Há algo quase perfeito demais em I Play Rocky. Em 1976, Sylvester Stallone escreveu a história de um homem no qual ninguém acreditava, brigou para interpretá-lo quando ninguém acreditava que fosse capaz e acabou transformando Rocky em um dos maiores fenômenos da história de Hollywood.
Cinquenta anos depois, essa mesma história volta ao cinema, agora com outro ator relativamente desconhecido tentando convencer o público de que pode ser Sylvester Stallone.
A metalinguagem é tão evidente que poderia parecer fabricada, mas a própria história de Anthony Ippolito ajuda o filme. Quando soube que uma produção sobre a criação de Rocky estava sendo preparada, ele ainda não tinha recebido convite, roteiro ou material para um teste.
Mesmo assim, pendurou um saco de pancadas no porão da avó, chamou um amigo e um primo e gravou por conta própria uma tentativa de interpretar Stallone. O material chegou à produção, que então lhe enviou o roteiro e pediu uma audição oficial. Ippolito fez novos testes e acabou conquistando o papel.
É difícil imaginar uma forma mais apropriada de chegar a I Play Rocky. O ator também traz uma curiosa especialização em interpretar lendas do cinema antes de elas se tornarem lendas. Em The Offer, minissérie sobre a tumultuada produção de O Poderoso Chefão, Ippolito viveu o jovem Al Pacino.
Agora interpreta Stallone durante a criação de outro filme dos anos 1970 que terminaria a temporada levando o Oscar de Melhor Filme. Há ainda uma pequena ligação deliciosa entre as duas histórias: Talia Shire estava em O Poderoso Chefão e seria Adrian em Rocky.
Interpretar Stallone, porém, exige muito mais do que uma boa caracterização física. Talvez ele seja um dos atores mais fáceis de imitar e, justamente por isso, um dos mais perigosos de interpretar.
A voz arrastada, a assimetria do rosto, os movimentos dos ombros, a postura e a maneira de olhar são tão reconhecíveis que basta exagerar um pouco para que a atuação se transforme em caricatura.
Ippolito passou um longo período se preparando fisicamente e estudando não apenas a voz de Stallone, mas sua linguagem corporal e, principalmente, a diferença entre o homem que conhecemos hoje e aquele ator ainda desconhecido dos anos 1970.
Esse detalhe é fundamental. Ele não está interpretando o Stallone de Rambo, das grandes franquias ou das décadas de estrelato. Está tentando encontrar o homem que ainda não sabia se algum dia chegaria lá.
Essa é também a dificuldade central de I Play Rocky: todos nós sabemos o final. Sabemos que Stallone conseguiu fazer o filme, que Rocky se tornou um fenômeno, que ele foi indicado ao Oscar como ator e roteirista e que o longa venceu Melhor Filme. Sabemos que nasceu uma franquia, depois outra com Creed, e que Stallone se transformou em um dos maiores astros de sua geração.
Peter Farrelly, portanto, não pode depender de suspense para contar essa história. Assim como no próprio Rocky, a questão nunca é realmente saber quem vence, mas entender como alguém conseguiu permanecer de pé até o último round.
O filme volta ao período em que Stallone acumulava rejeições, problemas financeiros e pequenos papéis enquanto tentava descobrir uma maneira de entrar definitivamente em Hollywood. AnnaSophia Robb interpreta Sasha Czack, que viria a ser sua primeira mulher e aparece como uma das pessoas que o incentivam a escrever os próprios roteiros. Se ninguém estivesse disposto a lhe oferecer um grande personagem, talvez fosse necessário criá-lo.
Foi assim que surgiu Rocky Balboa, mas escrever um bom roteiro resolveu apenas metade do problema. Os produtores começaram a perceber o potencial do filme e Hollywood ficou interessada. O obstáculo passou a ser outro: queriam Rocky, mas não necessariamente queriam Stallone como Rocky.
I Play Rocky: quando o azarão de Rocky vira o próprio Stallone - DivulgaçãoEle não aceitou essa separação.
É daí que vem o próprio título. I Play Rocky resume a posição que transformaria a negociação em uma das histórias mais repetidas de Hollywood. Stallone podia precisar desesperadamente do dinheiro, podia não ter qualquer poder dentro da indústria e podia estar diante de produtores que enxergavam atores conhecidos como uma escolha muito mais segura, mas havia uma coisa da qual não estava disposto a abrir mão. Se o filme fosse feito, ele interpretaria Rocky.
A produção reconstrói, portanto, não apenas Stallone, mas todo o pequeno universo que participou daquele nascimento. P.J. Byrne interpreta Irwin Winkler, Toby Kebbell é Robert Chartoff e Jay Duplass assume John G. Avildsen, o diretor que percebeu que o roteiro aparentemente sobre boxe era, antes de tudo, uma história de amor, solidão e dignidade. Stephan James interpreta Carl Weathers, enquanto Kiki Seto interpreta Talia Shire e Robert Morgan assume Burgess Meredith.
Matt Dillon ocupa um lugar diferente nessa reconstrução ao interpretar Frank Stallone Sr., pai de Sylvester. A relação difícil entre os dois oferece ao filme uma explicação mais íntima para a necessidade quase obsessiva que Stallone tinha de provar seu valor. A recusa em entregar Rocky a outro ator deixa, assim, de ser apenas uma disputa profissional e passa também pela necessidade de demonstrar que todas aquelas pessoas que haviam duvidado dele estavam erradas.
Há uma camada particularmente interessante nisso porque o verdadeiro Stallone não esteve inicialmente envolvido com I Play Rocky. Quando soube que o projeto estava sendo desenvolvido, contou que ninguém havia entrado em contato com ele e que descobrira a existência do filme pelas notícias. Não era, portanto, uma cinebiografia concebida sob sua supervisão ou com sua aprovação desde o começo.
A relação mudou depois. Ippolito conseguiu conversar com Stallone durante a preparação e encontrou alguém disposto a ajudá-lo a compreender aquele período de sua vida. Quando finalmente viu o trailer, Stallone também mudou publicamente de tom e desejou sucesso ao elenco e à equipe, dizendo estar ansioso para ver o começo de sua história ganhar vida.
É uma situação curiosa para alguém que passou meio século tão ligado ao personagem que criou. Stallone teve de assistir a outro ator interpretando o momento exato em que ele tentava convencer todo mundo de que ninguém além dele deveria interpretar Rocky.
Peter Farrelly também chega ao projeto carregando sua própria relação recente com o Oscar. Green Book, seu filme anterior para os cinemas, saiu de Toronto com enorme impulso e terminou a temporada vencendo Melhor Filme. Agora ele retorna com outra história construída para provocar uma resposta emocional forte do público, novamente baseada em personagens reais e novamente chegando em plena temporada de premiações.
I Play Rocky estreou no Festival de Toronto e deixou claro que tem vocação para agradar plateias. A atuação de Ippolito surgiu como um dos elementos mais comentados, o que naturalmente aproximou o filme da conversa sobre premiações. Isso não significa prever onde ele chegará, mas é impossível ignorar a simetria: 50 anos depois de Stallone ter sido indicado ao Oscar por interpretar Rocky, outro ator chega à temporada interpretando Stallone enquanto ele criava Rocky.
Talvez o maior risco do filme esteja justamente nessa proximidade com uma história que já conhecemos tão bem. Recriar os bastidores de Rocky significa competir constantemente com nossas lembranças do original e com uma lenda que Stallone, a imprensa e Hollywood passaram cinco décadas alimentando. Quanto mais reconhecível a cena, maior a tentação de transformar a cinebiografia em uma sequência de momentos que o público já espera encontrar.
O trailer sugere que Farrelly decidiu não combater essa mitologia. Ao contrário, I Play Rocky parece abraçá-la. O filme assume a história do sujeito sem dinheiro que escutou “não” repetidas vezes, escreveu a própria oportunidade e, quando Hollywood finalmente quis aquilo que ele havia criado, preferiu arriscar tudo a entregar o papel para outro ator. A cinebiografia sobre o criador de Rocky transforma Sylvester Stallone no verdadeiro Rocky Balboa.
Até “Gonna Fly Now” volta para completar o espelho. Em 1976, a música acompanhava Rocky enquanto ele começava a acreditar que conseguiria chegar até o fim. Cinquenta anos depois, ela acompanha o homem que o inventou durante sua própria tentativa de chegar ao topo.
No Brasil, Eu Sou o Rocky estreia em 19 de novembro, praticamente junto ao aniversário de 50 anos do filme original. O momento dificilmente poderia ser mais adequado. Em 1976, Hollywood assistiu a um ator praticamente desconhecido apostar tudo na certeza de que deveria interpretar Rocky. Meio século depois, Anthony Ippolito chega ao cinema interpretando justamente aquele momento, depois de também ter criado sozinho sua primeira oportunidade de conseguir o papel.
Talvez seja essa a ideia que une melhor os dois filmes. Às vezes ninguém oferece a oportunidade que estamos esperando, e continuar esperando não resolve nada.
Stallone escreveu a sua.
Cinquenta anos depois, Hollywood resolveu fazer um filme sobre isso.
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