A instabilidade climática em Mato Grosso do Sul já acende um alerta para a produtividade do milho segunda safra 2025/2026.
Apesar da expansão de 3% na área plantada, técnicos e produtores relatam perdas provocadas pela irregularidade das chuvas, a estiagem em parte das lavouras e o ataque severo de lagartas, cenário que pode comprometer o potencial produtivo do cereal em várias regiões do Estado.
A previsão climática divulgada no Boletim Casa Rural, com base nos dados do Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de Mato Grosso do Sul (Cemtec-MS), indica um trimestre mais quente que o normal, com forte variabilidade nas chuvas e possibilidade crescente de influência do fenômeno El Niño ao longo do segundo semestre.
Enquanto o extremo-sul do Estado deve registrar acumulados entre 300 milímetros e 400 milímetros de chuva, as regiões norte, nordeste e noroeste podem receber apenas entre 50 mm e 100 mm de precipitação no período.
A distribuição irregular preocupa produtores justamente no momento em que parte das lavouras entra em fases decisivas de enchimento de grãos.
A previsão de novas frentes frias e possibilidade de temperaturas mais baixas em áreas do sul do Estado também elevam o temor sobre impactos pontuais nas plantações.
Conforme levantamento do Sistema de Informações Geográficas do Agronegócio (Siga MS), da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja-MS), a segunda safra deve ocupar 2,206 milhões de hectares, com produção estimada em 11,139 milhões de toneladas.
Embora a área cultivada seja maior, a produtividade média esperada caiu para 84,2 sacas por hectare, retração de 22,4% em relação ao ciclo anterior, quando o Estado registrou safra recorde.
Outro fator que ampliou a vulnerabilidade da safra foi a forte concentração do plantio em um curto intervalo de tempo. Segundo a Aprosoja-MS, 78,8% da área estimada foi semeada entre a segunda semana de fevereiro e a terceira semana de março.
“O plantio começou na terceira semana de janeiro e foi concluído apenas no fim de abril, totalizando 16 semanas de operação. O atraso reduz a chamada janela ideal do milho safrinha e expõe parte das lavouras ao período historicamente mais seco do ano em Mato Grosso do Sul”, detalha o relatório técnico.
A classificação das lavouras realizada pelos técnicos do Siga MS mostra que 72,7% das áreas estão em boas condições, enquanto 16,9% são consideradas regulares e 10,4% estão em situação ruim.
São 1,6 milhão de hectares considerados bons, enquanto 602 mil hectares podem estar em situação regular e ruim.
“As áreas classificadas como ruins apresentam problemas como falhas no estande de plantas, desfolhamento excessivo, amarelamento precoce e alta incidência de pragas e doenças”.

COMPROMETIMENTO
O agrônomo e consultor Ricardo Rigon afirma que o comportamento irregular das chuvas já comprometeu parte das áreas cultivadas, principalmente na região sul do Estado.
“Sem notícias de prejuízo em relação a essa primeira frente fria. A maioria está com boas perspectivas de produtividade, mas teve áreas com estiagem que prejudicaram o desenvolvimento do milho, comprometendo a produtividade”, explica.
Segundo ele, houve forte diferença produtiva até dentro das mesmas propriedades rurais. “Na região de Dourados e Rio Brilhante, cerca de 70% das áreas devem produzir em torno de 100 sacas por hectare ou mais. Já os outros 30% podem ficar entre 30 e 50 sacas por hectare porque dentro de uma mesma propriedade teve muita variação de chuva”.
O agrônomo também destacou que o ciclo foi marcado por alta pressão de pragas. “Este ano foi bem complicado e teve um ataque muito grande de lagarta”, finaliza.
A situação climática também preocupa o consultor e produtor rural Ângelo Ximenes, principalmente nas regiões de fronteira com o Paraguai e com o Paraná, onde as temperaturas mais baixas podem atingir áreas de baixada.
“Essa primeira frente polar entrou muito forte mesmo. Baixou bastante a temperatura e, agora, abriu bem o sol, o que é complicado porque pode amanhecer com temperaturas ainda mais baixas”.
Segundo ele, os maiores riscos estão concentrados em municípios como Itaporã, Aral Moreira, Amambai, Iguatemi e Mundo Novo. “Se tiver impacto, acredito que será principalmente nas baixadas”, avalia.
EL NIÑO
Conforme os modelos climáticos analisados pelo Cemtec-MS, há cerca de 61% de probabilidade de formação do El Niño no trimestre de maio a julho deste ano.
Embora o cenário ainda seja considerado neutro, os meteorologistas apontam sinais de intensificação gradual do fenômeno a partir do segundo semestre.
A tendência é de temperaturas próximas ou acima da média climatológica, favorecendo episódios de calor mais intenso, principalmente entre a primavera e o início do verão.
As previsões também indicam chuvas mais significativas na região sul do Estado até o dia 19, com acumulados entre 50 mm e 80 mm nas regiões centro-sul e sudeste. Já o norte deve registrar precipitações menores e mais irregulares.
Para os técnicos do setor, a combinação de calor acima da média, irregularidade hídrica e avanço tardio do plantio aumenta os riscos para a consolidação da produtividade.

