O dinheiro destinado às apostas on-line começa a ser tratado pelo setor produtivo não apenas como uma questão de endividamento das famílias, mas como um recurso que deixa de circular no comércio e nos serviços. Em Campo Grande, onde 32,5 mil pessoas já foram identificadas como apostadoras, a preocupação é que parte da renda comprometida com as plataformas reduza o consumo de produtos e serviços e, em cadeia, enfraqueça a economia local.
Para a Associação Comercial e Industrial de Campo Grande (ACICG), o efeito aparece justamente na renda disponível para o consumo. O presidente da entidade, Omar Aukar, afirma que o problema ultrapassa a esfera individual porque o dinheiro utilizado nas apostas poderia estar sendo gasto em estabelecimentos locais.
“Quando esse recurso deixa de ser gasto no comércio, na alimentação, no lazer ou na contratação de serviços, ele também deixa de circular na economia local e de movimentar uma cadeia de empresas”, afirma Omar Aukar.
A avaliação ocorre em um momento em que o comércio sul-mato-grossense ainda convive com o desafio de manter o consumo das famílias. Publicado em agosto, o Correio do Estado mostrou que o varejo esperava crescimento nas vendas do Dia dos Pais, mas mantinha preocupação com o avanço da inadimplência e seus efeitos sobre o ritmo de consumo.
O impacto potencial das apostas sobre esse dinheiro que deixa de chegar ao comércio já havia sido dimensionado pela Fecomércio-MS. Estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgado pela entidade no ano passado, estimou que as apostas podem ter retirado entre R$ 520,26 milhões e R$ 4,4 bilhões da economia de Mato Grosso do Sul. A estimativa parte da hipótese de que o dinheiro apostado pelas famílias poderia ter sido destinado à compra de outros bens e serviços.
A faixa é ampla porque não representa uma perda efetivamente contabilizada no caixa das empresas. Trata-se de uma estimativa econômica sobre o chamado efeito multiplicador: o recurso que não é gasto no comércio deixa também de gerar receita para fornecedores, trabalhadores e outros negócios ligados à cadeia de consumo.
É justamente esse efeito indireto que preocupa o comércio. Segundo Aukar, quando o orçamento familiar é comprometido pelas apostas e pelas perdas financeiras, outros gastos podem ser reduzidos.“Para o comércio, especialmente os pequenos negócios, o consumo das famílias é fundamental. Quando o orçamento fica comprometido com apostas e eventuais perdas financeiras, há uma tendência de redução dos gastos em outras áreas”, diz.
Uum morador de Campo Grande que movimentou R$ 9,5 milhões em uma plataforma e acumulou perda de R$ 597 mil é um exemplo prático. Em outro caso, um sul-mato-grossense acumulou R$ 4,6 milhões em apostas e contraiu dívidas com bancos e familiares.
Em outro levantamento, feito pelo próprio Correio do Estado em 11 processos judiciais, apostadores que alegam sofrer de ludopatia, condição associada à perda de controle sobre o hábito de apostar, movimentaram mais de R$ 22,7 milhões nas plataformas analisadas, com perdas de R$ 1,7 milhão.
O presidente da ACICG reforça ainda, que o efeito ocorre como uma disputa pelo orçamento do consumidor.“Quanto mais recursos permanecem circulando entre empresas, trabalhadores e consumidores, maior é a capacidade de movimentar a economia local e fortalecer os negócios", finaliza Aukar.



