Ao aceitar o convite de Henrique Medeiros, presidente da Academia de Letras de Campo Grande e da amiga e acadêmica Theresa Hilcar para uma palestra, a memória revirou. Não imaginava que viveria tantas emoções em dois dias. Momentos diferentes de minha vida vieram à tona.
Marcia, minha esposa, e eu percorremos o que foi possível da cidade, a qual estou ligado desde os anos 1970-1980, quando reunido com autores de minha geração atravessávamos o País fazendo palestras a estudantes e professores em escolas, pátios, quadras, porões, calçadas, praças, estações ferroviárias, resistindo a um regime que tentava nos calar.
Para mim, esta ida, agora, semanas atrás, me trouxe Berlim, onde morei nos anos 1980. Acabara de me separar de Bia, minha esposa, e ela mudara para o Mato Grosso com meus filhos. Comunicávamo-nos por telefone. Eu fazia a ligação para Daniel e André, à noite nos orelhões berlinenses. Era muitíssimo mais barato. Havia os fusos, porém os meninos me aguardavam ansiosos para transmitir tudo da cidade deles, tão verde. Enquanto eu estava enregelado, ele ardiam de calor, e riam, não entendiam a diferença. Eu dizia: “estou com um pouquinho de neve na mão”, e eles queriam saber: “Qual é o gosto da neve”. Berlim era gelada e gelado e Campo Grande, ardia.
Eu acompanhava as escolas deles, dos jogos de futebol nos terrenos vagos em torno da casa na Rua da Paz, dos passeios. Contavam dos campeonatos de futebol de salão no colégio. Estavam felizes, a cidade os acolheu. Eu me adaptava a Berlim, eles a Campo Grande. Havia afeto. Lembro-me rindo de um “castigo” para alunos rebeldes. Eram trancados na biblioteca. Daniel e André faziam arrelia para serem fechados e ali ficavam lendo. Eu sabia da Rua da Paz, onde tinham morado, jogando futebol nas ruas de terra. Hoje avenidas asfaltadas, em bairro de classe média alta, a casa em que os meninos moravam, desapareceu.
Circulei por uma cidade dominada por um verde exacerbado que me atordoava, eu lembrando o romance “Não Verás País Nenhum”, hoje um clássico da questão ambiental. Assim circulei em torno do cerrado conservado, milhares de árvores me envolvendo e ouvia, sim, uvia, todo aquele verde me agradecendo pela imensa reserva do Cerrado. Apego à natureza.
Aquela época lá atrás foi a do muro de Berlim com seus belvederes (observatórios) aos quais subíamos do lado de cá, dito democrático, para observar os “comunistas” do “lado de lá”. Como se fossem animais de zoológico. Loucuras da Guerra Fria.
Na semana passada, em acordo entre a Academia Brasileira e a de Campo Grande falei por duas horas para uma sala lotada. Ou seja, as academias estão se abrindo, multiplicando encontros pelo País inteiro.
Terminados os autógrafos fomos levados para o Território Ristorante, do filho de Theresa Hilcar , Diogo Wendling ,que ficara aberto para nos receber. Lá estavam os chefs e cozinheiros, fora de seus horários, em homenagem à literatura. Os matogrossenses tem ideia do tesouro raro que tem? Calculam o valor de uma cozinha superior aos mais medalhados de São Paulo, Rio, Nova York? Diogo na cozinha se pauta pela inovação sem esquecer o regional. É um olhar contemporâneo à gastronomia italiana. Marcia e eu hesitamos entre o Torteille di Ossobuco e o Entrecôte di Angus ala Grigia. Decidimos pelo Risoto Pantaneiro que leva carne seca, banana-da-terra, parmesão e pangrattato. Disputando palmo a palmo com os parisienses “L’Atelier” ou o “Le Perocope”, ”Le Meurice”ou o “JulesVerne”Comida é afeto. Falar é formar leitores Campo Grande, cidade afeto.