Enquanto duas guerras – Rússia x Ucrânia e Hamas x Israel – deixam todo o planeta em alerta, iniciativas como o projeto Agenda 2030: ODS nos Muros buscam um alento ao terror ao plantar uma semente de esperança em escolas públicas de Campo Grande, sob a inspiração de metas globais criadas pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Por trás da proposta está a vontade de “fazer do ambiente escolar uma verdadeira galeria a céu aberto para abordar de forma lúdica, com alunos e professores, questões emergenciais do nosso planeta”, como meio ambiente, mudança climática, erradicação da pobreza, direitos humanos e consumo de água.
“Já passamos por quatro escolas, e a gente traz essa linguagem artística para a galera do Ensino Médio, que tem essa aproximação com as cores. Muitos querem pintar com as artistas, inclusive alguns pintam e ficam mais interessados”, conta Julia Basso, da Fuá Produções, idealizadora do projeto.
“Teve uma aluna diagnosticada com TOD [Transtorno de Oposição Desafiador] que interagiu e pintou com uma das artistas. Algo que marcou essa menina, e a gente sente que algo muda no ambiente escolar. Os alunos começam a entender o que está sendo pintado ali, porque cada muro reflete um objetivo, ou melhor, cada muro concretiza um dos objetivos”, relata.
Uma construção coletiva que tem tocado a sensibilidade das artistas envolvidas neste processo criativo, como Maria Carolina Ferreira, mais conhecida nas artes visuais por Da Mataa. Residente em Dourados, a jovem de descendência indígena busca atrelar sua experiência artística com a sua formação em Gestão Ambiental.
“Além da própria pintura, que é algo incrível, você deixa um pouco do seu trabalho impresso na rotina escolar, o projeto promove bate-papo das artistas com alunos e professores. Falar da minha vivência, do acordo internacional das ODS, é algo muito bacana. As ODS postas ali são quase uma utopia, falei bastante sobre isso durante a minha roda de conversa. E, claro, do mural que pintei, que retrata a segunda ODS, agricultura sustentável e fome zero, tema que dialoga e muito com minha formação”.
IMPORTÂNCIA HUMANA
No total, 17 muros serão pintados em escolas localizadas desde o centro até a periferia da cidade, contemplando bairros como Parque do Lageado, Moreninhas, União, Jardim Aeroporto, Coophatrabalho, Santo Amaro, Jardim Tijuca, São Francisco, Coophavila, Mata do Jacinto, Itanhangá Park, Estrela do Sul e Nova Lima. Além de outros três muros de espaços públicos da Orla Ferroviária e da Rua Barão do Rio Branco.O andamento dos trabalhos tem gerado expectativa entre as artistas selecionadas, como é o caso de Maria Axiliadora, pedagoga que descende da etnia terena, e da arquiteta e muralista Natacha IK.
“O projeto tem esse viés igualitário de também buscar artistas indígenas, quilombolas e trans. O muralismo é uma arte em sua maioria masculina, e ter esse foco para o feminino dentro do ambiente escolar é algo de grande relevância. Minha formação acadêmica me traz uma didática com os alunos, quero sensibilizá-los”, diz Auxiliadora.
“Espero que os alunos indígenas se sintam representados nesse muro, que terá como pano de fundo a ODS vida terrestre”, projeta a artista terena. “Faço mestrado em Eficiência Energética e Desenvolvimento Sustentável e estudo sobre as ODS e os impactos. Obviamente, então, é tanta coisa que tenho a dizer que não sei como começar, e acho que poder expressar isso com o meu trabalho artístico é um privilégio”, pontua Natacha.
“A importância é humana, porém, o projeto dá voz ao feminino. É tipo, ‘vem cá, mulher, o que você tem a dizer, assim como a natureza, que gera, cria e amamenta?’. Digo de todas as mulheres, porque as trans também sentem isso, e esse sentir é mais humano. Achei fantástico o projeto abrir isso”, avalia a artista, que terá a missão de retratar a ODS vida na água.
SENTINDO NA PELE
Por atuarem a céu aberto, as participantes do Agenda 2030 têm, literalmente, sentido na pele a onda de calor que vem atingindo em cheio as cidades de Mato Grosso do Sul nas últimas semanas. A questão climática dialoga diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, que norteiam o projeto.
“O trabalho começou bem na época da onda de calor. Tem sido desafiador, pois em alguns muros a gente tinha sombra e em outros não. Então, tivemos de adaptar os horários de trabalho, porque as artistas corriam risco de insolação. A Letícia Maidana, por exemplo, optou por chegar na escola às 5h30min. Já a Maria Chiang está indo à noite, porque o colégio [do seu mural] tem horário noturno e iluminação. Além, claro, de cuidados com hidratação para toda a equipe”, afirma Julia Basso.
O projeto, bancado pelo Fundo de Investimentos Culturais (FIC), do governo do Estado, ainda prevê a criação de um mapa digital com a localização de todos os murais para integrar o circuito às opções de passeios urbanos na Capital. Mais informações nas redes sociais (@fuaproduções) ou no site fuaproducoes.com.br.


Hellen, Marco Antonio e João Arthur Comparin
Dra. Iara Resende
Voo United 93 e a experiência do tempo real - Divulgação


