A manhã de ontem foi marcada por música, emoção e debate sobre inclusão durante o lançamento do livro “Só o Amor Não Basta – Retrato da Educação Musical Inclusiva em Campo Grande”, na Escola Especial Colibri, em Campo Grande.
Resultado de uma pesquisa conduzida pela professora, artista e pesquisadora Etna Marzolla Gutierres, a obra reúne dados inéditos sobre a realidade da educação musical inclusiva na Capital e propõe reflexões sobre acessibilidade, formação docente e políticas públicas culturais.
O evento contou com apresentação do coral Vozes Especiais, formado por alunos da Escola Especial Colibri, além da presença de representantes da universidade, gestores públicos, pesquisadores, familiares e ativistas da área da inclusão.
Realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (Pnab), o livro parte de uma provocação vivida pela própria autora ao longo da carreira como educadora musical. Segundo Etna, muitos professores relatavam dificuldades para incluir alunos atípicos nas aulas de música sem terem recebido qualquer orientação adequada.
“A proposta do livro veio de uma provocação que eu recebi ao longo dos anos. Eu sempre conversei com muitos professores e eles falavam das dores que tinham, de ter que adaptar tudo no ferro e fogo, sem orientação adequada”, afirmou.
A pesquisadora explicou que o projeto nasceu da necessidade de transformar percepções em dados concretos.
“Quando você pensa em políticas públicas, você precisa trazer números para conseguir fazer propostas. Só impressões não resolvem nada, a gente precisa de números para mostrar isso realmente”, destacou.
MÚSICA COMO UM DIREITO
Um dos pontos centrais defendidos pela autora é a necessidade de romper com a visão limitada de que a música para pessoas com deficiência deve existir apenas em contextos terapêuticos.
“Quando falamos de pessoas com deficiência, normalmente pensamos em saúde, tratamento ou superação, mas pouco se fala sobre o direito à arte e à cultura. A música também precisa ser compreendida como espaço de pertencimento, aprendizado e participação”, disse.
Etna enfatizou que os benefícios da música para pessoas com deficiência são os mesmos proporcionados a qualquer pessoa. “Se você quiser hoje se matricular numa escola de música, você pode. Eles também. A importância da música para eles é a mesma que ela tem para você”, explicou.
Ela reforçou que o foco da pesquisa não é a musicoterapia, mas o acesso à educação musical como direito de cidadania. “O meu objeto de trabalho é a educação musical. Eu trabalho em prol desse direito da pessoa chegar na escola e dizer: ‘Eu quero me matricular’. E o professor responder: ‘Seja bem-vindo’”, defendeu a autora.
A pesquisadora também chamou atenção para o discurso recorrente de que a música “ajuda no desenvolvimento” das pessoas com deficiência, algo que, segundo ela, precisa ser relativizado.
“A música ajuda na concentração? Ajuda. Ajuda no desenvolvimento? Ajuda. Mas ajuda todo mundo, não apenas pessoas com deficiência”, ressaltou.
DADOS
A pesquisa ouviu 95 professores de música de diferentes contextos educacionais e culturais da Capital. Entre os resultados levantados, 88% afirmaram já ter trabalhado com alunos atípicos, enquanto cerca de 73% disseram não ter formação específica em educação inclusiva ou educação musical inclusiva.
Os números, segundo Etna, revelam um cenário em que a inclusão já ocorre nas salas de aula, mas sem suporte suficiente.
“As pessoas estão no escuro. A maioria já inclui, a maioria quer aprender e muitos nunca tiveram sequer um curso sobre isso. Então fica o questionamento: o que nós, enquanto sociedade, universidade e poder público, estamos fazendo por esses professores e pelos alunos?”, questionou.
A pesquisa também identificou barreiras arquitetônicas e institucionais que ainda impedem o acesso pleno à cultura. Entre os relatos coletados, há casos de estudantes cadeirantes que precisaram abandonar aulas por falta de acessibilidade física nos espaços.
“Tivemos o relato de um professor que precisou interromper o atendimento de um aluno porque o prédio não tinha elevador. Existe uma distância muito grande entre o discurso da inclusão e a realidade”, apontou.
Ao mesmo tempo, o livro apresenta experiências bem-sucedidas, como ampliação de partituras para alunos com deficiência visual, adaptação de oficinas culturais e criação de metodologias personalizadas.
“A acessibilidade também está nas atitudes. Estar inteiramente com o outro, compreender suas necessidades e construir caminhos juntos faz parte do processo inclusivo”, afirmou a autora.
EXPERIÊNCIA PESSOAL
Ao longo do evento, Etna também compartilhou sua própria história com a música e a deficiência visual. Segundo a autora, que tem visão monocular, a relação com a inclusão começou ainda na infância, quando uma professora precisou adaptar as aulas para que ela pudesse aprender piano.
“Eu acredito que minha trajetória com música e deficiência começou quando eu nasci, por ter deficiência visual. Quando comecei a aprender piano, uma professora precisou pensar em como trabalhar comigo. Ela precisou adaptar as coisas sozinha”, relembrou.
Para a pesquisadora, muitas das adaptações feitas hoje pelos professores ainda dependem exclusivamente da iniciativa individual.
“Ela fez isso sozinha, como muitos professores fazem até hoje, e isso deu frutos”, afirmou.
CORAL
A abertura oficial do evento ficou por conta do grupo Vozes Especiais, coral formado por alunos da Escola Especial Colibri. O grupo apresentou músicas como “Ciranda do Nordeste”, “Chalana” e “Sim, Sim Cantar”, emocionando o público presente.
Sob regência de Sandra Helena Bete, o coral é composto por alunos com deficiência intelectual e reúne participantes de diferentes idades.
A diretora da escola, Rosângela Beatriz Espíndola Carvalho, destacou a longa parceria entre Etna, Sandra e a instituição.
“Quero agradecer à Etna, à Sandra e toda a equipe por todos esses anos trabalhando com nossos alunos. Essa apresentação linda acontece graças a esse compromisso com eles”, disse.
A professora e música Sandra Helena Bete, que atua há mais de duas décadas com educação musical inclusiva, afirmou que os dados da pesquisa reforçam a urgência de mais formação para os profissionais da área.
“Todo mundo está tentando incluir. Não há falta de vontade, mas falta de oportunidade de estudar e conhecer mais. Quem sabe agora, com esses dados, a gestão pública possa promover mais cursos nessa direção”, declarou.
Ela também definiu a música como uma poderosa ferramenta de inclusão. “Música é cidadania, música é inclusão. Talvez seja a melhor ferramenta que existe para incluir”, afirmou.
RECONHECIMENTO
Durante a cerimônia, representantes da universidade e de movimentos sociais ressaltaram a importância do livro para a produção científica sobre inclusão.
A coordenadora do curso de Música da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Mariana Stochero, destacou o protagonismo da pesquisadora.
“A Etna é uma das pesquisadoras mais engajadas que eu conheço. Ela não espera alguém mandar fazer pesquisa, ela faz, ela dá voz às pessoas que precisam de evidência na sociedade”, disse.
Segundo Mariana, a obra alia dados estatísticos e relatos humanos de forma acessível.
“É uma obra gostosa de ler porque traz estatísticas, mas nasce da vivência prática dela trabalhando diariamente com música”, pontuou.
Já a ativista Mirella Ballatore, presidente da Associação de Mulheres com Deficiência de Mato Grosso do Sul, emocionou-se ao falar sobre pertencimento e acessibilidade.
“Desde que me entendo por gente, eu luto por acessibilidade e pertencimento. A gente recebe muitos ‘nãos’, mas também recebe momentos como esse, que mostram que estamos plantando sementes”, declarou.
O professor Heitor Romero, responsável pelo prefácio da obra, destacou que a pesquisa ultrapassa os limites acadêmicos.
“A ciência explica parte da realidade, a outra parte está no coração das pessoas. Só o amor não basta, mas o amor é fundamental”, afirmou.
LIVRO ACESSÍVEL
Além da versão impressa, a obra contará com recursos de acessibilidade, incluindo audiodescrição, legendas e tradução em Libras em vídeo disponibilizado on-line no YouTube.
Ao fim do evento, Etna agradeceu à equipe envolvida no projeto e reforçou que o objetivo do livro é ampliar o debate público sobre inclusão cultural. “O objetivo sempre foi transformar percepções em dados e dados em discussão pública”, afirmou.
O e-book gratuito de “Só o Amor Não Basta – Retrato da Educação Musical Inclusiva em Campo Grande” pode ser acessado em www.even3.com.br/lancamento-e-download-do-e-book-so-o-amor-nao-basta-744393.
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Dra. Denise Torres de Deus
Eva Siqueira Marchi

