Por meio do Decreto Municipal nº 14.825/2021, que instituiu Fórum Permanente pela Paridade Institucional e Política das Mulheres, é realizado anualmente o Compar (Congresso Nacional e Estadual Mulheres pela Paridade), com o objetivo de discutir, propor e articular ações para promover a paridade de gênero, nas instituições públicas, privadas e nos espaços de liderança da sociedade.
Este ano, em sua segunda edição, o evento reuniu lideranças femininas de diferentes esferas em palestras e painéis. Para encerrar o ciclo de debates, na última sexta-feira (28), a advogada criminalista e apresentadora do programa "Saia Justa", Gabriela Prioli palestrou sobre o cenário da paridade de gênero.
"Disseram pra nós que nós éramos competitivas, que a gente não sabe como se apoiar. Porque uma das estratégias mais eficazes para manter um grupo dominado é você ensinar aos membros desse grupo para que eles próprios se controlem e se limitem".
Foi assim que Gabriela começou seu discurso após pontuar que foi muito bem recebida pelas mulheres do congresso e que se hoje ocupa um lugar de destaque, é porque mulheres que vieram antes abriram o caminho que trilha.
"Se os espaços são escassos, a gente precisa competir por esses espaços. E se a gente aprender que colaborando a gente pode trabalhar para ampliar o número de cadeiras, o poder, tal como ele tem sido estabelecido, corre risco. Por isso que o discurso nos diz que nós, naturalmente, somos competitivas".
E são justamente nos espaços de poder onde as mulheres tem a menor participação, de acordo com Relatório Global sobre Disparidades de Gênero 2024, do Fórum Econômico Mundial. Dentre os indicadores de igualdade de gênero, Empoderamento Político e Participação Econômica atingiram apenas 22,15% e 60,1%, respectivamente. Já nos indicadores Saúde e Sobrevivência e Desempenho Educacional, as mulheres atingiram 96% e 95,2%, respectivamente, de igualdade com os homens.
A pauta da paridade de gênero é discutida desde o século XIX, quando surgiram as primeiras ondas feministas no ocidente pelo direito ao voto feminino e inserção no mercado de trabalho. Depois de tanto tempo, é natural que o debate sobre o tema tenha se tornado cansativo, tanto para quem ouve, quanto para quem se encarrega de falar sobre.
"Quando a gente fala de equidade de gênero, sempre aparece alguém que fala: 'Ah, que saco...'. E talvez isso surpreenda vocês, porque eu vou dizer que essa pessoa tem razão, é um saco mesmo. Eu, particularmente, não aguento mais. Imagino que aqui não deva ter nenhuma mulher que fale: 'Ai, que delícia! Eu adoro que nós sejamos sub-representadas nos espaços de tomada de decisão, para que eu possa falar sobre isso em todos os momentos'. Eu também não quero que seja assim. Eu também não gostaria de falar sobre esse assunto".
Apesar de todas as mulheres serem afetadas de alguma forma pela falta de igualdade em relação aos homens, Gabriela Prioli destacou que mulheres negras enfrentam um abismo ainda maior, dadas as desigualdades raciais herdadas do período escravagista.
"Pessoas tomaram decisões de escravizar outras pessoas. Pessoas tomaram a decisão de não garantir uma política de reparação e oportunidades igualitárias para que essas pessoas conseguissem prosperar uma vez que nós não tivéssemos mais escravos no Brasil. Então não é um acaso que a base da pirâmide social seja de mulheres negras. É uma decisão humana. E sendo consequência de uma decisão humana, nós temos o poder de, com decisões humanas, alterar algumas coisas".
Ao falar sobre maternidade e trabalho doméstico, a advogada afirma que qualquer arranjo familiar é legítimo, desde que seja estabelecido um regime de bens justo para todos, de forma que uma pessoa não fique subordinada à outra. Mas, Gabriela também ressalta que, devido à convenção social de que os trabalhos de cuidado são responsabilidade feminina, os homens tendem a ser os provedores familiares.
"Primeiro, porque a gente cresce achando que quem deve cuidar de qualquer um, não é só da criança, do idoso, do doente, da casa e das coisas é a mulher. E a gente acredita tanto nisso, que a gente não deixa nem a coisa mudar. E tem outra coisa que importa além das histórias que nos contaram: a expectativa social. Um casal jovem, a mulher quer fazer uma entrevista de emprego. O que o empregador supõe? Que ela vai ter que se ausentar para cuidar dessa criança. O homem quer fazer uma entrevista de emprego. O que o empregador supõe? Que ele tem uma mulher para poder cuidar dessa criança".
Como mãe, Gabriela Prioli luta contra as expectativas sociais da maternidade, como quando afirmou estar bem em uma viagem longe da filha Ava, mesmo que fosse esperado que sentisse saudade. A apresentadora busca dar como exemplo à Ava, uma mãe que vive a vida que deseja.
"Eu sei que é importante para ela que o meu exemplo seja um exemplo de uma vivência plena. Porque isso é aquilo que eu ensino para ela. [...] Como é que a gente ensina as nossas meninas a quererem algo se nós não nos permitimos querer esse algo? A gente só vai conseguir ensinar as nossas meninas que elas podem ser felizes se a gente legitimar a nossa felicidade".



Tatyane Figueiredo Gameiro, que hoje inaugura a casa dos "enta" / Arquivo Pessoal
Dra. Maria Clara Couto / Foto: Pedro Shimith


