Apesar do volume recorde de recursos, entidades avaliam que a redução dos recursos para custeio e a baixa participação das operações com juros equalizados podem limitar o acesso ao financiamento da próxima safra
Embora o governo federal tenha anunciado um volume recorde de R$ 525,1 bilhões para o Plano Safra 2026/2027, entidades do agronegócio avaliam que o montante não garante, na prática, maior acesso ao crédito dos produtores rurais de Mato Grosso do Sul.
A preocupação é que a redução dos recursos destinados ao custeio da produção, somada à pequena parcela de operações com juros equalizados pelo Tesouro Nacional, acabe restringindo justamente o financiamento necessário para viabilizar a próxima safra.
A discussão ganhou um novo capítulo nesta semana, com a publicação, no Diário Oficial da União, da portaria que regulamenta o pagamento da equalização das taxas de juros às instituições financeiras que operarão o Plano Safra 2026/2027.
A norma estabelece os critérios para as operações contratadas entre 1º de julho de 2026 e 30 de junho de 2027 e autoriza 26 instituições financeiras a operacionalizarem as linhas de crédito com equalização.
Ao todo, serão R$ 97,5 bilhões destinados às operações equalizadas para médios e grandes produtores e outros R$ 44,3 bilhões para a agricultura familiar.
A análise técnica da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul) destaca a preocupação com a redução dos recursos para custeio, o cenário de endividamento rural e a ausência de medidas de apoio ao produtor.
“O Sistema Famasul vê com preocupação a efetividade do Plano Safra 2026/2027, diante dos desafios enfrentados pelo produtor rural. Embora o governo tenha anunciado um volume recorde nominal de recursos, a política de crédito rural precisa ser analisada para além dos números divulgados, já que sua efetividade será determinada pela capacidade de transformar esses recursos em financiamento efetivamente acessível ao produtor”, destaca a entidade.
“Em um cenário de amplo endividamento, custos de produção ainda elevados e maior exposição aos riscos da atividade agropecuária, o principal desafio do setor continua sendo garantir condições para financiar a próxima safra”, acrescenta.
De acordo com a Famasul, um dos pontos mais preocupantes é a redução de aproximadamente R$ 30 bilhões dos recursos destinados ao custeio e à comercialização em relação ao plano anterior.
“Essa modalidade financia as despesas diretamente ligadas à produção, como aquisição de sementes, fertilizantes, defensivos, combustíveis e demais custos operacionais, sendo considerada a principal necessidade financeira do produtor rural no curto prazo, principalmente diante da exposição aos riscos climáticos, inclusive com a possibilidade de ocorrência do fenômeno El Niño”, reforça a entidade.
Enquanto isso, os recursos destinados às linhas de investimento passaram de R$ 101,5 bilhões para R$ 140,2 bilhões. “Mesmo que esse montante seja importante para o desenvolvimento do setor, a prioridade do momento é recompor o fluxo de caixa e financiar a safra corrente, e não assumir novos compromissos de longo prazo”, destaca a Famasul.
JUROS
A composição dos recursos também chama atenção. Dos R$ 525,1 bilhões destinados à agricultura empresarial, apenas R$ 97 bilhões, cerca de 18,5% do total, correspondem às operações com juros equalizados, modalidade em que o governo subsidia parte do custo financeiro para reduzir as taxas cobradas ao produtor.
A regulamentação publicada nesta semana confirma que essas operações serão distribuídas entre 26 instituições financeiras habilitadas pelo governo federal.
“A disponibilidade de crédito não significa, necessariamente, acesso ao financiamento. O custo efetivo das operações incorpora despesas como seguros, tarifas, registros e outras exigências que aumentam significativamente o valor final contratado, reduzindo a capacidade de acesso ao crédito, especialmente em um cenário de maior restrição financeira”, explica a Famasul.
A federação pondera ainda que a redução das taxas de juros em algumas linhas não elimina os desafios enfrentados pelos produtores.
“Em diversas linhas tradicionais de investimento houve redução dos recursos disponíveis. No Moderfrota, por exemplo, a taxa caiu de 13,5% para 12,5%, enquanto os recursos passaram de R$ 9,5 bilhões para R$ 3,7 bilhões, redução de aproximadamente 61%. Esse cenário demonstra que a redução dos juros, isoladamente, não garante maior disponibilidade de financiamento ao setor produtivo”, ressalta.
Outro ponto levantado pela Famasul é a ausência de medidas voltadas à recuperação financeira dos produtores e ao fortalecimento dos instrumentos de gestão de risco.
Em linha semelhante, a Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja-MS) avalia que o Plano Safra amplia os investimentos, mas reduz a capacidade real de financiamento, já que o crescimento nominal dos recursos não acompanha a inflação do período. Consequentemente, há perda do poder de compra do crédito disponível.
INFLAÇÃO
Levantamento da equipe econômica indica que, enquanto os recursos anunciados aumentaram 1,7%, a inflação acumulada foi de aproximadamente 4,72%. “Com isso, o Plano Safra registra uma perda real de cerca de 2,9% na capacidade de financiamento quando comparado ao ciclo anterior”, afirma a análise.
“Além do efeito da inflação, a composição dos recursos também mudou. O montante destinado ao custeio e à comercialização, utilizado pelos produtores para financiar despesas da safra, como aquisição de insumos, sementes, fertilizantes, defensivos e demais despesas para custeio da lavoura, foi reduzido em 7,2%, o equivalente a R$ 29,8 bilhões. Por outro lado, os recursos para investimento aumentaram 38,1%, priorizando linhas voltadas à armazenagem, energia renovável, irrigação, inovação e modernização das propriedades rurais”, detalha o texto.
Para o analista de economia da Aprosoja-MS, Raphael Gimenes, o efeito da inflação explica a diferença entre o número anunciado e o ganho real de crédito.
“Quando descontamos a inflação, observamos que o crescimento nominal não representa um ganho real na capacidade de financiamento. Além disso, a redução dos recursos destinados ao custeio pode limitar o acesso dos produtores ao crédito utilizado para financiar despesas da safra, como aquisição de insumos e demais custos operacionais”, afirma.
O aumento nos recursos para investimento também não resolve a necessidade mais imediata do produtor, segundo o presidente presidente da Aprosoja-MS, Jorge Michelc.
“O aumento dos recursos para investimento é positivo, principalmente para projetos estruturantes que aumentam a eficiência das propriedades rurais. Entretanto, ele não substitui a necessidade de crédito para custeio, que é essencial para garantir o plantio e a condução da safra”, comenta.
Já o analista Linneu Borges Filho chama atenção para a origem dos recursos. Com a participação do Tesouro Nacional caindo para 24,8% do total de investimento, 75,2% do financiamento passa a depender das instituições financeiras.
“A redução das taxas de juros é uma notícia positiva, mas é preciso olhar também para a origem desses recursos. Com uma participação menor do Tesouro Nacional, uma parcela maior do crédito dependerá das instituições financeiras. Isso pode influenciar a disponibilidade e as taxas dos recursos ao longo da safra”, explica.
Para os médios produtores enquadrados no Pronamp, o Plano Safra prevê aumento de 5,1% nos recursos e redução da taxa máxima de juros, de 10% para 9% ao ano.
O presidente da Aprosoja-MS resume o sentimento das entidades.
“O anúncio dos recursos é importante para o planejamento do setor, mas o produtor precisa olhar além dos valores divulgados. É fundamental que o crédito esteja disponível no momento em que for necessário, com condições que permitam financiar a produção e manter a competitividade da agricultura brasileira”.
REDUÇÃO
Os produtores de Mato Grosso do Sul também contarão com um orçamento menor do principal agente financeiro do crédito rural.
Conforme divulgado pelo Banco do Brasil, serão disponibilizados R$ 13,4 bilhões para o financiamento da safra 2026/2027 no Estado, abaixo dos cerca de R$ 16 bilhões anunciados no ciclo anterior.
Desse total, mais de R$ 1 bilhão serão destinados aos pequenos e médios produtores, enquanto R$ 12,4 bilhões atenderão a agricultura empresarial.
Em âmbito nacional, o Banco do Brasil disponibilizará R$ 210 bilhões para o Plano Safra, sendo R$ 70 bilhões voltados aos pequenos e médios produtores e R$ 140 bilhões destinados à agricultura empresarial.