Correio B

ANÁLISE

Mercado clandestino das canetas emagrecedoras pode levar a graves riscos à saúde, alerta a médica

O temor é de que o uso de medicamentos de procedência duvidosa possa gerar uma onda de complicações e o efeito rebote, com a recuperação do peso perdido

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A busca por um corpo ideal, impulsionada por padrões estéticos e pela promessa de soluções rápidas, está criando um terreno fértil para o mercado clandestino das canetas emagrecedoras ilegais, para a origem de contrabando ou descaminho.

O uso sem controle destes medicamentos, que são comercializados por meio de canais informais e das redes sociais, pode representar uma ameaça em curto, médio e longo prazo para a saúde pública, alerta a médica Mariana Vilela.

Mariana Por-Deus Vilela, médicaMariana Por-Deus Vilela, médica - Foto: Divulgação

A médica afirma que, se 2025 foi marcado pela explosão do uso, 2026 tende a ser o “ano das complicações”. Em entrevista ao Correio B, ela detalha os riscos ocultos dessas canetas e indica o caminho mais seguro para o tratamento do sobrepeso.

RISCOS

A primeira e mais assustadora pergunta é simples: o que há dentro dessas canetas piratas? A resposta, segundo Mariana, é um tiro no escuro. “Infelizmente, a gente não tem conhecimento realmente do que há ali”, adverte.

A diferença entre um medicamento original, aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e uma versão falsificada é abismal.

Enquanto o primeiro passa por rigorosa fiscalização de produção, transporte, armazenamento refrigerado e só é vendido com receita médica de controle especial, o segundo é um produto sem qualquer garantia.

“O que tem ali dentro pode ser uma matéria-prima inferior – no melhor cenário – ou até insulina. Já vi casos de internação e até de morte por conta disso”, relata a médica.

E o “cenário otimista” de baixa qualidade é apenas a ponta do iceberg. Uma das substâncias mais encontradas nessas falsificações, além da própria insulina, é a semaglutida (princípio ativo do Ozempic®): mais barata e com efeitos colaterais diferentes da tirzepatida (Mounjaro®), muitas vezes anunciada na venda.

“O paciente compra gato por lebre: acha que está aplicando tirzepatida e, na verdade, está aplicando semaglutida… e interpreta como ‘normal’ um efeito colateral que não deveria acontecer daquele jeito”, explica.

Para piorar, o transporte e o armazenamento inadequados podem desnaturar a substância, tornando-a inerte – ou, no limite, tóxica.

Do ponto de vista médico, o risco mais grave e imediato é justamente a incerteza sobre o conteúdo. A aplicação de insulina por quem não é diabético pode causar hipoglicemia severa, com mal-estar, confusão mental, convulsões, coma e até morte. “Isso levou muita gente ao pronto-socorro”, enfatiza Mariana.

Além disso, mesmo que a caneta contenha algum princípio ativo verdadeiro, a dose pode ser totalmente imprevisível, o que aumenta o risco de superdosagem e intoxicações perigosas.

EFEITOS COLATERAIS

A médica chama atenção para o fato de que até os medicamentos originais podem causar efeitos colaterais graves quando usados sem supervisão e esse risco se multiplica com versões falsificadas.

“A gente normalmente vê, em paciente que não faz acompanhamento médico, pancreatite e paralisia intestinal [gastroparesia], inclusive com internações em UTI. O tubo digestório começa a sofrer pela falta de motilidade [os movimentos automáticos e coordenados do trato gastrointestinal]”, explica.

Náuseas, vômitos persistentes, diarreia e constipação severa são reações relativamente comuns, mas tendem a ser ainda mais intensas quando há uso irregular ou produto de origem duvidosa.

AUTOMEDICAÇÃO

A ansiedade por resultados rápidos leva muitas pessoas a adotarem práticas ainda mais arriscadas. “Muita gente usa várias ‘canetas’ ao mesmo tempo ou associa com outros medicamentos”, confirma Mariana.

Ela ressalta que combinações podem ser uma estratégia médica válida em situações específicas, mas exigem conhecimento técnico de doses, mecanismos de ação e possíveis interações.

“Associar medicações pode ser válido, desde que dentro de uma estratégia elaborada por um profissional competente, que sabe o que está fazendo. Tem que ter motivo”, enfatiza.

Fazer isso por conta própria – especialmente com produtos sem procedência – é caminho direto para reações adversas imprevisíveis e para a sobrecarga de órgãos como rins e fígado. Para Mariana, o objetivo do tratamento deve ser sempre a “desmedicalização”.

“O papel do médico é evitar que o paciente precise ser cada vez mais medicalizado, ou seja, usar o mínimo de remédio possível”, defende a médica.

RISCO DE DISTÚRBIOS E DEPENDÊNCIA

Mariana Vilela aponta que o risco de desenvolver ou agravar distúrbios alimentares com o uso irregular é “muito maior, porque a causa do problema não é tratada”.

A pessoa pode passar a associar bem-estar e autoestima exclusivamente ao medicamento, criando dependência psicológica. Ao mesmo tempo, o corpo pode se adaptar à substância e exigir doses maiores para obter o mesmo efeito – um caminho ainda mais perigoso quando a composição do produto é desconhecida.

Ela lembra que a obesidade é uma doença crônica e que, em alguns casos, a medicação pode ser necessária por longos períodos. Ainda assim, a lógica deve ser enxergá-la como “ponte” para mudanças sustentáveis.

“A ideia é usar como ponte, adotando mudança de estilo de vida e medidas comportamentais, como estratégia para diminuir a medicalização do paciente”, afirma.

OS “MAGROS DOENTES”

Um dos alertas mais contundentes da médica é sobre a ilusão de emagrecer sem saúde. O uso da caneta – original ou falsa – sem enfrentar as causas da obesidade pode gerar um paciente “magro e metabolicamente doente”.

“O paciente que usa só a canetinha e não trata o metabolismo fica refém do medicamento. Ele vai ter um metabolismo doente e provavelmente vai reganhar peso”, aponta Mariana Vilela.

Ela também menciona o crescimento de casos de sarcopenia (perda de massa muscular) associada à perda de peso sem acompanhamento adequado, um efeito que compromete força, saúde metabólica e manutenção do resultado.

“O paciente que não trata mitocôndria [principal organela metabólica], que não trata massa muscular, vai colher os prejuízos disso lá na frente, a nível de risco cardiovascular, de doenças cardiometabólicas, neurodegenerativas”, esclarece.

O número na balança até diminui, mas a saúde não melhora – pelo contrário: pode se deteriorar de forma silenciosa. “Hoje a gente vive a pandemia de indivíduos magros e doentes”, resume.

TRATAMENTO SEGURO

Diante de tantos riscos, a dra. Mariana reforça que um tratamento clinicamente correto da obesidade e do sobrepeso vai muito além de uma injeção. “O caminho mais seguro é tratar o paciente dentro de uma clínica médica, com acompanhamento”, defende.

Ela descreve um modelo multiprofissional, que envolve médico, nutricionista, educador físico e, muitas vezes, psicólogo.

A proposta é tratar a causa do problema e manejar as variáveis que sustentam o ganho de peso: aspectos hormonais, metabólicos e inflamatórios; qualidade da nutrição (inclusive celular); estresse oxidativo; regulação intestinal; rotina de exercícios; alimentação saudável e hidratação adequada.

“A medicação é uma excelente coadjuvante, mas o protagonista principal ainda é o próprio paciente”, diz. O objetivo final não é apenas perder peso, e sim construir “saúde, porque saúde é algo que se constrói”.

Sobre os medicamentos originais aprovados pela Anvisa, como a tirzepatida, Mariana se mostra otimista, mas cautelosa. “Se usado com acompanhamento médico, com certeza é muito interessante. São medicamentos que vieram para ficar e mudar a história da medicina da obesidade”, afirma.

Ela contrasta a eficácia das novas incretinas – que podem levar a perdas de 20% a 25% do peso – com fármacos mais antigos, nos quais uma redução de 5% já era comemorada.

Por isso, a segurança está diretamente ligada à regulamentação, à prescrição correta e ao acompanhamento contínuo. “Existe uma fiscalização muito rigorosa”, afirma, referindo-se aos medicamentos regularizados e também a fórmulas manipuladas em farmácias com esterilidade controlada, quando indicadas e utilizadas em ambiente clínico.

>> Serviço

Dra. Mariana Vilela, CRM 12.830 – MS, é a médica responsável pela sua mudança de vida. Com foco em emagrecimento saudável e performance, coleciona cursos e intermináveis horas de aprendizado para poder trazer o que há de melhor para Mato Grosso do Sul.

Seu profundo conhecimento em implantes de reposição hormonal e terapias com injetáveis torna a dra. Mariana uma referência em emagrecimento saudável em Campo Grande. Sua abordagem é pautada na ciência, na ética e no acolhimento personalizado de cada paciente, entendendo que cada jornada é única.

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Astrologia Correio B+

A energia do Tarô da semana entre 10 e 16 de agosto. A verdadeira segurança nasce da confiança

Com o Quatro de Ouros como regente, aquilo que foi construído com esforço e disciplina encontra agora uma base segura para prosperar. Mas estabilidade não significa apego: tudo está em constante movimento. Desapegue!

09/08/2026 12h00

A energia do Tarô da semana entre 10 e 16 de agosto. A verdadeira segurança nasce da confiança

A energia do Tarô da semana entre 10 e 16 de agosto. A verdadeira segurança nasce da confiança Foto: Divulgação

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Quatro de Ouros: a verdadeira segurança nasce da confiança

O Quatro de Ouros assume a regência da semana e nos convida a refletir sobre um dos maiores desafios da experiência humana: encontrar segurança sem nos tornarmos prisioneiros dela.

Em um período marcado por importantes movimentações astrológicas e pelo Eclipse Solar Total em Leão, essa carta surge como um lembrete de que construir bases sólidas é essencial, mas permanecer agarrado a elas para sempre pode impedir o crescimento.

Pertencente ao naipe de Ouros, ligado ao elemento Terra, o Quatro de Ouros fala sobre tudo aquilo que podemos tocar e construir: dinheiro, trabalho, patrimônio, corpo, estabilidade, valores e recursos. Tradicionalmente, também é associado à energia do Sol em Capricórnio, combinação que reúne a força vital do Sol com a disciplina, a responsabilidade e a necessidade de estrutura características desse signo.

Não por acaso, o número quatro simboliza estabilidade, ordem, fundação e sustentação. Depois do impulso inicial do Ás, da dualidade do Dois e da expansão do Três, o Quatro representa o momento em que aquilo que foi criado encontra forma e consistência.

Entretanto, o Tarô sempre nos lembra que toda virtude, quando levada ao excesso, transforma-se em desequilíbrio. A estabilidade pode tornar-se estagnação. A prudência pode converter-se em medo. O cuidado pode dar lugar ao controle. É justamente nessa fronteira delicada que habita a sabedoria do Quatro de Ouros.

Sua imagem é uma das mais simbólicas dos Arcanos Menores. Nela, vemos uma figura sentada, segurando uma moeda firmemente contra o peito, enquanto outra repousa sobre sua cabeça e duas permanecem sob seus pés. À primeira vista, transmite segurança e prosperidade.

Porém, basta um olhar mais atento para perceber que existe algo de inquietante nessa cena. A moeda junto ao coração revela alguém que teme perder aquilo que conquistou. A moeda sobre a cabeça sugere pensamentos constantemente ocupados pela necessidade de controle.

Já as moedas sob os pés, embora simbolizem estabilidade, também impedem qualquer movimento. A figura permanece imóvel, como se caminhar significasse correr o risco de perder tudo o que possui.

Ao fundo, normalmente aparece uma cidade, lembrando que a vida continua pulsando além daquele pequeno espaço onde a personagem escolheu permanecer. Há oportunidades, pessoas, experiências e novos caminhos esperando para serem explorados. No entanto, o medo de perder o que já foi conquistado pode ser maior do que a curiosidade pelo desconhecido.

Essa talvez seja a grande reflexão proposta por esta carta: em que momento a busca por segurança deixa de nos proteger e passa a nos limitar?

Vivemos em uma cultura que valoriza o planejamento, o controle e a previsibilidade. Economizamos para o futuro, organizamos nossas agendas, protegemos nossos bens, buscamos estabilidade financeira e emocional. Tudo isso é saudável.

O próprio Quatro de Ouros reconhece a importância da responsabilidade e da construção de uma base sólida para a vida. O problema surge quando o medo da perda passa a conduzir todas as nossas decisões. Quando evitamos mudanças apenas porque elas envolvem algum grau de incerteza.

Quando preferimos permanecer em situações conhecidas, ainda que já não nos façam felizes, simplesmente porque representam uma falsa sensação de segurança.

O filósofo Heráclito dizia que "nada é permanente, exceto a mudança". Essa afirmação, feita há mais de dois mil anos, continua extraordinariamente atual. A vida é movimento.

Tudo muda o tempo inteiro: as pessoas, os relacionamentos, as oportunidades, os sonhos e até mesmo quem somos. Resistir a esse fluxo natural costuma gerar muito mais sofrimento do que acolhê-lo com maturidade.

E talvez não exista semana mais apropriada para refletir sobre isso do que esta.

Na segunda-feira (10), Vênus forma um trígono com Plutão, aprofundando vínculos e fortalecendo conexões verdadeiras. Relações construídas sobre confiança tendem a se tornar ainda mais sólidas, enquanto laços sustentados apenas pelo controle ou pela aparência podem revelar fragilidades. É um convite para substituir o medo pela autenticidade.

No dia seguinte, Mercúrio faz oposição a Plutão, intensificando conversas, negociações e revelações. As palavras ganham profundidade e poder de transformação, mas também exigem cuidado. O desejo de convencer o outro, de manter antigas posições ou de controlar o rumo das situações pode gerar conflitos desnecessários.

O Quatro de Ouros nos lembra que nem toda discussão precisa ser vencida. Às vezes, abrir espaço para ouvir é muito mais transformador do que insistir em ter razão.

Também na terça-feira (11), Marte ingressa em Câncer, tornando nossas atitudes mais conectadas às emoções, aos afetos e ao desejo de proteção. A coragem deixa de se manifestar apenas pela ação objetiva e passa a exigir inteligência emocional. Será importante agir com sensibilidade sem permitir que o medo dite nossas escolhas.

A quarta-feira (12) concentra aspectos extremamente favoráveis à criatividade e à inovação. Mercúrio estabelece um sextil com Urano e um trígono com Netuno, ampliando a capacidade de enxergar novas possibilidades, conectar ideias e confiar na própria intuição.

Vênus também forma um trígono com Urano, favorecendo encontros inesperados, oportunidades profissionais, novas parcerias e mudanças positivas nos relacionamentos.

Mas o grande acontecimento da semana é, sem dúvida, o Eclipse Solar Total em Leão.

Todo eclipse solar ocorre durante uma Lua Nova e marca o início de um novo ciclo. Em Leão, signo associado à criatividade, à identidade, ao brilho pessoal e à coragem de ocupar o próprio lugar no mundo, esse eclipse representa um poderoso chamado para vivermos de maneira mais autêntica.

Ele ilumina aquilo que precisa nascer e, ao mesmo tempo, evidencia tudo o que já não faz sentido carregar.

Um eclipse solar total em Leão coloca em evidência temas como autoestima, expressão pessoal, reconhecimento do próprio valor e coragem para assumir quem somos e nos posicionarmos no mundo com mais verdade.

É um convite para deixar de buscar validação externa e permitir que a nossa própria luz seja a referência para os caminhos que escolhemos seguir.

É justamente aqui que o Quatro de Ouros dialoga de maneira magistral com o céu da semana.

Enquanto o eclipse pergunta quem estamos nos tornando, o Quatro de Ouros pergunta o que ainda insistimos em segurar.

Talvez sejam antigas crenças sobre nós mesmos. Talvez um trabalho que deixou de nos realizar. Um relacionamento mantido apenas pelo medo da solidão.

Um projeto que já cumpriu sua função. Ou simplesmente a necessidade de controlar cada detalhe da vida para evitar qualquer possibilidade de sofrimento.

No entanto, nenhuma transformação acontece quando permanecemos agarrados ao passado.

Como escreveu Lao Tsé: "Quando deixo de ser o que sou, torno-me aquilo que posso ser." Essa frase sintetiza perfeitamente a mensagem desta semana. Crescer exige desapego. Evoluir exige confiança. Nenhum novo ciclo encontra espaço onde tudo permanece rigidamente ocupado pelo antigo.

Nos relacionamentos, o Quatro de Ouros costuma representar vínculos sólidos e comprometidos, nos quais existe desejo de construir uma história em comum. Contudo, também alerta para o risco da possessividade, do excesso de proteção e da dificuldade de expressar vulnerabilidade.

O amor floresce quando há confiança. Quando o medo da perda se torna maior do que a liberdade de amar, o relacionamento pode transformar-se em uma fortaleza segura, porém sem ar para respirar.

Antoine de Saint-Exupéry escreveu, em O Pequeno Príncipe, que "amar não é olhar um para o outro; é olhar juntos na mesma direção". Talvez seja exatamente essa a diferença entre proteger um relacionamento e tentar controlá-lo. O verdadeiro amor não aprisiona; ele fortalece.

Na vida profissional e financeira, o Quatro de Ouros favorece planejamento, disciplina e responsabilidade. É uma excelente semana para organizar contas, rever investimentos, fortalecer reservas financeiras e agir com prudência. Entretanto, a carta também alerta para o perigo do excesso de cautela.

Empresas que nunca inovam acabam ficando para trás. Profissionais que recusam todos os desafios deixam de crescer. Pessoas que vivem exclusivamente para acumular recursos podem descobrir, tarde demais, que deixaram escapar experiências valiosas por medo de arriscar.

Espiritualmente, talvez esta seja uma das cartas mais profundas do naipe de Ouros. Ela nos lembra que a verdadeira segurança nunca poderá ser encontrada apenas nas circunstâncias externas. Nenhum patrimônio, cargo ou relacionamento é capaz de eliminar completamente as incertezas da existência.

A paz nasce quando compreendemos que somos maiores do que aquilo que possuímos. O desapego não significa abrir mão de tudo, mas desenvolver a confiança de que continuaremos inteiros mesmo quando a vida nos convidar a mudar.

Existe uma antiga frase atribuída a Buda que resume esse ensinamento: "O apego é a origem do sofrimento." Independentemente da autoria exata, sua mensagem permanece atual.

Quanto mais tentamos controlar aquilo que, por natureza, é transitório, maior tende a ser nossa ansiedade. Em contrapartida, quando aprendemos a confiar no fluxo da vida, descobrimos uma forma muito mais profunda de estabilidade: aquela que nasce de dentro.

O Quatro de Ouros não nos convida a abandonar a prudência nem a desprezar tudo o que construímos. Pelo contrário. Ele nos ensina a valorizar nossas conquistas, honrar nossos recursos e reconhecer a importância de criar bases sólidas para o futuro. Mas também nos lembra que mãos fechadas não conseguem receber nada novo.

Talvez essa seja a maior mensagem desta semana. O Eclipse Solar em Leão abre um portal para um novo ciclo de autenticidade, criatividade e expansão.

O Quatro de Ouros pergunta se estamos realmente dispostos a criar espaço para esse novo capítulo ou se continuaremos protegendo, com todas as forças, uma versão de nós mesmos que já não corresponde à nossa verdade.

Que possamos preservar aquilo que realmente tem valor, sem transformar segurança em prisão. Que saibamos construir sem endurecer, proteger sem controlar e planejar sem impedir que a vida nos surpreenda.

Afinal, a verdadeira riqueza não está apenas naquilo que conseguimos guardar, mas também na coragem de confiar que sempre seremos capazes de reconstruir quando um novo caminho se abrir diante de nós.

Às vezes, tudo o que precisamos é parar de lutar contra o que nos prende e simplesmente deixar ir. Não há motivo para temer o caminho: confie na sua força, reúna a determinação necessária e siga em frente com disciplina e vontade.

Uma ótima semana e muita luz,

Ana Cristina Paixão

Cinema Correio B+ - Especial Dia dos pais

Ted Lasso mostra que ser pai também é saber voltar

Entre o trauma herdado e o amor por Henry, a paternidade sempre foi o coração da série

09/08/2026 10h00

Ted Lasso mostra que ser pai também é saber voltar

Ted Lasso mostra que ser pai também é saber voltar Foto: Divulgação

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À primeira vista, Ted Lasso é uma série sobre futebol. Depois de alguns episódios, entendemos que o esporte é apenas o campo escolhido para falar sobre saúde mental, amizade, liderança, masculinidade e tudo o que acontece quando pessoas feridas tentam ajudar umas às outras.

Mas, olhando para a trajetória de Ted desde o início, talvez exista uma história ainda mais central: a de um homem tentando aprender a ser pai sem repetir a dor que recebeu do próprio pai.

Até aqui, mais do que futebol, Ted Lasso apresentou diferentes maneiras de ser pai e de carregar aquilo que recebemos deles. Jamie Tartt cresceu sob a violência e a humilhação de um pai abusivo. Rebecca precisou elaborar a relação com um pai mulherengo e emocionalmente ausente.

Nate passou boa parte da vida tentando conquistar o reconhecimento de um pai exigente, silencioso e incapaz de demonstrar orgulho pelo filho, uma falta que alimentou sua insegurança e o levou pelo arco mais doloroso da série. Sam Obisanya encontrou em Ola um pai carinhoso, presente e capaz de orientá-lo sem controlar suas escolhas.

Higgins, muitas vezes relegado ao papel cômico, é também um dos pais mais afetuosos e estáveis da história. Roy Kent tornou-se uma espécie de tio-pai para Phoebe, criada pela irmã solteira, oferecendo à sobrinha a presença, a proteção e a escuta que ele próprio nem sempre sabe demonstrar aos adultos.

E, no centro de tudo, está Ted: filho de um homem que morreu cedo demais e pai de um menino de quem teme estar igualmente ausente.

Ted é apresentado como alguém incansavelmente disposto a acolher. Ele escuta, observa, perdoa e encontra uma palavra de incentivo até para quem o despreza. Sua positividade parecia, no início, quase uma característica natural, como se ele simplesmente tivesse nascido mais generoso, paciente e otimista do que o restante de nós. Mas, quando conhecemos sua história com o próprio pai, entendemos que aquela luz também escondia uma ferida.

A série revelaria depois que aquela luz também escondia uma ferida. Quando Ted tinha 16 anos, seu pai morreu por suicídio. O segredo aparece na segunda temporada, durante o processo terapêutico com a dra. Sharon, e muda nossa percepção sobre tudo o que havíamos visto antes.

Ted Lasso mostra que ser pai também é saber voltarTed Lasso mostra que ser pai também é saber voltar - Divulgação

Ted não tenta salvar as pessoas apenas porque é bondoso. Ele aprendeu muito cedo o que acontece quando alguém sofre em silêncio e ninguém consegue alcançá-lo a tempo.

Sua dedicação aos outros nasce, em parte, de uma promessa íntima: nunca permitir que alguém próximo se sinta tão sozinho quanto seu pai provavelmente se sentiu.

Há beleza nisso, mas também uma armadilha. Ted se torna tão competente em cuidar dos problemas alheios que demora a reconhecer os próprios.

Ajuda atletas, colegas e até adversários, enquanto atravessa ataques de pânico, o fim do casamento e a distância do filho com um sorriso que nem sempre corresponde ao que sente.

Por isso, não diria que Ted é um pai exemplar porque nunca falha. Durante boa parte da série, ele vive em outro continente e sabe o quanto sua ausência custa a Henry.

Sua grande qualidade como pai está justamente em não fingir que essa distância não importa. Ele tenta escutar o filho, percebe sua tristeza e, finalmente, aceita que o sucesso profissional já não compensa tudo o que está perdendo.

No fim da terceira temporada, Ted está no auge. Conquistou o respeito da torcida, transformou o AFC Richmond e construiu na Inglaterra uma família afetiva que o ama profundamente. Ainda assim, escolhe ir embora. Não porque tenha fracassado, mas porque compreende que nenhuma vitória devolveria os anos que deixasse de viver ao lado de Henry.

A última imagem daquela fase não mostra Ted levantando uma taça. Mostra-o à beira do campo, treinando o time do filho no Kansas. A escolha de voltar encerrou a temporada que parecia ser a última e reafirmou que, para ele, o maior sucesso nunca esteve realmente no futebol.

A quarta temporada, porém, apresenta um desafio ainda mais interessante. Ted está novamente perto de Henry, trabalhando longe do futebol e tentando ajudá-lo a se tornar a melhor versão de si mesmo.

Quando recebe o convite para voltar ao Richmond e treinar a nova equipe feminina, sua primeira reação é hesitar. Ele teme que aceitar signifique repetir a ausência que tentou corrigir.

É sua mãe, Dottie, quem oferece uma perspectiva diferente: também é importante para um menino ver o pai fazer algo que ama. A frase desloca toda a questão. Ser um bom pai não deveria exigir que Ted desaparecesse como indivíduo, abandonasse sua vocação ou transformasse a presença em sacrifício permanente.

O novo caminho será construído com Henry, e não longe dele. Ao final do primeiro episódio, Ted considera a mudança para Londres com o filho e Michelle, integrando família e trabalho de uma maneira que antes parecia impossível.

Ted Lasso mostra que ser pai também é saber voltarTed Lasso mostra que ser pai também é saber voltar - Divulgação

Talvez seja esse o passo mais difícil para alguém que cresceu marcado pela perda do pai. Ted passou a vida acreditando que amar significava permanecer disponível para salvar os outros.

Primeiro, precisou aprender que não conseguiria salvar todo mundo. Depois, que deveria estar presente para o filho. Agora, começa a descorir que estar presente não significa deixar de viver.

A paternidade de Ted não é construída pela autoridade. Ele não precisa ser o homem que possui todas as respostas, esconde a tristeza ou vence qualquer dificuldade sozinho. Ao contrário, sua maior força aparece quando admite medo, procura ajuda, pede desculpas e muda de direção.

Ele também oferece a Henry algo que o próprio pai não conseguiu lhe deixar: a possibilidade de falar sobre a dor antes que ela se transforme em silêncio.

Neste Dia dos Pais, talvez por isso Ted Lasso seja uma figura tão comovente. Não porque represente um modelo perfeito, mas porque mostra que a paternidade também pode ser uma reparação.

Ted não pode mudar o que aconteceu com seu pai, nem apagar o impacto daquela perda. Pode, porém, interromper a repetição. Pode voltar. Pode ficar. E, desta vez, pode levar o filho com ele.

Feliz Dia dos Pais!

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