Silva,
  • Alciney Marins Leal Monteiro,    
  • Zilmar Cavalcante de Araújo,
  • Antônio Roosevelt Neves Feitosa,
  • Lucélia de Fatima Cardoso 
  • da Rocha,
  • Cleber Paulino de Castro,
  • Cleonice Maria de Carvalho,
  • Josilene Gonçales Ramires,
  • Cristhiane Aparecida Garcia Batistela,
  • Murilo Rolim Neto,
  • Juliana Caires Vargas Capobianco,
  • Valmei Roque Callegaro,
  • Rodrigo Bucker Ruiz,
  • Patricia Mazaro,
  • Jackson Farah Leiva,
  • Verônica Villalba,
  • Azet Fernandes Rasslan,
  • Hélio Shigueru Yabunaka,
  • Joyce Minami,
  • Dora Maria Haidamus Monteiro,
  • Jocelyn Salomão Filho,
  • Éder Muniz dos Santos,
  • Vanderlei Barros de Almeida Júnior,
  • Fernando Fernandes,
  • Marlene Shigueko Hamasaki Ferreira,
  • Sônia Cristina Crivelli,
  • Juliana Rondon,
  • Leila Dada.

Colaborou com Tatyane Gameiro

Negócios

Chef de cozinha e esposa transformam história familiar em steakhouse em Ponta Porã

Prime Steak House nasce da união da experiência gastronômica do chef Luiz Fernando Rodrigues com a formação em hotelaria de Maira Ribeiro, com proposta que valoriza carnes, fogo, hospitalidade e sabores de Mato Grosso do Sul

10/08/2026 08h15

Maira Ribeiro e Luiz Fernando colocam a boa gastronomia e a hospitalidade como eixos centrais da Prime Steak House

Maira Ribeiro e Luiz Fernando colocam a boa gastronomia e a hospitalidade como eixos centrais da Prime Steak House Roberlânia Gonçalves

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Para chegar à mesa, uma boa carne precisa de muito mais do que fogo e tempero. Antes de virar um corte servido ao cliente, existe uma cadeia de escolhas, técnicas, histórias e experiências que ajuda a definir o sabor.

É justamente a partir dessa ideia que o casal Maira Ribeiro e Luiz Fernando Rodrigues construiu a proposta da Prime Steak House, restaurante inaugurado no sábado, em Ponta Porã, que aposta na parrilla, em cortes selecionados e em uma experiência que pretende ir além da comida.

A abertura da casa, porém, não nasceu de um plano traçado durante anos, pelo contrário, a história da Prime começou de maneira quase inesperada, a partir de uma oportunidade que surgiu justamente quando os dois imaginavam que o próximo passo seria outro.

Maira e Luiz se conheceram em Piracicaba, no interior de São Paulo, por meio de amigos em comum. Os dois estudaram no Senac Águas de São Pedro, instituição que tinha apenas dois cursos na época: Hotelaria e Gastronomia. Maira cursou Hotelaria entre 2015 e 2016, enquanto Luiz fez Gastronomia entre 2012 e 2013.

Embora tenham passado pela mesma instituição em períodos diferentes, a formação acabou se tornando um dos primeiros pontos de ligação entre os dois.

A gastronomia, no entanto, já fazia parte da história de Luiz antes mesmo da formação profissional. O chef é a sexta geração de uma família ligada ao setor e cresceu em meio à rotina de restaurantes.

Maira Ribeiro e Luiz Fernando colocam a boa gastronomia e a hospitalidade como eixos centrais da Prime Steak HouseFoto: Roberlânia Gonçalves

Depois da faculdade, ele trabalhou no grupo de resorts Club Med, experiência que permitiu contato com diferentes cozinhas, técnicas e culturas gastronômicas.

Foi justamente a partir dessa trajetória que surgiu a mudança que levaria o casal para Ponta Porã. Depois de quatro anos morando em Piracicaba, Luiz recebeu a proposta para retornar à cidade natal e ajudar a mãe e a avó, que mantêm um restaurante familiar há 33 anos. Maira decidiu acompanhá-lo na aventura.

“De certa forma, a gastronomia e a hospitalidade sempre fizeram parte da nossa história”, conta Maira.

Os quatro anos seguintes foram vividos em Ponta Porã, até que surgiu a possibilidade de abrir um negócio próprio. Ainda assim, o projeto não estava desenhado.

Até o dia 20 de julho, o casal acreditava que o caminho seria continuar ligado ao restaurante da família, o Verde Vida. Naquela data, porém, receberam uma proposta de conhecidos da cidade que haviam fechado um estabelecimento e pensaram nos dois como possíveis responsáveis pelo novo negócio.

A conversa evoluiu rapidamente. Eles analisaram a proposta, avaliaram as possibilidades e decidiram assumir o desafio.

“Não foi nada planejado, realmente caiu na nossa mão e nós decidimos abraçar isso tudo”, resume Maira.

A decisão significou transformar, em poucas semanas, uma oportunidade em um restaurante.

Entre assumir o espaço e colocar a Prime Steak House em funcionamento, vieram obras, definição de identidade visual, contratação e treinamento da equipe, escolha de fornecedores, aquisição de equipamentos, criação do cardápio e uma série de testes.

Para o casal, a Prime representa justamente a decisão de parar de esperar pelo momento ideal e assumir a oportunidade que apareceu.

“Poderíamos continuar esperando pelo cenário perfeito ou assumir o desafio. Escolhemos assumir o desafio”, diz Maira.

O processo exigiu uma rotina intensa. Ao mesmo tempo, permitiu que os dois colocassem em prática experiências acumuladas em diferentes momentos da vida profissional.

Para Maira, a hotelaria passou a ser uma espécie de guia para pensar o atendimento. “Na hotelaria, aprendemos que atendimento não é apenas servir bem, mas perceber detalhes, antecipar necessidades e fazer com que cada pessoa se sinta realmente bem recebida”, explica.

É essa visão que ela pretende levar para a Prime. A ideia é construir um atendimento profissional, mas sem transformar a experiência em algo excessivamente formal.

O conceito de luxo, para ela, também passa longe da ostentação. Está relacionado ao cuidado com o cliente, ao ambiente preparado, à atenção aos detalhes e à sensação de acolhimento.

“Luxo não significa necessariamente formalidade ou algo inacessível. Para mim, luxo está muito ligado ao cuidado”, afirma.

FOGO COMO PROTAGONISTA

Na cozinha, Luiz traz a experiência acumulada em resorts e diferentes cozinhas para uma proposta centrada na carne e no fogo. A parrilla é um dos elementos principais do restaurante, mas o objetivo não é simplesmente reproduzir o modelo tradicional de uma steakhouse.

A Prime trabalha com cortes clássicos, como picanha angus, ancho, chorizo, T-bone e prime rib. A casa também aposta em preparos que procuram aproximar a alta gastronomia dos ingredientes e dos sabores conhecidos pelo público da região.

Maira Ribeiro e Luiz Fernando colocam a boa gastronomia e a hospitalidade como eixos centrais da Prime Steak HouseRestaurante une a carne na brasa às referências da fronteira - Foto: Roberlânia Gonçalves

Um dos exemplos é o steak pantaneiro, que combina cupim, mandioca cremosa e farofa de banana. Outro destaque é a costela preparada durante 12 horas, em um processo de cocção prolongada que busca preservar a suculência e desenvolver sabor.

A intenção, segundo Luiz, é respeitar a matéria-prima e utilizar a técnica para valorizá-la, sem transformar a comida em algo excessivamente complicado.

“Quero que o cliente perceba o cuidado em cada detalhe e saia daqui lembrando não só do prato, mas da experiência como um todo”, explica o chef.

A formação e a experiência profissional também aparecem na elaboração do cardápio. Luiz explica que as referências internacionais adquiridas durante a carreira serviram como base para desenvolver pratos próprios, mas não como receitas a serem simplesmente reproduzidas.

A cozinha da Prime deve trabalhar com cocções precisas, grelhados e preparos na brasa, molhos e fundos elaborados, além de técnicas variadas para entradas e acompanhamentos.

O cardápio, entretanto, foi pensado para não ser excessivamente extenso. O casal preferiu uma seleção mais enxuta, com pratos que tenham uma razão para estar ali e possam ser executados com qualidade.

“Não quero simplesmente reproduzir receitas que aprendi ao longo da carreira. Quero usar esse conhecimento como base para criar uma identidade própria para a Prime”, afirma Luiz.

FRONTEIRA NO PRATO

A localização de Ponta Porã, cidade sul-mato-grossense que faz fronteira com o Paraguai, é um dos elementos que ajudam a explicar algumas das escolhas do cardápio.

A fronteira reúne diferentes culturas, hábitos e influências gastronômicas. Para o casal, seria incoerente ignorar esse contexto ao criar um novo restaurante na cidade.

A Prime, portanto, não se apresenta como uma casa de culinária regional, mas incorpora referências locais de maneira pontual. A sopa paraguaia, por exemplo, aparece no cardápio como acompanhamento, com uma interpretação própria preparada na parrilla.

O steak pantaneiro segue a mesma lógica. O cupim, a mandioca cremosa e a farofa de banana são ingredientes e sabores que dialogam diretamente com o imaginário gastronômico de Mato Grosso do Sul, mas aparecem dentro de uma proposta contemporânea de steakhouse.

A intenção é de que a identidade regional não seja uma decoração, mas parte natural da experiência.

“Não queríamos simplesmente reproduzir um modelo de steakhouse que poderia estar em qualquer cidade”, explica o casal. “Estamos em Mato Grosso do Sul e em uma região de fronteira com o Paraguai, então achamos importante que isso aparecesse de alguma maneira na experiência”, destacam.

ALÉM DA CARNE

Embora o produto central seja a carne, a proposta é não limitar a casa aos apaixonados por cortes bovinos. O cardápio também conta com opções de frango e peixe, além de alternativas vegetarianas, entradas e acompanhamentos.

A estratégia é permitir que grupos com diferentes preferências consigam compartilhar a experiência.

A boutique de carnes é outro braço do projeto. Além de consumir os cortes preparados pela equipe da Prime, o cliente poderá escolher carnes selecionadas para levar para casa.

Mas, para Maira, a principal preocupação continua sendo a hospitalidade.

“Hospitalidade, para mim, é fazer alguém se sentir bem-vindo. É receber como gostaríamos de ser recebidos”, define.

Ela acredita que um cliente pode até esquecer detalhes de um prato, mas dificilmente esquece como foi tratado em determinado lugar. Por isso, o atendimento ocupa posição tão importante quanto a cozinha na concepção da Prime.

“Queremos que a pessoa se lembre da carne, dos acompanhamentos e dos drinks, mas queremos principalmente que ela se lembre de como se sentiu aqui”, afirma.

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