“Que era tombado? Não, não sabia não”. A mesma negativa é dada como resposta quando a pergunta é: você sabe o que é a Esplanada Ferroviária? Foliões de Campo Grande como a autônoma Érica Cáceres, 20 anos, só vão até a região da antiga ferrovia no Carnaval. Se não fossem as marchinhas e os blocos de rua, os 135 imóveis da área e os valores que estão por trás do tombamento que mais conta a história da Capital ficariam só no passado.
Treze anos atrás, foi este cenário nostálgico que saltou aos olhos de Silvana Valu e Jefferson Contar, os fundadores do Cordão Valu. Os dois são, além de apaixonados pelo Carnaval, formados em História. “Fomos com os dois olhares, de foliões e historiadores, e falamos: ‘Nossa, isso aqui parece Olinda, remete ao Carnaval do passado. As casinhas, os paralelepípedos... É aqui que a gente tem que sair’”, conta Valu.
Para ocorrer a 13ª edição do Cordão Valu e a 6ª do Capivara Blasé, poder público e blocos tiveram de passar por reuniões e pelo crivo do Ministério Público Estadual (MPE), que propôs um termo de ajustamento de conduta (TAC), assinado pela prefeitura, com regras como horário de término e uma campanha para conscientizar os foliões da importância do espaço. “Patrimônio público não é um local onde se possa deixar vazio. Não é um quadro para ficar sendo admirado de longe. Ele tem que ser ocupado por pessoas, tem que ser vivo. A Esplanada faz parte da história da cidade, ela é minha, é de todo mundo; por isso, que temos que cuidar”, enfatiza Silvana.
Na quinta-feira que antecedeu o começo da folia, os organizadores dos blocos junto da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Sectur) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) realizaram uma coletiva de imprensa para repassar os pontos firmados no TAC. Historiador do Iphan, José Augusto Carvalho dos Santos explicou que o órgão não é inimigo dos foliões, pelo contrário. “O senso comum pensa que, quando um imóvel é tombado, o Iphan não deixa que nada aconteça nele, o que não é verdade. Com os valores preservados, o uso do espaço é incentivado, porque isso dá vida e é o que torna um local próximo do resgate daqueles sentimentos que fizeram com que a população valorizasse um espaço ligado ao seu passado”.
CARNAVAL VEIO DE TREM
A própria cidade de Campo Grande praticamente nasceu e se desenvolveu a partir da vila ferroviária. Até mesmo o Carnaval chegou pelos trilhos do trem. Quem era da Noroeste tinha no ritmo das locomotivas a vontade de sambar e, em 1975, partindo de um time de futebol amador de ferroviários, nasceu a escola de samba Igrejinha, ali mesmo na 14 de Julho, aos fundos da Rotunda.
Hoje a Esplanada se tornou a cara do Carnaval de Campo Grande e, pelo menos da parte dos foliões, ninguém pensa em sambar longe dali. “Se colocar em outro lugar, não vai ser a mesma coisa, porque a maioria das pessoas nem conhece aqui a região, a parte histórica, então é algo diferente em relação à Praça do Papa”, exemplifica o advogado Walter Ravasco, 38 anos.
Nos últimos seis anos, os mesmos paralelepípedos que sentiam o caminhar dos passageiros da ferrovia vivem o Carnaval com o bloco Capivara Blasé. Fundador do bloco, Vitor Samudio tem a certeza de que o público que passou a frequentar a Esplanada não conhece o espaço. “A gente acredita que muitas pessoas vão por conta dos blocos e acabam conhecendo. Nós vemos isso como algo positivo e estamos buscando trabalhar essa questão de, além de trazer a festa para o espaço, fazer com que as pessoas saibam o que é e o que significa ali”.
Além da fiscalização, o Iphan também funciona como órgão educador e desde 2017 criou um programa que leva escolas e instituições para conhecer o patrimônio público. “Se a gente não tiver essa ligação com o nosso passado, não vamos saber de onde viemos, quem somos, como nos estruturamos e nossos próprios direitos para continuar lutando e construindo um mundo melhor. A gente não é feito só do que vem pela frente, mas de tudo aquilo que nos estruturou até chegar aonde estamos, a vida que levamos e o futuro que queremos construir. Então, esse diálogo permanente de passado, presente e futuro é substancial para a própria cidadania”, resume o historiador do Iphan.
O QUE É A ESPLANADA FERROVIÁRIA
Tombada como patrimônio histórico em dezembro de 2009, a Esplanada é um conjunto que abrange diversas tipos de imóveis que retratam o tempo de exercício da Noroeste do Brasil, que chegou a Campo Grande em maio de 1914. A área tombada corresponde a um exemplar que representa uma vila ferroviária do passado, com imóveis residenciais, administrativos e de função direta na ferrovia, como galpão, estação e a Rotunda – local de conserto e manutenção dos trens. O conjunto caracteriza, por meio da arquitetura, o modelo de trabalho e as típicas relações pessoais da época da ferrovia, desde estruturas mais simples, de madeira, que pertenciam aos operários, até os grandes casarões da Calógeras, que pertenciam à elite da ferrovia.
Divã psicanalítico de Freud, no Museu Freud, em Londres - Foto: Reprodução

