Com estímulos imediatos e recompensas instantâneas fornecidas pelo uso de telas, os hobbies na infância e na adolescência voltam ao centro do debate sobre desenvolvimento saudável.
Mais que um simples passatempo, atividades como esportes, música, leitura, artes e até culinária infantil desempenham papel fundamental na formação cognitiva, emocional e social de crianças e jovens.
Especialistas defendem que o envolvimento precoce com hobbies funciona como base para o bem-estar mental, atuando como válvula de escape do estresse e como terreno fértil para o desenvolvimento de habilidades que acompanham o indivíduo ao longo da vida.
Segundo a psicopedagoga Olívia Carromeu, os impactos são diretos e consistentes. “Os hobbies têm impacto direto nesse desenvolvimento cognitivo das crianças e dos adolescentes, porque eles estimulam habilidades como atenção, memória, raciocínio lógico e criatividade. E além disso, eles favorecem disciplina, persistência e autorregulação emocional. Então, quando a atividade é prazerosa, o aprendizado acontece de uma forma mais natural, fortalecendo essas competências que também se refletem no desempenho escolar e nas relações sociais”, explica.
BENEFÍCIOS
Os benefícios dos hobbies podem ser observados em diferentes dimensões do desenvolvimento infantil.
Hobbies em grupo favorecem habilidades sociais como cooperação, comunicação e empatia - Foto: FreepikNo campo físico, atividades como correr, nadar, dançar, andar de patins ou praticar artes marciais contribuem para a saúde motora e mental. Além de fortalecerem o corpo, ajudam na liberação de energia acumulada e na regulação do humor.
No aspecto criativo e artístico, práticas como desenho, pintura, costura, modelagem e produção de artesanato promovem a livre expressão. A criança aprende a transformar emoções em criação, desenvolvendo imaginação e senso estético.
No desenvolvimento cognitivo e educativo, leitura, jogos de tabuleiro, xadrez, tocar instrumentos musicais – como o piano – ou até colecionar itens, como selos, ampliam repertório cultural e estimulam o raciocínio estratégico.
Há ainda a culinária infantil, que envolve aprendizado prático e sensorial. Ao participar do preparo de receitas, a criança trabalha coordenação motora, noção de medidas, organização e autonomia.
Para Olivia, o impacto dessas atividades chega diretamente à vida escolar. “Atividades como música, leitura e esportes estimulam funções cognitivas essenciais para o aprendizado. A música, por exemplo, favorece o ritmo, porque a música tem ritmo, tem disciplina e memória auditiva. A leitura amplia o vocabulário, interpretação e pensamento crítico, e os esportes contribuem para o foco, autocontrole, trabalho em equipe.
Além desse aspecto cognitivo, essas práticas também fortalecem a autoestima, regulação emocional, todos esses fatores que impactam positivamente no desempenho escolar”, pontua a psicopedagoga.
FOCO
Em tempos de dispersão constante, a concentração se tornou um dos maiores desafios na infância e adolescência. Nesse cenário, os hobbies funcionam como treino natural de foco.
“Os hobbies contribuem significativamente para esse desenvolvimento da atenção, concentração e da disciplina. Na prática, quando a criança ou adolescente se dedica a uma atividade de interesse, como hobby, como aprender um instrumento, praticar ou montar estratégias em jogos, ele precisa manter o foco por períodos prolongados, precisa seguir regras, respeitar etapas e lidar com os erros. Esse processo estimula a atenção sustentada, o controle da impulsividade e a persistência diante desses desafios”, afirma a psicopedagoga.
Ao aprender que o resultado depende de treino e continuidade, a criança internaliza valores como esforço e superação – competências essenciais também na vida adulta.
REGULADORES EMOCIONAIS
A saúde emocional é outro ponto fortemente impactado. De acordo com Olivia, os hobbies funcionam como importantes reguladores emocionais.
“Eles oferecem prazer, sensação de competência e espaço de expressão, o que reduz níveis de estresse e ansiedade nos dias de hoje. Eles contribuem para a construção dessa autoestima e da identidade, principalmente desses adolescentes. Então, quando a criança ou jovem se sente capaz e é reconhecida em uma atividade que gosta, isso impacta diretamente nesse bem-estar social”, explica.
Essa função reguladora também se reflete na capacidade de lidar com frustrações. “Ter um hobby pode contribuir significativamente para o enfrentamento da ansiedade e da frustração. Essas atividades prazerosas ajudam a direcionar a energia para algo produtivo. Muitos desses hobbies envolvem desafios progressivos, o que ensina lidar com erros, esperar resultados e persistir diante das dificuldades. Esse processo fortalece a tolerância à frustração, autocontrole e a confiança, habilidades fundamentais para o equilíbrio emocional na infância e na adolescência”, destaca Olivia.
Na construção da autoestima, o reconhecimento do próprio progresso é determinante. “Os hobbies ajudam nessa construção da autoestima porque proporcionam experiências de competência e realização. Quando a criança ou adolescente percebe sua evolução em uma atividade que gosta, fortalece essa sensação de capacidade, de autoconfiança. O reconhecimento, seja da família, dos amigos ou do próprio progresso, reforça essa identidade e o sentimento de pertencimento, que nessa fase é vital para eles”, ressalta.
Ter um espaço onde o jovem se sente habilidoso e valorizado pode fazer toda a diferença na formação de uma identidade segura e positiva.
HABILIDADES SOCIAIS
As atividades extracurriculares também ampliam o repertório social.
“Em ambientes como esportes coletivos, música em grupo, teatro ou projetos culturais, crianças aprendem a cooperar, a respeitar as regras, a lidar com as diferenças e a trabalhar em equipe. Essas experiências favorecem a comunicação, a empatia e a resolução de conflitos”, afirma a psicopedagoga.
Mas Olivia alerta que os hobbies em grupo não são necessariamente melhores do que os individuais.
“Não necessariamente são mais benéficos. Na verdade eles são diferentes e complementares. Os hobbies em grupo favorecem habilidades sociais como cooperação, comunicação e empatia. Já as atividades individuais contribuem para autonomia, concentração, autoconhecimento e disciplina pessoal. O ideal é considerar o perfil dessa criança ou desse adolescente. O equilíbrio entre ambas costuma ser o cenário mais saudável”, defende.
ANALÓGICO X DIGITAL
Um dos maiores obstáculos atuais é equilibrar hobbies tradicionais com o uso de tecnologia.
“O equilíbrio entre hobbies tradicionais e uso de telas deve ser conduzido de forma educativa e estruturada, porque o excesso de telas pode impactar a atenção, a autorregulação e a tolerância à frustração, devido à lógica de recompensa imediata. Por isso, é fundamental estabelecer limites claros e previsíveis, organizar uma rotina com atividades off-line e considerar a função emocional desse uso da tecnologia. O envolvimento e o modelo familiar são determinantes nesse processo”, pontua Olivia.
Segundo a psicopedagoga, jogos digitais podem, sim, ser considerados hobbies – desde que com equilíbrio.
“Eles estimulam o raciocínio, a tomada de decisão e habilidades sociais, principalmente os jogos cooperativos. É fundamental que haja limite de tempo, conteúdo adequado à idade e equilíbrio com outras atividades. Tornam-se prejudiciais quando passam a gerar prejuízo escolar, social ou emocional”, alerta.
INCENTIVO
Para que o hobby se torne espaço de desenvolvimento, o envolvimento dos responsáveis é essencial. “Eles atuam como facilitadores, oferecem oportunidades, organizam a rotina, garantem acesso a atividades diversificadas. Além disso, funcionam como modelo. As crianças tendem a valorizar aquilo que observam nos adultos”, destaca Olívia.
No entanto, impor atividades pode gerar efeito contrário. “Pode ser prejudicial quando essa imposição desconsidera o perfil da criança. Quando a atividade é vivenciada como uma obrigação rígida, há maior risco de resistência, desmotivação e prejuízo na autoestima. O ideal é um equilíbrio: orientação dos pais, mas com espaço para que a criança participe da decisão e desenvolva autonomia”, pontua.
A escolha deve considerar três aspectos principais: interesses espontâneos, características do temperamento e habilidades predominantes. Observar como a criança reage a desafios e frustrações também ajuda.
“Oferecer experiências variadas e observar o nível de engajamento é essencial. A definição do hobby deve respeitar a individualidade e favorecer a autonomia”, orienta Olivia.
Na adolescência, é comum que antigos interesses sejam deixados para trás. “É uma fase comum para o abandono desses hobbies da infância. Trata-se de um período marcado por mudanças identitárias, busca por pertencimento e reorganização de interesses. É esperado que o adolescente revise preferências e experimente novas atividades”, afirma.
O foco, segundo a especialista, não deve ser manter o mesmo hobby, mas garantir que o jovem permaneça envolvido em alguma atividade significativa que contribua para seu desenvolvimento emocional, social e cognitivo.
A psicopedagoga ainda destaca que os hobbies também podem influenciar escolhas profissionais no futuro.
“Essas atividades realizadas por interesse e prazer costumam revelar inclinações, habilidades e valores pessoais. Ao longo do tempo, esses interesses podem se consolidar e orientar escolhas acadêmicas e profissionais. Contudo, é importante que o hobby seja visto como espaço de desenvolvimento e não como pressão precoce para definição de carreira”, destaca.
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