Assisti no último fim de semana ao filme espanhol “53 Domingos”, cuja história retrata a vida de quem tem pai ou mãe idosos.
Três irmãos ficam diante de um problema que não dá mais para empurrar: o pai, aos 86 anos, já não consegue tocar a vida sozinho. Alguém terá de decidir se ele vai para uma residência, se muda para a casa de um dos filhos ou se continua onde está.
A primeira coisa que aparece não é um grande drama, mas o velho método familiar de fugir do assunto. A filha mais velha marca uma reunião para discutir a questão, mas os irmãos evitam a responsabilidade a todo custo: um chega atrasado, outro corta a fala, outro pega um desvio qualquer e esquiva-se.
Em meio à discussão, aparece um detalhe que se tornará extremamente significativo ao longo do filme: a necessidade de trocar uma lâmpada no banheiro da casa do pai. O que parece ser uma tarefa simples se torna o foco da discórdia. Nenhum dos três está disposto a fazer o serviço.
Em cada encontro, a questão da troca da lâmpada é abordada, mas todos se esquivam, cada um dando desculpas e passando o trabalho para o outro. É assim o filme todo.
Quando, ao final, todos parecem em vias de concordar com alguma coisa, um telefonema interrompe a conversa com uma notícia inesperada: o pai caiu de uma escada, bateu a cabeça e teve traumatismo craniano. Morte instantânea.
“Mas por que ele subiu em uma escada?”, pergunta um dos filhos. Simples: ele foi trocar a lâmpada do banheiro. Parece cômico, mas no fundo é trágico.
Mostra como os filhos, na tentativa de evitar decisões e responsabilidades, acabam deixando de lado as questões mais básicas e triviais, porém cruciais para quem não tem mais a mesma mobilidade da juventude.
Na outra ponta, e no mesmo fim de semana, vimos o que pode acontecer quando jovens e idosos se unem. Centenas e milhares de pessoas acima dos 80, 90 e até de 100 anos de idade indo aos locais de votação para participar do ato democrático.
Foi lindo de ver: vovozinhas com andadores, cadeiras de rodas e até carregadas pelos netos em direção às respectivas sessões. Não importa o que impulsionou aquele movimento, mas sim a capacidade de união e solidariedade entre gerações. Mostra que nem tudo está tão perdido.
É verdade que os filhos têm dificuldades de aceitar o envelhecimento dos pais. E, muitas vezes, o único movimento possível é ignorar, fingir que está tudo bem.
O ato de ignorar ou negar o envelhecimento dos pais é, na maioria das vezes, um mecanismo de defesa emocional inconsciente. Ver aqueles que sempre foram nossa base de segurança e força demonstrando fragilidade, esquecimento ou limitações físicas gera um profundo choque de realidade.
Além disso, muitos filhos adultos estão no auge de suas carreiras e ainda criando os próprios filhos. Olhar de frente para o envelhecimento dos pais significa ter que abrir espaço na rotina para consultas médicas, cuidados especiais e apoio financeiro. Por pura exaustão ou falta de estrutura, alguns tratam a situação com pressa e superficialidade, evitando se aprofundar nas reais necessidades dos idosos.
Durante toda a vida, os pais cuidaram, decidiram e protegeram. Aceitar o envelhecimento significa entender que, gradativamente, os papéis vão se inverter – o filho passará a ser o cuidador e o pai se tornará o dependente. Assumir essa responsabilidade filial gera medo de não dar conta da sobrecarga física e emocional.
Mas, no meio de tudo isso, sempre haverá uma lâmpada com defeito, uma escada que se parte e um corpo que cai. É preciso estar atento e forte.

Zoe, 2 anos; raça: chow-chow (tutora Nara Borges)



