A negociação aberta pela J&F para atrair um sócio para a LHG Mining pode inaugurar um novo capítulo na história da mineração em Mato Grosso do Sul.
Caso o processo competitivo em andamento resulte na entrada de um novo investidor, o complexo mineral de Corumbá viverá seu quinto ciclo societário desde a criação da Mineração Corumbaense Reunida (MCR), em 1974.
As tratativas para a venda de parte dos ativos da holding dos irmãos Batista foram adiantadas pelo Correio do Estado na edição de ontem. Conforme a reportagem, a informação de que os irmãos Joesley e Wesley Batista buscaram negociar a empresa LHG Mining, em Corumbá, por cifras que podem alcançar mais de
R$ 20,468 bilhões (US$ 4 bilhões) movimentaram o mercado nas últimas duas semanas.
Houve a confirmação de que essa negociação, que não teve valores oficialmente divulgados, estava vinculada à Vale, empresa que vendeu a mineração em Corumbá há quatro anos pelo valor de US$ 1,2 bilhão (valor estimado em R$ 6,48 bilhões) para a própria J&F.
Mais do que uma sequência de mudanças de donos, a trajetória da mina acompanha as transformações da própria indústria mineral.
Em pouco mais de meio século, o ativo deixou de ser um empreendimento regional para despertar o interesse de uma das maiores mineradoras do mundo, integrar a estratégia da Vale e, mais recentemente, tornar-se uma das apostas da J&F para diversificar seus negócios.
Conforme adiantou o Correio do Estado na edição de ontem, a atual negociação ocorre apenas quatro anos depois da compra do Sistema Centro-Oeste pela holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista.
Embora a empresa tenha descartado a venda integral da operação, confirmou que conduz um processo competitivo para a entrada de um sócio minoritário, o que voltou a colocar Corumbá no radar de investidores do setor.

HISTÓRICO
A história da mineração moderna na região começou em 1974, com a criação da Mineração Corumbaense Reunida.
Na época, a exploração das reservas do Maciço do Urucum tinha perfil essencialmente regional e era voltada, principalmente, para a produção de manganês. O controle da empresa estava nas mãos do empresário Elísio Curvo e do Grupo Tragtenberg.
O primeiro grande movimento ocorreu em 1991. Em um período marcado pela abertura econômica e pela internacionalização da mineração brasileira, a anglo-australiana Rio Tinto assumiu o controle da operação em parceria com a TVX.
A chegada de uma das maiores mineradoras do planeta inseriu definitivamente Corumbá no mercado global de minério de ferro e abriu espaço para novos investimentos na produção e na logística.
A segunda grande mudança veio em 2009. Endividada após adquirir a canadense Alcan por US$ 38 bilhões, a Rio Tinto iniciou um programa mundial de venda de ativos.
Foi nesse contexto que a Vale comprou a operação de Corumbá, fortalecendo sua estratégia de ampliar a oferta de minério de ferro de alto teor e consolidar sua presença em Mato Grosso do Sul.
Dois anos depois, em 2011, a Vale incorporou a Urucum Mineração à MCR, reunindo praticamente toda a exploração mineral da região sob uma única estrutura empresarial.
Durante mais de uma década, a companhia investiu na integração das operações e utilizou a logística da Hidrovia Paraguai-Paraná para atender a mercados da América do Sul e de outros continentes.
O terceiro grande ciclo começou em 2022. Em uma mudança de estratégia, a Vale decidiu concentrar investimentos nos sistemas Norte e Sudeste, considerados mais competitivos em escala global, e vendeu o Sistema Centro-Oeste para a J&F por US$ 1,2 bilhão.
A aquisição representou a entrada definitiva da holding dos irmãos Batista na mineração. Conhecida mundialmente pelo setor de proteína animal, a J&F ampliava sua estratégia de diversificação de investimentos, que já incluía energia, celulose, higiene e serviços financeiros. A antiga operação da Vale passou a ser administrada pela LHG Mining.
Desde então, a empresa iniciou um plano de expansão que prevê investimentos de aproximadamente R$ 4 bilhões para elevar a produção de cerca de 2,5 milhões para até 15 milhões de toneladas anuais de minério de ferro, consolidando Corumbá como uma das principais apostas do grupo para o setor mineral.
PARCERIA
É justamente esse projeto que ajuda a explicar por que a empresa voltou tão rapidamente ao mercado.
Diferentemente das operações anteriores, a J&F não busca deixar o negócio, mas atrair um parceiro estratégico capaz de dividir os investimentos necessários para ampliar a produção e acelerar o crescimento da companhia.
Além da qualidade do minério, considerado de alto teor, o complexo mineral de Corumbá reúne vantagens logísticas difíceis de reproduzir.
A integração com a Hidrovia Paraguai-Paraná, a proximidade com mercados do Mercosul e a possibilidade de expansão da capacidade produtiva mantêm o ativo entre os mais estratégicos da mineração brasileira.
Nos últimos dias, a própria Vale confirmou que chegou a avaliar o ativo, mas informou ter descartado qualquer investimento.
A J&F, por sua vez, afirmou que conduz um processo competitivo para a entrada de um sócio minoritário e negou que a antiga proprietária participe das negociações.


