Em uma época marcada pela velocidade das redes sociais e pelo consumo fragmentado de informação, Pedro Bial encontrou na 10ª Feira Literária de Bonito (FLIB) um cenário que considera cada vez mais raro: centenas de pessoas reunidas para conversar sobre livros.
Convidado do Palco Literário da feira, o jornalista, apresentador e escritor lançou "Isabel do vôlei da vida: A onda mais alta de Ipanema", biografia da ex-jogadora de vôlei Isabel Salgado, em um bate-papo mediado pela jornalista e escritora Cláudia Gaigher. O encontro reuniu mais de 200 pessoas na Praça da Liberdade, estabelecendo o maior público já registrado em uma conversa literária da FLIB.
Antes de subir ao palco, durante entrevista coletiva à imprensa, Bial explicou que participar de uma feira literária significa encontrar um público diferente daquele que costuma acompanhá-lo na televisão.
"É um público sempre com quem a gente vai falar com muita alegria", afirmou.
Segundo ele, quem frequenta uma feira de livros já chega disposto ao diálogo, movido pela curiosidade e pelo desejo de compartilhar experiências de leitura.
"Quando alguém se dispõe a vir conversar comigo numa feira literária, eu sei que é um público que já está a fim de uma conversa boa, que já chega com boa vontade. Isso é um tremendo estímulo e incentivo para conversar", destacou.
Livro como tecnologia
Ao refletir sobre o papel da literatura na sociedade contemporânea, Bial definiu o livro de uma maneira pouco convencional: como uma das tecnologias mais bem-sucedidas já criadas.
"Somos poucos nós, leitores, nós que curtimos esse objeto, essa tecnologia tão espetacular que é o livro", defendeu.
Para o escritor, apesar das transformações provocadas pelo ambiente digital, poucas invenções conseguiram atravessar tantos séculos mantendo a capacidade de preservar histórias, transmitir conhecimento e aproximar pessoas.
Essa permanência ficou evidente na própria FLIB. Em meio à programação da feira, leitores de diferentes idades lotaram o espaço para ouvir o autor, fazer perguntas e, ao final, enfrentar uma longa fila para conseguir um autógrafo.
Paradoxo literário
Bial também refletiu sobre um paradoxo brasileiro. Embora pesquisas indiquem queda nos índices de leitura, feiras literárias continuam atraindo milhares de visitantes em diferentes regiões do país.
"Você tem uma maioria absoluta, segundo todas as pesquisas, de brasileiros que não leem. No entanto, você faz feiras literárias como essa de Bonito e enche de gente. Então fica a pergunta: que país é esse? É aquele que não lê ou é aquele que lota feiras de literatura?", indagou.
Na avaliação do jornalista, a internet ocupa hoje uma parte significativa do tempo das pessoas, mas isso não significa necessariamente o desaparecimento da leitura.
"O tempo dedicado à internet e às redes sociais também é um tempo de leitura. Verdade que hoje há muitos vídeos, mas ainda se lê muito e se escreve muito", afirmou.
Ainda assim, ele acredita que leitores e escritores formarão um grupo cada vez mais específico dentro da sociedade.
"Nós, leitores e escritores, somos um nicho. Acho que devemos nos organizar para afirmar nossa identidade. Se somos poucos, seremos poucos, mas seremos", defendeu.
Eterno debate interno
Ao responder sobre a convivência entre o jornalista e o escritor que existem em sua trajetória, Bial descreveu uma relação marcada por conflitos constantes.
Segundo ele, o escritor busca profundidade, liberdade criativa e interpretação artística do mundo, enquanto o jornalista exige clareza, objetividade e compromisso com os fatos.
"O escritor briga com o jornalista", afirmou.
Na sequência, explicou que essa tensão acaba funcionando como um equilíbrio permanente.
"O jornalista humilha o ego do escritor e pergunta: 'Mas qual é a notícia? Do que você está falando?'. Aí o escritor responde lembrando que jornalista também é muito vaidoso, se acha poderoso", concluiu.
Para Bial, esse diálogo interno acompanha toda sua produção, seja nos livros, nos documentários, nas entrevistas ou nos programas de televisão.
O tempo
Questionado sobre a passagem do tempo, tema recorrente em seus textos, Bial preferiu destacar aquilo que os anos lhe trouxeram, em vez das perdas inevitáveis.
"Eu acho que o tempo me deu muito mais do que me tirou", disse.
Ele reconheceu sentir falta da juventude, da vitalidade física e de amigos que já partiram, mas afirmou que a experiência adquirida ao longo da vida pesa mais na balança.
"O que eu ganho tendo vivido mais é, sem dúvida, mais presente na minha cabeça do que aquilo que eu não tenho mais", pontuou.
Protagonismo feminino
A obra lançada em Bonito homenageia Isabel Salgado, um dos maiores nomes da história do voleibol brasileiro e referência na luta pela emancipação feminina.
Segundo Bial, Isabel sempre esteve à frente de seu tempo.
"Ela, durante toda a vida, não fez outra coisa senão lutar pela afirmação da força da mulher", afirmou.
O autor destacou ainda a influência da família na formação da atleta, especialmente da mãe e da avó, mulheres que já rompiam padrões muito antes das transformações sociais mais recentes.
A empresária Fernanda Fernandes - Divulgação

