Marcia Neder é psicanalista, com pós-doutorado e doutorado em Psicologia Clínica pela PUC-SP e mestrado em Psicologia Clínica pela PUC-RJ. É autora de vários livros, capítulos de livros e artigos. Professora adjunta (aposentada) e pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), onde criou e coordenou a linha de pesquisa Psicanálise e Cultura, e do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e Educação da USP (Nuppe-USP).
Criadora de um blog (Amores Gozados) e do grupo de supervisão para professores e profissionais da educação na creche Favinho e Mel, no Rio de Janeiro, A escola no divã. É membro do conselho científico-consultor ad hoc da Revista Percurso de Psicanálise, do Instituto Sedes Sapientiae, do conselho editorial da Revista Insight Inteligência, assessora ad hoc da Fapesp e palestrante da Casa do Saber (RJ).
Seus últimos livros publicados são “Os Filhos da Mãe – Como Viver a Maternidade sem Culpa e sem o Mito da Perfeição” e “Déspotas Mirins – O Poder nas Novas Famílias”, que estava esgotado e ganhou uma segunda edição atualizada e ampliada para celebrar os 10 anos de seu lançamento.
Voltados para o público em geral, e não só para profissionais, seus livros conquistaram aceitação e relevância, com destaque para a atualidade dos temas e para a clareza e a profundidade da análise. Sua repercussão pode ser conferida nas entrevistas e nas participações em programas nacionais no seu site: marcianeder.com.br.
MARCIA NEDER - PERFIL
Marcia Neder é psicanalista, com pós-doutorado e doutorado em Psicologia Clínica pela PUC-SP e mestrado em Psicologia Clínica pela PUC-RJ.
É autora de vários livros, capítulos de livros e artigos. Professora adjunta (aposentada) e pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), onde criou e coordenou a linha de pesquisa Psicanálise e Cultura, e do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e Educação da USP (Nuppe-USP).
Criadora do blog Amores Gozados e do grupo de supervisão para professores e profissionais da educação na creche Favinho e Mel, no Rio de Janeiro, A escola no divã. É membro do conselho científico-consultor ad hoc da Revista Percurso de Psicanálise, do Instituto Sedes Sapientiae, do conselho editorial da Revista Insight Inteligência, assessora ad hoc da Fapesp e palestrante da Casa do Saber (RJ).
É um prazer entrevistá-la e compartilhar suas ideias com nossos leitores. Qual a sua relação com Campo Grande?
Nasci em Campo Grande, onde vivi minha infância e início da adolescência em uma família gigantesca, com muitos irmãos e primos. Uma família grande e meio nômade, com irmãos dos meus pais que se mudaram para lá ou de lá com os filhos, e depois acabávamos vindo para o Rio ou para São Paulo, como muitos na época. O Rio era a cidade da família do meu avô materno, que se casou com uma mato-grossense. Meu avô paterno veio do Líbano, trazendo aos poucos pais e irmãos, e se casou com uma paraguaia.
Hoje, digo que nasci em Macondo, o povoado de “Cem Anos de Solidão” (de Gabriel Garcia Márquez), porque a Campo Grande/Mato Grosso onde nasci só existe no nosso imaginário e nas páginas da história. A divisão do Estado a “transferiu” para Mato Grosso do Sul e transformou-a em capital.
Desde o início da minha adolescência queria fazer Psicologia, que fiz na Universidade Santa Úrsula (RJ). Depois de formada, continuei morando no Rio: trabalhava no consultório, estagiava em instituições psiquiátricas, atuava na Associação dos Psicólogos e outras atividades. Assim que me formei, fui contratada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) para dar aulas de fotografia em seu Colégio de Aplicação.
Dali a alguns anos, comecei o mestrado em Psicologia Clínica da PUC do Rio, enfim a vida profissional seguia seu curso. E o tique-taque do relógio biológico começou a soar alto, como em geral acontece com as mulheres, empurrando-as para uma decisão: ter ou não filhos? Quando minha filha nasceu, eu já tinha concluído todos os créditos do mestrado, restando apenas a dissertação.
Meus pais continuavam em Campo Grande e eu tinha que me virar sem eles. O jeito foi me equilibrar em um arranjo precário, com o consultório na Casa de Saúde da Família e contando com minhas tias para cuidar da Julia enquanto eu trabalhava.
Acabei me mudando para Campo Grande como única maneira de seguir minha carreira profissional e, ao mesmo tempo, cuidar da minha filha. Meu consolo era proporcionar aos meus pais e à minha filha, única neta, a alegria do convívio. Eles me deram um apoio irrestrito e imprescindível para eu recomeçar do zero minha vida profissional.
De novo, meu primeiro convite de trabalho veio para um projeto da prefeitura na área da fotografia: fotografar as festas da Tia Eva. Logo o convite para a direção em um órgão do Estado, que recusei: exigência de tempo integral com uma remuneração que não compensava o desistir de criar a Julia. Além de ser uma atividade administrativa que me afastaria da psicologia. Não demorou muito e recebi um telefonema da Fucmat (futura UCDB) me convidando para dar aulas em uma pós-graduação; eu era a única psicóloga com o título de mestre na cidade.
Depois, fui aprovada no concurso para dar aulas na graduação. Meu pai me ofereceu um consultório na Clínica Campo Grande para eu recomeçar minha clínica. Seis meses depois que meu filho nasceu, fui aprovada no concurso da UFMS, onde trabalhei em regime de dedicação exclusiva até ser aposentada a contragosto por uma lesão nas cordas vocais.
Julia já tinha voltado para o Rio e parte do mês eu ficava com ela, reencontrando velhos amigos e colegas, fazendo outros e abrindo novas frentes de trabalho. O Adriano veio depois, durante alguns anos eu ia a Campo Grande dois dias na semana, até me fixar definitivamente aqui no Rio.
Você tem vários livros publicados. A pandemia chegou interrompendo o circuito de lançamento da segunda edição, atualizada e ampliada, do seu “Déspotas Mirins – O Poder nas Novas Famílias”, um livro muito interessante, que aborda um tema cada vez mais relevante na sociedade atual, que é a dinâmica do poder dentro das famílias contemporâneas, especialmente em relação às crianças e aos adolescentes, que muitas vezes acabam assumindo um papel de autoridade em relação aos seus pais. Pode nos contar um pouco mais sobre isso?
Este livro foi a minha pesquisa de pós-doutorado em Psicologia Clínica na PUC-SP, sob a supervisão do Renato Mezan. O título original era “Édipo Tirano: O Feminino e o Poder nas Novas Famílias”, que é uma abordagem mais ampla, eu diria, da dinâmica do poder nas famílias atuais. A questão é a seguinte: havia (e nem sei se isso mudou) um consenso bem sólido que afirmava que as crianças estariam “sem limites” por causa do “declínio do poder paterno”.
Em outros termos, o enfraquecimento (alguns falam em “queda”, o que é um equívoco, ele continua) do patriarcado teria dado lugar a um “matriarcado moderno”. Muitos psicanalistas escreveram que esse “poder da mãe” teria consequências extremamente graves para os filhos e que era preciso que o pai intercedesse para cortar as asinhas dessa usurpadora.
Ora, essa conclusão entra em choque com a história da criança e da família, conforme mostro no livro. Os abalos sofridos pela família tradicional ou patriarcal no século passado não culminaram no poder da mulher: o poder do patriarca foi deslocado para a criança, para o filho, e por isso cunhei o termo “pedocracia”. Esta é a dinâmica do poder instituída das famílias do nosso século vinte e um.
Dando um passo adiante, se o filho é o tirano da família (“tirano” entendido em suas origens gregas, conforme explico no livro) e se o ser encarregado de seus cuidados desde o nascimento tem um gênero, o feminino, a mulher está longe de ser essa poderosa tal como aparece nas críticas psicanalíticas. Ela continua sendo submetida a um poder que não é diretamente do homem (embora o seja indiretamente), mas da criança, cujas exigências crescentes feitas à maternidade nos últimos duzentos anos cabem a ela e somente a ela satisfazer.
Isso é o que você vai desenvolver mais em “Os Filhos da Mãe”?
Desde o título, né? “Os Filhos da Mãe – Como Viver a Maternidade sem Culpa e sem o Mito da Perfeição”. Faço uma análise psicanalítica e histórica dessa idealização da mãe em nossa cultura e o preço que nós, mulheres, pagamos para ser essas santas devotadas às nossas crias e, depois como avós, às crias das nossas crias. De um lado, a beatificação da mãe, de outro, a idolatria da criança como uma divindade, ou infantolatria.
Parece óbvio, mas eu tenho que lembrar isso às pessoas, e vira e mexe o faço de novo nas minhas redes, repetindo que a mãe também é gente. Mesmo com essa desmistificação explicada, contextualizada na história das mulheres, da maternidade, da criança e da família, uma escuta aberta (sem militância), como podemos ter no consultório, revela a dor e a frequência da culpa materna. Se você se dá ou se não se dá, a culpa é onipresente. Só pode ser confrontada por um trabalho pessoal e intransferível, como é o trabalho terapêutico.
Apesar desse poder da terapia e da sua formação ter sido toda na área clínica, você também trabalha intensamente com a educação e a sociedade. Tanto que seu primeiro livro é “Psicanálise e Educação: Laços Refeitos”, e a linha de pesquisa que você criou na UFMS é Psicanálise e Cultura.
Freud escreveu que a Psicanálise não é só uma terapia; ela é também um método de investigação e uma teoria. Por outro lado, dedicou um espaço importantíssimo na criação da psicanálise ao que ficou conhecido como “psicanálise aplicada”, e que outros preferem chamar de “psicanálise implicada” ou “psicanálise extramuros”. Freud também escreveu que a psicologia do indivíduo é, desde sempre, psicologia social. “Psicanálise e Educação: Laços Refeitos” é minha tese de doutorado, orientada por Renato Mezan no Programa de Psicologia Clínica da PUC-SP.
Como é o processo que transforma este ser que nasce em um humano, pertencente a uma cultura, um ser da cultura? As teorias psicanalíticas têm suas divergências, embora a ideia geral permaneça ao longo da história: o indivíduo é inserido na cultura pela repressão de suas pulsões (individuais) em benefício da sociedade. Nesse livro mostro, com outros analistas, os limites dessa concepção das origens do nosso psiquismo.
Para terminar, você poderia dizer aos leitores o que anda fazendo, como podem adquirir os seus livros e entrar em contato com você para sessões e encontros on-line, orientações?
Desde a pandemia permaneci no trabalho remoto, que me permite atender à demanda que chega de vários lugares do País e de fora do País. É uma demanda que varia desde atendimentos terapêuticos, de orientação, de grupos de estudos, seminários sobre temas escolhidos pelas pessoas, discussões individuais ou em grupo sobre um ou outro dos meus livros, entrevistas, enfim, tudo o que habitualmente fazemos na vida presencial.
Graças a essa via remota, a prof.ª dr.ª Maria Adélia Menegazzo e eu pudemos finalmente realizar o sonho antigo, e tantas vezes reiterado, de minha participação na Feira Literária de Bonito, coordenada por ela. As pessoas podem entrar no meu site e mandar um e-mail na aba Contato (marcianeder.com.br) ou mandar direto um e-mail para [email protected], inclusive para os livros, especialmente o “Déspotas Mirins – O Poder nas Novas Famílias”. Aliás, isso sempre aconteceu, bem antes da pandemia, assim podemos trocar telefones e conversar sobre o que estão buscando e como podemos fazer. Instagram: @marcia_neder. Facebook: Marcia Neder.


Foto: Divulgação/Sesc
Dra. Maria Auxiliadora Budib - Foto: Studio Vollkopf
Marcella Zorzo - Foto: Arquivo pessoal



