Correio B

TURISMO DE RISCO

Líbano esconde castelo e lindas praias em zona marcada pela guerra

Explorar os segredos da região é uma experiência que oferece considerável risco

UOL

30/11/2015 - 03h00
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As guerras do Oriente Médio ofuscam (e quase relegam ao ostracismo) diversos dos atrativos turísticos do Líbano, um país sempre afetado pelas turbulências na região.

A cidade de Tiro, por exemplo, é mais conhecida por ser reduto do grupo político armado Hezbollah do que por abrigar ruínas romanas que remontam ao século 2 d.C. e que oferecem vista para o mar Mediterrâneo.

Qana, por sua vez, ganhou as manchetes pela chuva de bombas que tomou de Israel em 1996, ano em que os israelenses entraram em um sangrento conflito contra o Hezbollah. Nem todos sabem, porém, que muitos fiéis acreditam que na cidade ocorreu o episódio bíblico da transmutação da água em vinho realizada por Jesus Cristo. Um templo com lindos baixos relevos dedicado ao milagre e uma caverna onde Jesus teria dormido são pontos de peregrinação para libaneses cristãos no local.

Explorar os segredos da região é uma experiência que oferece doses consideráveis de risco -- e histórias de viagens que, aos ouvidos de muita gente, ganham uma dimensão surreal. Na estrada, o encontro entre a beleza e a tensão bélica que existem no Líbano é constante (e marcante).

Em Tiro, banhistas curtem o sol e o Mediterrâneo sob um antigo farol (Marcel Vincenti/UOL)
XIITAS E ROMANOS

Quando bate na orla de Tiro, o mar Mediterrâneo ganha uma linda cor azul turquesa, e é aproveitado por banhistas desde as areias da Reserva Natural Costeira de Tiro, uma área de preservação ambiental de 380 hectares perfeita para o nado e onde, ocasionalmente, visitantes conseguem ver tartarugas-marinhas. Homens descamisados e calção de banho. Mulheres, via de regra, sob pesados véus negros. Quase todos muçulmanos xiitas.

Tiro foi um dos principais portos do Mediterrâneo na era pré-cristã, principalmente sob o comando dos fenícios. São das épocas romana e bizantina, porém, seus principais monumentos históricos. As colunas quebradas, mas ainda imponentes, do sítio arqueológico de Al-Mina aparecem ao lado do mar da cidade, fazendo sombra sobre uma via de 170 metros de comprimento coberta por mosaicos que conduz o visitante para dentro desse ambiente de quase 2.000 anos.

Construída durante a dominação romana na região, Al-Mina ainda exibe as ruínas de uma arena que comportava até 2.000 pessoas, e onde, acredita-se, eram realizadas sangrentas lutas parecidas com o boxe. 

Canal de TV do Hezbollah grava clipe musical na orla da cidade de Tiro (Marcel Vincenti/UOL)

O local hoje está em ruínas, mas as brigas, em Tiro, continuam vivas (principalmente no aspecto ideológico). Na orla da cidade, é comum ver bandeiras e fotos de soldados mortos do Hezbollah. Quando a reportagem esteve por lá, uma equipe de cinco pessoas do Al-Manar, o canal de televisão do Hezbollah, gravavam um clipe, com drone e crianças dançarinas, de uma banda de música da região. As letras comemoravam as supostas vitórias do grupo xiita em seus confrontos contra Israel.

O Estado Islâmico, porém, parece ser hoje uma preocupação maior para o Hezbollah. Membro da organização, diretor do Al-Manar e presente na gravação do clipe, Belal Sater me mostrou orgulhosamente seu celular, com uma foto de seu filho: "ele tem 18 anos e eu o enviei para a Síria para lutar contra o EI. Ele está ajudando a defender o Bashar al-Assad [aliado do Hezbollah]", disse, com um sorriso mais radiante do que o sol que ilumina as praias de Tiro.

PERTO DA FRONTEIRA, SÓ COM AUTORIZAÇÃO

Ao sul de Tiro, fica o último trecho de terra antes da fronteira israelense: trata-se de uma faixa terrestre de 40 quilômetros de comprimento praticamente proibida para turistas. Para visitar boa parte desta área, é preciso ir até a cidade de Sidon, entrar em uma base do Exército libanês e implorar para que o oficial de plantão (geralmente um burocrata sem muita vontade de trabalhar) lhe dê uma autorização, nem sempre concedida.

O motivo para o empecilho: um grande naco do sul do Líbano está hoje sob o controle da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil), que tem na região um contingente de cerca de 9.000 soldados de 38 países cujo principal objetivo é prevenir que novas guerras ocorram entre Israel e grupos armados libaneses. Para ingressar no terreno de atuação da Unifil, só com a tal da permissão.

O motivo para ir até lá: esta área do sul do Líbano abriga a cidade de Naqoura, onde está uma das praias mais lindas do país, cercada por natureza verdejante e água cristalina. É uma orla, porém, que fica em uma das fronteiras mais tensas do mundo.

Apesar da presença dos capacetes azuis, muitos libaneses do sul do Líbano parecem esperar a volta da guerra a qualquer momento. Ao me ver caminhando nas ruas de Qana, Ali, um jovem xiita de 28 anos, me chama para tomar expresso em sua loja que vende café brasileiro. Gentil, ele fala de futebol, pergunta sobre minha profissão e deseja que Alá abençoe minha família. É só a palavra Israel aparecer na conversa, porém, que tudo muda: ele se levanta, tira uma pistola 9 milímetros de uma gaveta e, com um ar sério, diz: "estou pronto para lutar se eles nos invadirem de novo". Na nossa despedida, me dá um grande abraço.

Qana é o lugar onde Jesus teria transformado água em vinho - e transmutações radicais continuam a ocorrer na cidade.

CASTELO CRUZADO

Mais ao norte de Qana, o espectro da guerra continua a acompanhar o turista que gosta de monumentos históricos. Na região centro-sul do Líbano fica o castelo Beaufort, uma fortaleza cruzada situada sobre uma colina de 700 metros de altura que, apesar de remeter à Idade Média, continuou com função militar até o final do século 20, quando foi usada como posto de ataque e defesa do Exército israelense durante sua ocupação do sul libanês, que durou até o ano de 2000.

Hoje é possível subir no castelo (para ir até lá não é preciso autorização do Exército libanês) e, de lá, ter vista da cidade libanesa de Arnun e das colinas de Golã, com seus lindos corpos rochosos ondulantes que clamam por uma foto. Mas não leva muito tempo para perceber que, atrás das colinas, há outra realidade trágica: o território sírio.

Divulgação/Governo do Reino Unido

ZONA LARANJA

A reportagem percorreu o sul do Líbano e, em nenhum momento, se sentiu ameaçada. Mas, hoje, diversos governos do mundo não recomendam viagens a partes da área. Como é possível ver no mapa, o governo britânico coloca toda a região de Tiro (Tyre) em uma zona laranja, que significa "vá até lá apenas se a jornada for essencial". A região onde se situa o castelo de Beaufort, por sua vez, que fica perto de Nabatiye, está na zona verde: relativamente estável, "mas entre em contato conosco antes de ir para ver se está tudo seguro". 

Se quiser um dia visitar a região, nosso conselho é o mesmo: informe-se sobre a situação de segurança com a embaixada brasileira no Líbano, altamente atuante no país árabe e que pode dar informações confiáveis para a viagem.

crônica

Amores Maduros

12/05/2026 08h45

Arquivo

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Minha amiga tem 82 anos e dois namorados. Claro que ela mora numa metrópole, mais precisamente em São Paulo; do contrário, fosse nestas plagas, os dois fatos seriam quase inadmissíveis.

Pergunto a ela o porquê de ter dois namorados. Ela responde que é para não virar rotina — para "revezar". Acho graça, mas tem lá sua lógica. Nesta idade, é comum criar hábitos, e tudo o que ela não quer é criar vínculo. O que Bia quer mesmo é ir ao cinema, jantar fora de vez em quando, visitar exposições de arte, caminhar no parque. Não que precise de companhia para isto. Não, minha amiga é, de longe, uma das pessoas mais independentes que conheço.

Ela me conta que conheceu um deles na antessala do cinema e o outro num restaurante. "Como assim?", pergunto curiosa e, de alguma forma, um pouco perplexa. Afinal, cenas desta natureza não são nada comuns por aqui. "A gente começou a conversar sobre o filme e vimos que temos muita coisa em comum", contou. Depois disso, engataram um namoro.

O segundo conheceu numa pizzaria, ela com uma taça de vinho na mão e ele também. Olha para cá, rabicho de olho para lá, o moço pede para fazer um brinde. Ela o chama para sentar-se à mesma mesa: "Melhor que conversar à distância", explica. Depois de muito papo, despedem-se, mas esquecem de trocar telefones.

Os dias passam e o moço não lhe sai da cabeça. Ela volta ao restaurante e pergunta por ele. "Ah, claro! Todos aqui o conhecem. Mora perto, no bairro". Com apenas o nome da rua, ela sai em uma cruzada em busca daquele que vem lhe tirando o sossego. No terceiro prédio, o porteiro confirma: sim, ele mora aqui. Ela deixa um bilhete carinhoso e espera.

Ele liga na sequência e combinam um jantar. Divorciado, cineasta e bom de papo. O resto virou história — história que me aguça a curiosidade e, por que não dizer?, uma certa inveja. Inveja das possibilidades que ela agarrou contra todas as probabilidades, num país que louva a juventude. Mas é certo que Bia é uma das pessoas mais lindas que conheço. Não apenas fisicamente, mas de alma e espírito. Conversa sobre tudo, não tem preconceitos, não faz julgamentos e se abre completamente para a vida. Um belo exemplo de ser humano.

Falar sobre Bia me faz lembrar de Danusa Leão. Cortejada por um desconhecido em seu restaurante favorito, ela resistiu ao flerte insistente. Mas coincidência ou destino, estavam hospedados no mesmo hotel. No quarto recebeu a ligação com o convite para um último drinque. Danusa parou, refletiu e se perguntou o que tinha a perder. Afinal, naquela noite, ela completava 70 anos e estava sozinha em Paris. Viva a sabedoria, o savoir vivre e as grandes metrópolis.

DANÇA

Em 40 anos, a Ginga Cia. de Dança se consolidou como uma das maiores companhias do Centro-Oeste

Em quatro décadas, a Ginga Cia de Dança transcionou dos circuitos competitivos para espetáculos e se consolidou como uma das maiores companhias do Centro-Oeste

12/05/2026 08h40

Ao longo de quatro décadas, mais de 100 bailarinos passaram pela companhia

Ao longo de quatro décadas, mais de 100 bailarinos passaram pela companhia Divulgação

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Em um país onde manter um grupo artístico ativo já é, por si só, um ato de resistência, completar quatro décadas de trajetória representa mais do que permanência. Significa passar por mudanças culturais, dificuldades financeiras, transformações estéticas e gerações inteiras sem perder o movimento.

Neste ano, a Ginga Cia de Dança chega aos 40 anos consolidada como uma das companhias mais longevas e importantes da dança contemporânea do Centro-Oeste brasileiro.

Fundada em 1986, em Campo Grande, pelo coreógrafo e diretor Chico Neller, a companhia nasceu sem grandes estruturas institucionais ou planejamentos formais. O ponto de partida foi o desejo coletivo de dançar.

A partir desse impulso, a Ginga construiu uma história marcada por experimentação artística, formação de bailarinos, circulação nacional e espetáculos que transformam temas sociais em dramaturgia corporal.

Ao longo de quatro décadas, mais de uma centena de bailarinos passaram pela companhia. Muitos iniciaram suas trajetórias ainda crianças, dentro do Projeto Dançar, criado em 1997, e seguiram carreira profissional. Outros encontraram na dança um espaço de acolhimento, reconstrução pessoal e pertencimento.

Hoje, a Ginga celebra seu legado olhando também para o futuro. Além da circulação estadual do espetáculo “Rompendo Silêncios”, a companhia iniciou a criação de “Corpo Território”, novo trabalho que investiga identidade, pertencimento e cultura sul-mato-grossense.

O COMEÇO

Quando a Ginga surgiu, em meados da década de 1980, a dança contemporânea ainda tinha pouca visibilidade em Mato Grosso do Sul. Os circuitos culturais eram limitados, os investimentos escassos e havia pouca circulação de grupos profissionais fora dos grandes centros do País.

Segundo Chico Neller, a companhia nasceu da união de bailarinos movidos pela vontade de estar em cena.

“A Ginga Cia de Dança surgiu da união de bailarinos que tinham, acima de tudo, o desejo de dançar. No início, não havia um propósito institucional definido ou uma estrutura consolidada. Existia a vontade de criar, estar em cena e compartilhar a dança com diferentes públicos”, relembra.

As primeiras coreografias, como “Passagens”, “Prisma”, “Phisma 2” e “Feras”, já indicavam características que se tornariam marcas da companhia: intensidade física, sensualidade, potência feminina e investigação das relações humanas por meio do corpo.

“Mesmo naquele início, existia um interesse pelo corpo como espaço de expressão e narrativa. Isso continua sendo uma marca da Ginga até hoje”, afirma o diretor.

Inicialmente ligada à linguagem do jazz e ao circuito competitivo de festivais, a companhia rapidamente ganhou reconhecimento regional e nacional. Nos anos seguintes surgiram obras como “Sistemas”, “Cúbica”, “Ginga Brasil”, “Pare e Pense”, “Por Você”, “Te Amar”, “Herança Negra” e “Influência”.

O grupo conquistou premiações importantes, incluindo o Jacaré de Prata, com destaque para Melhor Coreografia e Melhor Bailarina.

RECONHECIMENTO NACIONAL

A década de 1990 marcou a consolidação nacional da companhia. A participação no Festival de Dança de Joinville – considerado um dos maiores festivais de dança do mundo – mudou os rumos da Ginga.

Foi naquele palco que a companhia percebeu que o trabalho desenvolvido em Mato Grosso do Sul tinha potência para dialogar com a cena nacional.

“O Festival de Joinville teve um impacto fundamental na trajetória da Ginga. Foi ali que começamos a entender que o trabalho que fazíamos em Mato Grosso do Sul podia dialogar com o cenário nacional da dança”, afirma Chico.

Durante os anos 1990, a companhia apresentou coreografias como “Purificação”, “Olhe-me”, “Entre Nós”, “Espíritos que Dançam na Carne”, “Face a Face”, “Távora” e “Instinto”, conquistando prêmios importantes nas categorias jazz e dança moderna.

A participação na Noite de Gala do festival – espaço reservado às coreografias mais premiadas e de maior destaque – se tornou um dos momentos simbólicos da trajetória da companhia.

“Para nós, que estávamos longe dos grandes centros culturais do País, era muito significativo perceber que um grupo vindo de Campo Grande podia ocupar aquele espaço e ser reconhecido artisticamente”, destaca o coreógrafo.

Mas o impacto de Joinville foi além das premiações. O festival também funcionou como espaço de troca artística. “Tivemos contato com outros grupos, outras linguagens e outras formas de pensar a dança. Acho que isso foi determinante para o amadurecimento da companhia”, explica Chico.

ARTE QUE ACOLHE

Entre as artistas que tiveram suas trajetórias profundamente marcadas pela Ginga está Márcia Rolon, ex-bailarina da companhia e fundadora do Moinho Cultural.

Ela conta que chegou ao grupo em um momento de ruptura pessoal. “Eu estava totalmente sem chão. Saía de um relacionamento marcado por dor e violência. Tive que deixar minha cidade, meu Pantanal, e voltar para a casa dos meus pais em Campo Grande. A dança foi minha luz”, relembra.

Márcia procurou a companhia em busca de acolhimento artístico e emocional. “O Chico Neller me acolheu, me incluiu no grupo e me ensinou a ser mais fluida. Me trouxe de volta o respiro e o amor”, relembra.

Segundo ela, a Ginga foi determinante não apenas para sua formação artística, mas para a reconstrução de sua vida. “A Ginga me apresentou o palco profissional, me permitiu ser intérprete-criadora, me convidou para coreografar e me colocou no palco do maior festival de dança do mundo”, afirma.

Mais tarde, as experiências vividas dentro da companhia ajudaram Márcia a criar a Mostra Corumbá – Santuário Ecológico da Dança e a fundar o Moinho Cultural. “Tudo está interligado”, resume.

RESISTÊNCIA

Manter uma companhia de dança ativa por 40 anos fora do eixo Rio-São Paulo nunca foi simples. A falta de continuidade de políticas culturais, dificuldades de financiamento e os altos custos de circulação sempre fizeram parte da realidade da Ginga.

“Fazer dança no Brasil já exige resistência, e fora do eixo Rio-São Paulo isso se torna ainda mais difícil”, afirma Chico Neller.

Segundo ele, a permanência da companhia só foi possível graças à criação de redes de formação e pertencimento. “A companhia não se sustentou apenas pelos espetáculos, mas também pela construção de uma rede de pessoas que acreditam na dança como espaço de transformação”, diz.

Essa visão também aparece no depoimento do bailarino Paulo Oliveira, integrante da nova geração da companhia.

Paulo começou na dança ainda criança, por meio do Projeto Dançar, em 2004. “Boa parte da pessoa e artista que me tornei foi construída dentro desse espaço”, afirma.

Hoje, integrar uma companhia com quatro décadas de história representa, para ele, uma responsabilidade coletiva. “Estar na companhia entendendo toda a sua história, resistência e impacto cultural no MS é também assumir uma responsabilidade de continuidade”, defende.

Segundo o bailarino, o legado da Ginga não está preso ao passado. “A companhia nunca foi estática. Quem chega traz novas referências, novas urgências. O legado da Ginga está justamente nessa capacidade de permanecer em transformação”, explica o bailarino.

MUDANÇA

Um dos momentos mais decisivos da trajetória da companhia aconteceu em 1999, quando a Ginga decidiu abandonar o circuito competitivo de festivais e aprofundar sua pesquisa em dança contemporânea e criação autoral.

O espetáculo “Despalavras” marcou essa transição. “A energia dos bastidores, a comparação e a avaliação não combinavam com arte”, afirma Márcia Rolon.

Ela lembra que, em um ano, a companhia competia nos festivais; no seguinte, já aparecia como grupo convidado em grandes eventos. “Essa foi a grande virada da Ginga e o reconhecimento do Chico Neller como diretor e coreógrafo”, conta.

A partir daí, a companhia passou a investir em espetáculos completos, com maior elaboração dramatúrgica e aprofundamento conceitual.

Nos anos seguintes surgiram obras como “Conceição de Todos os Bugres”, “Corpo Latino”, “Um Tema para Quatro”, “Vem Dançar Comigo” e “Aqui ou em Qualquer Lugar”.

O processo também foi fortalecido por intercâmbios com importantes nomes da dança contemporânea brasileira, entre eles Mário Nascimento, Tíndaro Silvano, Luis Arrieta e Vanessa Macedo.

EXPRESSÃO

Nas últimas décadas, a Ginga aprofundou ainda mais sua relação com temas sociais e humanos.

Em 2022, a companhia estreou “Silêncio Branco”, espetáculo que aborda feminicídio e violência contra a mulher. A obra transformou em movimento o silêncio imposto às vítimas da violência de gênero.

Em 2023, o espetáculo foi contemplado pela Bolsa Funarte de Dança Klauss Vianna, fortalecendo sua circulação nacional.

Já em 2024, a companhia realizou a recriação coreográfica “Rompendo Silêncios”, assinada por Vanessa Macedo, ampliando a investigação artística sobre violência contra a mulher.

Para Paulo Oliveira, trabalhar temas urgentes altera profundamente o processo criativo. “Os trabalhos da Ginga partem muito das experiências humanas, das tensões contemporâneas, das questões de identidade, pertencimento e coletividade”, afirma.

Segundo ele, a dança possui capacidade de provocar reflexão social justamente por atuar no campo sensível. “A dança cria experiências e pode despertar perguntas no público, mesmo sem entregar respostas prontas”, pontua.

DANÇA CONTÍNUA

Chegar aos 40 anos não representa encerramento, mas continuidade.

Além da circulação estadual de “Rompendo Silêncios”, a companhia prepara “Corpo Território”, novo espetáculo que investiga as relações entre corpo, memória, identidade e pertencimento.

Ao olhar para trás, Chico Neller afirma que a maior conquista da companhia talvez seja justamente sua permanência. “Me orgulho de olhar para trás e ver quantos bailarinos passaram pela companhia, quantas vidas foram atravessadas pela dança e quantas pessoas descobriram um caminho artístico dentro da Ginga”, diz.

Depois de quatro décadas, a companhia segue inquieta. “Acho que o que mais me emociona é perceber que a companhia continua viva, em movimento, com vontade de pesquisar, criar e continuar acreditando na dança como espaço de encontro, reflexão e transformação”, conclui o diretor.

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